segunda-feira, 26 de setembro de 2016

MEDITAÇÕES XLII


Não há rio que não tenha
um oceano onde morrer.
Mesmo diante da pedra
que lhe perturba o rumo,
a fluidez de ser permite torneá-la.

Se certas águas adormecem
no falso embalo das lagoas,
tal apenas se sucede pelo fluxo
da corrente se ter negado.

Poderão temer o seu diluir
naquela imensidão de águas
a que nunca deixaram de pertencer,
mas nenhuma lagoa será eterna.

Ainda que a semente necessite
dum derradeiro impulso para assim
dar lugar ao promissor rebento,
ainda que à borboleta se exija
um derradeiro esforço para romper
o seu torpe sono de lagarta,
a via tão subtil da existência
pauta-se por claros contornos:

não-resistência.








(Fonte: extremekindness.com)


quarta-feira, 14 de setembro de 2016

MEDITAÇÕES XLI


Quando a alegria florescer,
permite que os seus perfumes
aos céus em êxtase se ergam
– inebriando as alturas
com aromas de terra
em festejo puro.

Quando a tristeza aflorar,
aceita a desfolha que trouxer
– e as raízes mais fundo
penetrarão no húmido solo,
tocando abismos até então
impossíveis de sonhar.

Haja sol ou chuva,
seja noite ou dia,
o ser que vigia o âmago
sem escolha ou condenação
chegará sem movimento
ao lugar das manhãs eternas.






(Fonte: www.theuncommonjourney.com)


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

MEDITAÇÕES - XL



O ruído ao silêncio furta o espaço.

Não por tamanha dádiva
evolar-se assim de pronto,
somente é impelida ao coração
duma floresta repleta de sonho.

Em noite de luar cristalino,
a sua canção torna-se audível.

O escutar do primeiro acorde
é razão bastante para o resgate
formar a quietude do primeiro gesto.

Assim como a prova
de águas de inigualável frescura
despertam no ser a busca
pela fonte da sua proveniência.







(Fonte: www.ryanphotographic.com)


segunda-feira, 25 de julho de 2016

MEDITAÇÕES XXXIX



Assim como as estrelas
bordadas no veludo celeste,
inúmeros são os abrigos
que propiciam uma vivência
de sombra – antes da sombra final
sobre o ser se debruçar.


Mas onde a sombra subsiste,
não longe estará a luz.

As janelas poderão ser abertas
dum só gesto, ainda que os frutos
requeiram tempo para madurar.
Mas antes do louvor podem as mãos
descerrar as densas cortinas.

Pois pobre é quem decide
na pobreza viver. E rico quem reconhece
os tesouros nunca perdidos.










domingo, 17 de julho de 2016

MEDITAÇÕES XXXVIII



Chega a borboleta,
e sobre a flor poisa;

chega a abelha,
e na flor mergulha;

chega o Homem,
e pela flor os dedos passa.

Todos chegam sedentos,
e todos partem embriagados
por uma fragrância
de indescritível aroma.

Assim é o Amor:
fonte até à qual
nenhum caminho está vedado.







quinta-feira, 23 de junho de 2016

MEDITAÇÕES XXXVII


Por cada sorriso nascido do vento,
uma semente-sorriso deposita-se
no pequeno canteiro dos corações
próximos daquele que sorri.

Mesmo que se revele infértil
o ventre que recebe tal dádiva,
ao menos soube do perfume
da semente de tantas promessas.

Uma gota de água pura não expurga
a mancha duma lagoa inquinada,
mas um princípio de pureza aparta
um pedaço de escuridão do manto
envergado por noite tamanha.

Não importa se a fonte nasce
dentro ou fora – com visão limpa
deixar-se-á de julgar dentro ou fora.
A lua tem do sol parte da diáfana luz,
e nesse seu ofício de ser espelho
revela ao caminhante a estrada
nas noites em que mais cheia está.







(Fonte: www.pinterest.com)



segunda-feira, 30 de maio de 2016

MEDITAÇÕES XXXVI


O rio da vida.

Serpenteando por montes
e vales, cobrindo planícies;
correndo como potro indomável,
vogando como pequeno barco
na calmaria das marés.

O rio da vida.

Afaga flores, pedras e frutos,
canta no topo das árvores,
abraça o vento sem o desviar
da incerteza de sua rota.

Todos os pássaros o conhecem,
pois nele todos saciam a sede.
Quem aí reconhecer a sua raiz,
entoará hinos de louvor e gratidão.

De nada se poderá dizer separado.
Em cada ondulação é algo de novo,
e todo o seu correr é uma canção.

Quem com propriedade poderá dizer
donde vem, para onde irá?

O rio da vida: do qual o Homem
é breve gota, cintilando na ilusão
do poiso de suas margens.