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sexta-feira, 4 de outubro de 2019

MEDITAÇÕES LVII



Vem com a voracidade das fomes,
com a sofreguidão das sedes;
um pequeno grão que ao primeiro sopro
se faz incêndio: o pensamento sem vigia.

Por que tal é assim? Vira para dentro
os olhos, mergulha fundo no mistério.

Descobres quem julgas ser?
Repara: a imagem é flor de sonho
que tem raiz em histórias contadas,
em experiências saboreadas,
em nomes que outros em sua ilusão
colaram à porta da tua eterna morada.

Por desconheceres quem és
aceitaste a mentira, tomaste por verdade
a bonita fantasia que te teceram.

Mergulha fundo no mistério. As ondas
chegam e vão: só o oceano permanece.
Como podes ser quem parte
se testemunhas a partida em si?

Quando descobrires o perfume original
sabê-lo-ás em cada coisa que vês e tocas,
manifestações duma coisa só.

Como pode haver vontade ou arbítrio
quando não existe um ente
separado do que é?

Os raios de um só sol não se expurgam
da mesma luz – a maravilha das maravilhas.











quarta-feira, 17 de maio de 2017

MEDITAÇÕES - LI


Nada se aparta de nada
para quem vive em verdade;
não subsiste a separação
para quem na unidade
ergueu a sua casa.

As formas vêm e vão. Só a elas
um destino poderá ser escrito.
Como vagas, uma e outra vez
vêm morrer nas praias da ilusão.
É essa a sua eterna dança.

O que é não conhece morte.
Toda a transformação é o espasmo
de um longo movimento
de expansão e retorno.

As águas tornarão à nascente,
é certo, por mais demorado
que seja o seu desenfreado correr.

Clareará o dia quando conhecida for
a evidência da verdade subtil:
por todo o turbulento rumo
nunca perdem a marca viva
da sua sacra proveniência.






(Fonte: www.unityprescott.org)



segunda-feira, 30 de maio de 2016

MEDITAÇÕES XXXVI


O rio da vida.

Serpenteando por montes
e vales, cobrindo planícies;
correndo como potro indomável,
vogando como pequeno barco
na calmaria das marés.

O rio da vida.

Afaga flores, pedras e frutos,
canta no topo das árvores,
abraça o vento sem o desviar
da incerteza de sua rota.

Todos os pássaros o conhecem,
pois nele todos saciam a sede.
Quem aí reconhecer a sua raiz,
entoará hinos de louvor e gratidão.

De nada se poderá dizer separado.
Em cada ondulação é algo de novo,
e todo o seu correr é uma canção.

Quem com propriedade poderá dizer
donde vem, para onde irá?

O rio da vida: do qual o Homem
é breve gota, cintilando na ilusão
do poiso de suas margens.