segunda-feira, 25 de junho de 2012

Sobre o Amor


Pelo percorrer de todos os rumos, se para tal experiência estivermos disponíveis, verificaremos a presença de um sentir que é como um brando vento, uma corrente de ar que nos bafeja e guia, nos transforma e nos faz crescer. Ainda que, ao sermos viajantes de tantas causas, resultados de tantas histórias e vivências, possamos senti-lo e descobri-lo à luz de nossa particular percepção, esse sentir é, para muitos, a razão de tudo o que existe, visível e invisível; é a origem de cada coisa, o motivo que faz girar os moinhos que se espalham pela deslumbrante paisagem de nossas existências; um sentir que, na sua máxima expressão, é progenitor dos demais, pois todos nascem de suas centelhas e a todos ele abrange, albergando-os em suas indistintas asas. A que refiro, então? Ao Amor. Mas o que possui ele assim de tão singular? Que coroa o distingue? Porque é que, apesar de frágil, é tantas vezes forte e arrebatador?

De facto, o Caminho, como imenso palco que é, oferece-nos variadas oportunidades de vivência, comportando o granjear de experiência – traduzida posteriormente em sabedoria – e o crescimento / desenvolvimento daquilo que, em essência real, somos. Assim, as relações humanas (e não só) são simplesmente um renovado aroma que perfuma nossas existências. E, na sua base, em diversas e díspares formas e dimensões, encontra-se o Amor. Ele é frágil, sim, dócil e singelo, mas essa é a sua principal força, a valência que o torna no «mais firme dos esteiros». Ele é a causa da redenção nos que se julgam perdidos, da absolvição nos que se pensam culpados, do sossego nos inquietos, da esperança nos desesperançados, da aceitação nos proscritos… Mas só e apenas se a tal luz os indivíduos se abrirem. Afinal, o sol sempre brilha fora de nossas habitações, banhando suas paredes e seu telhado – compete-nos o descerrar de cortinas e o escancarar das amplas janelas, para ele nelas possa entrar.

Contudo, ao ser tão maioral e particular, o Amor nem sempre é por nós bem entendido, manejado, ofertado ou recebido. Em real consideração, experimentá-lo não significa compreendê-lo, embora seja um dos passos que nos conduzem a tal realização – tal arte advém de nossa sabedoria, consolidada em consciência. Muitos são aqueles que, de entre nós, em seus particulares rumos, vêem no Amor as linhas que compõem o apego. Como tal, atraem inevitavelmente o sofrimento. De tão forte, puro e verdadeiro que é, olvidamos o facto de que cada indivíduo possui a sua liberdade, e que essa deverá ser, invariavelmente, respeitada. No fundo, no meio de um turbilhão de dor ou de prazer, revelamo-nos egoístas. É, aliás, fácil tropeçarmos nesta armadilha – mas, convém não olvidar, os erros são o maiores provocadores do nosso desenvolvimento. Tal comportamento é, por isso, banal e difícil de quebrar ou, até, de evitar (antes aceitá-lo, compreendê-lo e transmutá-lo). No entanto, sempre poderemos tentar. Cada dia comporta a sua aprendizagem, pelo que jamais poderá ser tardio o esboçar do primeiro passo.

O verdadeiro Amor, assim, quando incondicional, livre de restrições, julgamentos, imposições ou encarceramentos, comporta a liberdade – e essa é a sua maior virtude, diminuta acha de perene Luz. Se tal aspecto for, por fim, compreensível ao nosso entendimento, saberemos (como certas coisas sabem aqueles que veramente crêem) que nenhuma ligação será jamais quebrada, existindo, com o afastamento (breve, por sinal), a promessa de um reencontro. Múltiplos sentires poderão, posteriormente, nos assomar, sendo a saudade a líder dessa implacável manada, mas nós, viajantes, possuímos o Tempo – o curador de todas as injúrias e feridas. Sem olvidarmos o Amor, é claro, sempre abrangente, transmutador e apaziguante. Afinal, nada é, efectivamente, efémero em essência, pois ela, a valência das valências, é veramente eterna por sua etérea condição.


