segunda-feira, 24 de março de 2014

POR ESSA ESTRADA EXISTENCIAL AFORA

         
         Apronto-me para redigir estas linhas com definidas intenções e não cesso de focar a minha atenção num determinado episódio que se sucedeu um dia antes da realização de uma palestra para a qual fora convidado. De tal forma o caso se sublinha a si próprio que, inevitavelmente, dele devo fazer a base onde o pensamento que desejei primordialmente partilhar se irá, com a devida propriedade, assentar. 
Decorria o ano de 2012 e muito amigavelmente havia aceitado o gentil convite de uma simpática escola do interior do país para efectuar três sessões ditas “literárias” no interior das suas instalações. O assunto das mesmas era simples e bastante familiar: o meu percurso como autor. No fundo, a intenção principal era discorrer sobre o meu trabalho, revelar o que me motivou a enveredar por esse peculiar caminho e, claro, partilhar alguns trechos de livros que já tivesse então publicado (até à data, apenas dois). O desafio era estimulante; além do mais, constituía uma importante oportunidade de divulgação da minha obra, algo que um “escritor em princípio de carreira” sempre vê com muito bons olhos. Mas devo confessar, em prol da sinceridade que me habita, que o meu maior interesse, mais do que vender livros a preço de saldo, era simplesmente apresentar o meu exemplo e, assim, quem sabe?, conceder, a partir da sombra de tantos momentos, um pouco de luz aos elementos da plateia que a ela mais receptivos se revelassem.
É certo que todo o Homem detém em si a oportunidade de positivamente influenciar o seu semelhante, se veramente o desejar. É uma opção, apenas. Contudo, há que primeiro cultivar a consciencialização desse princípio. Detenho a seguinte convicção: todo o Homem pode (senão mesmo deve) ser um farol para o seu semelhante. Por isso, a minha principal intenção era tão-somente aplicar essa máxima que defendo da forma mais aprimorada que soubesse.
Não poderei dizer, com total certeza, que o intento foi cumprido, embora me agrade pensar que sim. Talvez um dia mais tarde venha a granjear uma absoluta certeza sobre o caso. Por enquanto, sei que doei o melhor de mim. E isso basta-me. Aliás, o simples facto de sabermos que com nossas palavras e actos tocámos profundamente alguém e, como isso, acrescentarmos uma positiva mudança em sua existência, é não só uma louvável vitória como também a própria razão de eu me ter tornado escritor. Não há, assim, uma derrota plausível nessa intenção, pois todo o acréscimo que veramente se efectiva acaba por se revelar um feito notável.
Mas antes de tudo isso se realizar, existiu o caminho que me guiou até esse dia. E é nele que o pensamento referido no início desta crónica se situa. Isto porque a existência humana é um imenso palco de aprendizagens. O próprio mundo, se com atenção o avaliarmos, apresenta-se como uma escola imensa, pródiga em infindos desafios. Tudo com um só propósito: evolução. É, por isso, translúcida a minha ideia: o natural desenvolvimento do Homem é a sua própria evolução, uma espécie de “próximo passo” na sua longa (e íntima) caminhada existencial. Mas, para que ela se possa manifestar, importa não só aceitar o desafio como também palpar as fímbrias de que é feito, por modos que diferem de indivíduo para indivíduo (naturalmente). Todos possuímos diferentes formas de contemplar o mesmo horizonte e os caminhos para o coração são múltiplos. O caminho não é estreito, antes de uma infinidade plena – tão infinito como a eternidade que nos espera no término do mesmo.
Mas eis o ponto crucial: para que tudo se possa concretizar, o desafio urge em ser aceite, o obstáculo derrubado e a etapa cumprida. Se colocarmos uma enorme pedra sobre o curso de um riacho, o fluxo das águas é interrompido e de pronto se estagna, até, no tempo devido, encontrar um meio de ultrapassar essa incómoda barreira. Então, cumprirá o seu destino: desaguar no lugar que o espera. Antes que isso aconteça, contudo, contar-se-ão inúmeras histórias e numerosos pensamentos, se fossem pensamentos e histórias somente aquilo que do riacho pudéssemos escutar.
Deixemos os rios e retornemos ao Homem. Neste caso, ao que vida dá, por palavras, ao relato que evoca uma íntima experiência sua. Assim, antes do grande dia, instalei-me num pequeno e simpático hotel, aproveitando para desfrutar um pouco das belezas ímpares daquele lugar situado na mais famigerada das serras lusitanas. Como não fizera a viagem sozinho, dispus de uma agradável companhia durante o passeio e o subsequente jantar. Mas as mais importantes revelações ou provas de um Homem acabam por surgir no seio do mais cru dos silêncios, quando, completamente despojado de tudo, nu se apresenta diante de si próprio.
