segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

MEDITAÇÕES - III



Nunca a rosa foi ou será
mais viçosa que na hora
em que a tocas, observas e cheiras.


Ontem, era sonho.
Amanhã, será morte.

(Sonho é deslumbramento.
Morte é transmutação).


O manto que veste
a efemeridade de tudo
tece-se duma nobre e melancólica beleza.

Não serão os lírios belos,
mas tristes porque findam?
Enquanto isso, colorem
as orlas do jardim.


E não será o voo da andorinha ímpar,
mas dorido porque cessa?
Enquanto isso, canta
o dia que a abraça.

Ou talvez tudo seja apenas
aquilo que é: realidade pulsando
além do julgamento, da percepção,
do entendimento.

E somente de teus olhos jorre a água
que dilui o invicto brilho,
secretamente pulsando
no interior de cada disfarce.


PBC.






terça-feira, 20 de janeiro de 2015

MEDITAÇÕES - II




Toda a sombra se dissipa
à luz de um sol excelso,
pois toda a sombra se compõe
de luz não desperta.

Se a sombra que ostentas
mora no peso dos receios sem nome,
encaminha o cego olhar
à luz do sol da tua fé.

(Sem despojo
nenhuma fé será possível, 
sem amor
nenhum despojo será verdadeiro).

Se deveras excelso for esse sol,
ao colocares sob a sua luz
a sombra que te oprime,
vê-la-ás, num ápice,
sucumbir diante dos raios
que de pronto a fulminarão.

Da poeira remanescente
farás a tua estrada.




PBC.




(fonte: palidzusev.lv)



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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

MEDITAÇÕES - I


Observa o riacho
fluindo serenamente,

contempla o malmequer
bailando gentil,

escuta o canto
da inspirada ave louvando
o sol onde se banha.

Em teu redor
pulsa a eternidade.

Não agites a folhagem
do dócil salgueiro.

Não se apressam os frutos
e maturam sempre
no tempo que lhes é certo.

Não se sobressaltam os rios
e desembocam sempre
no oceano que os espera.



Pedro Belo Clara.








(fonte: http://slodive.com).



terça-feira, 6 de maio de 2014

O OFÍCIO DE CAMINHAR (PARTE II)


É extraordinariamente fiel e exacta a forma que a vida encontra para se plasmar no caminho pelo viajante percorrido, seja ele qual for. Aliás, não é a própria vida um caminho de existência? Com a devida agudeza de percepção, compreenderemos que inúmeros aspectos de um se podem retirar e/ou aplicar no outro. Tal facto é a prova da sua indissociabilidade.

Darei um exemplo: sempre que empreendo uma caminhada, assisto em movimento contínuo ao que foi, é e será. No fundo, tudo isso se assume e manifesta numa mera ilusão. De certa forma, nada foi nem nada será: tudo é. O simples acto de caminhar é que, como acontece ao longo de uma existência, instiga essa toldada assumpção. É preciso transcender o tempo para racionalmente entendê-la. Partindo dessa ideia, constatamos como na matéria se desenvolve a prática de imensos preceitos teóricos, já que ela é o palco da expansão do próprio espírito. Será, no fundo, como entender o caminho físico que se percorre como uma metáfora da existência. Na verdade, é um exercício pessoal que, somado ao benefício medicinal de “andar a pé”, reúne inúmeros proveitos para quem o pratica.

Contudo, importa que no seio de tanto fascínio e deslumbre não ceda o espírito a certas “tentações” que também povoam o quotidiano da vida mundana. Nomeadamente, ao apego. É verdade que uma paisagem nova ao olhar sempre tende a prendê-lo, inundando a alma do caminhante na mais fresca das fragrâncias. Afinal, é algo desconhecido, e bem sabemos das virtudes, esperanças e oportunidades que as coisas desconhecidas podem prover. O próprio Thoreau afirma-o: «uma paisagem nunca vista é uma grande felicidade, e em cada volta há sempre algo novo». Será mesmo esse cenário, por vezes, o tónico ideal para dissolver a monotonia que os velhos caminhos, de tão gastos que estão, podem fomentar. Contudo, se o problema é a repetição do cenário, também para tal se encontrará uma solução. Vejamos: será que o que se estagna e se repete é o cenário envolvente? Ou a mente do viajante que por dias sem conta o contemplou? Pois bem, eis a derradeira constatação: tudo surgirá renovado se a mente de quem observa renovada estiver. Uma das maiores e mais proveitosas valências desta prática prende-se com isto: compreender como o milagre da vida se renova no nascer de cada dia.

