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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

MEDITAÇÕES LXI

 

Retorna ao que és.

Tanto tempo vagueaste
por ruas e vielas enlameadas,
com o infortúnio da fome e da sede
pesando num coração tingido
– sem descobrir que sempre
tiveste cheio o alforge.

Tanto corpo gasto em fantasia,
na loucura do erro elementar
– e mesmo assim, por graça
duma sabedoria maior,
a semente da verdade não deixou
de abrir fendas em sua cápsula.

Serena o passo, a caminhada
já se estende além-memória.
Escuta o tambor do peito
lançando ritmos e estações,
deixa o silêncio crescer em ti.

Por tantas horas o espectáculo
das imagens e das sensações
teve o seu lugar de destaque.
Tão doce veneno injectado
em inocentes projecções,
tão colorido engodo de tolos!

Ainda assim, como saber a verdade
sem primeiro conhecer a mentira?

Repara: todo o brilho que emitia
da tua atenção se alimentou.

Larga tudo o que pesa,
abre os olhos ao que é.
No louco rodopio do mundo,
descobre o que permanece
e aí ergue a tua cabana.

O primeiro passo é agora,
o primeiro gesto é teu.

Quem se confunde com o corpo
só conhece sofrimento;
quem repousa no coração
sorri, sereno e livre,
no êxtase feliz do verdadeiro lar.








(Fonte: videvo.net)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

MEDITAÇÕES XLVII


Ambíguo, o olhar do Homem.
Mas que outra visão esperar,
se dual é a forma onde se exprime?

Observando o mar da existência,
quando prevê o nascer de alta onda
só teme sucumbir à força do seu sal.
Saberá que se lhe tomasse a crista
tão perto ficaria das estrelas?

Cego de vagas, ignora a absoluta
permanência do oceano que as gera.
Como poderá a simplicidade
ser bebida por tão complexa pessoa?

Ao fecundar a ilusão que cria,
por mais promissor que pareça
o destino tecido em fantasia,
fica aquém do que em verdade é.

Assim, por sua mão se condena
ao exílio dos pássaros moribundos,
esses que de tanto temerem a queda
nunca ousaram dar cor às asas.
Como uma melodia sem coração
para de eco lhe servir, desaprenderam
a arte que sempre lhes fora inata.

Pela imensidão da terra vagueiam
decepados da sua realidade,
afogados no sonho que crêem,
chorando o céu donde se expulsaram.







terça-feira, 8 de novembro de 2016

MEDITAÇÕES XLV


Conforme for o sonho sonhado,
assim o sonhador o viverá.

Que espera acontece até dançar
no cume duma flor aberta
aos silêncios do alvor?

Só existe o que é.
Para alguns dos que nutrem a busca,
o longo vale da ilusão será
caminho de pedras e espinhos.
Ignoram a sublime eminência
das montanhas ladeando a estrada.

Para à verdade dedicar
um sincero amor, de certos rumos
faz-se passagem obrigatória.
Mas quem o julga e porque julga?

Quando estiverem às portas
dessa solidão que como vazio
de águas extravasa margens,
saberão do sóbrio movimento
de regar os canteiros do mundo.

Na terra da verdade nunca o sol se põe.
Repouse o braço que deseja ter
aquilo que sem saber já possui.

Não busque o ente a verdade.
Dispa-se apenas da mentira
com que nesciamente se vestiu.