segunda-feira, 28 de abril de 2014

O OFÍCIO DE CAMINHAR (PARTE I)


Não se poderá considerar simplista a tarefa de expressar por palavras o impacto que certas ocorrências ou actividades provocam em nós, principalmente se o que das mesmas colhemos equivale ao degustar, por um cálice de prata, do mais inigualável dos néctares. Certas coisas, ou melhor, a ressonância do efeito de certas coisas, é, de facto, tão sublime, grandiosa e pura, que nem nas palavras, perecíveis e finitas, a sua definição pode caber, sob pena capital de proscrever sentidos que igualmente merecem o seu digno registo. Em todo o caso, ao fazê-lo, importa ter a consciência de que algo sempre se perderá, seja por motivos sumários ou, como antes se referiu, pela impossibilidade de esboçar uma acurada descrição. E o sentimento que uma boa caminhada me instiga é um óptimo exemplo de tais evidências.

Sendo o Homem um elemento detentor de tamanha diversidade entre si, ainda que em mera aparência, compreendo que por íntimas razões nem todo o indivíduo se apreste a tais actividades e, como tal, possa não se identificar ou simplesmente familiarizar com certas ideias ou parâmetros que mais adiante irei expor. Excluamos, no entanto, o ócio ou um mau investimento do seu quinhão temporal. Refiro-me aos meros “gostos ou tendências pessoais”. O que é perfeitamente natural em sua essência, se bem visto for o caso. Darei um exemplo: se dez Homens se sentarem a uma só mesa e diversas bebidas forem servidas, por certo haverá quem escolhe o vinho, quem opto pelo sumo mais fresco e quem se decide a saciar a sede na singela e translúcida água. Portanto, o que se conclui? Iguais em condição, diferentes em suas preferências. Nada de estranho reside nessa evidência.

Dado o singular carácter das caminhadas, a viva metáfora que representam e o tudo que delas se pode extrair, outras ideias são passíveis de aceitação, além da mera hipótese de “preferência pessoal” antes referida. O célebre pensador norte-americano do século XIX, Henry David Thoreau, por exemplo, no seu ensaio “Caminhada”, bem persuasivo e lúcido, afirma que «há que ter nascido caminhante para pertencer a esta casta». Sabia do que falava, sem dúvidas, ele que fora merecedor, a respeito de tal tema, das seguintes palavras por parte de seu amigo e destacado escritor, Ralph Waldo Emerson: «Era um prazer e um privilégio passear com Thoreau. Conhecia tão bem o campo como uma raposa ou como um pássaro e cruzava-o livremente por caminhos que todos desconheciam. Sabia de cor todos os trilhos que a neve cobrira e que as criaturas haviam percorrido antes dele. Obedecíamos servilmente a tal guia, e a recompensa era grande».

Voltando às palavras de Thoreau, à discussão trazidas por, num momento de escrita, mentalmente as evocar, admito não ir tão longe quanto o referido autor parecia desejar ir, se bem que compreendo as suas possíveis intenções. Pois, ao declarar tal ideia, abre-se caminho a uma certa diferenciação que considero ser, de todo, desnecessária. Um caminhante, devoto discípulo do ofício de caminhar, não é propriamente alguém “superior” ou “diferente” (não tanto como qualquer outro), apenas alguém que em si detém uma veia pulsante que a tal o instiga. Assim como o comerciante possui o seu impulso, o agricultor ou o médico. São naturezas que, embora humanas, todas elas, compõem-se de géneros naturalmente distintos. Grande parte da beleza que orna a existência encontra-se em tal princípio.

Mas, de facto, existe alguma lógica no dizer de Thoreau. É preciso ser-se “caminhante” de origem para empreender a caminhada, apreciá-la e dela fazer um acto contínuo, quase indissociável do ser que a pratica. Se o marinheiro sente, desde cedo, o apelo do mar, o caminhante sente o irresistível apelo da estrada. Eu mesmo, admito, deleito-me e diluo-me nessa estranha magia que paira por uma estrada deserta distendida até ao horizonte, onde os reflexos de um sol nascente ou as mais vibrantes cores de um fogoso ocaso somente adensam a eterna promessa de infinito. Sim, caro leitor, se os caminhantes são mesmo uma casta, como Thoreau gostava de afirmar, de bom grado admito que a ela pertenço.