Mas retornemos ao apego. Afinal, se nos deixarmos guiar pelos frementes impulsos de um qualquer deslumbre, corre-se o risco de para com ele cultivarmos uma espécie de atracção e consequente aprisionamento. Que em nada se relaciona, sublinho, com o gosto sentido em ver ou provar uma certa atmosfera, cenário ou demais elementos. O apego é uma sensação pouco luminosa, com raízes fundas no ser. Nasce do medo, nomeadamente do temor da perda, e arrisca-se a crescer infindavelmente se for alimentado pela substancial força das emoções. Em casos mais graves, roçará os limites da obsessão. Mas o ofício sobre o qual tenho vindo a divagar (admito a minha falta, leitor, e por ela peço a sua indulgência) exige abnegação, despojo e, principalmente, desprendimento... Passada após passada, tal premissa tornar-se-á translúcida à compreensão do viajante. Num de meus livros, em jeito de poema, escrevi: «caminhar é somente isto: fluir pelos caminhos». Eis o prelúdio da ideia em causa. Ademais, o viajante não é dono do caminho que escolhe trilhar... Em primeira instância, é um convidado seu, um alguém que responde a um íntimo apelo escrito nas finas linhas do vento. Depois (e será essa, eu creio, a transcendência final), tornar-se-á uma parte de si.

Escrevo estas palavras e à minha memória assomem as de Eugénio de Andrade, aquelas que numa crónica sobre Teixeira de Pascoaes retratam o saudoso poeta numa praia a recolher conchas e pedras. Ao que parece, Pascoaes guardava sempre algumas lembranças dos passeios que realizava. Desprovido de qualquer pretensão comparativa, devo confidenciar que pelos motivos antes explanados nunca trago de minhas viagens recordações físicas do caminho trilhado. Não por rígido princípio, mas por uma absoluta ausência de necessidade ou impulso. Cheguei, isso sim, a talhar num ramo de palmeira um modesto cajado de apoio (o simbolismo é evidente), mas até esse anexo nem conta mais com o meu uso. Há qualquer coisa no espírito que se quer livre que reclama ausência, silêncio e solidão. Devemos abandonar os mais fúteis mantos e máscaras se desejarmos ser um simples grão de vento. Bem, sempre nos poderíamos focar nas humildes flores... Por nossas mãos colhidas, não serão uma forma de apego? Se até essas eu ofereço, o apego, a sê-lo, ao menos não é individualizado. Um dia, minha mãe teve junto da janela da sua cozinha uma bem aromática rosa de Santa Teresa por mim recolhida no quintal de uma casa em ruínas. Permaneceu viçosa por mais de uma semana num jarro com água sempre fresca. Enfim, hoje, de consciência mais amadurecida (estou em crer), prefiro deixar todos esses belíssimos exemplares botânicos no lugar a que pertencem. Pois só ali, em canteiros, matagais, veredas ou valas, é que poderão embriagar o olhar do viajante mais atento. Talvez não seja propriamente um caso de apego, mas aqui o caminho ensina-nos as implicâncias das vertigens do egoísmo, ainda que esbatido, ou da dúbia exclusividade.

Despojado vou, despojado retorno... Só as memórias de tudo o que foi visto, saboreado e sentido, valem por si e excluem outros actos de dominância. Que mais poderei pedir? Além disso, a Natureza detém a sua própria ordem. Quem sou eu para voluntariamente alterar esse curso? Se a vida a meus olhos se apresenta como um rio fluido, então fluido serei. Tanto quanto sei ser, claro está. Ainda assim, trago impregnados em minha essência o aroma dos locais por onde passo; neles, deixo a semente do meu próprio perfume, cintilando como estrela até ao nosso próximo encontro. Só isso me basta, quanto ao capítulo do “trazer e deixar” diz respeito. E há até caminhos que conheci no auge do florescimento, nas securas do estio, na melancolia do outono e na mortiça sombra invernal – um mesmo cenário rendido aos efeitos das estações, sem que nada contra possa ser empreendido. Esse nível de aceitação por certo que surpreende e instruí, de sobremaneira, os espíritos mais inconformistas e rebeldes. Eis uma outra prova do implacável plasmar da existência num caminho que se percorre e das luminosas ilações que daí se poderão retirar.

