terça-feira, 6 de maio de 2014

O OFÍCIO DE CAMINHAR (PARTE II)


É extraordinariamente fiel e exacta a forma que a vida encontra para se plasmar no caminho pelo viajante percorrido, seja ele qual for. Aliás, não é a própria vida um caminho de existência? Com a devida agudeza de percepção, compreenderemos que inúmeros aspectos de um se podem retirar e/ou aplicar no outro. Tal facto é a prova da sua indissociabilidade.

Darei um exemplo: sempre que empreendo uma caminhada, assisto em movimento contínuo ao que foi, é e será. No fundo, tudo isso se assume e manifesta numa mera ilusão. De certa forma, nada foi nem nada será: tudo é. O simples acto de caminhar é que, como acontece ao longo de uma existência, instiga essa toldada assumpção. É preciso transcender o tempo para racionalmente entendê-la. Partindo dessa ideia, constatamos como na matéria se desenvolve a prática de imensos preceitos teóricos, já que ela é o palco da expansão do próprio espírito. Será, no fundo, como entender o caminho físico que se percorre como uma metáfora da existência. Na verdade, é um exercício pessoal que, somado ao benefício medicinal de “andar a pé”, reúne inúmeros proveitos para quem o pratica.

Contudo, importa que no seio de tanto fascínio e deslumbre não ceda o espírito a certas “tentações” que também povoam o quotidiano da vida mundana. Nomeadamente, ao apego. É verdade que uma paisagem nova ao olhar sempre tende a prendê-lo, inundando a alma do caminhante na mais fresca das fragrâncias. Afinal, é algo desconhecido, e bem sabemos das virtudes, esperanças e oportunidades que as coisas desconhecidas podem prover. O próprio Thoreau afirma-o: «uma paisagem nunca vista é uma grande felicidade, e em cada volta há sempre algo novo». Será mesmo esse cenário, por vezes, o tónico ideal para dissolver a monotonia que os velhos caminhos, de tão gastos que estão, podem fomentar. Contudo, se o problema é a repetição do cenário, também para tal se encontrará uma solução. Vejamos: será que o que se estagna e se repete é o cenário envolvente? Ou a mente do viajante que por dias sem conta o contemplou? Pois bem, eis a derradeira constatação: tudo surgirá renovado se a mente de quem observa renovada estiver. Uma das maiores e mais proveitosas valências desta prática prende-se com isto: compreender como o milagre da vida se renova no nascer de cada dia.

Mas retornemos ao apego. Afinal, se nos deixarmos guiar pelos frementes impulsos de um qualquer deslumbre, corre-se o risco de para com ele cultivarmos uma espécie de atracção e consequente aprisionamento. Que em nada se relaciona, sublinho, com o gosto sentido em ver ou provar uma certa atmosfera, cenário ou demais elementos. O apego é uma sensação pouco luminosa, com raízes fundas no ser. Nasce do medo, nomeadamente do temor da perda, e arrisca-se a crescer infindavelmente se for alimentado pela substancial força das emoções. Em casos mais graves, roçará os limites da obsessão. Mas o ofício sobre o qual tenho vindo a divagar (admito a minha falta, leitor, e por ela peço a sua indulgência) exige abnegação, despojo e, principalmente, desprendimento... Passada após passada, tal premissa tornar-se-á translúcida à compreensão do viajante. Num de meus livros, em jeito de poema, escrevi: «caminhar é somente isto: fluir pelos caminhos». Eis o prelúdio da ideia em causa. Ademais, o viajante não é dono do caminho que escolhe trilhar... Em primeira instância, é um convidado seu, um alguém que responde a um íntimo apelo escrito nas finas linhas do vento. Depois (e será essa, eu creio, a transcendência final), tornar-se-á uma parte de si.

