terça-feira, 22 de maio de 2012

Sobre a Liberdade


Através da leitura de muitas outras publicações anteriores, ficou sublinhado o seguinte facto: a Liberdade, aquela que – a par da Felicidade – muitos de nós procuram trazer até suas existências, reside em nossas escolhas. Sabemos, por isso, que elas poderão ser árduas ou comportar insuportáveis consequências, mas, ainda assim, o opção está sempre em nossas mãos. Esta procura, que em inúmeras ocasiões constitui o mote de uma só vida, poderá demorar-se por toda uma existência, valorizando-a e preenchendo-a com um louvável significado. Contudo, nada existe que não possua o seu término. Aliás, algo terá sempre de cessar para que um outro algo se inicie. Ao entender isto, estaremos, desde já, a autorizar o fluir do Caminho e de seus elementos e ocorrências – ou, fazendo uso de outras palavras, permitir que um livre fluxo corra por nós.  

No entanto, desejamos muitas vezes a Liberdade sem nada fazermos para a experiênciar. E isto porque, em súbitos assaltos de um receio de perda, colamo-nos de uma forma intensa, doentia até, a certos objectos, situações, experiências ou indivíduos. Tememos sempre a mudança, é certo, e o agarrar de algo que nos é familiar concede-nos segurança, um estagnado equilíbrio. Ainda que possa ser o Amor a razão que a eles nos prende, é um facto de que a verdadeira expressão desse sentimento comporta a Liberdade, não o apego ou a manipulação. Contudo, o mundo em que vivemos ainda se rege por antigos padrões e nós, de certa forma, permitimo-nos ser moldados pelos mesmos, muitas vezes até de uma maneira imperceptível e, como tal, inconsciente – o que só ressalva a importância do despertar consciencioso. Por isso, sentimos dor e desolação relativamente a situações diversas, algumas até banais, situações em que, se entendidas fossem sob um aspecto de vista diferente, dar-nos-iam motivos para sorrir ou celebrar em serena alegria.

Um determinado grau de certeza pode verdadeiramente fornecer um terno conforto, mas tudo é efémero – e o Homem que de vera sabedoria se dota entende isso mesmo. Como tal, desapega-se e toca a Eternidade. Porque experiênciar a Liberdade ou desejar estar (ou ser) livre não implica necessariamente tudo abandonarmos para constituirmos residência em um bosque ou caverna longínqua, adoptando um modo de vida introspectivo e de reclusão – exceptuando os casos em que intimamente sintamos tal apelo, pois nisso nosso maior guia – o coração – é soberano. A Liberdade faz-se antes sentir a partir do não domínio e da auto-preservação (tudo se cria e regenera por si só). Se vivermos e deixarmos viver, estaremos a despojarmo-nos de muito! E a ideia desta reflexão vai muito mais além da atitude indolente, leviana ou despreocupada que ela deixa transparecer… Pois todos puxamos para nós as responsabilidades que desejamos aceitar, sabendo de antemão que elas detêm uma tendência para nos aprisionar. Atravessamos problemáticas situações e demais complicações, mas ser livre representa precisamente o saber impedir que tal peso nos afecte, plenamente confiantes em nós e, não obstante, na roda que gera a Vida. E é nesse mesmo despojar que experimentamos uma das mais altas formas de transcendência aqui possíveis, neste plano onde a Alma ainda se encontra anexada a seu veículo, nossos corpos.

Escuta os teus apelos de coração e eles sintonizar-te-ão com a Energia Suprema – serão os ventos que bafejarão as velas de tua embarcação! Nada esperes, antes confia, encontrando as razões da tua própria crença; entende quem és e sê essa verdade, fluindo, certo de que tudo é mutável e passageiro, de que tudo se ergue e se replanta.


Pedro Belo Clara.





quarta-feira, 16 de maio de 2012

Fluir pelas margens do Ser


O Caminho prolonga-se até ao Infinito. Ele próprio, em sua autêntica verdade, não é dizível ou palpável; existe como coisa eterna, pulsante e mutável, como rio que flui e sua forma transmuta. A sua eternidade reside naquilo que percepcionamos como “momentos”, e eles sucedem-se, a todo o instante, como pequena parte de um ciclo maior, amplamente Universal, a roda que tudo rege e tudo faz girar. O seu segredo maior reside no “agora”, no presente instante, e não num passado que findou ou em um futuro indefinido. Se nele vivermos, ou pelo menos nele focarmos nossa atenção, conseguiremos atingir um novel estado de percepção, diferente do que até aí havíamos experimentado. Em suma, se nos tornarmos fluidos, como folha caída por sobre as águas de um grande rio, revelar-nos-emos conscientes, livres, soltos de qualquer incómodo peso, e confiantes de que, em época propícia, atingiremos a foz, desaguando depois no grande Mar. Mas até que ponto é que se estendem as nossas acções deliberadas? Poderemos interferir num fluxo de ocorrências?