O resultado de uma caminhada reflecte-se na alma de cada um, e verifica-se, como habitualmente, no término da mesma. Trata-se de evocar a velha prática de “varrer o quintal como quem varre os recantos do coração”. O preceito é o mesmo. Será interessante efectuar esse exercício apenas para constatar qual será a disposição final. Cansaço? Sim, por certo... Mas provavelmente uma leveza sem fim. São os tais estado de espírito que tanto gostaríamos que se eternizassem, mas que sempre se revelam tão efémeros como uma rosa nos inícios do outono. Ainda assim, poderá ser forte o suficiente para em breve nos levar à estrada. Oh, por quantas vezes não regressei eu ao lugar que me esperava com o mais dócil dos brilhos retido no olhar? Desse sereno êxtase retira-se a viva luz que tão própria é aos caminhantes: a luz dos deslumbres contemplados e, por isso, impressos na visão de quem bebeu algo mais do que a mera aparência de todas as coisas.

Nada existe por si só, e este nobre e simples ofício também essa lição nos ensina. Cada flor, cada árvore, cada ave vagabunda, cada réptil, cada homem e mulher. Em que medida são estes elementos distintos entre si? Não nos equivoquemos: caminhante e caminho são uma coisa só. É esse o segredo maior.




Pedro Belo Clara. 




segunda-feira, 28 de abril de 2014

O OFÍCIO DE CAMINHAR (PARTE I)


Não se poderá considerar simplista a tarefa de expressar por palavras o impacto que certas ocorrências ou actividades provocam em nós, principalmente se o que das mesmas colhemos equivale ao degustar, por um cálice de prata, do mais inigualável dos néctares. Certas coisas, ou melhor, a ressonância do efeito de certas coisas, é, de facto, tão sublime, grandiosa e pura, que nem nas palavras, perecíveis e finitas, a sua definição pode caber, sob pena capital de proscrever sentidos que igualmente merecem o seu digno registo. Em todo o caso, ao fazê-lo, importa ter a consciência de que algo sempre se perderá, seja por motivos sumários ou, como antes se referiu, pela impossibilidade de esboçar uma acurada descrição. E o sentimento que uma boa caminhada me instiga é um óptimo exemplo de tais evidências.

Sendo o Homem um elemento detentor de tamanha diversidade entre si, ainda que em mera aparência, compreendo que por íntimas razões nem todo o indivíduo se apreste a tais actividades e, como tal, possa não se identificar ou simplesmente familiarizar com certas ideias ou parâmetros que mais adiante irei expor. Excluamos, no entanto, o ócio ou um mau investimento do seu quinhão temporal. Refiro-me aos meros “gostos ou tendências pessoais”. O que é perfeitamente natural em sua essência, se bem visto for o caso. Darei um exemplo: se dez Homens se sentarem a uma só mesa e diversas bebidas forem servidas, por certo haverá quem escolhe o vinho, quem opto pelo sumo mais fresco e quem se decide a saciar a sede na singela e translúcida água. Portanto, o que se conclui? Iguais em condição, diferentes em suas preferências. Nada de estranho reside nessa evidência.

Dado o singular carácter das caminhadas, a viva metáfora que representam e o tudo que delas se pode extrair, outras ideias são passíveis de aceitação, além da mera hipótese de “preferência pessoal” antes referida. O célebre pensador norte-americano do século XIX, Henry David Thoreau, por exemplo, no seu ensaio “Caminhada”, bem persuasivo e lúcido, afirma que «há que ter nascido caminhante para pertencer a esta casta». Sabia do que falava, sem dúvidas, ele que fora merecedor, a respeito de tal tema, das seguintes palavras por parte de seu amigo e destacado escritor, Ralph Waldo Emerson: «Era um prazer e um privilégio passear com Thoreau. Conhecia tão bem o campo como uma raposa ou como um pássaro e cruzava-o livremente por caminhos que todos desconheciam. Sabia de cor todos os trilhos que a neve cobrira e que as criaturas haviam percorrido antes dele. Obedecíamos servilmente a tal guia, e a recompensa era grande».

Voltando às palavras de Thoreau, à discussão trazidas por, num momento de escrita, mentalmente as evocar, admito não ir tão longe quanto o referido autor parecia desejar ir, se bem que compreendo as suas possíveis intenções. Pois, ao declarar tal ideia, abre-se caminho a uma certa diferenciação que considero ser, de todo, desnecessária. Um caminhante, devoto discípulo do ofício de caminhar, não é propriamente alguém “superior” ou “diferente” (não tanto como qualquer outro), apenas alguém que em si detém uma veia pulsante que a tal o instiga. Assim como o comerciante possui o seu impulso, o agricultor ou o médico. São naturezas que, embora humanas, todas elas, compõem-se de géneros naturalmente distintos. Grande parte da beleza que orna a existência encontra-se em tal princípio.

