quarta-feira, 18 de abril de 2012

Numa carruagem de comboio


Devo admitir que sempre apreciei o aspecto análogo – em alguns casos até metafórico – inerente a uma simples carruagem de comboio e seu expectável comportamento. É um autêntico retratar de diversos aspectos de uma existência! As estações por onde se queda e as pessoas que nela entram e saem, tal como o fazemos durante nossas vívidas experiências, nessas viagens onde cruzamos tantos rumos e despedimo-nos de outros tantos rostos, apenas para nos revelarmos receptivos ao encontro dos que ainda passarão por nós. O mecanismo aleatório que existe nesse simples fenómeno é deveras significativo, um digno exemplo de um “acaso” tão simples e aparentemente inocente, mas profundamente certo e sapiente. De facto, a lógica aparentemente oculta que segue é uma belíssima reprodução daquela que, em muito maior escala, paira pelo Caminho de todos nós. Desejamos entender alguns aspectos de seu funcionamento? Atentemos no funcionar da carruagem de um comboio em viagem…

Foi numa dessas mesmas viagens que me deparei com um demonstrar igualmente interessante (e não menos desprovido de propósito e sentido). Observava, como quem entende, um certo companheiro de viagem e o aparente interesse que dedicava à leitura de uma publicação banal. Via, lia, desfolhava e esforçava-se por compreender e por forjar mental parecer, completamente imerso naquela sua actividade. Dir-se-ia até que toda a sua vida se resumia a isso, tal a habilidade com que executava essas operações. Contudo, quando se anunciou a estação pela qual esperava, curiosíssimo foi verificar a rapidez com que se desprendeu daquela actividade para sair em seu esperado destino. No fundo, se conseguirmos captar uma interpretação profunda desses simples gestos, entenderemos que é daquela forma que se comporta o Homem em seu próprio processo evolutivo. Quando despertamos, quando visionamos horizontes mais amplos, de pronto abandonamos actividades e interesses (capas que não mais nos servem, entenda-se) até então tidos por vitais, agora que supérfluos se revelaram. Também aquele companheiro não hesitou em abdicar de sua leitura, outrora tão válida e imprescindível; nada mais dela poderia retirar e, no mais íntimo de si, entendeu esse vero impulso. Além disso, como dedicar a mesmíssima atenção àquela publicação se, ao mesmo tempo, estivesse a caminhar pela estação? Aquela actividade esbulhara-se de sentido… Tomou a sua decisão e abraçou o seu crescimento interno. Em termos mais fundos, ele sabia onde iria sair, sabia qual seria o passo que devia esboçar, sentia aquilo que seria o seu destino – a simples materialização que um Bem superior, a seu silencioso pedido, lhe concedeu –; e de pronto abandonou o veículo que o auxiliou a alcançar tal posto, agora que se desprovia de significado. Se considerarmos com a atenção devida, de que lhe iria ainda servir?

Eu, por minha vez, continuei viagem e perscrutei outros companheiros que somente despertavam ao anunciar de sua estação (mas que concentravam o mesmo ânimo em nela sair), outros que nem a esse sinal abriam seu olhar, tal era o estado de marasmo e letargia em que estavam imersos, e outros até que, contrariando o exemplo que à pouco referi, seguiam suas actividades de leitura atrapalhadamente, como se permanecessem instáveis, com um pé em duas estradas de diferentes sentidos… Mas eu tinha a minha música; fora minha fiel companhia durante toda a viagem. Permaneci atento, conservei-me desperto e alerta, mas sem perder minha serenidade. E quando se anunciou a minha saída, terei dela abdicado? Não… Como poderemos abdicar de algo que tão intrinsecamente faz parte de nós? Algo que se funde com a nossa natureza? E aquelas canções que vinha escutando representavam isso mesmo, o meu ser revestido de múltiplas formas e cores. Com elas eu transcendia, visitava planos cuja entrada nem sempre consigo encontrar. Sim, elas também eram o meu veículo, um transporte subtil que ainda não me encontro apto a abandonar, da mesma forma que antes já o fizera, em tantas outras etapas percorridas e vencidas. Chegada a minha vez, com elas eu parti rumo ao horizonte que sempre me espera, até que ecluda o instante em que delas não mais necessitarei, onde talvez me encontre solto, livre e vazio, como o vento que me perfuma de histórias e de aromas distantes.