Possuímos nosso direito de escolha, uma opção que nos definirá e, obviamente, nos trará as devidas consequências (para uma causa existe sempre um determinado efeito, assim como o eco devolve, amplificada, a vibração de nossa voz). Por isso, a hipótese de fluir pelos momentos assume, claramente, uma posição de escolha a ser realizada. Ela existe, tanto como os demais possíveis rumos, exacta e perfeitamente viáveis – a opção apenas reside em nós. Contudo, é importante compreender que existem certos elementos e eventos que se encontram fora de nosso alcance, pelo que, como consequência, não os controlamos. É fácil sentirmos um crescente poder, quando definimos um caminho ou traçamos um rumo por nosso próprio punho e deliberada atenção, e tudo vemos a se erguer e, por fim, materializar. Ainda assim, em tempos de maior turbulência, seremos atacados por uma oculta insegurança, um medo que pela calada nos congela o discernimento. E, no seio de tal encarceramento, uma irascível frustração reclamará o seu domínio. Poderemos nos debater, mas nunca possuiremos uma força superior à corrente do rio que nos transporta. Essa é uma inútil luta que em nada nos beneficiará, apenas imprimirá de forma mais funda e indelével suas feridas e dores. E é por isso que ganha um enormíssimo relevo a oportunidade de cultivarmos em nós o não agir, o não saber e o não ser – estados onde uma derradeira liberdade é alcançada. São apenas parâmetros que, no fundo, sustentam a fluidez de ser e estar, ao mesmo tempo em que não somos nem estamos – divino paradoxo! Ou seja: atentos espectadores do mundo que por si se desenrola, vazios como o livre vento e eternos como o Infinito.     

Ao sermos fluidos, entendemos que existe uma certa impotência passível de ser aceite, no doloroso auge de nossa humana fragilidade. Assim são as regras deste jogo que aceitámos jogar, assim se compõem os elementos que habitam e funcionam em pleno neste material plano, onde por ora existimos. E diversas são as vias de sua anuição, pois, uma vez mais, o Indivíduo percorrerá sempre o caminho que mais lhe convier, aquele que mais se adequa à sua peculiar natureza. Afinal, exceptuando a situação em que o própria desejaria modificar-se, nunca poderemos esperar que uma laranjeira faça crescer figos em seus ramos, pois tal não lhe é natural; e, se o fosse, revelar-se-ia uma figueira, assumindo uma condição que certamente nunca foi a sua. Cada coisa, portanto, está em seu devido lugar. Assim, seja pela Fé, pela Revolta, pela Esperança ou até pela Dor, sabe-se que, no fundo, todos se apresentam como díspares rumos que nos guiam ao mesmo destino, com mais ou menos curvas e pedras a distingui-los. Por isso, essa aceitação poderá ser perfeitamente suave, se a isso estiver receptiva a Alma que tanto indaga. Em alternativa (infelizmente a mais comum), sempre poderemos ficar a contas com o assombroso e pesaroso ânimo, que se enegrece como uma vil assombração. Mas nós já não vivemos para carregar tremendas pedras, antes para delas nos libertarmos! Tudo poderemos aceitar, desde que cientes estejamos dos limites de nosso raio de acção. Poderemos decidir não intervir (cultivando a não acção), mas, se o fizermos, debater-nos-emos com nossa impotência. Aí, importará entender que a situação compreende duas partes, uma espécie de trabalho de equipa entre o Indivíduo e o Caminho em si. Façamos, então, tudo o que sentirmos estar ao nosso alcance, mas conscientes de que o resultado final nunca dependerá exclusivamente de nós. É aqui que poderemos modificar um pouco o curso das águas, sem com ele contendermos, mas apenas se tal possibilidade nos for permitida. Afinal, sabemos que uma longa história foi há muito escrita e definida, por nós e outras consciências. Se acreditarmos em um Bem que nos assiste e o deixarmos viver e actuar em nossos rumos, tudo se resolverá por si e por si se encaminhará.