Mas, de facto, existe alguma lógica no dizer de Thoreau. É preciso ser-se “caminhante” de origem para empreender a caminhada, apreciá-la e dela fazer um acto contínuo, quase indissociável do ser que a pratica. Se o marinheiro sente, desde cedo, o apelo do mar, o caminhante sente o irresistível apelo da estrada. Eu mesmo, admito, deleito-me e diluo-me nessa estranha magia que paira por uma estrada deserta distendida até ao horizonte, onde os reflexos de um sol nascente ou as mais vibrantes cores de um fogoso ocaso somente adensam a eterna promessa de infinito. Sim, caro leitor, se os caminhantes são mesmo uma casta, como Thoreau gostava de afirmar, de bom grado admito que a ela pertenço.

Como saber, no entanto, que impulso nos guia e alimenta? Em muitos casos, a estrada só sussurra o nosso nome quando pela primeira vez nela nos quedamos, prontos a navegar as ondas de todos os ventos. Noutras circunstâncias, de génese mística, existe uma espécie de feitiço que parece guiar o ser a determinados lugares, a determinadas práticas ou sensações, por forma a iniciar o seu percurso de aprendiz. Passada essa fase, sabendo o espírito o que o eleva e cativa, a união será fatal.

Na realidade, a partir do primeiro instante em que colocamos o pé na estrada nada mais será como dantes. O prelúdio do ofício conheceu a sua material manifestação, e todas as vindouras etapas se apressam a tecer os seus conteúdos. É o mesmo que pegar num copo de água e nele largar algumas pedras de sal. Assim que se dissolver, não existirá parte alguma daquela água que se prive de sódio. Já não o vemos, é um facto, mas o sabor que o líquido apresenta não permite margem para enganos.

A que se deve tal fascínio? Primeiro, como antes fiz menção, é necessário sentir o caminho e, claro, querer caminhar. É importante desejá-lo, numa fase primordial. Depois, com a disciplina necessária, transmutaremos a prática e dela faremos um simples acto, banal e quotidiano – sem que o mesmo se prive da sua digna virtude. O caminhante tornar-se-á a fímbria da estrada, a pedra do caminho, o grão do vento... Até compreender a eternidade que reside em si e que, a cada caminhada, se plasma no trilho que tem pela frente. Poderemos estar já a falar de “transcendências” que se arriscam a sair da órbita percepcional de cada leitor, aceito essa ideia, mas quem se permitir a cultivar a prática acabará por compreender ainda melhor aquilo que agora escrevo.

Na verdade, o acto de caminhar comporta mais espiritualidade do que materialidade, ainda que tal ideia possa parecer paradoxal. Cada indivíduo caminha com os pés assentes na estrada, sim, mas o que importa não é a posição de caminhar, antes a disposição para a caminhada. Com a prática, estou certo, estas e outras ideias terão um novo sentido. Como em tudo, é necessário a prática, a disciplina e a perseverança. A raiz de uma árvore é amarga, naturalmente... Mas o que dizer de seus frutos? Doces como o mel. Pois, quando nos iniciamos neste ofício, é como se pegássemos numa peça de prata, antiga e valiosíssima, cujo brilho, se o teve, aparenta estar completamente extinto. Contudo, com esforço e dedicação, somando os materiais necessários ao efeito, iremos perceber o quão lustrosa era, ou melhor, sempre foi. Apenas os anos fomentaram o seu desgaste e obscurecimento por escassez de uso. Depois, é vê-la magnífica como sempre – a sua real beleza fora enfim revelada diante do nosso anteriormente turvo olhar.