Foram deveras curiosos os sentires e os pensares que me assomaram naquela noite, após a refeição... Já de volta ao quarto, com pouco impulso para a leitura (Steinbeck, meu fiel companheiro) e atenção para os programas televisivos, dei por mim a fitar o vazio. E de facto foi ele que, de súbito, mais me pesou: naquele quarto de hotel, em plena noite de Novembro, senti uma solidão extraordinária. Estranha constatação, direi, pois em regra a solidão é a mais fiel amante de um escritor. Como poderia ser solidão, se solidão era algo que tão bem conhecia? Admitamos: sem ela, como pode um autor exercer o seu ofício? Aquele sentir era, de algum modo, diferente sem o ser... Assumia quase os contornos de algo nunca antes sentido. O seu peso oprimia-me. Qual a razão? Desconheço… Quem pode justificar os súbitos (e amiúde obscuros) sentires da alma?
De facto, o fenómeno mais complexo de aceitar era a certeza de a solidão ser algo bastante familiar para mim. Na verdade, à parte do que antes foi referido, aprecio-a bastante. Os instantes de silêncio são sagrados para mim, pois deles retiro o necessário à fome de minha alma. E eles sempre me haviam concedido o melhor de si mesmos. Contudo, naquela noite foi diferente. Aceitei a chamada de um familiar próximo, por natural ocorrência, e o sentimento somente se adensou. Nem no seio mais quente perecia o frio implacável que voraz crescia... Pesava em mim como uma pedra e o vazio, crescente, oprimia. Sem solução de combate, aceitei o fenómeno em derradeira capitulação. E adormeci na entrega que por decreto havia feito a quem sempre me guia.
Outro dia despontou. O dia da ansiada palestra. A solidão e o vazio? Escoaram-se pelo mesmo orifício de onde vieram. Como? Uma vez mais, desconheço. Mas já vivi, senti e pensei o suficiente para saber que certas coisas são como nuvens que passam sobre nós: deixam a sua bênção em forma de chuva e, com ela, apenas nos tornam mais férteis. O evento correu de feição. Nem pensei mais no caso. Apenas me concentrei em cumprir a minha tarefa e dar o melhor de mim da melhor forma que sabia. No término desse dia, de consciência retomada, sabia que reencontrara a minha paz. Assim, de forma tão natural, evolutiva e simples, a minha luz saíra – também ela – renovada de todo esse processo. E obtivera uma nova confirmação: a evolução só abraça o Homem que a ela abrir os seus braços. Importa não esquecer tal coisa no meio da azáfama habitual dos dias rotineiros.
Mas o mais curioso de todo este processo surgiria, como complemento, alguns meses depois. Até minhas mãos chegara a correspondência que um familiar próximo havia trocado com sua esposa durante uma das suas múltiplas viagens profissionais ao longo desta lusa nação. Por outras palavras: as missivas que o meu avô materno escrevera para a minha avó aquando da sua estadia, no caso, numa das ilhas dos Açores. Ao lê-las, detive o olhar num certo paragrafo e sorri. Chegado ao hotel, num longínquo dia da década de setenta, o meu avô confessara os seus mais íntimos sentires à sua esposa, tendo em conta as circunstâncias em que ali chegara e a forma como aquela realidade o envolvera. Eis o motivo do meu leve sorriso… Pois a descrição dos mesmos era-me bastante familiar. Sim, caro leitor, o meu avô confessava sentir exactamente o mesmo que eu sentira naquela noite de Novembro, com uns meros quarenta anos de diferença. Curioso, não?
Bem sei que poderia investir uma certa quantidade de tempo em reflexões sobre o caso e respectivas conclusões. Mas que importa isso, afinal? Apesar de termos seguido caminhos distintos, eu e o meu avô materno nunca fomos, em essência, muito diferentes um do outro. E naquela simples leitura, voltara não só a confirmar essa ideia como a extrapolar a sua premissa para um universo bem mais alargado. Afinal, que ligação maior poderá haver do que aquela que se estabelece quando um sentimento é partilhado? Quando compreendemos algo há uma sensação de proximidade que nos torna, a todos, irresistivelmente humanos... Uma espécie de compaixão que somente nos engrandece e nos une. Os laços apertam-se. Nesse miraculoso acto, inúmeras barreiras se derrubam, pois a ilusão do “dois” (permita-me a metáfora) dilui-se na implacável certeza do “um”. A estrada existencial ilumina-se, por fim, e até ao alcance da sua última etapa vive a convicção de que o sol que banha o viajante é um astro invicto. Mesmo que a dualidade não cesse o seu efeito, a cortina foi já dilacerada. E será uma questão de tempo, no caso da perseverança imperar continuamente, até se revelar a solução do mais íntimo dos enigmas.




Pedro Belo Clara.




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