Celebremos, então, o Sol de nossos Verões, sabendo que em breve virá o Inverno com seus nevões e insanos ventos. Estando a esse aspecto abertos, permitiremos que a Serenidade e a Plenitude nos habitem, enquanto que uma inabalável certeza se fortificará no silêncio de nosso íntimo. Quem disse que esta Vida divina que experimentamos deverá ser sombria e taciturna? Cada um cumpre o seu caminho, é certo, mas a opção de sermos livres existe! Poderemos cultivá-la no imenso terreno fértil que é o nosso sábio coração. Mesmo que a Vida nos traga dureza, saberemos que essa é a sua prova, e que suaves nos poderemos revelar, apesar de tudo o mais.

Sejamos fluidos; e mais próximo estaremos de abraçar a eternidade que reside no Todo, aquele que desde sempre nos enlaça e que tão ardentemente anseia o nosso esperado retorno.


Pedro Belo Clara.




quarta-feira, 25 de abril de 2012

O Indivíduo e seus semelhantes


Por nós próprios trilhamos os quilómetros de nosso caminho, mas não estamos sós no Caminho: há rumos que se entrecruzam, aromas que se desfrutam, cantares que se evocam, rostos que se saúdam e inolvidáveis olhares que se amam. Contudo, caminhamos sós; pois é dessa forma em particular que cada Alma se une a si mesma, até retornar ao infindo mar de onde ela, exígua gota, se escapuliu. Cada indivíduo vale por si e possui um rumo próprio. Mesmo que desprovido estivesse dos adereços de um ego de volúpia e soberba – ambições, projectos, desejos –, não deixaria de possuir um rumo. A única diferença entre ambos reside numa postura específica: navegar ao sabor das vagas sucessórias ou remar pela sua turbulência. Cada Ser, assim, valendo-se dos métodos que lhe sejam mais úteis a seu crescimento e desenvoltura, representa um peculiar universo, um pequeno mar contido em um outro, imensamente maior (como antes referi).

Os raios que provêem do sol não se despojam daquela mesma luz que reside no núcleo de tal estrela. Em todo o processo de despertar consciencioso, tal aspecto revela a importância de seu entendimento. De facto, todos nós partilhamos algo com os demais que nos circundam; existimos por nós próprios, mas não estamos sós – todos possuímos nossas marcas, alegrias, dores, histórias, valência e vicissitudes; algo que só servirá para nos aproximar, fomentando nossas qualidades humanísticas. E assim é porque todos nós, sem excepção, decidimos pegar em nosso cajado e empreender uma (nova) viagem pelas planícies de um mundo de experiência – o nosso palco de ensino e aprendizagem. Por isso, sabemos que cada liberdade é eterna, embora encontre o seu término nas fronteiras de nosso vizinho; sabemos que a aceitação, a tolerância e o respeito por nosso semelhante são cruciais à consolidação do dotar de notáveis capacidades sociais (no fundo, aquelas que deverão povoar as mentes que, por sua vez, povoarão novas e evoluídas sociedades). Deste modo, estaremos a contribuir para o fomentar de uma co-existência pacífica, embora não devamos ser inocentes ao ponto de ignorar o facto de que um barco, para navegar, não só necessita de vento e de boa maré, mas também da vontade de seu comandante em navegar.

Todas estas e muitas outras essências pairam pelo olhar que se ergue e perscruta para além da penumbra. De entre elas, o saber de que não possuímos o direito de intervir em algo que não é nossa pertença. Aliás, essa é mais uma ilusão fermentada nas barricas do ego: o apego a algo que não nos pertence, embora intimamente nos consideremos seus proprietários. De forma verdadeira, em todos os aspectos, apenas somos responsáveis por nós próprios – somos o pequeno universo que regemos –; o restante trabalho resume-se ao capítulo da orientação. Mas, obstinados, imersos em problemáticas dores e questões, permitimos que se enuble a percepção e invadimos terrenos alheios – essa é a causa da deturpação enganadora. E quantas querelas não já se alimentaram de tais posturas? Vivemos em sociedades de Ter e não de Ser, logo continuamos agarrados a um poder mórbido e à sua necessidade de vitória, de imposição e de esmagamento total. Ao tornarmo-nos conscientes, saberemos que, ao invés de impor a nossos semelhantes os parâmetros e os rumos que julgamos serem certos e a eles adequados, a via de não agressão subsiste em conceder-lhes apoio em suas escolhas de rumo e caminho, mesmo que estas difiram daquelas que para eles havíamos pensado. Repito: cada indivíduo vale por si só; e tal é passível de ser respeitado. É claro que tais actos são, na maioria das ocasiões, feitos ou impostos em nome do maior dos ideias ou da melhor das intenções. Mas, uma vez mais, sobressai o seguinte: gostaríamos que terceiros adoptassem o mesmo comportamento que adoptamos perante os demais? É claro que podemos oferecer, a esses companheiros de caminho que tanto amamos, uma válida via, expor vantagens, mas toda a final decisão caberá ao interessado – e é isso que deveremos aceitar. Afinal, se a andorinha adoptasse o comportamento do rouxinol, ela por certo mudaria o seu canto e as suas cores, passando, por fim, a ser um mero rouxinol.