E assim se dispunham os componentes daquele cenário, assim povoaram por breves instantes uma carruagem de comboio – assim existimos nós por nossas abençoadas existências, viajantes de causas que no seu fim convergem em uníssono, atentos à estação que sentimos ser a nossa saída, mas sem jamais perder de vista o vasto horizonte, sempre inalcançável, magnânime e redentor, como uma promessa que se quer eterna no final de cada dia.


Pedro Belo Clara.




quarta-feira, 11 de abril de 2012

Os cárceres como nossa condição


Mais do que poderemos considerar, os cárceres são comuns em nossas existências; quase que dela são parte integrante e, por consequência, nós somos sua pertença. Vivemos algo resignados em relação a este assunto, deveras acomodados como animais de hábitos que julgam o mundo por aquilo que dele sempre conheceram e, como tal, declaram ser a única realidade plausível (e possível, igualmente). Simplesmente, se abandonássemos esse estado amorfo de consciência, esse marasmo que permitimos habitar nos dias, estaríamos aptos a admirar novos horizontes, consideravelmente mais amplos.  E, ao vislumbrar uma beleza sem par, quem é que desejaria, por livre e ciente vontade, regressar aos pântanos onde até então residia? É aqui que refulge o carácter evolutivo da consciência humana, onde a conservação do mistério final se assume como motivo de busca eterna, até que nele nos possamos fundir. Assim, por certo compreenderíamos, por mais esclarecidos estarmos e por novos ângulos de visões possuirmos, o quão prisioneiros éramos. Pois certos aspectos apenas se confirmam quando deles nos afastamos e, com um global entendimento, constatamos a real dimensão dos mesmos.

De facto, se de momento nos debruçarmos sobre tal exercício, por certo iríamos entender que todos somos prisioneiros de algo ou de alguém. Por mais árduo que seja de admitir, todos nós nos achamos encarcerados sob díspares formas: em nossas casas, em nossas rotinas, em relações decadentes e destrutivas, em ocupações inúteis, em receios, em vícios, em ilusões, em objectos, em superstições, em imposições, em julgamentos, em moralidades, em institucionalizações… Enfim, a lista é por demais extensa. Mas é precisamente devido ao facto de sabermos que a Vida nem sempre é um fácil caminho que podemos adoptar várias posturas, mediante a situação anunciada. E uma das mais naturais é, por si só, a arte de caminhar. Se todos nós somos caminhantes, ainda que nos encontremos parados ou adormecidos, porque não optar pela caminhada, no mais real e físico sentido da palavra? Pois, ao fazê-lo, estaremos a experimentar um tipo de liberdade bastante peculiar, atingindo um estado de plenitude e de soltura equiparável ao do vento que nos bafeja o rosto. É claro que, para tal acontecer, exige-se prática e paciência para atingir resultados palpáveis. Mas, ao menos, naqueles instantes de passeio (por mais breves que sejam), estaremos a nos despojar de tudo o que nos possa pesar e oprimir, deixando que o coração se transforme e se encha de Vida! Embora a batalha (que deverá ser serena, diga-se) contra as investidas da mente possa ser bastante longa e fatigante, quando vencida, o Ser apresenta-se como um autêntico vazio, a junção infindos espaços onde somente pulsa uma luz, a nossa própria Luz, aquela que é, por ora, a nossa identidade mais profunda. Mas, como sempre digo, esta é apenas uma de muitas válidas vias, já que ao indivíduo cabe a descoberta dos caminhos que o levarão ao seu íntimo oculto.

