quarta-feira, 4 de abril de 2012

Posturas e formas de Ser


Descendo uma longa alameda, da mesma forma que todos nós um dia já o fizemos, atravessamos elementos de adorno, presenças inertes ou pululantes que em nosso redor se fazem notar. Com a percepção aguçada, somos capazes de as receber sem procedermos a fáceis juízos sobre os seus propósitos. No fundo, ao abdicarmos de tal, estaremos a nos despojar de algo que tanto impera nos dias de hoje – o ego. E isto porque permitimos que a Alma se sobreponha à mente, sempre célere na construção de suas considerações. Em certa medida, assumimos um papel de imparcialidade, o que nos leva a questionar o seguinte: vivemos em sociedades construídas sobre os egos, onde somente é valorizado aquilo que alcançamos e não o que somos ou poderemos ser; portanto, se assumirmos em outras ocasiões essa mesma transparência, esse comportamento imparcial de alguém que simplesmente observa, um rude e profundo golpe será dado nessa vã metade do ser. Acima de tudo, o que aqui somente está implícito é a possibilidade de nos tornarmo-nos fluidos nos eventos da existência, simples e livres como uma folha boiando na corrente do ribeiro, sem pensamento, desejo, plano ou ambição opressiva. Ser, apenas; sem, no entanto, ser, na realidade – um certo meditar que apronta o contacto com algo superior e, por isso, purificador (pois a soltura será o sentir dominante, prova de que algo de desprendeu em definitivo ou, pelo menos, em breves instantes de comutação). Este exercício carece sempre de experimentação, pois os resultados e os efeitos concretos só por si é que emergirão. Em suma, trata-se de uma postura perante o Caminho e seus adventos sucessórios, uma postura que nos anuncia como simples caminhantes, aptos a cada vez mais saberem de sua verdade e, com isso, a entendê-la e aceitá-la. Assim, as fronteiras da consciência assistem a uma considerável abertura de espaço (se de mais nos despojamos, mais livres e leves nos tornamos), o que somente irá preparar um fértil terreno ao cultivo de uma novel visão.

Mas nestes tempos de sucessão e de natural transmutação – ou seja, evolutiva –, permanece a Vida, simples e imperial, sóbria e vasta como as águas imensas de um oceano azul. E, com ela, todas as experiências vindouras e suas promessas, as causas de várias acções passadas, hipóteses de novo crescimento e de novos rostos a serem descobertos ou reconhecidos; enfim, todo o seu potencial, esplendor e magnanimidade a cintilar num esboço de vivência. No entanto, bem sabemos da existência da Chuva e da possibilidade de já na próxima curva ela se manifestar… Ou não fosse este plano o manancial da dualidade, do contraste vívido entre contrários. Por isso, quem caminha veramente, não deseja mais que a criação, não se opõem ao natural desenrolar da multiplicidade (pois tudo existe, tudo é natural e fluido), e sabe, no âmago de si, numa intuição tão vera e divina, como tudo se sucede e comporta. Contudo, se em um qualquer dia de passeio, atentarmos em vários semblantes e nas histórias pessoais que cada um deles em silêncio conta, veremos que reinam em número aqueles que ostentam as marcas de uma vida, suas feridas, cansaços e desilusões. Em contrapartida, diminutos são os que, mesmo não ocultando os seus íntimos sinais, irradiam uma luz resplandecente, a luz de quem vive e, ainda assim, crê fortemente numa nova madrugada, onde o seu Ser mais puro em liberdade cantará ao banhado ser pelos primos raios de um sol renascido. E é aqui que subsiste um espaço para a diferenciação, pois é a postura adoptada que na sua globalidade os define. Se num momento de recato, em instante de necessária meditação, nos relembrarmos de tais imagens, por certo atingiremos tal conclusão (e consequente mensagem a ser retida).

