quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Carrossel


O alvorecer saúda-te, firme e feliz
Por ver o seu novo filho a caminhar
Pelo lugar onde fincará a sua raiz,
Ainda que não saibas onde a fincar;
Mas inicia-se, para o teu jovem ser,
A jornada que será a tua existência,
Onde irás, de novo, ganhar, perder,
Sorrir, chorar – tão simples ciência.

E todos esses teus dias primeiros
São dias de folia e néscia vontade,
Tal é a luz que banha os fronteiros
Do saber que deténs como verdade;
Neles, exploras o teu desconhecido

De semblante rasgado pelo sorriso
Que te acompanha, tão destemido
Nesse passeio tranquilo pelo paraíso.

Gozas dessa feira e de suas virtudes,
Correndo pelas bancas das oferendas,
Degustando os sabores e plenitudes
Das singulares e ofertadas merendas;
E continuas, feliz, divertindo-te assim
Pelas esquinas de tal sublime evento,
Maravilhado pelos tons de carmesim
Das bandeiras desfraldadas ao vento.

Passa o tempo sem que o denotes,
Mas ainda te espera a atracção final –
Em diluídos cheiros e vagos recortes,
A máxima prova da infância magistral
Faz chegar até ti a sua doce tentação,
Enlaçando-te num abraço de mãe.
Porque te deténs? Solta-te coração 
E segue a inocência que te fez refém!

Apressas-te, alegre, para o encontrar
Até que, qual nobre e distinto corcel,
Envolto em feirantes tons de encantar,
Surge o mágico e desejado carrossel!
Tomas teu lugar – vazio, em profecia,
Como se para ti se estivesse a reservar –
E aguardas, em impaciente alegria,
O sino tocar. Tlim! É hora de começar!


Começa a girar e cantas, contente,
Ao ritmo das melodias giratórias
E ignoras o hipnotismo indolente
Que assassina as antigas memórias.
E gira, gira e torna outra vez a girar,
Numa hipnose acentuada em tons
(Só fragmentos consegues escutar,
Como se o mundo abafasse seus sons).

Lentamente, esqueces o teu sorriso;
Não sabes mais como entoar a canção
Mais bela que entoavas pelo paraíso,
Na estrada da colorida imaginação,
Pois a cor é já uma longínqua ideia,
A ideia de que tudo fora pintado
E decorado por sinfonias de sereia –
Cinzento é o todo agora observado.

Atordoado e de essência debilitada,
Vais soltando cada magia aprendida
Numa época agora já tão deturpada,
Pulsando de dor por bela alma ferida;
E tudo parece estar deveras distante,
Tudo corre num ritmo desenfreado
Como se todo o brevíssimo instante
Se encadeasse ignóbil e desordenado.

E gira, gira e torna outra vez a girar.
Tu, em súbito impulso, já derradeiro,
Despertas a hipótese de poder saltar
De tal oleado mecanismo matreiro,
Mas, em momento doloroso e final,
Tua força, manipulada, trai o instinto
E preso continuas ao minguado sinal:
“É tudo ilusão aquilo que agora sinto”.

Encerra, talvez, essa chama franzina
Em cápsula imune ao global desvario,
E gasta-a em obra de impressão fina,
Algo mais que um mero sorriso vazio.
Do carrossel é ainda mais árduo fugir,
Girando, girando e tornando a girar,
E antes que tal cancro consigas banir,
Tombas – tua vida acabou de cessar.




(06/2010)







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