Todos possuímos hipóteses de escolha, e é bom que tal aspecto permaneça activo. Mesmo que não as consigamos encontrar, saibamos que todo o Ser pode ser livre, simplesmente através do caso de escolher ser livre! Jamais poderá ser natural o facto de, por exemplo, encararmos nossas ocupações como meras obrigações, pois um trabalho, seja de que tipo for, deve completar o Homem, nunca o aprisionar. Apenas consideramos, por moldados estarmos de acordo com velhos padrões (ainda vigentes), que tal deve ser assim, que se trata de uma imposição à qual ninguém poderá escapar. Quão enubladas estão nossas percepções… Em dias claros, entenderíamos o prazer que o Homem poderá retirar de sua ocupação! Onde está, então, nossa felicidade? Aparentemente, bem longe das escolhas que tomamos, aquelas que inevitavelmente nos conduzem ao encarceramento. Porque permitimos que o medo impere? Nada nos é imposto, somos viajantes que vogam ao sabor do vento! Porque forçamos a Vida e com ela contendemos quando apenas a deveríamos deixar fluir, confiando plenamente em seus desígnios? Eis o salto de fé que ficou por dar. Mas a mudança reside em nós, e todo o tempo é válido quando decidimos seguir o que de mais secreto em nós lateja. O mundo pode conspirar em nosso favor sempre que intentamos algo e as correntes do Rio Universal mudam seu curso, mas o primeiro passo, a prima consciencialização, terá sempre de partir daquele que se deseja desencarcerar. No seio de nosso silêncio, encontraremos sempre orientação, se a ela estivermos abertos e dispostos a aceitá-la. Depois, importa anuir toda a consequência que de tal acto poderá advir – é crucial para nossa libertação! Pois, não em raras ocasiões, não nos disponibilizamos a carregar tal peso; e, por isso, consideramos que nos encontramos numa situação desprovida de escolha. Mas ela sempre existe, dentro daquilo que se encontra ao nosso alcance. Poderemos optar por “opções menores” ou “minimizações de impacto”, mas tais hipóteses não deixam se ser escolhas! Até mesmo quando sentimos que nada mais há a fazer, excepto fluir no curso natural da Vida…

A Vida é o momento, ela tece-se no agora; como tal, é no agora que reside a oportunidade de se libertarem e de admirar os vastos horizontes. Não num amanhã, mas no agora; agora, onde nossa existência se desenrola e enriquece. Sejam quem são, fluidos e naturais, e em breve já serão outros (sem jamais deixarem de ser vocês próprios), sigam aquilo que amam e vos faz feliz, pois a Vida não mais é do que um palco de descoberta, aprendizagem e, acima dos demais, celebração. Em consequência, provarão o mais doce dos méis que adocicam a existência humana. Atrevam-se a tal! E tocarão no rosto do Infinito apenas com um simples respirar.


Pedro Belo Clara.





quarta-feira, 4 de abril de 2012

Posturas e formas de Ser


Descendo uma longa alameda, da mesma forma que todos nós um dia já o fizemos, atravessamos elementos de adorno, presenças inertes ou pululantes que em nosso redor se fazem notar. Com a percepção aguçada, somos capazes de as receber sem procedermos a fáceis juízos sobre os seus propósitos. No fundo, ao abdicarmos de tal, estaremos a nos despojar de algo que tanto impera nos dias de hoje – o ego. E isto porque permitimos que a Alma se sobreponha à mente, sempre célere na construção de suas considerações. Em certa medida, assumimos um papel de imparcialidade, o que nos leva a questionar o seguinte: vivemos em sociedades construídas sobre os egos, onde somente é valorizado aquilo que alcançamos e não o que somos ou poderemos ser; portanto, se assumirmos em outras ocasiões essa mesma transparência, esse comportamento imparcial de alguém que simplesmente observa, um rude e profundo golpe será dado nessa vã metade do ser. Acima de tudo, o que aqui somente está implícito é a possibilidade de nos tornarmo-nos fluidos nos eventos da existência, simples e livres como uma folha boiando na corrente do ribeiro, sem pensamento, desejo, plano ou ambição opressiva. Ser, apenas; sem, no entanto, ser, na realidade – um certo meditar que apronta o contacto com algo superior e, por isso, purificador (pois a soltura será o sentir dominante, prova de que algo de desprendeu em definitivo ou, pelo menos, em breves instantes de comutação). Este exercício carece sempre de experimentação, pois os resultados e os efeitos concretos só por si é que emergirão. Em suma, trata-se de uma postura perante o Caminho e seus adventos sucessórios, uma postura que nos anuncia como simples caminhantes, aptos a cada vez mais saberem de sua verdade e, com isso, a entendê-la e aceitá-la. Assim, as fronteiras da consciência assistem a uma considerável abertura de espaço (se de mais nos despojamos, mais livres e leves nos tornamos), o que somente irá preparar um fértil terreno ao cultivo de uma novel visão.