Uma vez mais, tudo se resume a uma única escolha; árdua, talvez, mas ainda assim uma válida escolha. Quem afirmou que deveríamos perecer após o desferir do primeiro golpe? Algures, em todos nós – e importa que isto seja sublinhado, para claro ficar –, reside a génese dessa força, seja pela fé, pela esperança, pela compaixão ou pelo amor. Múltiplos são, para sumariar, os caminhos que nos guiam até ao cerne da Alma e inúmeras as vias da ascensão plena. Recordam-se da publicação em que abordámos as vias do coração? Evoquem tais palavras e construam agora vosso parecer, sintam-no como sendo vossa pertença, como sendo algo da vossa natureza. Deslizem pelos segundos que em ilusão povoam o dia e, caros viajantes, com as vossas bandeiras bem fincadas alcançarão o harmonioso alvor onde o Nada é Tudo, e o Tudo é… Nada.


Pedro Belo Clara.



quarta-feira, 28 de março de 2012

Do cimo de uma colina


Estando aqui, no cimo de uma verdejante colina, não posso deixar de reter a imagem única e peculiar que traduz o mundo em redor, diminuto sob esta perspectiva, nem tampouco de com todos vós a partilhar – ou não fosse essa uma das grandes virtudes da Vida que experimentamos. De facto, quando nos encontramos imergidos num vasto mar de problemas e de densas questões, não existe uma melhor via de com tal coisa lidar do que essa, isto é, proceder ao afastamento temporário desses nossos pesos. Tal como se nos achássemos no topo de uma qualquer colina, constataremos aí que nossos problemas, afinal, eram simplesmente insignificantes. A distância detêm esta valência: a revelação do real tamanho do negrume que sobre nós julgamos ter pousado (algo que só fará que tais eventos percam a sua vital importância). Até daqui, deste lugar onde me encontro, o imenso mar azul não passa de uma bela mancha distendida pela paisagem. Mas, para além disso, não poderemos igualmente olvidar a hipótese luminosa que reside neste exercício: a aparição da resposta ou da solução que tanto ansiávamos. Pois, em prática, ao sairmos do cerne de nosso avassalador turbilhão, permitimos que nossa consciência, mais solta e leve, possa considerar sobre o assunto em causa e sobre a melhor via a tomar, aquela que nos levará até à sua final (e quem sabe definitiva) resolução.

É agora, para mim, hora de partir; mas não o desejaria fazê-lo sem antes vos dizer que, com a minha ida, tal lugar se encontrará disponível para vós, para todos aqueles que, a seu tempo, quando os corações implorarem por tal escape, conquistarão a sua íntima colina e, dela, assistirão ao desenrolar quotidiano dos dois mundos onde existem. E talvez como eu se sintam curiosos por assistir ao desenvolver do habitual cenário que nos acolhe e ao comportamento, ora espontâneo ora mecânico, daqueles que o compõem. Observarão, certamente, carros que vão e vêm, desenfreados como ventos loucos que desbravam as livres estradas, aviões que esvoaçam e rompem nuvens, plenos de passageiros, pedestres que seguem seus caminhos, concentrados e fechados em pensamentos que só eles sabem e, então, talvez sintam uma estranha sensação de realidade contínua, uma eternidade presente nos momentos sucedâneos, aos quais, contudo, quem por eles passa a eles obedece. Depois, terminados esses passeios, essas buscas que aparentam ser infindas, esse pulular de íntimos desejos ou o cumprimento de uma imposta tarefa (pelos próprios ou por outrem), talvez consideram igualmente curioso verificar como todos se apressam em regressar àquilo que os espera, sejam familiares semblantes, a inércia de pálidos objectos ou o simples e (para eles) redentor vazio. E, aí, sedentos por algo mais a identificar, talvez compreendam que todos se encarceram voluntariamente. «Os lares são e sempre deverão ser abrigos, jamais prisões…», dirão vocês, no auge da maturação de uma súbita ideia. «Porque desejamos provar a liberdade em nossa existência, se à primeira lambida nada degustamos e logo retornamos aos cárceres rotineiros? Que medo cresce oculto na noite dos que não questionam?». Verão, talvez um dia, que toda a vida pré-definida aparenta estar verdadeiramente direccionada nesse sentido. Pois, à noite, se ainda permanecerem no cimo de vossa ínclita colina, assistirão à vasta gravura que se pinta com as luzes que piscam nos prédios, essas meras torres de betão frio e indiferente que infestam o horizonte, e observarão – no silêncio que então se instalar pelos arruamentos – as exíguas luzes que aí se acenderão e outras que permanecerão apagadas, esgotadas ou idas, como as existências que habitam essas quadradas habitações… Se apenas soubéssemos da existência de algo maior, de apenas conseguíssemos e, antes disso ainda, tentássemos sentir e, com o resultado desse sentimento, nos abríssemos a uma crença reveladora… Ah, caros viajantes, o que não poderia então ser feito! Mas muitos ainda não compreendem o dialecto que o Caminho sussurra na quietude dos sonhos e das ilusões…