Com o Homem o caso é idêntico. As próprias incidências da vida material e a existência de um corpo que aparenta ser a sua real identidade tendem a fazê-lo esquecer de que há um espírito que exige cultivo, limpeza e cuidado. Múltiplas são as formas para cumprir tais exigências, e a caminhada é somente uma delas. Isto porque, em sua natural execução, comporta uma certa abnegação, um desprendimento sadio, um fluir que faz o caminhante compreender como a vida pode ser vivida: de forma idêntica à de um rio correr. Como se não bastasse, o cenário envolvente de igual modo fornece elementos que nos auxiliam no cumprimento do propósito, ainda que, para tal se suceder, recomende um passeio de índole bucólica. Pois as cidades, de tão densas e aprisionadas, nem sempre se afiguram como a melhor solução. Mas o mais importante é que cada caminhante execute a sua escolha e com ela sinta o maior dos confortos. Não obstante, existe ainda o ritmo da caminhada, um apelo sincero à agudeza da percepção, que leva, invariavelmente, a um estado de consciência e serena vigilância. Constataremos, assim, o modo como em cada passo tudo por nós passa... Árvore, flor, ave, pedra, curva, semelhante. Eis o anunciar de um dos princípios mais sólidos de toda a existência material: a impermanência do perecível.




Pedro Belo Clara.





