quarta-feira, 29 de abril de 2020

MEDITAÇÕES LIX



A primeira forma de ingratidão:
o desejo.

Só anseia quem em carência vive,
só deseja quem pobre se sente.
À matéria estende a mão e a enlaça
a experiência, que fuga não permite,
mas experimentar somente significa
o desfrutar da feliz ocasião.

Prova e saboreia sem apego.
Quem se apega anseia possuir,
e é pela posse que admite
a pobreza em que julga viver.

Tudo é vazio em si e deveras precioso
para ser desperdiçado em fantasias.
Não acalentes culpas, porém
– até os de passada mais tranquila
tropeçarão enquanto o coração
permitir que nuvens o cubram.

Chegará a hora em que tudo se clareará,
como em noite de lua roliça:

todo o desejo, toda a partilha imposta,
toda a fala puxada em esforço
somente fora uma desesperada fuga
à quietude mais profunda.

Quando te reconheceres no que és,
mais fundo do que julgavas ser,
saberás a fuga tola: ninguém se aparta
da realidade de si mesmo.










(Imagem de: positivelife.ie)


quarta-feira, 15 de abril de 2020

MEDITAÇÕES LVIII



A quietude é uma água curiosa:
presente mesmo antes
da primeira batida,
corre por vidas inteiras
sem que mão alguma
se digne a levá-la aos lábios.

Corre por anos sem fim indiferente,
mas ansiosa por acolher o filho
que se extraviou, só em horas
de funda solidão o seu secreto nome
fazendo escutar – e tem a música
dos oceanos imensos, o sabor
das flores da montanha, a graça
da luz sobre o orvalho da manhã.

Por qualquer estranha benesse,
uma gota, uma só gota
em negro instante subitamente
vem repousar em teus lábios.
O gosto, tão estranho que parece
te arrancar ao mundo conhecido,
calcorreia o seu caminho em ti,
fundo e mais fundo, caminhando
até fincar raiz e lançar aos céus
um pequeno rebento
de estranha, insondável coisa.

Então terá sido tarde demais:
rios nascem nos oceanos,
árvores crescem das nuvens,
pássaros caminham sobre a terra.

Por quantos anos andaste sedento
sem o suspeitar? Alegre-se o coração,
pois lembra que nunca abandonou
a casa que em silêncio procurava.







(Foto de: umairhaque.com)


sexta-feira, 4 de outubro de 2019

MEDITAÇÕES LVII



Vem com a voracidade das fomes,
com a sofreguidão das sedes;
um pequeno grão que ao primeiro sopro
se faz incêndio: o pensamento sem vigia.

Por que tal é assim? Vira para dentro
os olhos, mergulha fundo no mistério.

Descobres quem julgas ser?
Repara: a imagem é flor de sonho
que tem raiz em histórias contadas,
em experiências saboreadas,
em nomes que outros em sua ilusão
colaram à porta da tua eterna morada.

Por desconheceres quem és
aceitaste a mentira, tomaste por verdade
a bonita fantasia que te teceram.

Mergulha fundo no mistério. As ondas
chegam e vão: só o oceano permanece.
Como podes ser quem parte
se testemunhas a partida em si?

Quando descobrires o perfume original
sabê-lo-ás em cada coisa que vês e tocas,
manifestações duma coisa só.

Como pode haver vontade ou arbítrio
quando não existe um ente
separado do que é?

Os raios de um só sol não se expurgam
da mesma luz – a maravilha das maravilhas.











quinta-feira, 9 de maio de 2019

MEDITAÇÕES LVI


Nenhuma palavra importa,
mesmo estas que acabas de ler.

Se foram canteiros donde brotaram
flores, ao alto erguendo-se
no contar dos dias, tal apenas se deu
para que se lhes seguisses a direcção.


Quem sabe o que poderias lembrar
firmando a linha do gesto?

Ou, se profundo foi o teu olhar,
talvez em cada uma visses
uma mão gentil apontando
ao mais íntimo âmago de ti.

Mas sobre as palavras, as palavras
como coisa em si, nenhuma importa.
Somente o silêncio que nasce
naquele que atento as escuta.









(Fonte: vivianeferreira.com)



domingo, 3 de março de 2019

MEDITAÇÕES LV


São como falsas estrelas,
as não-verdades:
iludem o olhar ensonado
com a sedução do seu brilho
e em erro são tomadas
pelo sol que nunca foram.

Feliz quem se liberta
das amarras do sono!

Não tomes por diamante
o que sempre foi frágil vidro.
Observa com o ardor dos amantes,
com a diligência do sequioso
consumindo-se por liberdade
– e verás como tal brilho
é acendido pela mão do Homem.

Então o fogo maior atear-se-á,
diante do qual nenhuma falsa luz
sustentará o seu tosco fulgir.

No que sobrar do grande incêndio
terás a verdade.

Lembra: a realidade última
é céu nunca visto.
Como podem dois olhos
observarem-se a si mesmos?










sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

MEDITAÇÕES LIV


É o espaço onde tudo acontece.

Não tem nome, não tem forma;
não é casa de desejo ou julgamento,
mas ambos observa – impassível.

A eterna testemunha
que sendo-o não o é,
nunca nasceu, nunca morrerá;
está em tudo, é tudo e nada é.

Nenhuma palavra é prisão sua;
porém, daí todas provêm,
até aí todas poderão apontar.

O que não tem nome, sequer forma,
apenas é.









quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

MEDITAÇÕES LIII



Deixa nas mãos do vento
as pétalas que soltas passam
em incessante torrente.
Os dedos que as ansiarem,
que trémulos fervam
na inquietação da posse.

Repoisa no coração do lótus
– até compreenderes
que nunca existiu flor,
tampouco quem nela
encontrou repoiso.