E, ao abandonarem por fim esse local, deixando-o livre para aquele se seguirá (embora sem nunca olvidarem o motivo que até ele vos guiou), talvez o façam com o mesmo pensamento que paira pelas galerias de minha mente, talvez pressintam que cada um de nós, por si, seja um dia finalmente bem sucedido nessa emudecida demanda pela luz, a verdadeira Luz reveladora dos corações que latejam, e, então, rendidos ao esplendor anunciado, se lembrem de quem verdadeiramente são e de tudo aquilo que ainda poderão executar em prol de si mesmos, de seu semelhante e da comunidade que a ambos acolhe. Talvez, queridos irmãos, nos fermente então a vontade de erguer nossos semblantes, de atentarmos nas estrelas e entendermos que, embora quedadas e mudas estejam, elas sabem de sua verdade e felizes são em sua verdade, e que, graças a essa sua certeza tão certa e reconfortante, cintilam como mais ninguém.


Pedro Belo Clara.



quarta-feira, 21 de março de 2012

Ciclos da Existência (e outras particularidades)


Ao longo de diversas etapas percorridas, somos alvos de vários ciclos que se sucedem, momentos onde, se parca for ainda nossa ciência, dispomos sempre da oportunidade de apreender algo ao escutar sábias palavras proferidas por bocas alheias, um algo que nos poderá auxiliar a crescer em virtude e carácter – a mais comum metamorfose de um caminhante. Contudo, é importante entender que tais auxílios não vão além daquilo que eles próprios representam. Todos nos encontramos aqui, neste lugar, a existir por entre as peripécias de uma realidade que nos absorve, cumprindo um papel que há muito escolhemos representar por ser o ideal para o nosso próprio desenvolvimento, o mais acertado para que a lapidação de nós mesmos seja absoluta. Por isso, ao vivermos vidas únicas, compostas por singulares ciclos que a existência atravessará, possuímos igualmente diferentes abordagens e entendimentos sobre o Caminho em si, fruto de nossas peculiares experiências e de seu factor residual – o saber. Tais aspectos moldam-nos, é certo, mas importa entender que a final decisão reside sempre em nós. Se em tal situação nos encontrarmos, convém então colocar pertinentes questões: gostamos daquilo em que nos tornámos? Como poderemos alterar comportamentos que, no fundo, não traduzem as palavras de nossos corações? Mas talvez esse seja um assunto para abordarmos em uma outra oportunidade.

Mesmo que valioso seja entender o saber espremido de dizeres vários, com sua válida partilha de sentimentos, relato de acontecimentos ou experiências idênticas, jamais se deverá descurar o rumo que por nós deve ser delineado e percorrido. Essas ajudas externas são mãos que nos assistem o caminhar, mas só devemos realizar tal acto por nosso próprio pé (sob pena de a suposta “ajuda” ser, no fundo, um factor meramente prejudicial). Afinal, todo o aluno sabe que assistirá ao dia em que irá abandonar seu mestre para seguir seu rumo, aquele que apenas por suas íntimas intenções será revelado. Aprender é crescer, e crescer é aceitar a nossa luz e a nossa sombra, escutá-las e definir futuras passadas (mesmo conhecendo a fonte de surpresas que o Caminho é), sempre com a primordial missão em mente, aquela que todo o caminhante possui, mesmo que não esteja ciente de tal “posse”.