segunda-feira, 24 de março de 2014

POR ESSA ESTRADA EXISTENCIAL AFORA

         
         Apronto-me para redigir estas linhas com definidas intenções e não cesso de focar a minha atenção num determinado episódio que se sucedeu um dia antes da realização de uma palestra para a qual fora convidado. De tal forma o caso se sublinha a si próprio que, inevitavelmente, dele devo fazer a base onde o pensamento que desejei primordialmente partilhar se irá, com a devida propriedade, assentar. 
Decorria o ano de 2012 e muito amigavelmente havia aceitado o gentil convite de uma simpática escola do interior do país para efectuar três sessões ditas “literárias” no interior das suas instalações. O assunto das mesmas era simples e bastante familiar: o meu percurso como autor. No fundo, a intenção principal era discorrer sobre o meu trabalho, revelar o que me motivou a enveredar por esse peculiar caminho e, claro, partilhar alguns trechos de livros que já tivesse então publicado (até à data, apenas dois). O desafio era estimulante; além do mais, constituía uma importante oportunidade de divulgação da minha obra, algo que um “escritor em princípio de carreira” sempre vê com muito bons olhos. Mas devo confessar, em prol da sinceridade que me habita, que o meu maior interesse, mais do que vender livros a preço de saldo, era simplesmente apresentar o meu exemplo e, assim, quem sabe?, conceder, a partir da sombra de tantos momentos, um pouco de luz aos elementos da plateia que a ela mais receptivos se revelassem.
É certo que todo o Homem detém em si a oportunidade de positivamente influenciar o seu semelhante, se veramente o desejar. É uma opção, apenas. Contudo, há que primeiro cultivar a consciencialização desse princípio. Detenho a seguinte convicção: todo o Homem pode (senão mesmo deve) ser um farol para o seu semelhante. Por isso, a minha principal intenção era tão-somente aplicar essa máxima que defendo da forma mais aprimorada que soubesse.
Não poderei dizer, com total certeza, que o intento foi cumprido, embora me agrade pensar que sim. Talvez um dia mais tarde venha a granjear uma absoluta certeza sobre o caso. Por enquanto, sei que doei o melhor de mim. E isso basta-me. Aliás, o simples facto de sabermos que com nossas palavras e actos tocámos profundamente alguém e, como isso, acrescentarmos uma positiva mudança em sua existência, é não só uma louvável vitória como também a própria razão de eu me ter tornado escritor. Não há, assim, uma derrota plausível nessa intenção, pois todo o acréscimo que veramente se efectiva acaba por se revelar um feito notável.
Mas antes de tudo isso se realizar, existiu o caminho que me guiou até esse dia. E é nele que o pensamento referido no início desta crónica se situa. Isto porque a existência humana é um imenso palco de aprendizagens. O próprio mundo, se com atenção o avaliarmos, apresenta-se como uma escola imensa, pródiga em infindos desafios. Tudo com um só propósito: evolução. É, por isso, translúcida a minha ideia: o natural desenvolvimento do Homem é a sua própria evolução, uma espécie de “próximo passo” na sua longa (e íntima) caminhada existencial. Mas, para que ela se possa manifestar, importa não só aceitar o desafio como também palpar as fímbrias de que é feito, por modos que diferem de indivíduo para indivíduo (naturalmente). Todos possuímos diferentes formas de contemplar o mesmo horizonte e os caminhos para o coração são múltiplos. O caminho não é estreito, antes de uma infinidade plena – tão infinito como a eternidade que nos espera no término do mesmo.
Mas eis o ponto crucial: para que tudo se possa concretizar, o desafio urge em ser aceite, o obstáculo derrubado e a etapa cumprida. Se colocarmos uma enorme pedra sobre o curso de um riacho, o fluxo das águas é interrompido e de pronto se estagna, até, no tempo devido, encontrar um meio de ultrapassar essa incómoda barreira. Então, cumprirá o seu destino: desaguar no lugar que o espera. Antes que isso aconteça, contudo, contar-se-ão inúmeras histórias e numerosos pensamentos, se fossem pensamentos e histórias somente aquilo que do riacho pudéssemos escutar.
Deixemos os rios e retornemos ao Homem. Neste caso, ao que vida dá, por palavras, ao relato que evoca uma íntima experiência sua. Assim, antes do grande dia, instalei-me num pequeno e simpático hotel, aproveitando para desfrutar um pouco das belezas ímpares daquele lugar situado na mais famigerada das serras lusitanas. Como não fizera a viagem sozinho, dispus de uma agradável companhia durante o passeio e o subsequente jantar. Mas as mais importantes revelações ou provas de um Homem acabam por surgir no seio do mais cru dos silêncios, quando, completamente despojado de tudo, nu se apresenta diante de si próprio.
Foram deveras curiosos os sentires e os pensares que me assomaram naquela noite, após a refeição... Já de volta ao quarto, com pouco impulso para a leitura (Steinbeck, meu fiel companheiro) e atenção para os programas televisivos, dei por mim a fitar o vazio. E de facto foi ele que, de súbito, mais me pesou: naquele quarto de hotel, em plena noite de Novembro, senti uma solidão extraordinária. Estranha constatação, direi, pois em regra a solidão é a mais fiel amante de um escritor. Como poderia ser solidão, se solidão era algo que tão bem conhecia? Admitamos: sem ela, como pode um autor exercer o seu ofício? Aquele sentir era, de algum modo, diferente sem o ser... Assumia quase os contornos de algo nunca antes sentido. O seu peso oprimia-me. Qual a razão? Desconheço… Quem pode justificar os súbitos (e amiúde obscuros) sentires da alma?
De facto, o fenómeno mais complexo de aceitar era a certeza de a solidão ser algo bastante familiar para mim. Na verdade, à parte do que antes foi referido, aprecio-a bastante. Os instantes de silêncio são sagrados para mim, pois deles retiro o necessário à fome de minha alma. E eles sempre me haviam concedido o melhor de si mesmos. Contudo, naquela noite foi diferente. Aceitei a chamada de um familiar próximo, por natural ocorrência, e o sentimento somente se adensou. Nem no seio mais quente perecia o frio implacável que voraz crescia... Pesava em mim como uma pedra e o vazio, crescente, oprimia. Sem solução de combate, aceitei o fenómeno em derradeira capitulação. E adormeci na entrega que por decreto havia feito a quem sempre me guia.
Outro dia despontou. O dia da ansiada palestra. A solidão e o vazio? Escoaram-se pelo mesmo orifício de onde vieram. Como? Uma vez mais, desconheço. Mas já vivi, senti e pensei o suficiente para saber que certas coisas são como nuvens que passam sobre nós: deixam a sua bênção em forma de chuva e, com ela, apenas nos tornam mais férteis. O evento correu de feição. Nem pensei mais no caso. Apenas me concentrei em cumprir a minha tarefa e dar o melhor de mim da melhor forma que sabia. No término desse dia, de consciência retomada, sabia que reencontrara a minha paz. Assim, de forma tão natural, evolutiva e simples, a minha luz saíra – também ela – renovada de todo esse processo. E obtivera uma nova confirmação: a evolução só abraça o Homem que a ela abrir os seus braços. Importa não esquecer tal coisa no meio da azáfama habitual dos dias rotineiros.
Mas o mais curioso de todo este processo surgiria, como complemento, alguns meses depois. Até minhas mãos chegara a correspondência que um familiar próximo havia trocado com sua esposa durante uma das suas múltiplas viagens profissionais ao longo desta lusa nação. Por outras palavras: as missivas que o meu avô materno escrevera para a minha avó aquando da sua estadia, no caso, numa das ilhas dos Açores. Ao lê-las, detive o olhar num certo paragrafo e sorri. Chegado ao hotel, num longínquo dia da década de setenta, o meu avô confessara os seus mais íntimos sentires à sua esposa, tendo em conta as circunstâncias em que ali chegara e a forma como aquela realidade o envolvera. Eis o motivo do meu leve sorriso… Pois a descrição dos mesmos era-me bastante familiar. Sim, caro leitor, o meu avô confessava sentir exactamente o mesmo que eu sentira naquela noite de Novembro, com uns meros quarenta anos de diferença. Curioso, não?
Bem sei que poderia investir uma certa quantidade de tempo em reflexões sobre o caso e respectivas conclusões. Mas que importa isso, afinal? Apesar de termos seguido caminhos distintos, eu e o meu avô materno nunca fomos, em essência, muito diferentes um do outro. E naquela simples leitura, voltara não só a confirmar essa ideia como a extrapolar a sua premissa para um universo bem mais alargado. Afinal, que ligação maior poderá haver do que aquela que se estabelece quando um sentimento é partilhado? Quando compreendemos algo há uma sensação de proximidade que nos torna, a todos, irresistivelmente humanos... Uma espécie de compaixão que somente nos engrandece e nos une. Os laços apertam-se. Nesse miraculoso acto, inúmeras barreiras se derrubam, pois a ilusão do “dois” (permita-me a metáfora) dilui-se na implacável certeza do “um”. A estrada existencial ilumina-se, por fim, e até ao alcance da sua última etapa vive a convicção de que o sol que banha o viajante é um astro invicto. Mesmo que a dualidade não cesse o seu efeito, a cortina foi já dilacerada. E será uma questão de tempo, no caso da perseverança imperar continuamente, até se revelar a solução do mais íntimo dos enigmas.