Mas nestes tempos de sucessão e de natural transmutação – ou seja, evolutiva –, permanece a Vida, simples e imperial, sóbria e vasta como as águas imensas de um oceano azul. E, com ela, todas as experiências vindouras e suas promessas, as causas de várias acções passadas, hipóteses de novo crescimento e de novos rostos a serem descobertos ou reconhecidos; enfim, todo o seu potencial, esplendor e magnanimidade a cintilar num esboço de vivência. No entanto, bem sabemos da existência da Chuva e da possibilidade de já na próxima curva ela se manifestar… Ou não fosse este plano o manancial da dualidade, do contraste vívido entre contrários. Por isso, quem caminha veramente, não deseja mais que a criação, não se opõem ao natural desenrolar da multiplicidade (pois tudo existe, tudo é natural e fluido), e sabe, no âmago de si, numa intuição tão vera e divina, como tudo se sucede e comporta. Contudo, se em um qualquer dia de passeio, atentarmos em vários semblantes e nas histórias pessoais que cada um deles em silêncio conta, veremos que reinam em número aqueles que ostentam as marcas de uma vida, suas feridas, cansaços e desilusões. Em contrapartida, diminutos são os que, mesmo não ocultando os seus íntimos sinais, irradiam uma luz resplandecente, a luz de quem vive e, ainda assim, crê fortemente numa nova madrugada, onde o seu Ser mais puro em liberdade cantará ao banhado ser pelos primos raios de um sol renascido. E é aqui que subsiste um espaço para a diferenciação, pois é a postura adoptada que na sua globalidade os define. Se num momento de recato, em instante de necessária meditação, nos relembrarmos de tais imagens, por certo atingiremos tal conclusão (e consequente mensagem a ser retida).

Uma vez mais, tudo se resume a uma única escolha; árdua, talvez, mas ainda assim uma válida escolha. Quem afirmou que deveríamos perecer após o desferir do primeiro golpe? Algures, em todos nós – e importa que isto seja sublinhado, para claro ficar –, reside a génese dessa força, seja pela fé, pela esperança, pela compaixão ou pelo amor. Múltiplos são, para sumariar, os caminhos que nos guiam até ao cerne da Alma e inúmeras as vias da ascensão plena. Recordam-se da publicação em que abordámos as vias do coração? Evoquem tais palavras e construam agora vosso parecer, sintam-no como sendo vossa pertença, como sendo algo da vossa natureza. Deslizem pelos segundos que em ilusão povoam o dia e, caros viajantes, com as vossas bandeiras bem fincadas alcançarão o harmonioso alvor onde o Nada é Tudo, e o Tudo é… Nada.


Pedro Belo Clara.



quarta-feira, 28 de março de 2012

Do cimo de uma colina


Estando aqui, no cimo de uma verdejante colina, não posso deixar de reter a imagem única e peculiar que traduz o mundo em redor, diminuto sob esta perspectiva, nem tampouco de com todos vós a partilhar – ou não fosse essa uma das grandes virtudes da Vida que experimentamos. De facto, quando nos encontramos imergidos num vasto mar de problemas e de densas questões, não existe uma melhor via de com tal coisa lidar do que essa, isto é, proceder ao afastamento temporário desses nossos pesos. Tal como se nos achássemos no topo de uma qualquer colina, constataremos aí que nossos problemas, afinal, eram simplesmente insignificantes. A distância detêm esta valência: a revelação do real tamanho do negrume que sobre nós julgamos ter pousado (algo que só fará que tais eventos percam a sua vital importância). Até daqui, deste lugar onde me encontro, o imenso mar azul não passa de uma bela mancha distendida pela paisagem. Mas, para além disso, não poderemos igualmente olvidar a hipótese luminosa que reside neste exercício: a aparição da resposta ou da solução que tanto ansiávamos. Pois, em prática, ao sairmos do cerne de nosso avassalador turbilhão, permitimos que nossa consciência, mais solta e leve, possa considerar sobre o assunto em causa e sobre a melhor via a tomar, aquela que nos levará até à sua final (e quem sabe definitiva) resolução.