Nas veias deste dizer corre, pulsa e se expressa um amor, livre de condição, que nada pede nem nada exige, pois é veramente incondicional – um amor que está em nós e cuja oportunidade de aplicação reside naquilo que já foi dito. Cuidamos e amamos os que nos rodeiam através de nossa força, cooperação e carinho, simples e espontâneo, e não pela imposição de ideias que, no fundo, só a nós nos servem (pois por nós foram formuladas). Fluamos nós pela Vida e deixemos que os outros façam o mesmo! Confiando, por certo chegarão ao porto onde mais são esperados. E, sempre que a situação o exigir, teremos nossa fortaleza para os abrigar e nossos amplos braços livres para os amparar.


Pedro Belo Clara.




quarta-feira, 18 de abril de 2012

Numa carruagem de comboio


Devo admitir que sempre apreciei o aspecto análogo – em alguns casos até metafórico – inerente a uma simples carruagem de comboio e seu expectável comportamento. É um autêntico retratar de diversos aspectos de uma existência! As estações por onde se queda e as pessoas que nela entram e saem, tal como o fazemos durante nossas vívidas experiências, nessas viagens onde cruzamos tantos rumos e despedimo-nos de outros tantos rostos, apenas para nos revelarmos receptivos ao encontro dos que ainda passarão por nós. O mecanismo aleatório que existe nesse simples fenómeno é deveras significativo, um digno exemplo de um “acaso” tão simples e aparentemente inocente, mas profundamente certo e sapiente. De facto, a lógica aparentemente oculta que segue é uma belíssima reprodução daquela que, em muito maior escala, paira pelo Caminho de todos nós. Desejamos entender alguns aspectos de seu funcionamento? Atentemos no funcionar da carruagem de um comboio em viagem…

Foi numa dessas mesmas viagens que me deparei com um demonstrar igualmente interessante (e não menos desprovido de propósito e sentido). Observava, como quem entende, um certo companheiro de viagem e o aparente interesse que dedicava à leitura de uma publicação banal. Via, lia, desfolhava e esforçava-se por compreender e por forjar mental parecer, completamente imerso naquela sua actividade. Dir-se-ia até que toda a sua vida se resumia a isso, tal a habilidade com que executava essas operações. Contudo, quando se anunciou a estação pela qual esperava, curiosíssimo foi verificar a rapidez com que se desprendeu daquela actividade para sair em seu esperado destino. No fundo, se conseguirmos captar uma interpretação profunda desses simples gestos, entenderemos que é daquela forma que se comporta o Homem em seu próprio processo evolutivo. Quando despertamos, quando visionamos horizontes mais amplos, de pronto abandonamos actividades e interesses (capas que não mais nos servem, entenda-se) até então tidos por vitais, agora que supérfluos se revelaram. Também aquele companheiro não hesitou em abdicar de sua leitura, outrora tão válida e imprescindível; nada mais dela poderia retirar e, no mais íntimo de si, entendeu esse vero impulso. Além disso, como dedicar a mesmíssima atenção àquela publicação se, ao mesmo tempo, estivesse a caminhar pela estação? Aquela actividade esbulhara-se de sentido… Tomou a sua decisão e abraçou o seu crescimento interno. Em termos mais fundos, ele sabia onde iria sair, sabia qual seria o passo que devia esboçar, sentia aquilo que seria o seu destino – a simples materialização que um Bem superior, a seu silencioso pedido, lhe concedeu –; e de pronto abandonou o veículo que o auxiliou a alcançar tal posto, agora que se desprovia de significado. Se considerarmos com a atenção devida, de que lhe iria ainda servir?