Escrevo estas palavras e à minha memória assomem as de Eugénio de Andrade, aquelas que numa crónica sobre Teixeira de Pascoaes retratam o saudoso poeta numa praia a recolher conchas e pedras. Ao que parece, Pascoaes guardava sempre algumas lembranças dos passeios que realizava. Desprovido de qualquer pretensão comparativa, devo confidenciar que pelos motivos antes explanados nunca trago de minhas viagens recordações físicas do caminho trilhado. Não por rígido princípio, mas por uma absoluta ausência de necessidade ou impulso. Cheguei, isso sim, a talhar num ramo de palmeira um modesto cajado de apoio (o simbolismo é evidente), mas até esse anexo nem conta mais com o meu uso. Há qualquer coisa no espírito que se quer livre que reclama ausência, silêncio e solidão. Devemos abandonar os mais fúteis mantos e máscaras se desejarmos ser um simples grão de vento. Bem, sempre nos poderíamos focar nas humildes flores... Por nossas mãos colhidas, não serão uma forma de apego? Se até essas eu ofereço, o apego, a sê-lo, ao menos não é individualizado. Um dia, minha mãe teve junto da janela da sua cozinha uma bem aromática rosa de Santa Teresa por mim recolhida no quintal de uma casa em ruínas. Permaneceu viçosa por mais de uma semana num jarro com água sempre fresca. Enfim, hoje, de consciência mais amadurecida (estou em crer), prefiro deixar todos esses belíssimos exemplares botânicos no lugar a que pertencem. Pois só ali, em canteiros, matagais, veredas ou valas, é que poderão embriagar o olhar do viajante mais atento. Talvez não seja propriamente um caso de apego, mas aqui o caminho ensina-nos as implicâncias das vertigens do egoísmo, ainda que esbatido, ou da dúbia exclusividade.

Despojado vou, despojado retorno... Só as memórias de tudo o que foi visto, saboreado e sentido, valem por si e excluem outros actos de dominância. Que mais poderei pedir? Além disso, a Natureza detém a sua própria ordem. Quem sou eu para voluntariamente alterar esse curso? Se a vida a meus olhos se apresenta como um rio fluido, então fluido serei. Tanto quanto sei ser, claro está. Ainda assim, trago impregnados em minha essência o aroma dos locais por onde passo; neles, deixo a semente do meu próprio perfume, cintilando como estrela até ao nosso próximo encontro. Só isso me basta, quanto ao capítulo do “trazer e deixar” diz respeito. E há até caminhos que conheci no auge do florescimento, nas securas do estio, na melancolia do outono e na mortiça sombra invernal – um mesmo cenário rendido aos efeitos das estações, sem que nada contra possa ser empreendido. Esse nível de aceitação por certo que surpreende e instruí, de sobremaneira, os espíritos mais inconformistas e rebeldes. Eis uma outra prova do implacável plasmar da existência num caminho que se percorre e das luminosas ilações que daí se poderão retirar.

O resultado de uma caminhada reflecte-se na alma de cada um, e verifica-se, como habitualmente, no término da mesma. Trata-se de evocar a velha prática de “varrer o quintal como quem varre os recantos do coração”. O preceito é o mesmo. Será interessante efectuar esse exercício apenas para constatar qual será a disposição final. Cansaço? Sim, por certo... Mas provavelmente uma leveza sem fim. São os tais estado de espírito que tanto gostaríamos que se eternizassem, mas que sempre se revelam tão efémeros como uma rosa nos inícios do outono. Ainda assim, poderá ser forte o suficiente para em breve nos levar à estrada. Oh, por quantas vezes não regressei eu ao lugar que me esperava com o mais dócil dos brilhos retido no olhar? Desse sereno êxtase retira-se a viva luz que tão própria é aos caminhantes: a luz dos deslumbres contemplados e, por isso, impressos na visão de quem bebeu algo mais do que a mera aparência de todas as coisas.

Nada existe por si só, e este nobre e simples ofício também essa lição nos ensina. Cada flor, cada árvore, cada ave vagabunda, cada réptil, cada homem e mulher. Em que medida são estes elementos distintos entre si? Não nos equivoquemos: caminhante e caminho são uma coisa só. É esse o segredo maior.




Pedro Belo Clara. 




2 comentários:

  1. Despojamo-nos para continuarmos a caminhada. Pessoalmente, gosto de pensar que escolho o caminho... Gostei bastante do texto e do blogue.

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  2. Agradeço a sua presença e a atenta leitura dos trabalhos expostos. Apraz-me saber que os apreciou. Saudações literárias.

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