É agora, para mim, hora de partir; mas não o desejaria fazê-lo sem antes vos dizer que, com a minha ida, tal lugar se encontrará disponível para vós, para todos aqueles que, a seu tempo, quando os corações implorarem por tal escape, conquistarão a sua íntima colina e, dela, assistirão ao desenrolar quotidiano dos dois mundos onde existem. E talvez como eu se sintam curiosos por assistir ao desenvolver do habitual cenário que nos acolhe e ao comportamento, ora espontâneo ora mecânico, daqueles que o compõem. Observarão, certamente, carros que vão e vêm, desenfreados como ventos loucos que desbravam as livres estradas, aviões que esvoaçam e rompem nuvens, plenos de passageiros, pedestres que seguem seus caminhos, concentrados e fechados em pensamentos que só eles sabem e, então, talvez sintam uma estranha sensação de realidade contínua, uma eternidade presente nos momentos sucedâneos, aos quais, contudo, quem por eles passa a eles obedece. Depois, terminados esses passeios, essas buscas que aparentam ser infindas, esse pulular de íntimos desejos ou o cumprimento de uma imposta tarefa (pelos próprios ou por outrem), talvez consideram igualmente curioso verificar como todos se apressam em regressar àquilo que os espera, sejam familiares semblantes, a inércia de pálidos objectos ou o simples e (para eles) redentor vazio. E, aí, sedentos por algo mais a identificar, talvez compreendam que todos se encarceram voluntariamente. «Os lares são e sempre deverão ser abrigos, jamais prisões…», dirão vocês, no auge da maturação de uma súbita ideia. «Porque desejamos provar a liberdade em nossa existência, se à primeira lambida nada degustamos e logo retornamos aos cárceres rotineiros? Que medo cresce oculto na noite dos que não questionam?». Verão, talvez um dia, que toda a vida pré-definida aparenta estar verdadeiramente direccionada nesse sentido. Pois, à noite, se ainda permanecerem no cimo de vossa ínclita colina, assistirão à vasta gravura que se pinta com as luzes que piscam nos prédios, essas meras torres de betão frio e indiferente que infestam o horizonte, e observarão – no silêncio que então se instalar pelos arruamentos – as exíguas luzes que aí se acenderão e outras que permanecerão apagadas, esgotadas ou idas, como as existências que habitam essas quadradas habitações… Se apenas soubéssemos da existência de algo maior, de apenas conseguíssemos e, antes disso ainda, tentássemos sentir e, com o resultado desse sentimento, nos abríssemos a uma crença reveladora… Ah, caros viajantes, o que não poderia então ser feito! Mas muitos ainda não compreendem o dialecto que o Caminho sussurra na quietude dos sonhos e das ilusões…

E, ao abandonarem por fim esse local, deixando-o livre para aquele se seguirá (embora sem nunca olvidarem o motivo que até ele vos guiou), talvez o façam com o mesmo pensamento que paira pelas galerias de minha mente, talvez pressintam que cada um de nós, por si, seja um dia finalmente bem sucedido nessa emudecida demanda pela luz, a verdadeira Luz reveladora dos corações que latejam, e, então, rendidos ao esplendor anunciado, se lembrem de quem verdadeiramente são e de tudo aquilo que ainda poderão executar em prol de si mesmos, de seu semelhante e da comunidade que a ambos acolhe. Talvez, queridos irmãos, nos fermente então a vontade de erguer nossos semblantes, de atentarmos nas estrelas e entendermos que, embora quedadas e mudas estejam, elas sabem de sua verdade e felizes são em sua verdade, e que, graças a essa sua certeza tão certa e reconfortante, cintilam como mais ninguém.


Pedro Belo Clara.



quarta-feira, 21 de março de 2012

Ciclos da Existência (e outras particularidades)


Ao longo de diversas etapas percorridas, somos alvos de vários ciclos que se sucedem, momentos onde, se parca for ainda nossa ciência, dispomos sempre da oportunidade de apreender algo ao escutar sábias palavras proferidas por bocas alheias, um algo que nos poderá auxiliar a crescer em virtude e carácter – a mais comum metamorfose de um caminhante. Contudo, é importante entender que tais auxílios não vão além daquilo que eles próprios representam. Todos nos encontramos aqui, neste lugar, a existir por entre as peripécias de uma realidade que nos absorve, cumprindo um papel que há muito escolhemos representar por ser o ideal para o nosso próprio desenvolvimento, o mais acertado para que a lapidação de nós mesmos seja absoluta. Por isso, ao vivermos vidas únicas, compostas por singulares ciclos que a existência atravessará, possuímos igualmente diferentes abordagens e entendimentos sobre o Caminho em si, fruto de nossas peculiares experiências e de seu factor residual – o saber. Tais aspectos moldam-nos, é certo, mas importa entender que a final decisão reside sempre em nós. Se em tal situação nos encontrarmos, convém então colocar pertinentes questões: gostamos daquilo em que nos tornámos? Como poderemos alterar comportamentos que, no fundo, não traduzem as palavras de nossos corações? Mas talvez esse seja um assunto para abordarmos em uma outra oportunidade.

