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sexta-feira, 4 de outubro de 2019

MEDITAÇÕES LVII



Vem com a voracidade das fomes,
com a sofreguidão das sedes;
um pequeno grão que ao primeiro sopro
se faz incêndio: o pensamento sem vigia.

Por que tal é assim? Vira para dentro
os olhos, mergulha fundo no mistério.

Descobres quem julgas ser?
Repara: a imagem é flor de sonho
que tem raiz em histórias contadas,
em experiências saboreadas,
em nomes que outros em sua ilusão
colaram à porta da tua eterna morada.

Por desconheceres quem és
aceitaste a mentira, tomaste por verdade
a bonita fantasia que te teceram.

Mergulha fundo no mistério. As ondas
chegam e vão: só o oceano permanece.
Como podes ser quem parte
se testemunhas a partida em si?

Quando descobrires o perfume original
sabê-lo-ás em cada coisa que vês e tocas,
manifestações duma coisa só.

Como pode haver vontade ou arbítrio
quando não existe um ente
separado do que é?

Os raios de um só sol não se expurgam
da mesma luz – a maravilha das maravilhas.











terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

MEDITAÇÕES XLIX


O ente que desconhece o ser real
tem a inquietação dos pássaros
que ignoram o ramo onde poisar.

Mas posterior à procura
é o irromper da quietude final.

Se em paz as águas jorram,
como não brotar esse hino
em serenos gestos extasiados?
Oh, as enfermidades que então
serão tidas como devaneio…

Na casa onde a luz habita,
donde o amor transborda,
como poderá viver a pergunta,
a dúvida, a comparação,
a máscara, o julgamento?
Se venturosa cintila a estrela
que lembrou o fogo que é?

Assim o Homem realizado
na sua própria ventura.

O Homem venturoso não julga,
compara ou enverga máscara.
O Homem venturoso observa
– e em silêncio canta
o que não pode ser cantado,
e em silêncio dança
o que não pode ser dançado.

Pois o Homem de ventura sabe
que felicidade alguma será destino
– antes o gosto puro da jornada
cumprida sem desejo.