Uma existência é, assim, composta por ciclos vários, ciclos que são estações que atravessam nossos corações e neles plantam a sua mais recôndita essência. Agora, mais do que nunca, evoco a ideia referida algumas linhas acima: deveremos definhar apenas porque as folhas definham nas árvores que se entregam à brisa outonal? Deveremos sucumbir apenas por que tudo sucumbe à gélida neve que cobre o Inverno? Em nós – e em nós somente – habita a escolha a ser assumida, pois tudo se resume à adopção de uma determinada postura perante o evento que temos em mãos. Assim, em cada um dos ciclos de nossas existências reside a oportunidade de granjear um saber mais amplo, uma visão mais profunda sobre a Alma que somos e sobre as que habitam nos demais corpos e de colocar à prova outros saberes e conceitos detidos. Formar-se-á e consolidar-se-á, dessa forma, um carácter, as firmes linhas que percorrem as fronteiras da tal personagem que assumimos e representamos. Vamos, a cada passo, nos libertando de antigas dores (tão antigas quanto o sol e lua!) para sermos tão leves quanto o vento que livre sopra, mas igualmente aptos a novos encontros, novas partilhas, novos motivos de celebração (sem olvidar os que ainda nos assistem!) e, claro, aprendizagens. No fundo, muitos rostos nos irão cativar com suas ternas expressões e sábios dizeres; a cada etapa, deteremos um mestre diferente, até que findo se encontre o ciclo (o mesmo é dizer: até que nos tornemos mestres de nós próprios). E a humildade, que jamais é um sinónimo de subserviência (antes um requisito para percorrer o Caminho Iluminado), revela-se precisamente nesse entendimento e aceitação. Pois um mestre até poderá ser íntegro e digno, seja qual for a sua postura no mundo social, mas certas palavras ele ainda não conseguirá transmitir, apenas a mensagem que se resumiu de sua história. Parece haver algo de indizível aqui, nestas belos planos materiais, algo que nós tentamos encontrar e dizer por nossa boca – algo que, no fundo, também podemos partilhar com o mundo.

Hoje já não somos o que éramos, mas ainda nos encontramos em dista posição em relação àquela que um dia ocuparemos; daí a utilidade de crescermos por nós e de por nossas palavras e actos nos definirmos (o que nunca invalida o efeito das ditas “ajudas externas”). E, assim como nós um dia o fizemos, outros o farão – por si próprios. Então, entenderão e redefinirão esse saber que lhes foi legado, moldado à verdade que eles são. Mas será isso uma deturpação? Apenas se pensarmos em nós como detentores da Verdade Absoluta… Como poderá haver erro? Pois se cada parte encerra a sua verdade e essa mesma partícula é essencial ao revelar da obra maior! Poderá haver desacordo, sim, mas nunca erro (apela-se à nossa capacidade de respeito e de tolerância). Por isso, sei que se atentas estiverem nossas percepções, vislumbraremos então parte do rosto do Todo, aquele que divinamente se constitui pelas pequenas partes que nós somos e ao qual, por fim, retornaremos; ou não fosse esse o motivo para tanto o desejarmos descobrir, abraçar e compreender…


Pedro Belo Clara.