Mesmo que valioso seja entender o saber espremido de dizeres vários, com sua válida partilha de sentimentos, relato de acontecimentos ou experiências idênticas, jamais se deverá descurar o rumo que por nós deve ser delineado e percorrido. Essas ajudas externas são mãos que nos assistem o caminhar, mas só devemos realizar tal acto por nosso próprio pé (sob pena de a suposta “ajuda” ser, no fundo, um factor meramente prejudicial). Afinal, todo o aluno sabe que assistirá ao dia em que irá abandonar seu mestre para seguir seu rumo, aquele que apenas por suas íntimas intenções será revelado. Aprender é crescer, e crescer é aceitar a nossa luz e a nossa sombra, escutá-las e definir futuras passadas (mesmo conhecendo a fonte de surpresas que o Caminho é), sempre com a primordial missão em mente, aquela que todo o caminhante possui, mesmo que não esteja ciente de tal “posse”.

Uma existência é, assim, composta por ciclos vários, ciclos que são estações que atravessam nossos corações e neles plantam a sua mais recôndita essência. Agora, mais do que nunca, evoco a ideia referida algumas linhas acima: deveremos definhar apenas porque as folhas definham nas árvores que se entregam à brisa outonal? Deveremos sucumbir apenas por que tudo sucumbe à gélida neve que cobre o Inverno? Em nós – e em nós somente – habita a escolha a ser assumida, pois tudo se resume à adopção de uma determinada postura perante o evento que temos em mãos. Assim, em cada um dos ciclos de nossas existências reside a oportunidade de granjear um saber mais amplo, uma visão mais profunda sobre a Alma que somos e sobre as que habitam nos demais corpos e de colocar à prova outros saberes e conceitos detidos. Formar-se-á e consolidar-se-á, dessa forma, um carácter, as firmes linhas que percorrem as fronteiras da tal personagem que assumimos e representamos. Vamos, a cada passo, nos libertando de antigas dores (tão antigas quanto o sol e lua!) para sermos tão leves quanto o vento que livre sopra, mas igualmente aptos a novos encontros, novas partilhas, novos motivos de celebração (sem olvidar os que ainda nos assistem!) e, claro, aprendizagens. No fundo, muitos rostos nos irão cativar com suas ternas expressões e sábios dizeres; a cada etapa, deteremos um mestre diferente, até que findo se encontre o ciclo (o mesmo é dizer: até que nos tornemos mestres de nós próprios). E a humildade, que jamais é um sinónimo de subserviência (antes um requisito para percorrer o Caminho Iluminado), revela-se precisamente nesse entendimento e aceitação. Pois um mestre até poderá ser íntegro e digno, seja qual for a sua postura no mundo social, mas certas palavras ele ainda não conseguirá transmitir, apenas a mensagem que se resumiu de sua história. Parece haver algo de indizível aqui, nestas belos planos materiais, algo que nós tentamos encontrar e dizer por nossa boca – algo que, no fundo, também podemos partilhar com o mundo.

Hoje já não somos o que éramos, mas ainda nos encontramos em dista posição em relação àquela que um dia ocuparemos; daí a utilidade de crescermos por nós e de por nossas palavras e actos nos definirmos (o que nunca invalida o efeito das ditas “ajudas externas”). E, assim como nós um dia o fizemos, outros o farão – por si próprios. Então, entenderão e redefinirão esse saber que lhes foi legado, moldado à verdade que eles são. Mas será isso uma deturpação? Apenas se pensarmos em nós como detentores da Verdade Absoluta… Como poderá haver erro? Pois se cada parte encerra a sua verdade e essa mesma partícula é essencial ao revelar da obra maior! Poderá haver desacordo, sim, mas nunca erro (apela-se à nossa capacidade de respeito e de tolerância). Por isso, sei que se atentas estiverem nossas percepções, vislumbraremos então parte do rosto do Todo, aquele que divinamente se constitui pelas pequenas partes que nós somos e ao qual, por fim, retornaremos; ou não fosse esse o motivo para tanto o desejarmos descobrir, abraçar e compreender…


Pedro Belo Clara.