Eu, por minha vez, continuei viagem e perscrutei outros companheiros que somente despertavam ao anunciar de sua estação (mas que concentravam o mesmo ânimo em nela sair), outros que nem a esse sinal abriam seu olhar, tal era o estado de marasmo e letargia em que estavam imersos, e outros até que, contrariando o exemplo que à pouco referi, seguiam suas actividades de leitura atrapalhadamente, como se permanecessem instáveis, com um pé em duas estradas de diferentes sentidos… Mas eu tinha a minha música; fora minha fiel companhia durante toda a viagem. Permaneci atento, conservei-me desperto e alerta, mas sem perder minha serenidade. E quando se anunciou a minha saída, terei dela abdicado? Não… Como poderemos abdicar de algo que tão intrinsecamente faz parte de nós? Algo que se funde com a nossa natureza? E aquelas canções que vinha escutando representavam isso mesmo, o meu ser revestido de múltiplas formas e cores. Com elas eu transcendia, visitava planos cuja entrada nem sempre consigo encontrar. Sim, elas também eram o meu veículo, um transporte subtil que ainda não me encontro apto a abandonar, da mesma forma que antes já o fizera, em tantas outras etapas percorridas e vencidas. Chegada a minha vez, com elas eu parti rumo ao horizonte que sempre me espera, até que ecluda o instante em que delas não mais necessitarei, onde talvez me encontre solto, livre e vazio, como o vento que me perfuma de histórias e de aromas distantes.

E assim se dispunham os componentes daquele cenário, assim povoaram por breves instantes uma carruagem de comboio – assim existimos nós por nossas abençoadas existências, viajantes de causas que no seu fim convergem em uníssono, atentos à estação que sentimos ser a nossa saída, mas sem jamais perder de vista o vasto horizonte, sempre inalcançável, magnânime e redentor, como uma promessa que se quer eterna no final de cada dia.


Pedro Belo Clara.




quarta-feira, 11 de abril de 2012

Os cárceres como nossa condição


Mais do que poderemos considerar, os cárceres são comuns em nossas existências; quase que dela são parte integrante e, por consequência, nós somos sua pertença. Vivemos algo resignados em relação a este assunto, deveras acomodados como animais de hábitos que julgam o mundo por aquilo que dele sempre conheceram e, como tal, declaram ser a única realidade plausível (e possível, igualmente). Simplesmente, se abandonássemos esse estado amorfo de consciência, esse marasmo que permitimos habitar nos dias, estaríamos aptos a admirar novos horizontes, consideravelmente mais amplos.  E, ao vislumbrar uma beleza sem par, quem é que desejaria, por livre e ciente vontade, regressar aos pântanos onde até então residia? É aqui que refulge o carácter evolutivo da consciência humana, onde a conservação do mistério final se assume como motivo de busca eterna, até que nele nos possamos fundir. Assim, por certo compreenderíamos, por mais esclarecidos estarmos e por novos ângulos de visões possuirmos, o quão prisioneiros éramos. Pois certos aspectos apenas se confirmam quando deles nos afastamos e, com um global entendimento, constatamos a real dimensão dos mesmos.

De facto, se de momento nos debruçarmos sobre tal exercício, por certo iríamos entender que todos somos prisioneiros de algo ou de alguém. Por mais árduo que seja de admitir, todos nós nos achamos encarcerados sob díspares formas: em nossas casas, em nossas rotinas, em relações decadentes e destrutivas, em ocupações inúteis, em receios, em vícios, em ilusões, em objectos, em superstições, em imposições, em julgamentos, em moralidades, em institucionalizações… Enfim, a lista é por demais extensa. Mas é precisamente devido ao facto de sabermos que a Vida nem sempre é um fácil caminho que podemos adoptar várias posturas, mediante a situação anunciada. E uma das mais naturais é, por si só, a arte de caminhar. Se todos nós somos caminhantes, ainda que nos encontremos parados ou adormecidos, porque não optar pela caminhada, no mais real e físico sentido da palavra? Pois, ao fazê-lo, estaremos a experimentar um tipo de liberdade bastante peculiar, atingindo um estado de plenitude e de soltura equiparável ao do vento que nos bafeja o rosto. É claro que, para tal acontecer, exige-se prática e paciência para atingir resultados palpáveis. Mas, ao menos, naqueles instantes de passeio (por mais breves que sejam), estaremos a nos despojar de tudo o que nos possa pesar e oprimir, deixando que o coração se transforme e se encha de Vida! Embora a batalha (que deverá ser serena, diga-se) contra as investidas da mente possa ser bastante longa e fatigante, quando vencida, o Ser apresenta-se como um autêntico vazio, a junção infindos espaços onde somente pulsa uma luz, a nossa própria Luz, aquela que é, por ora, a nossa identidade mais profunda. Mas, como sempre digo, esta é apenas uma de muitas válidas vias, já que ao indivíduo cabe a descoberta dos caminhos que o levarão ao seu íntimo oculto.