quarta-feira, 14 de março de 2012

Pelas linhas da Existência


Experimentamos díspares sensações através da absorção dos momentos vividos, diversos em teor e composição. Se por tal nos decidirmos, deles retiramos uma certa aprendizagem (caso aguçada esteja a nossa percepção) ou, em última hipótese, retemos o principal componente de sua estrutura, assim como deles desfrutamos ou simplesmente os ignoramos. Tais ocorrências, obviamente, existem por si só; o grau diferenciador reside apenas na forma como o seu receptor (todos nós, em suma) as recebe – mínimo ou elevado a uma potência consideravelmente alta. Mas será que tal comportamento modifica a nossa forma de ver e entender o mundo que nos rodeia? Muitos de nós deparam-se com um “excesso de sentir”, uma avassaladora corrente emocional que os atravessa, transbordando de suas margens e inundando os terrenos do contentamento ou da frustrante desilusão. Dir-se-ia, talvez, que indivíduos desta índole vivem amargurados, reféns de uma natureza sofrível, aptos a tudo sentir em moldes muito mais intensos do que aqueles a que seus semelhantes recorrem. Seja como for, todas as formas de entender o Caminho são válidas e a cada um de nós cabe a responsabilidade de aprender a lidar com o peso de nossos fardos (ou não fosse essa uma capacidade inata). Será que tal excesso de sentir, essa enorme capacidade de compreender e receber o mundo e seus adornos em frágeis braços humanos, não constitui um mero reflexo de uma íntima ânsia em saborear e assimilar os elementos que nos rodeiam? De facto, quem poderá recriminar um artista por tanto desejar comungar, entender e reproduzir o vórtice emocional que o assola quanto capta as reproduções de sua percepção? Há um indício de busca profunda decifrável em tal comportamento, ainda que vago seja. Por isso mesmo, convém relembrar que cada Alma possui contornos muito singulares que apenas deverão ser aceites e compreendidos (inclusivamente pela própria), na mesma medida em que cada caminhante parece indagar, demandar pelo oculto e questionar todas as premissas de seu rumo. No fundo, somente aqueles que buscam e caminham é que alcançam seu destino, aquele que, mesmo desconhecido ou adormecido nas bainhas de um sonho místico, pulsa em raios dourados no tecido de nossos corações. E é por isso mesmo, queridos caminhantes, que eu jamais aponto a verdade dos trilhos a desbravar; antes destapo os horizontes onde vossas mãos traçarão, por si mesmas, as linhas de vossas futuras direcções. Além disso, certo estou de que aquele que souber se guiar por sua bússola interior melhor definirá a sua orientação.

Afinal, não somos todos nós os artistas de nossas existências? Não a desejamos sentir plenamente, recebê-la de forma tão aprazível como ela nos recebeu a nós, entendê-la e desfrutá-la com as emoções da Alma e, de certa forma, fundirmo-nos com a sua essência? Quem não almeja harmonizar-se com o cenário que o rodeia? É claro que todos nós, caminhantes de vários caminhos, possuímos a nossa história e nossas próprias cicatrizes. Mas, por mais que nos doam, temos a capacidade (e a oportunidade) de aprendermos com elas e de renascermos para novos dias! O facto de sentirmos algo mais intensamente (ou não) apenas se traduz no acto de colocar mais ou menos condimentos em um certo alimento, mesmo que tal seja entendido como uma bênção ou uma maldição. Embora existam certas coisas que ocorrem e se desenrolam muito para além de nosso controlo, uma certa percentagem desses acontecimentos é-nos reservada. Quantos de nós, num devaneio revelador, não compreendem, de súbito, que suas mãos sempre seguraram martelos, escopos, penas ou pincéis escorrendo tinta fresca? E, à sua frente, estendiam-se mármores que aguardavam a vez de serem esculpidas, poesias ansiosas de rimas e telas brancas, prontas a perder a sua alvura… Todos possuímos um caminho que podemos esboçar e trilhar. Plantem a vossa semente e aguardem que se torne árvore. Poderá não possuir os ramos que imaginaram nem vos ofertar o número de frutos que desejaram, mas será uma árvore em tua a sua condição e esplendor! E o primeiro princípio foi alcançado…

É claro que em nossas existências desfrutamos de momentos felizes e de outros mais sombrios, mas… porque nos quedamos fatalmente nos mais ocultos de todos? A transmutação é uma arte poderosa e útil (embora não seja fácil de aplicar), algo a que todos poderemos recorrer. Além disso, com cada acontecimento nós poderemos aprender algo que fará o lapidar do precioso diamante que somos. Sempre há algo que habita nas entrelinhas de cada momento, um motivo por detrás de cada acção – mesmo que nossa visão esteja baça ou nossa mente entorpecida. E isso bem poderá ser um nítido foco de nossa fé. Todos possuímos nossas capacidades e adversidades; se com uma construímos a nossa história, com a outra aprendemos a fazê-lo (bem como a tornarmo-nos cientes daquilo que somos). Em todos os casos, ambas representam vantajosos ganhos, não só para a solidificação de quem somos como também para a materialização da imagem daquilo que ainda desejamos ser – sem jamais deixarmos de ser nós próprios. E assim se vão esboçando as linhas da existência que somos.