quarta-feira, 14 de março de 2012

Pelas linhas da Existência


Experimentamos díspares sensações através da absorção dos momentos vividos, diversos em teor e composição. Se por tal nos decidirmos, deles retiramos uma certa aprendizagem (caso aguçada esteja a nossa percepção) ou, em última hipótese, retemos o principal componente de sua estrutura, assim como deles desfrutamos ou simplesmente os ignoramos. Tais ocorrências, obviamente, existem por si só; o grau diferenciador reside apenas na forma como o seu receptor (todos nós, em suma) as recebe – mínimo ou elevado a uma potência consideravelmente alta. Mas será que tal comportamento modifica a nossa forma de ver e entender o mundo que nos rodeia? Muitos de nós deparam-se com um “excesso de sentir”, uma avassaladora corrente emocional que os atravessa, transbordando de suas margens e inundando os terrenos do contentamento ou da frustrante desilusão. Dir-se-ia, talvez, que indivíduos desta índole vivem amargurados, reféns de uma natureza sofrível, aptos a tudo sentir em moldes muito mais intensos do que aqueles a que seus semelhantes recorrem. Seja como for, todas as formas de entender o Caminho são válidas e a cada um de nós cabe a responsabilidade de aprender a lidar com o peso de nossos fardos (ou não fosse essa uma capacidade inata). Será que tal excesso de sentir, essa enorme capacidade de compreender e receber o mundo e seus adornos em frágeis braços humanos, não constitui um mero reflexo de uma íntima ânsia em saborear e assimilar os elementos que nos rodeiam? De facto, quem poderá recriminar um artista por tanto desejar comungar, entender e reproduzir o vórtice emocional que o assola quanto capta as reproduções de sua percepção? Há um indício de busca profunda decifrável em tal comportamento, ainda que vago seja. Por isso mesmo, convém relembrar que cada Alma possui contornos muito singulares que apenas deverão ser aceites e compreendidos (inclusivamente pela própria), na mesma medida em que cada caminhante parece indagar, demandar pelo oculto e questionar todas as premissas de seu rumo. No fundo, somente aqueles que buscam e caminham é que alcançam seu destino, aquele que, mesmo desconhecido ou adormecido nas bainhas de um sonho místico, pulsa em raios dourados no tecido de nossos corações. E é por isso mesmo, queridos caminhantes, que eu jamais aponto a verdade dos trilhos a desbravar; antes destapo os horizontes onde vossas mãos traçarão, por si mesmas, as linhas de vossas futuras direcções. Além disso, certo estou de que aquele que souber se guiar por sua bússola interior melhor definirá a sua orientação.

Afinal, não somos todos nós os artistas de nossas existências? Não a desejamos sentir plenamente, recebê-la de forma tão aprazível como ela nos recebeu a nós, entendê-la e desfrutá-la com as emoções da Alma e, de certa forma, fundirmo-nos com a sua essência? Quem não almeja harmonizar-se com o cenário que o rodeia? É claro que todos nós, caminhantes de vários caminhos, possuímos a nossa história e nossas próprias cicatrizes. Mas, por mais que nos doam, temos a capacidade (e a oportunidade) de aprendermos com elas e de renascermos para novos dias! O facto de sentirmos algo mais intensamente (ou não) apenas se traduz no acto de colocar mais ou menos condimentos em um certo alimento, mesmo que tal seja entendido como uma bênção ou uma maldição. Embora existam certas coisas que ocorrem e se desenrolam muito para além de nosso controlo, uma certa percentagem desses acontecimentos é-nos reservada. Quantos de nós, num devaneio revelador, não compreendem, de súbito, que suas mãos sempre seguraram martelos, escopos, penas ou pincéis escorrendo tinta fresca? E, à sua frente, estendiam-se mármores que aguardavam a vez de serem esculpidas, poesias ansiosas de rimas e telas brancas, prontas a perder a sua alvura… Todos possuímos um caminho que podemos esboçar e trilhar. Plantem a vossa semente e aguardem que se torne árvore. Poderá não possuir os ramos que imaginaram nem vos ofertar o número de frutos que desejaram, mas será uma árvore em tua a sua condição e esplendor! E o primeiro princípio foi alcançado…