Como saber, no entanto, que impulso nos guia e alimenta? Em muitos casos, a estrada só sussurra o nosso nome quando pela primeira vez nela nos quedamos, prontos a navegar as ondas de todos os ventos. Noutras circunstâncias, de génese mística, existe uma espécie de feitiço que parece guiar o ser a determinados lugares, a determinadas práticas ou sensações, por forma a iniciar o seu percurso de aprendiz. Passada essa fase, sabendo o espírito o que o eleva e cativa, a união será fatal.

Na realidade, a partir do primeiro instante em que colocamos o pé na estrada nada mais será como dantes. O prelúdio do ofício conheceu a sua material manifestação, e todas as vindouras etapas se apressam a tecer os seus conteúdos. É o mesmo que pegar num copo de água e nele largar algumas pedras de sal. Assim que se dissolver, não existirá parte alguma daquela água que se prive de sódio. Já não o vemos, é um facto, mas o sabor que o líquido apresenta não permite margem para enganos.

A que se deve tal fascínio? Primeiro, como antes fiz menção, é necessário sentir o caminho e, claro, querer caminhar. É importante desejá-lo, numa fase primordial. Depois, com a disciplina necessária, transmutaremos a prática e dela faremos um simples acto, banal e quotidiano – sem que o mesmo se prive da sua digna virtude. O caminhante tornar-se-á a fímbria da estrada, a pedra do caminho, o grão do vento... Até compreender a eternidade que reside em si e que, a cada caminhada, se plasma no trilho que tem pela frente. Poderemos estar já a falar de “transcendências” que se arriscam a sair da órbita percepcional de cada leitor, aceito essa ideia, mas quem se permitir a cultivar a prática acabará por compreender ainda melhor aquilo que agora escrevo.

Na verdade, o acto de caminhar comporta mais espiritualidade do que materialidade, ainda que tal ideia possa parecer paradoxal. Cada indivíduo caminha com os pés assentes na estrada, sim, mas o que importa não é a posição de caminhar, antes a disposição para a caminhada. Com a prática, estou certo, estas e outras ideias terão um novo sentido. Como em tudo, é necessário a prática, a disciplina e a perseverança. A raiz de uma árvore é amarga, naturalmente... Mas o que dizer de seus frutos? Doces como o mel. Pois, quando nos iniciamos neste ofício, é como se pegássemos numa peça de prata, antiga e valiosíssima, cujo brilho, se o teve, aparenta estar completamente extinto. Contudo, com esforço e dedicação, somando os materiais necessários ao efeito, iremos perceber o quão lustrosa era, ou melhor, sempre foi. Apenas os anos fomentaram o seu desgaste e obscurecimento por escassez de uso. Depois, é vê-la magnífica como sempre – a sua real beleza fora enfim revelada diante do nosso anteriormente turvo olhar.

Com o Homem o caso é idêntico. As próprias incidências da vida material e a existência de um corpo que aparenta ser a sua real identidade tendem a fazê-lo esquecer de que há um espírito que exige cultivo, limpeza e cuidado. Múltiplas são as formas para cumprir tais exigências, e a caminhada é somente uma delas. Isto porque, em sua natural execução, comporta uma certa abnegação, um desprendimento sadio, um fluir que faz o caminhante compreender como a vida pode ser vivida: de forma idêntica à de um rio correr. Como se não bastasse, o cenário envolvente de igual modo fornece elementos que nos auxiliam no cumprimento do propósito, ainda que, para tal se suceder, recomende um passeio de índole bucólica. Pois as cidades, de tão densas e aprisionadas, nem sempre se afiguram como a melhor solução. Mas o mais importante é que cada caminhante execute a sua escolha e com ela sinta o maior dos confortos. Não obstante, existe ainda o ritmo da caminhada, um apelo sincero à agudeza da percepção, que leva, invariavelmente, a um estado de consciência e serena vigilância. Constataremos, assim, o modo como em cada passo tudo por nós passa... Árvore, flor, ave, pedra, curva, semelhante. Eis o anunciar de um dos princípios mais sólidos de toda a existência material: a impermanência do perecível.




Pedro Belo Clara.





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