Pedro Belo Clara. 



quarta-feira, 7 de março de 2012

As luzes que nos bastam


Munimo-nos de diversas substâncias ao longo de nossa existência, substâncias essas que se armazenam e se reflectem em nossas memórias, comportamentos, crenças, discorreres e até em um simples relatar de histórias vividas. De certa forma, se conseguirmos imaginar o Caminho como um traçado rectilíneo, verificaremos que, à medida que o íamos percorrendo, fomos vestindo e despindo inúmeras vestes, velhas personagens que não mais se proviam de sentido ou, simplesmente, elementos de que dispusemos, desfrutámos e celebrámos no auge de nosso amor para, mais tarde, mesmo antes de nossa vontade, deles abdicarmos. Neste aspecto em concreto, emergem de nossas recordações certas amizades perdidas no render das estações e até familiares ou outros caros entes que o Tempo se encarregou de levar até um outro lugar (e por vezes de uma forma tão célere). Certamente não desejaríamos ficar desprovidos de tais rostos e peculiares perfumes, certamente desejaríamos dispor de mais tempo para de tudo, uma vez mais, podermos desfrutar. Mas será que em algum caso o tempo dispensado chega a ser suficiente? Quantos não rogam por sucessivos adiamentos?

É aqui que nos deparamos com uma dura – mas valorosa – lição: aceitar que certas ocorrências não se encontram sob o nosso controlo, de que tudo dispõe, aqui, de um tempo limitado e que, mesmo que certos desígnios possam não ser correspondidos por nossa mente racional, saber – com um saber de Alma – que tudo ocorre e se desenrola mediante princípios superiores, aqueles princípios que apenas operam com o intuito de harmonizar todas as partes integrantes de uma certa situação – o dito “Bem maior”, a Universal Força que actua quando nela depositamos nossas esperanças e opressões. E, se assim é, porque não começamos a colocar de parte todos os nossos lamentos e queixumes e, por um segundo apenas, olhamos em nosso redor e desfrutamos das cintilantes luzes que aí refulgem? Também neste caso, o próximo passo reside em uma de duas distintas opções: ou tomamos consciência dessas brilhantes luzes e por elas nos sentimos gratos (sabendo, principalmente, o quão efémeras são) ou, em alternativa, demoramos o nosso olhar somente pelas luzes que já se apagaram (ou que ainda não foram acesas, fruto de futuros empreendimentos) e com isso constringimos incessantemente o nosso frágil sentir. Porque só pensamos e nos angustiamos com aquilo que nos falta e não sorrimos, soltos e leves, ao saber do que “possuímos” e nos basta? (nota: coloco aspas na contracção do verbo «possuir» pois, no fundo, o sentido de posse não se aplica aqui). Por vezes, temos de ficar pobres apenas para compreendermos o quão ricos éramos… Mas também esses ultimatos possuem a sua valência e propósito, claro, embora seja sempre desejável aprender com os dias de Sol do que esperar pela vinda da Chuva, aquela que, com suas avassaladoras enxurradas, nos revela todo o saber que deveríamos ter retido. Mesmo assim, conhecemos as envolvências e os meio do Caminho, pelo que certas lições somente a purificadora Chuva nos poderá ensinar. Contudo, não obstante tudo isso, sei que, meus bravos e nobres irmãos, todos somos verdadeiramente abençoados e iluminados, apenas temos de nos esforçar para que essa luz possa ser, em nossas existências, encontrada e compreendida. E, por certo, o seu terno conforto constituirá o tudo que nos bastará, por um meio tão natural, nessa e em vindouras épocas.