É claro que em nossas existências desfrutamos de momentos felizes e de outros mais sombrios, mas… porque nos quedamos fatalmente nos mais ocultos de todos? A transmutação é uma arte poderosa e útil (embora não seja fácil de aplicar), algo a que todos poderemos recorrer. Além disso, com cada acontecimento nós poderemos aprender algo que fará o lapidar do precioso diamante que somos. Sempre há algo que habita nas entrelinhas de cada momento, um motivo por detrás de cada acção – mesmo que nossa visão esteja baça ou nossa mente entorpecida. E isso bem poderá ser um nítido foco de nossa fé. Todos possuímos nossas capacidades e adversidades; se com uma construímos a nossa história, com a outra aprendemos a fazê-lo (bem como a tornarmo-nos cientes daquilo que somos). Em todos os casos, ambas representam vantajosos ganhos, não só para a solidificação de quem somos como também para a materialização da imagem daquilo que ainda desejamos ser – sem jamais deixarmos de ser nós próprios. E assim se vão esboçando as linhas da existência que somos.


Pedro Belo Clara. 



quarta-feira, 7 de março de 2012

As luzes que nos bastam


Munimo-nos de diversas substâncias ao longo de nossa existência, substâncias essas que se armazenam e se reflectem em nossas memórias, comportamentos, crenças, discorreres e até em um simples relatar de histórias vividas. De certa forma, se conseguirmos imaginar o Caminho como um traçado rectilíneo, verificaremos que, à medida que o íamos percorrendo, fomos vestindo e despindo inúmeras vestes, velhas personagens que não mais se proviam de sentido ou, simplesmente, elementos de que dispusemos, desfrutámos e celebrámos no auge de nosso amor para, mais tarde, mesmo antes de nossa vontade, deles abdicarmos. Neste aspecto em concreto, emergem de nossas recordações certas amizades perdidas no render das estações e até familiares ou outros caros entes que o Tempo se encarregou de levar até um outro lugar (e por vezes de uma forma tão célere). Certamente não desejaríamos ficar desprovidos de tais rostos e peculiares perfumes, certamente desejaríamos dispor de mais tempo para de tudo, uma vez mais, podermos desfrutar. Mas será que em algum caso o tempo dispensado chega a ser suficiente? Quantos não rogam por sucessivos adiamentos?

É aqui que nos deparamos com uma dura – mas valorosa – lição: aceitar que certas ocorrências não se encontram sob o nosso controlo, de que tudo dispõe, aqui, de um tempo limitado e que, mesmo que certos desígnios possam não ser correspondidos por nossa mente racional, saber – com um saber de Alma – que tudo ocorre e se desenrola mediante princípios superiores, aqueles princípios que apenas operam com o intuito de harmonizar todas as partes integrantes de uma certa situação – o dito “Bem maior”, a Universal Força que actua quando nela depositamos nossas esperanças e opressões. E, se assim é, porque não começamos a colocar de parte todos os nossos lamentos e queixumes e, por um segundo apenas, olhamos em nosso redor e desfrutamos das cintilantes luzes que aí refulgem? Também neste caso, o próximo passo reside em uma de duas distintas opções: ou tomamos consciência dessas brilhantes luzes e por elas nos sentimos gratos (sabendo, principalmente, o quão efémeras são) ou, em alternativa, demoramos o nosso olhar somente pelas luzes que já se apagaram (ou que ainda não foram acesas, fruto de futuros empreendimentos) e com isso constringimos incessantemente o nosso frágil sentir. Porque só pensamos e nos angustiamos com aquilo que nos falta e não sorrimos, soltos e leves, ao saber do que “possuímos” e nos basta? (nota: coloco aspas na contracção do verbo «possuir» pois, no fundo, o sentido de posse não se aplica aqui). Por vezes, temos de ficar pobres apenas para compreendermos o quão ricos éramos… Mas também esses ultimatos possuem a sua valência e propósito, claro, embora seja sempre desejável aprender com os dias de Sol do que esperar pela vinda da Chuva, aquela que, com suas avassaladoras enxurradas, nos revela todo o saber que deveríamos ter retido. Mesmo assim, conhecemos as envolvências e os meio do Caminho, pelo que certas lições somente a purificadora Chuva nos poderá ensinar. Contudo, não obstante tudo isso, sei que, meus bravos e nobres irmãos, todos somos verdadeiramente abençoados e iluminados, apenas temos de nos esforçar para que essa luz possa ser, em nossas existências, encontrada e compreendida. E, por certo, o seu terno conforto constituirá o tudo que nos bastará, por um meio tão natural, nessa e em vindouras épocas.


Pedro Belo Clara.