Todos possuímos hipóteses de escolha, e é bom que tal aspecto permaneça activo. Mesmo que não as consigamos encontrar, saibamos que todo o Ser pode ser livre, simplesmente através do caso de escolher ser livre! Jamais poderá ser natural o facto de, por exemplo, encararmos nossas ocupações como meras obrigações, pois um trabalho, seja de que tipo for, deve completar o Homem, nunca o aprisionar. Apenas consideramos, por moldados estarmos de acordo com velhos padrões (ainda vigentes), que tal deve ser assim, que se trata de uma imposição à qual ninguém poderá escapar. Quão enubladas estão nossas percepções… Em dias claros, entenderíamos o prazer que o Homem poderá retirar de sua ocupação! Onde está, então, nossa felicidade? Aparentemente, bem longe das escolhas que tomamos, aquelas que inevitavelmente nos conduzem ao encarceramento. Porque permitimos que o medo impere? Nada nos é imposto, somos viajantes que vogam ao sabor do vento! Porque forçamos a Vida e com ela contendemos quando apenas a deveríamos deixar fluir, confiando plenamente em seus desígnios? Eis o salto de fé que ficou por dar. Mas a mudança reside em nós, e todo o tempo é válido quando decidimos seguir o que de mais secreto em nós lateja. O mundo pode conspirar em nosso favor sempre que intentamos algo e as correntes do Rio Universal mudam seu curso, mas o primeiro passo, a prima consciencialização, terá sempre de partir daquele que se deseja desencarcerar. No seio de nosso silêncio, encontraremos sempre orientação, se a ela estivermos abertos e dispostos a aceitá-la. Depois, importa anuir toda a consequência que de tal acto poderá advir – é crucial para nossa libertação! Pois, não em raras ocasiões, não nos disponibilizamos a carregar tal peso; e, por isso, consideramos que nos encontramos numa situação desprovida de escolha. Mas ela sempre existe, dentro daquilo que se encontra ao nosso alcance. Poderemos optar por “opções menores” ou “minimizações de impacto”, mas tais hipóteses não deixam se ser escolhas! Até mesmo quando sentimos que nada mais há a fazer, excepto fluir no curso natural da Vida…

A Vida é o momento, ela tece-se no agora; como tal, é no agora que reside a oportunidade de se libertarem e de admirar os vastos horizontes. Não num amanhã, mas no agora; agora, onde nossa existência se desenrola e enriquece. Sejam quem são, fluidos e naturais, e em breve já serão outros (sem jamais deixarem de ser vocês próprios), sigam aquilo que amam e vos faz feliz, pois a Vida não mais é do que um palco de descoberta, aprendizagem e, acima dos demais, celebração. Em consequência, provarão o mais doce dos méis que adocicam a existência humana. Atrevam-se a tal! E tocarão no rosto do Infinito apenas com um simples respirar.


Pedro Belo Clara.





