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sexta-feira, 30 de abril de 2021

MEDITAÇÕES LXII

 

Os olhos vêem e reconhecem,
mas em verdade apenas aquilo
que na memória foi incrustado.
 
Um olhar limpo não julga,
não pinta, não reinventa;
um olhar limpo é justo,
pois somente observa.
 
Quem vê tem em si
um profundo silêncio.
Dessa quietude serena
um sol irrompe: compreensão.
 
As bocas caíram no hábito
de dizer vida daquilo que a mente
analisa e considera em tal molde,
mas o que é vivo não pode ser ideia.
 
Remove o filtro da mentira.
Só em sossego verás
uma maravilha em movimento,
uma dança sem coreografia
acontecendo diante
dum imenso repouso.
 
Não diluas a atenção
no que vem e vai
– as formas embriagam
ao mínimo toque.
 
Caminha para dentro,
vai fundo, aquieta-te e observa:
descobre o trono onde se senta
aquele que tudo vê.









(Fonte: freepik.com)

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

MEDITAÇÕES LVII



Vem com a voracidade das fomes,
com a sofreguidão das sedes;
um pequeno grão que ao primeiro sopro
se faz incêndio: o pensamento sem vigia.

Por que tal é assim? Vira para dentro
os olhos, mergulha fundo no mistério.

Descobres quem julgas ser?
Repara: a imagem é flor de sonho
que tem raiz em histórias contadas,
em experiências saboreadas,
em nomes que outros em sua ilusão
colaram à porta da tua eterna morada.

Por desconheceres quem és
aceitaste a mentira, tomaste por verdade
a bonita fantasia que te teceram.

Mergulha fundo no mistério. As ondas
chegam e vão: só o oceano permanece.
Como podes ser quem parte
se testemunhas a partida em si?

Quando descobrires o perfume original
sabê-lo-ás em cada coisa que vês e tocas,
manifestações duma coisa só.

Como pode haver vontade ou arbítrio
quando não existe um ente
separado do que é?

Os raios de um só sol não se expurgam
da mesma luz – a maravilha das maravilhas.











quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

MEDITAÇÕES LIII



Deixa nas mãos do vento
as pétalas que soltas passam
em incessante torrente.
Os dedos que as ansiarem,
que trémulos fervam
na inquietação da posse.

Repoisa no coração do lótus
– até compreenderes
que nunca existiu flor,
tampouco quem nela
encontrou repoiso.