Pedro Belo Clara.




terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

DIVAGAÇÕES SOBRE UMA GAIVOTA QUE PASSA


Os dias cinzentos convidam à reflexão. E é no seio dessa húmida atmosfera de marítimos odores, prenhe de saudade e de sal, que se queda um poeta.

No coração escuta o bramir de um mar sempre ausente. Crê que o traz em si, entranhado na mais recôndita das fímbrias do ser, desde que se conhece como é. Em certos dias, quando o rebuliço se reforça e o eco mais se faz sentir, dá por ele a indagar se por suas veias corre o mais comum dos líquidos ou uma qualquer mistura de água e sódio. Nos altos céus de platina, embebidos em melancolia, uma gaivota imprime a sua invisível rota. Algures no meio, entre coração e céu, o poeta, rochedo profundamente fincado num areal de praia imaginada, é testemunha de fenómenos que não compreende. Mas voltemos, por ora, à gaivota.

Devo confessar que o seu voo sempre me intrigou. Agora, intriga-me ainda mais. Intriga-me e seduz. Especialmente quando tais peculiares aves trocam os imensos espelhos onde habitualmente se estudam e revêem em detrimento de deambulações por sobre estradas de rumos confusos, agitações fumegantes e brilhos toscamente intermitentes. Não poderei explicar o porquê, claro está. O voo da gaivota é semelhante ao voo de qualquer outra ave: repleto de mistérios. Talvez por essa mesma razão, ao concluí-la, o Homem tenha almejado (admitamos: cobiçado) essa arte tão intrinsecamente ligada à essência daqueles que ostentam penas e asas.

Mas lá que o voo é intrigante, é. «Gaivotas em terra, sinal de temporal» - escutei tal máxima durante toda a minha infância. Quem sabe se tal repetição não se tornou, com o fermentar dos anos, em ladainha interior até à exaustão repetida, eco após eco, numa espécie de oração que recordava a chegada dos dias cinzentos e chuvosos, os tais que tanto convidam à reflexão? Com eles vinham as gaivotas. E era vê-las pelos céus da cidade, em círculos sobrevoando as construções altivas, masmorras de betão, como se por ali, entre a calçada, buscassem pacientemente a prata de um suculento pescado. Ao mínimo movimento, assim davam a entender, lá investiriam em voo picado, prontas a reclamar o seu justo prémio. Mas nunca o fizeram, curiosamente… Nem nunca, em plena rua, me deparei com uma. Certamente que, se esbarrasse nesse exemplar, haveria de me deparar com um em estado de plena “convalescença”, permita-se a expressão, já que doloroso deverá ser, eu suspeito, o impacto, àquela altitude, na calçada empedrada. Sim, se a pobre ave confundisse as pedras reluzentes com as escamas de um fresco peixe, certamente investiria, ávida e triunfante, sobre o foco da sua ilusão!