quarta-feira, 4 de abril de 2012

Posturas e formas de Ser


Descendo uma longa alameda, da mesma forma que todos nós um dia já o fizemos, atravessamos elementos de adorno, presenças inertes ou pululantes que em nosso redor se fazem notar. Com a percepção aguçada, somos capazes de as receber sem procedermos a fáceis juízos sobre os seus propósitos. No fundo, ao abdicarmos de tal, estaremos a nos despojar de algo que tanto impera nos dias de hoje – o ego. E isto porque permitimos que a Alma se sobreponha à mente, sempre célere na construção de suas considerações. Em certa medida, assumimos um papel de imparcialidade, o que nos leva a questionar o seguinte: vivemos em sociedades construídas sobre os egos, onde somente é valorizado aquilo que alcançamos e não o que somos ou poderemos ser; portanto, se assumirmos em outras ocasiões essa mesma transparência, esse comportamento imparcial de alguém que simplesmente observa, um rude e profundo golpe será dado nessa vã metade do ser. Acima de tudo, o que aqui somente está implícito é a possibilidade de nos tornarmo-nos fluidos nos eventos da existência, simples e livres como uma folha boiando na corrente do ribeiro, sem pensamento, desejo, plano ou ambição opressiva. Ser, apenas; sem, no entanto, ser, na realidade – um certo meditar que apronta o contacto com algo superior e, por isso, purificador (pois a soltura será o sentir dominante, prova de que algo de desprendeu em definitivo ou, pelo menos, em breves instantes de comutação). Este exercício carece sempre de experimentação, pois os resultados e os efeitos concretos só por si é que emergirão. Em suma, trata-se de uma postura perante o Caminho e seus adventos sucessórios, uma postura que nos anuncia como simples caminhantes, aptos a cada vez mais saberem de sua verdade e, com isso, a entendê-la e aceitá-la. Assim, as fronteiras da consciência assistem a uma considerável abertura de espaço (se de mais nos despojamos, mais livres e leves nos tornamos), o que somente irá preparar um fértil terreno ao cultivo de uma novel visão.

Mas nestes tempos de sucessão e de natural transmutação – ou seja, evolutiva –, permanece a Vida, simples e imperial, sóbria e vasta como as águas imensas de um oceano azul. E, com ela, todas as experiências vindouras e suas promessas, as causas de várias acções passadas, hipóteses de novo crescimento e de novos rostos a serem descobertos ou reconhecidos; enfim, todo o seu potencial, esplendor e magnanimidade a cintilar num esboço de vivência. No entanto, bem sabemos da existência da Chuva e da possibilidade de já na próxima curva ela se manifestar… Ou não fosse este plano o manancial da dualidade, do contraste vívido entre contrários. Por isso, quem caminha veramente, não deseja mais que a criação, não se opõem ao natural desenrolar da multiplicidade (pois tudo existe, tudo é natural e fluido), e sabe, no âmago de si, numa intuição tão vera e divina, como tudo se sucede e comporta. Contudo, se em um qualquer dia de passeio, atentarmos em vários semblantes e nas histórias pessoais que cada um deles em silêncio conta, veremos que reinam em número aqueles que ostentam as marcas de uma vida, suas feridas, cansaços e desilusões. Em contrapartida, diminutos são os que, mesmo não ocultando os seus íntimos sinais, irradiam uma luz resplandecente, a luz de quem vive e, ainda assim, crê fortemente numa nova madrugada, onde o seu Ser mais puro em liberdade cantará ao banhado ser pelos primos raios de um sol renascido. E é aqui que subsiste um espaço para a diferenciação, pois é a postura adoptada que na sua globalidade os define. Se num momento de recato, em instante de necessária meditação, nos relembrarmos de tais imagens, por certo atingiremos tal conclusão (e consequente mensagem a ser retida).

Uma vez mais, tudo se resume a uma única escolha; árdua, talvez, mas ainda assim uma válida escolha. Quem afirmou que deveríamos perecer após o desferir do primeiro golpe? Algures, em todos nós – e importa que isto seja sublinhado, para claro ficar –, reside a génese dessa força, seja pela fé, pela esperança, pela compaixão ou pelo amor. Múltiplos são, para sumariar, os caminhos que nos guiam até ao cerne da Alma e inúmeras as vias da ascensão plena. Recordam-se da publicação em que abordámos as vias do coração? Evoquem tais palavras e construam agora vosso parecer, sintam-no como sendo vossa pertença, como sendo algo da vossa natureza. Deslizem pelos segundos que em ilusão povoam o dia e, caros viajantes, com as vossas bandeiras bem fincadas alcançarão o harmonioso alvor onde o Nada é Tudo, e o Tudo é… Nada.


Pedro Belo Clara.