Pedro Belo Clara.




quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

As duas valências


Nesta ocasião específica, inicio o habitual discorrer com uma pergunta: não é curioso o facto de uma das principais valências, disposta a ser assumida e empreendida por todo o caminhante, ser considerada de paradoxal? Ou postura ilógica, até? Porque razão tanto procuramos por algo e, quando esse mesmo algo nos é revelado, dele duvidamos e suas premissas rejeitamos? Consequências de uma mente indagadora, provavelmente… Mas aquilo que em certas ocorrências se apresenta como valiosa alavanca, em outras não passa de uma pedra que nos confunde e em sombras nos afunda. Cabe, por isso, a cada um de nós o recorrer a um maior discernimento, nossa pertença, verdadeiramente imparcial e fidedigno. Retomando a linha do raciocínio, clarifico a valência que linhas acima referia: a Fé, em todos os seus sentidos mais amplos. Ela não nos é totalmente estranha, nem que seja pelo facto de em publicações anteriores me ter referido, superficialmente, aos efeitos de tal bem. Bem? Será isso aquilo que é? No fundo, se analisarmos atentamente a questão, o que nos valerá em tempos de reclusão, de abundante Chuva ou de sombrias realizações, senão a fé em algo diferente? A fé de que caminhamos um rumo luminoso, onde toda a recompensa será alcançada, onde o horizonte é objectivo de conquista e que cada novo dia traz a promessa de uma luz vindoura? É claro que os meios de suporte de tal arte (chamemos-lhe assim) são árduos de erguer, aprimorar e completar (não obstante o defender), mas, se a tal empresa nos dedicarmos, recolheremos sempre os efeitos de tal acto. Aliado a isto, de mãos entrelaçadas, surge a Esperança – e eis as duas valências que brilham no alto de toda a Alma viajante, ansiando por seu reclamar. Quão complexas e íngremes são as provas que também esta arte dispõe, antes de plantada e cultivada ser!... Mas, como em outras circunstâncias, apenas serão mais doces os frutos de um agreste empreendimento… E assim será apenas porque árdua foi a sua execução? Certamente.

Ainda assim, se todas as vias esmiuçadas forem, deparar-nos-emos com uma encruzilhada. E tudo dependerá de uma escolha nossa, uma opção que reside na mente e nos actos de cada caminhante. Eis, por isso, a via da crença e a da descrença. Se na primeira, ainda que nosso futuro esteja enublado, ainda que desejemos o Sol mas não saibamos nem como nem quando ele irá surgir, decidimos acreditar em sua vinda, reunindo todos os pressupostos de Fé e de Esperança que em nós tínhamos cultivado. Já a outra via, por seu lado, terá as próprias consequências, mais sombrias e avassaladoras – mas tudo se resume a uma mera opção, válida e passível de respeitada ser, mesmo que não seja compreendida. Mas seremos utópicos por possuirmos Fé e decidirmos abraçar a esperança que é quase a certeza de um amanhã melhor, mais claro e límpido? Só quem se revela descrente é que verdadeiramente crê nesse julgamento… Com a etapa final em mente, poderemos continuar assim, despertos e aptos a concluir as demais etapas de nosso desenvolvimento. Esta é uma mera opção, claro, um possível caminho dentro de outros tantos. Mas, antes de terminar, coloca a ti mesmo, irmão de Caminho, a seguinte questão: “quem serei eu se decidir não acreditar?”. Decide por ti; assim, construirás o teu próprio rumo.


Pedro Belo Clara.



terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Os caminhos para o coração