Sempre desejei perguntar a uma gaivota o seu nome. Mas nunca encontrei uma disponível para me falar. Gostaria de encontrar o Fernão, confesso… Ou outro qualquer, até. Mas o Fernão é especial. Essa obstinação de ser a gaivota que voa mais alto tem que se lhe diga… Sabedoria intuída, é o que é. Porque procuraria o Fernão? Creio que seria agradável desfrutar da hipótese de lhe expor algumas dúvidas que durante a noite amiúde me assaltam… Talvez o meu voo não seja assim tão seguro quanto o dele. Ou não tenha ainda me despenhado as vezes suficientes. Há quem aprenda a voar pelo simples bater de asas; outros, pelas quedas que suportam. A existência é multifacetada… Ou simplesmente a mudez das tardes cinzas instigasse o sonho de voar que tão profundamente se enraizou no imaginário humano. Existem coisas que as aves conhecem melhor que os Homens… O voo, sempre secreto e místico, tê-las-á abençoado, pois possuem uma visão bem mais acurada das coisas. Muito poderemos aprender com cada uma delas.

Não necessito de asas para voar, é certo… Mas, não podendo, resigno-me a observá-las no alto da cidade. Sim, observar o voo da gaivota. É importante que não percamos o rumo da conversa. Mesmo que não saiba ao certo qual é. Enfim, sempre indaguei o porquê da gaivota eleger a cidade como destino de passeio… Especialmente uma região tão a norte como esta, e naturalmente mais afastada do rio que banha a cidade - o ambiente mais propício ao seu voo. Será efectivamente um refúgio? Ou algum sensor ancestral desperta no interior da gaivota em dias assim, levando-a a instintivamente sobrevoar regiões de marítimos antepassados? Talvez as ruas que hoje calco tenham sido as caves de um mar imenso que milénios atrás cobriu estas estradas envelhecidas… E a gaivota pressinta, muito justamente, um perfume de sal no meio de tanta palavra agreste futilmente lançada ao vento e ruídos metálicos repercutidos até ao seguro limiar da enfraquecida sanidade. Mesmo que a dita tenha, cientificamente falando, agora, nascido a apenas cinco anos atrás (suponhamos, claro - se não lhe sei o nome, como especular sobre a sua idade?). Ao que parece, a intuição de uma gaivota vence o frívolo esquecimento imposto, como uma herança sem hipótese de recusa, pelo implacável Tempo. E ainda há quem não queira ser como elas…

Existem factos que corroboram as evidências. O bairro da Ameixoeira, por exemplo, aqui tão perto desta gaivota que vagueia (quem sabe se não reservou a tarde para explorar as ruas que o formam?), deve o seu peculiar nome, segundo alguns estudiosos, a uma depreciação da palavra “Ameijoeira”, pois, ao que parece, grandes quantidades de fósseis pré-históricos, respeitante aos seres ostentadores de concha, foram descobertos naquela zona da cidade há muitos anos atrás. Ora, não sugere isso que, havendo conchas fossilizadas, algures nas dobras do Tempo um grande mar cobriu a planície? E as gaivotas, em dias cinzentos, ainda hoje lá retornam, mesmo tendo nascido há apenas cinco anos atrás, como a nossa teoria sugeriu, seguindo escrupulosa e fielmente um instinto de apelos distantes, preciosamente legado através de incontáveis gerações. Não é só do voo que se desprende misticismo; o coração de uma gaivota encerra segredos que qualquer Homem ansiaria por conhecer!

A chuva ameaça o seu retorno. A gaivota recolher-se-á em breve. Sinto já, ainda que agora a contemple, a ausência do estridente grasnar que entre as muralhas dos descoloridos prédios ecoava. Uma última dança, então, gaivota, agora que as tuas semelhantes juntam o seu voo ao teu. Eis a valsa da despedida: círculos e círculos sem vestígio impresso na imensa platina do céu melancólico, curvas e contra-curvas embebidas em mistério e oculta sabedoria. O voo da gaivota é uma poesia. Sem rima, verso ou palavra. O voo da gaivota é melodia. E silêncio.

A branca folha até aqui proscrita nas imperfeições do tampo da secretária aclama os afagos da mão deste poeta que sou. Outras palavras urgem ser registadas. De olhar preso ao velho bloco de notas, é hora de a pena desbravar a imensidão das linhas cerradas. Ao mesmo tempo, a gaivota, nas lonjuras celestiais, soletra o seu alfabeto aos pequenos peixes que julga contemplar. Como é bela, ostentando a eternidade dos poemas sem nome... Mas o poeta só incrusta, repetidamente, letras na rudeza das pedras. A sua forma é limitada.

Após mais um círculo desenhado no etéreo, desperta o apelo que perfumou a infância. Desejo ser como a gaivota. Um sopro de vento. Apenas.





Pedro Belo Clara.