quarta-feira, 28 de março de 2012

Do cimo de uma colina


Estando aqui, no cimo de uma verdejante colina, não posso deixar de reter a imagem única e peculiar que traduz o mundo em redor, diminuto sob esta perspectiva, nem tampouco de com todos vós a partilhar – ou não fosse essa uma das grandes virtudes da Vida que experimentamos. De facto, quando nos encontramos imergidos num vasto mar de problemas e de densas questões, não existe uma melhor via de com tal coisa lidar do que essa, isto é, proceder ao afastamento temporário desses nossos pesos. Tal como se nos achássemos no topo de uma qualquer colina, constataremos aí que nossos problemas, afinal, eram simplesmente insignificantes. A distância detêm esta valência: a revelação do real tamanho do negrume que sobre nós julgamos ter pousado (algo que só fará que tais eventos percam a sua vital importância). Até daqui, deste lugar onde me encontro, o imenso mar azul não passa de uma bela mancha distendida pela paisagem. Mas, para além disso, não poderemos igualmente olvidar a hipótese luminosa que reside neste exercício: a aparição da resposta ou da solução que tanto ansiávamos. Pois, em prática, ao sairmos do cerne de nosso avassalador turbilhão, permitimos que nossa consciência, mais solta e leve, possa considerar sobre o assunto em causa e sobre a melhor via a tomar, aquela que nos levará até à sua final (e quem sabe definitiva) resolução.

É agora, para mim, hora de partir; mas não o desejaria fazê-lo sem antes vos dizer que, com a minha ida, tal lugar se encontrará disponível para vós, para todos aqueles que, a seu tempo, quando os corações implorarem por tal escape, conquistarão a sua íntima colina e, dela, assistirão ao desenrolar quotidiano dos dois mundos onde existem. E talvez como eu se sintam curiosos por assistir ao desenvolver do habitual cenário que nos acolhe e ao comportamento, ora espontâneo ora mecânico, daqueles que o compõem. Observarão, certamente, carros que vão e vêm, desenfreados como ventos loucos que desbravam as livres estradas, aviões que esvoaçam e rompem nuvens, plenos de passageiros, pedestres que seguem seus caminhos, concentrados e fechados em pensamentos que só eles sabem e, então, talvez sintam uma estranha sensação de realidade contínua, uma eternidade presente nos momentos sucedâneos, aos quais, contudo, quem por eles passa a eles obedece. Depois, terminados esses passeios, essas buscas que aparentam ser infindas, esse pulular de íntimos desejos ou o cumprimento de uma imposta tarefa (pelos próprios ou por outrem), talvez consideram igualmente curioso verificar como todos se apressam em regressar àquilo que os espera, sejam familiares semblantes, a inércia de pálidos objectos ou o simples e (para eles) redentor vazio. E, aí, sedentos por algo mais a identificar, talvez compreendam que todos se encarceram voluntariamente. «Os lares são e sempre deverão ser abrigos, jamais prisões…», dirão vocês, no auge da maturação de uma súbita ideia. «Porque desejamos provar a liberdade em nossa existência, se à primeira lambida nada degustamos e logo retornamos aos cárceres rotineiros? Que medo cresce oculto na noite dos que não questionam?». Verão, talvez um dia, que toda a vida pré-definida aparenta estar verdadeiramente direccionada nesse sentido. Pois, à noite, se ainda permanecerem no cimo de vossa ínclita colina, assistirão à vasta gravura que se pinta com as luzes que piscam nos prédios, essas meras torres de betão frio e indiferente que infestam o horizonte, e observarão – no silêncio que então se instalar pelos arruamentos – as exíguas luzes que aí se acenderão e outras que permanecerão apagadas, esgotadas ou idas, como as existências que habitam essas quadradas habitações… Se apenas soubéssemos da existência de algo maior, de apenas conseguíssemos e, antes disso ainda, tentássemos sentir e, com o resultado desse sentimento, nos abríssemos a uma crença reveladora… Ah, caros viajantes, o que não poderia então ser feito! Mas muitos ainda não compreendem o dialecto que o Caminho sussurra na quietude dos sonhos e das ilusões…

E, ao abandonarem por fim esse local, deixando-o livre para aquele se seguirá (embora sem nunca olvidarem o motivo que até ele vos guiou), talvez o façam com o mesmo pensamento que paira pelas galerias de minha mente, talvez pressintam que cada um de nós, por si, seja um dia finalmente bem sucedido nessa emudecida demanda pela luz, a verdadeira Luz reveladora dos corações que latejam, e, então, rendidos ao esplendor anunciado, se lembrem de quem verdadeiramente são e de tudo aquilo que ainda poderão executar em prol de si mesmos, de seu semelhante e da comunidade que a ambos acolhe. Talvez, queridos irmãos, nos fermente então a vontade de erguer nossos semblantes, de atentarmos nas estrelas e entendermos que, embora quedadas e mudas estejam, elas sabem de sua verdade e felizes são em sua verdade, e que, graças a essa sua certeza tão certa e reconfortante, cintilam como mais ninguém.


Pedro Belo Clara.