A quietude é uma água curiosa:
presente mesmo antes
da primeira batida,
corre por vidas inteiras
sem que mão alguma
se digne a levá-la aos lábios.
Corre por anos sem fim indiferente,
mas ansiosa por acolher o filho
que se extraviou, só em horas
de funda solidão o seu secreto nome
fazendo escutar – e tem a música
dos oceanos imensos, o sabor
das flores da montanha, a graça
da luz sobre o orvalho da manhã.
Por qualquer estranha benesse,
uma gota, uma só gota
em negro instante subitamente
vem repousar em teus lábios.
O gosto, tão estranho que parece
te arrancar ao mundo conhecido,
calcorreia o seu caminho em ti,
fundo e mais fundo, caminhando
até fincar raiz e lançar aos céus
um pequeno rebento
de estranha, insondável coisa.
Então terá sido tarde demais:
rios nascem nos oceanos,
árvores crescem das nuvens,
pássaros caminham sobre a terra.
Por quantos anos andaste sedento
sem o suspeitar? Alegre-se o coração,
pois lembra que nunca abandonou
a casa que em silêncio procurava.
(Foto de: umairhaque.com)
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