quarta-feira, 16 de maio de 2012

Fluir pelas margens do Ser


O Caminho prolonga-se até ao Infinito. Ele próprio, em sua autêntica verdade, não é dizível ou palpável; existe como coisa eterna, pulsante e mutável, como rio que flui e sua forma transmuta. A sua eternidade reside naquilo que percepcionamos como “momentos”, e eles sucedem-se, a todo o instante, como pequena parte de um ciclo maior, amplamente Universal, a roda que tudo rege e tudo faz girar. O seu segredo maior reside no “agora”, no presente instante, e não num passado que findou ou em um futuro indefinido. Se nele vivermos, ou pelo menos nele focarmos nossa atenção, conseguiremos atingir um novel estado de percepção, diferente do que até aí havíamos experimentado. Em suma, se nos tornarmos fluidos, como folha caída por sobre as águas de um grande rio, revelar-nos-emos conscientes, livres, soltos de qualquer incómodo peso, e confiantes de que, em época propícia, atingiremos a foz, desaguando depois no grande Mar. Mas até que ponto é que se estendem as nossas acções deliberadas? Poderemos interferir num fluxo de ocorrências?

Possuímos nosso direito de escolha, uma opção que nos definirá e, obviamente, nos trará as devidas consequências (para uma causa existe sempre um determinado efeito, assim como o eco devolve, amplificada, a vibração de nossa voz). Por isso, a hipótese de fluir pelos momentos assume, claramente, uma posição de escolha a ser realizada. Ela existe, tanto como os demais possíveis rumos, exacta e perfeitamente viáveis – a opção apenas reside em nós. Contudo, é importante compreender que existem certos elementos e eventos que se encontram fora de nosso alcance, pelo que, como consequência, não os controlamos. É fácil sentirmos um crescente poder, quando definimos um caminho ou traçamos um rumo por nosso próprio punho e deliberada atenção, e tudo vemos a se erguer e, por fim, materializar. Ainda assim, em tempos de maior turbulência, seremos atacados por uma oculta insegurança, um medo que pela calada nos congela o discernimento. E, no seio de tal encarceramento, uma irascível frustração reclamará o seu domínio. Poderemos nos debater, mas nunca possuiremos uma força superior à corrente do rio que nos transporta. Essa é uma inútil luta que em nada nos beneficiará, apenas imprimirá de forma mais funda e indelével suas feridas e dores. E é por isso que ganha um enormíssimo relevo a oportunidade de cultivarmos em nós o não agir, o não saber e o não ser – estados onde uma derradeira liberdade é alcançada. São apenas parâmetros que, no fundo, sustentam a fluidez de ser e estar, ao mesmo tempo em que não somos nem estamos – divino paradoxo! Ou seja: atentos espectadores do mundo que por si se desenrola, vazios como o livre vento e eternos como o Infinito.     

Ao sermos fluidos, entendemos que existe uma certa impotência passível de ser aceite, no doloroso auge de nossa humana fragilidade. Assim são as regras deste jogo que aceitámos jogar, assim se compõem os elementos que habitam e funcionam em pleno neste material plano, onde por ora existimos. E diversas são as vias de sua anuição, pois, uma vez mais, o Indivíduo percorrerá sempre o caminho que mais lhe convier, aquele que mais se adequa à sua peculiar natureza. Afinal, exceptuando a situação em que o própria desejaria modificar-se, nunca poderemos esperar que uma laranjeira faça crescer figos em seus ramos, pois tal não lhe é natural; e, se o fosse, revelar-se-ia uma figueira, assumindo uma condição que certamente nunca foi a sua. Cada coisa, portanto, está em seu devido lugar. Assim, seja pela Fé, pela Revolta, pela Esperança ou até pela Dor, sabe-se que, no fundo, todos se apresentam como díspares rumos que nos guiam ao mesmo destino, com mais ou menos curvas e pedras a distingui-los. Por isso, essa aceitação poderá ser perfeitamente suave, se a isso estiver receptiva a Alma que tanto indaga. Em alternativa (infelizmente a mais comum), sempre poderemos ficar a contas com o assombroso e pesaroso ânimo, que se enegrece como uma vil assombração. Mas nós já não vivemos para carregar tremendas pedras, antes para delas nos libertarmos! Tudo poderemos aceitar, desde que cientes estejamos dos limites de nosso raio de acção. Poderemos decidir não intervir (cultivando a não acção), mas, se o fizermos, debater-nos-emos com nossa impotência. Aí, importará entender que a situação compreende duas partes, uma espécie de trabalho de equipa entre o Indivíduo e o Caminho em si. Façamos, então, tudo o que sentirmos estar ao nosso alcance, mas conscientes de que o resultado final nunca dependerá exclusivamente de nós. É aqui que poderemos modificar um pouco o curso das águas, sem com ele contendermos, mas apenas se tal possibilidade nos for permitida. Afinal, sabemos que uma longa história foi há muito escrita e definida, por nós e outras consciências. Se acreditarmos em um Bem que nos assiste e o deixarmos viver e actuar em nossos rumos, tudo se resolverá por si e por si se encaminhará.

Celebremos, então, o Sol de nossos Verões, sabendo que em breve virá o Inverno com seus nevões e insanos ventos. Estando a esse aspecto abertos, permitiremos que a Serenidade e a Plenitude nos habitem, enquanto que uma inabalável certeza se fortificará no silêncio de nosso íntimo. Quem disse que esta Vida divina que experimentamos deverá ser sombria e taciturna? Cada um cumpre o seu caminho, é certo, mas a opção de sermos livres existe! Poderemos cultivá-la no imenso terreno fértil que é o nosso sábio coração. Mesmo que a Vida nos traga dureza, saberemos que essa é a sua prova, e que suaves nos poderemos revelar, apesar de tudo o mais.

Sejamos fluidos; e mais próximo estaremos de abraçar a eternidade que reside no Todo, aquele que desde sempre nos enlaça e que tão ardentemente anseia o nosso esperado retorno.


Pedro Belo Clara.




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