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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

MEDITAÇÕES LXI

 

Retorna ao que és.

Tanto tempo vagueaste
por ruas e vielas enlameadas,
com o infortúnio da fome e da sede
pesando num coração tingido
– sem descobrir que sempre
tiveste cheio o alforge.

Tanto corpo gasto em fantasia,
na loucura do erro elementar
– e mesmo assim, por graça
duma sabedoria maior,
a semente da verdade não deixou
de abrir fendas em sua cápsula.

Serena o passo, a caminhada
já se estende além-memória.
Escuta o tambor do peito
lançando ritmos e estações,
deixa o silêncio crescer em ti.

Por tantas horas o espectáculo
das imagens e das sensações
teve o seu lugar de destaque.
Tão doce veneno injectado
em inocentes projecções,
tão colorido engodo de tolos!

Ainda assim, como saber a verdade
sem primeiro conhecer a mentira?

Repara: todo o brilho que emitia
da tua atenção se alimentou.

Larga tudo o que pesa,
abre os olhos ao que é.
No louco rodopio do mundo,
descobre o que permanece
e aí ergue a tua cabana.

O primeiro passo é agora,
o primeiro gesto é teu.

Quem se confunde com o corpo
só conhece sofrimento;
quem repousa no coração
sorri, sereno e livre,
no êxtase feliz do verdadeiro lar.








(Fonte: videvo.net)

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

MEDITAÇÕES LVII



Vem com a voracidade das fomes,
com a sofreguidão das sedes;
um pequeno grão que ao primeiro sopro
se faz incêndio: o pensamento sem vigia.

Por que tal é assim? Vira para dentro
os olhos, mergulha fundo no mistério.

Descobres quem julgas ser?
Repara: a imagem é flor de sonho
que tem raiz em histórias contadas,
em experiências saboreadas,
em nomes que outros em sua ilusão
colaram à porta da tua eterna morada.

Por desconheceres quem és
aceitaste a mentira, tomaste por verdade
a bonita fantasia que te teceram.

Mergulha fundo no mistério. As ondas
chegam e vão: só o oceano permanece.
Como podes ser quem parte
se testemunhas a partida em si?

Quando descobrires o perfume original
sabê-lo-ás em cada coisa que vês e tocas,
manifestações duma coisa só.

Como pode haver vontade ou arbítrio
quando não existe um ente
separado do que é?

Os raios de um só sol não se expurgam
da mesma luz – a maravilha das maravilhas.











domingo, 25 de junho de 2017

MEDITAÇÕES - LII


Pela mão dos sentidos,
abdica o ser
do centro onde floresce.

Pela mão da mente,
divaga o ser
num engano de certeza.

Ao escutar o coração,
filtra os desvios
que a identidade planta.

Longe permanece
quem se cega
pela confusão do perto.

Aos olhos da testemunha,
a verdade é flor
que desabrocha.







(Fonte: kissofkiss.blogspot.com)




terça-feira, 8 de novembro de 2016

MEDITAÇÕES XLV


Conforme for o sonho sonhado,
assim o sonhador o viverá.

Que espera acontece até dançar
no cume duma flor aberta
aos silêncios do alvor?

Só existe o que é.
Para alguns dos que nutrem a busca,
o longo vale da ilusão será
caminho de pedras e espinhos.
Ignoram a sublime eminência
das montanhas ladeando a estrada.

Para à verdade dedicar
um sincero amor, de certos rumos
faz-se passagem obrigatória.
Mas quem o julga e porque julga?

Quando estiverem às portas
dessa solidão que como vazio
de águas extravasa margens,
saberão do sóbrio movimento
de regar os canteiros do mundo.

Na terra da verdade nunca o sol se põe.
Repouse o braço que deseja ter
aquilo que sem saber já possui.

Não busque o ente a verdade.
Dispa-se apenas da mentira
com que nesciamente se vestiu.