quarta-feira, 18 de abril de 2012

Numa carruagem de comboio


Devo admitir que sempre apreciei o aspecto análogo – em alguns casos até metafórico – inerente a uma simples carruagem de comboio e seu expectável comportamento. É um autêntico retratar de diversos aspectos de uma existência! As estações por onde se queda e as pessoas que nela entram e saem, tal como o fazemos durante nossas vívidas experiências, nessas viagens onde cruzamos tantos rumos e despedimo-nos de outros tantos rostos, apenas para nos revelarmos receptivos ao encontro dos que ainda passarão por nós. O mecanismo aleatório que existe nesse simples fenómeno é deveras significativo, um digno exemplo de um “acaso” tão simples e aparentemente inocente, mas profundamente certo e sapiente. De facto, a lógica aparentemente oculta que segue é uma belíssima reprodução daquela que, em muito maior escala, paira pelo Caminho de todos nós. Desejamos entender alguns aspectos de seu funcionamento? Atentemos no funcionar da carruagem de um comboio em viagem…

Foi numa dessas mesmas viagens que me deparei com um demonstrar igualmente interessante (e não menos desprovido de propósito e sentido). Observava, como quem entende, um certo companheiro de viagem e o aparente interesse que dedicava à leitura de uma publicação banal. Via, lia, desfolhava e esforçava-se por compreender e por forjar mental parecer, completamente imerso naquela sua actividade. Dir-se-ia até que toda a sua vida se resumia a isso, tal a habilidade com que executava essas operações. Contudo, quando se anunciou a estação pela qual esperava, curiosíssimo foi verificar a rapidez com que se desprendeu daquela actividade para sair em seu esperado destino. No fundo, se conseguirmos captar uma interpretação profunda desses simples gestos, entenderemos que é daquela forma que se comporta o Homem em seu próprio processo evolutivo. Quando despertamos, quando visionamos horizontes mais amplos, de pronto abandonamos actividades e interesses (capas que não mais nos servem, entenda-se) até então tidos por vitais, agora que supérfluos se revelaram. Também aquele companheiro não hesitou em abdicar de sua leitura, outrora tão válida e imprescindível; nada mais dela poderia retirar e, no mais íntimo de si, entendeu esse vero impulso. Além disso, como dedicar a mesmíssima atenção àquela publicação se, ao mesmo tempo, estivesse a caminhar pela estação? Aquela actividade esbulhara-se de sentido… Tomou a sua decisão e abraçou o seu crescimento interno. Em termos mais fundos, ele sabia onde iria sair, sabia qual seria o passo que devia esboçar, sentia aquilo que seria o seu destino – a simples materialização que um Bem superior, a seu silencioso pedido, lhe concedeu –; e de pronto abandonou o veículo que o auxiliou a alcançar tal posto, agora que se desprovia de significado. Se considerarmos com a atenção devida, de que lhe iria ainda servir?

Eu, por minha vez, continuei viagem e perscrutei outros companheiros que somente despertavam ao anunciar de sua estação (mas que concentravam o mesmo ânimo em nela sair), outros que nem a esse sinal abriam seu olhar, tal era o estado de marasmo e letargia em que estavam imersos, e outros até que, contrariando o exemplo que à pouco referi, seguiam suas actividades de leitura atrapalhadamente, como se permanecessem instáveis, com um pé em duas estradas de diferentes sentidos… Mas eu tinha a minha música; fora minha fiel companhia durante toda a viagem. Permaneci atento, conservei-me desperto e alerta, mas sem perder minha serenidade. E quando se anunciou a minha saída, terei dela abdicado? Não… Como poderemos abdicar de algo que tão intrinsecamente faz parte de nós? Algo que se funde com a nossa natureza? E aquelas canções que vinha escutando representavam isso mesmo, o meu ser revestido de múltiplas formas e cores. Com elas eu transcendia, visitava planos cuja entrada nem sempre consigo encontrar. Sim, elas também eram o meu veículo, um transporte subtil que ainda não me encontro apto a abandonar, da mesma forma que antes já o fizera, em tantas outras etapas percorridas e vencidas. Chegada a minha vez, com elas eu parti rumo ao horizonte que sempre me espera, até que ecluda o instante em que delas não mais necessitarei, onde talvez me encontre solto, livre e vazio, como o vento que me perfuma de histórias e de aromas distantes.

E assim se dispunham os componentes daquele cenário, assim povoaram por breves instantes uma carruagem de comboio – assim existimos nós por nossas abençoadas existências, viajantes de causas que no seu fim convergem em uníssono, atentos à estação que sentimos ser a nossa saída, mas sem jamais perder de vista o vasto horizonte, sempre inalcançável, magnânime e redentor, como uma promessa que se quer eterna no final de cada dia.


Pedro Belo Clara.




2 comentários:

  1. Caro Pedro,
    Parabéns pelo lindo Blog.
    Sua sensibilidade é indescritível.
    Fica na paz!
    Beijo,
    Lu.

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  2. Cara Lu,

    Eu é que agradeço a sua simpática visita a este catinho de prosa =) gratifico-me igualmente pelas gentis e sinceras palavras que me dispensou.

    Felicidades,

    Beijos e até breve.

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