Em anteriores publicações, por diversas ocasiões recorri à expressão “os caminhos para o coração” e frisei a necessidade de tais vias serem encontradas e percorridas pelo próprio indivíduo que as busca. Questionamos, por vezes, as hipóteses que residem em nossas mãos, aquelas que capazes seriam de implementar (ou auxiliar) a mudança que tanto desejaríamos ver realizada, em nossas vidas pessoais ou em nossas comunidades, mas estacamos no instante em que indagamos por que meios ou simplesmente pelo começo de tal acto. Isto, contudo, já em outras épocas foi discutido e exposto entre nós, no auge dessa bela simbiose entre autor e leitor, duas partes distintas que, no fundo, tanto têm em comum. Por isso, conhecemos a seguinte: se desejarmos efectuar uma mudança, ela deverá ocorrer em primeiro lugar dentro de nós próprios, eclodindo de nossos valores e crenças (e da forma como os assumimos). Mas como nos modificamos verdadeiramente? O processo é longo e contínuo, sim, embora a resposta esteja nos caminhos que nos guiarão ao âmago de nosso coração. Um indivíduo vale por si só, pelo que a mesma fome nem sempre é saciada pelo mesmo alimento. Assim, surge o desafio de convivermos com a diferença (que nos exige consideração e aceitação). É claro que quem se encontra mais desperto para certas questões, ocupa um lugar mais alto e de maior responsabilidade. Afinal, é alguém que poderá transmitir aos demais as peripécias de seu caminho, ainda que os restantes o devam cumprir por si sós. Isto é: quem se encontra numa posição mais elevada, pode relatar a quem se segue a paisagem que este observa, embora cada um tenha ainda que trilhar os últimos metros e ver por si próprio o cenário que somente se anuncia a partir daquela posição. E assim se identifica uma sucessão, um gradual encadeamento de acções – ou não se estivesse a construir um legado onde cada um poderá moldar a visão de acordo com o seu olhar, sem esta ser díspar da imagem dita global (uma vez que existem aspectos que são deveras universais, alterando-se somente a forma como os recebemos, entendemos e, mais tarde, aplicamos - mas todas elas mais não são do que diferentes meios de alcançar o mesmo fim).

São os conscientes que poderão dar indicações (sim, essa é a sua responsabilidade) nesse processo de busca interior e sugerir moldes de construção. Nada mais do que ensinar para aprender nesta imensa escola real que a cada dia nos apresenta uma nova lição. Quem já sentiu tal prova, apesar de ainda continuar seus processos de crescimento interior, possui um saber peculiar e encontra-se apto a transmiti-lo (o tesouro singular que todo o caminhante possui). E sabe que deverá deixar todo aquele que o procura ou o questiona a encontrar e percorrer o seu próprio caminho interior. Não trilhamos o rumo de um outro alguém, antes aquele que nosso é, onde por diversas etapas apenas descobrimos e assumimos nossa real identidade (por mais árduo que seja). Uns, como é óbvio, poderão tomar o caminho da direita e, assim, alcançar o interior de seu coração; outros, seguirão pela esquerda e serão bem sucedidos; alguns ainda decidirão seguir o rumo do meio para, passando por alguma neblina inicial, encontrar o que buscavam. Mas jamais se descartarão todos aqueles que, intentando encontrar seu coração, acabam por descer pelos pulmões, tomar a rotunda do estômago e, saindo na saída que diz “fígado”, subir em direcção ao seu tesouro.  Nunca importa o tempo dispendido; tudo é válido e deverá ser respeitado, nunca imposto. Assim evoluiremos, todos, cada um no seu devido tempo, como um doce fruto que amadurece lentamente, até atingir a sua plena maturação – o equilíbrio perfeito de seus açúcares. Superada a crucial etapa, mais desenvoltos, todos nós, cada qual na sua vez, estaremos mais aptos às mudanças: as que neste momento se encontram em decursos e aquelas que ainda aguardam a sua implementação. E eis que se inicia o processo interior, onde muitas outras questões irromperão e em outras tantas situações seremos testados em carácter, crença e valor. E depois? Será esse o fim do Caminho? Jamais! No final de cada etapa, logo uma outra se revelará… Embora nada aqui se assuma como punição ou penitência, apenas vias de experiência e aprendizagem. Mas, em breve, talvez quando menos esperarmos, de corações ao alto, luzidios e plenos, após o completar de sua interior transmutação, toda a exterior paisagem se aprontará, diante de nós, para banhada ser pela alva luz de uma Nova Manhã. E aí teremos o resultado de nossas acções.


Pedro Belo Clara.