quarta-feira, 17 de maio de 2017

MEDITAÇÕES - LI


Nada se aparta de nada
para quem vive em verdade;
não subsiste a separação
para quem na unidade
ergueu a sua casa.

As formas vêm e vão. Só a elas
um destino poderá ser escrito.
Como vagas, uma e outra vez
vêm morrer nas praias da ilusão.
É essa a sua eterna dança.

O que é não conhece morte.
Toda a transformação é o espasmo
de um longo movimento
de expansão e retorno.

As águas tornarão à nascente,
é certo, por mais demorado
que seja o seu desenfreado correr.

Clareará o dia quando conhecida for
a evidência da verdade subtil:
por todo o turbulento rumo
nunca perdem a marca viva
da sua sacra proveniência.






(Fonte: www.unityprescott.org)



segunda-feira, 10 de abril de 2017

MEDITAÇÕES - L


Só ao cajado recorre
o ser que se julga incapaz
de caminhar pelo próprio pé.
E por assim julgar, impede
que um rio o conduza aos braços
do oceano que a si o chama.

Por muito tempo, demasiado tempo,
assim tem acontecido. Tanto,
que cajado e mão tornaram-se
no Homem ramo duma só árvore.

Aquele que decepa o supérfluo,
apronta-se a receber a dádiva
que nenhuma mente idealiza.

No término da noite longa,
logo tudo se clareia: o apoio
somente era sólido obstáculo.







(Foto de: pixabay.com)


terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

MEDITAÇÕES XLIX


O ente que desconhece o ser real
tem a inquietação dos pássaros
que ignoram o ramo onde poisar.

Mas posterior à procura
é o irromper da quietude final.

Se em paz as águas jorram,
como não brotar esse hino
em serenos gestos extasiados?
Oh, as enfermidades que então
serão tidas como devaneio…

Na casa onde a luz habita,
donde o amor transborda,
como poderá viver a pergunta,
a dúvida, a comparação,
a máscara, o julgamento?
Se venturosa cintila a estrela
que lembrou o fogo que é?

Assim o Homem realizado
na sua própria ventura.

O Homem venturoso não julga,
compara ou enverga máscara.
O Homem venturoso observa
– e em silêncio canta
o que não pode ser cantado,
e em silêncio dança
o que não pode ser dançado.

Pois o Homem de ventura sabe
que felicidade alguma será destino
– antes o gosto puro da jornada
cumprida sem desejo.










sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

MEDITAÇÕES XLVIII


Tão raro é o Amor.

Não esse amor que só viça
quando a rega sobre si se verte,
que oferece sorrisos para colher
todos os sorrisos do mundo,
que mastiga afiados espinhos
por se achar longe das rosas,
que alimenta sedes por julgar
verdadeira a sede que sente.

Tão raro é o Amor.
Não por escassa existência,
mas por parca manifestação.
Quantos batalhões de nuvens
no moldar da dádiva o afogam?

Essa flor de matiz que não há
canta sob a bênção da luz
e sob o assombro da noite.
O Amor canta a eternidade
que sabe caber em si.

E nem esse é o seu modo último:
quando reconhecer o rosto
no infinito que traz no peito,
todas as canções tecidas
serão poemas de silêncio.







(Fonte: pinterest.com)




sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

MEDITAÇÕES XLVII


Ambíguo, o olhar do Homem.
Mas que outra visão esperar,
se dual é a forma onde se exprime?

Observando o mar da existência,
quando prevê o nascer de alta onda
só teme sucumbir à força do seu sal.
Saberá que se lhe tomasse a crista
tão perto ficaria das estrelas?

Cego de vagas, ignora a absoluta
permanência do oceano que as gera.
Como poderá a simplicidade
ser bebida por tão complexa pessoa?

Ao fecundar a ilusão que cria,
por mais promissor que pareça
o destino tecido em fantasia,
fica aquém do que em verdade é.

Assim, por sua mão se condena
ao exílio dos pássaros moribundos,
esses que de tanto temerem a queda
nunca ousaram dar cor às asas.
Como uma melodia sem coração
para de eco lhe servir, desaprenderam
a arte que sempre lhes fora inata.

Pela imensidão da terra vagueiam
decepados da sua realidade,
afogados no sonho que crêem,
chorando o céu donde se expulsaram.







quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

MEDITAÇÕES XLVI


Há uma canção que ecoa
desde o princípio do tempo.
(Tão raros os Homens
que a souberam escutar.)

A existência inteira
ao seu ritmo sem som dança,
como se uma espécie de vento
percorresse o coração
de cada ente dançante.

(Um olhar veramente vivo
verá como se entregam
em gestos de êxtase puro.)

Nenhuma parte é excluída,
pois que parte pode existir
num todo completo?

Certos do amor primordial,
árvores, pássaros, rios e flores
dançam a luz em si.

Porque não o Homem?







(Fonte: shantagabriel.com)



terça-feira, 8 de novembro de 2016

MEDITAÇÕES XLV


Conforme for o sonho sonhado,
assim o sonhador o viverá.

Que espera acontece até dançar
no cume duma flor aberta
aos silêncios do alvor?

Só existe o que é.
Para alguns dos que nutrem a busca,
o longo vale da ilusão será
caminho de pedras e espinhos.
Ignoram a sublime eminência
das montanhas ladeando a estrada.

Para à verdade dedicar
um sincero amor, de certos rumos
faz-se passagem obrigatória.
Mas quem o julga e porque julga?

Quando estiverem às portas
dessa solidão que como vazio
de águas extravasa margens,
saberão do sóbrio movimento
de regar os canteiros do mundo.

Na terra da verdade nunca o sol se põe.
Repouse o braço que deseja ter
aquilo que sem saber já possui.

Não busque o ente a verdade.
Dispa-se apenas da mentira
com que nesciamente se vestiu.