Pedro Belo Clara.   




sábado, 9 de junho de 2012

Estados de experimentação



Ao longo dos nossos dias, que a seu tempo se consolidarão em semanas, meses e anos – na ilusão de uma percepção pré-definida e precocemente implantada –, desfrutamos da oportunidade de experiênciar diversos estados de ser e de estar. No fundo, nossas existências resumem-se a isso mesmo: a experiências (ou hipóteses de experiência). E elas são, por categoria, imensamente variadas. Ora criadas por nós próprios (se decidirmos definir nossos rumos), ora pelo Caminho (se a ele nos entregarmos e nele depositarmos nossa crença e fé), elas permitem-nos percorrer a multiplicidade do Ser, testando-nos, impulsionando o nosso indagar ou proporcionando, simplesmente, o clarificar ou o consubstanciar de uma ideia, atitude ou, em escala alargada, carácter. E, no seio de tudo isso, apesar de lhes ser comum o carácter peculiar (que obviamente as diferencia), há algumas que oferecem ao seu experimentador uma maior hipótese de crescimento. Aliás, não sentimos já, nos nossos particulares mundos, a sensação de que algo nos enviava uma espécie de ultimato? Um derradeiro aviso que não mais se repetiria? E tudo isso porque se impunha o nosso despertar, o abanar de alicerces, a devastação de nossas culturas – apenas para que de novo as pudéssemos plantar. O Infinito fala connosco através de nossos corações, embora possuamos a escolha de os não escutar (o que, como sempre se verifica, conduz a uma determinada consequência).

O Mundo é fruto de uma Una e Suprema Consciência que por si só existe e prolifera, a Roda da Vida que faz girar o fluxo do Rio que flui por nossos dias, que a si própria se arruma e molda, num inquebrável (porém, flexível) equilíbrio que sempre se encontra e mantém – sem que a nossa influência cause impacto. Experiênciamos, sim, mas todos nós, viajantes, sentimos essa calado desejo de retornar a casa – a fonte de onde proviemos. Esse desejo, traduzido em busca, apenas revela um certo grau de despertar, de percepção conscienciosa. Afinal, sabemos onde nos encontramos e tornamo-nos cientes do que existe e do que em torno de nós se desenrola. Contudo, tivemos de caminhar para alcançar esse estado, ou melhor, para que ele pudesse entrar em nós. E tal iluminado acontecimento eclode de nossas experiências, sejam elas escolhias ou “sabiamente atribuídas”. Assim, julgamos aprender, quando no fundo apenas… relembramos.

A Vida é, por si só, composta por ciclos, fazendo ela própria, inclusivamente, parte de uma ciclo maior. Entender isto é saber que tudo se sucede, nasce e se renova. No entanto, entre o Sol e a Chuva, somando toda a sua singularidade e expressa necessidade, existem certos estados que entendemos por maldosos ou passíveis de repressão, rejeição e substanciais vitupérios. De entre eles, a enfermidade. Apesar de sempre nos focarmos uma só objectiva, mirando e recebendo o lado negro de uma esfera bicolor, esse estado, mais do que qualquer outro, oferece-nos uma hipótese de ficarmos mais perto de algo superior. E isto porque nossa consciência altera-se significativamente, tornando-se, como tal, mais receptiva e susceptível – algo que, em momentos de grande vitalidade, não acontece. Existirão outros caminhos e alternativas vias para algo se implementar, é claro, mas – e nem sempre em última análise – este estado assoma-nos. Há um brilhante fundo de verdade no psicossomatismo: nosso corpo envia-nos sinais e reflecte o estado de nossa mente e Alma. Se algo assim nos conquista, então impõe-se uma revisão de actos ou de estilo de vivência. Além disso, do reconhecimento e aceitação de nossas humanas fragilidades irrompe a Humildade; o que, por consequência cultiva o “ser”, não o “ter” – um resultado do nosso exacerbado ego.

Imergimos, em suma, numa densa escuridão, que dar-nos-á, a seu tempo, a origem de uma luz deveras cintilante. Obviamente que, por sanidade, todos desejamos rejeitar a dor, mas… por vezes o crescimento advém de nossas próprias feridas. Constatar tal via é, tal como há pouco vos falei, entender e aceitar os ciclos deste Mundo e sua dualidade: não existe direita sem esquerda, vida sem morte, preto sem branco, Outono sem Primavera. Mas, por fim, acabaremos por compreender que, ao abraçá-las, superá-las-emos, vibrando em níveis elevados e sendo livres, verdadeiramente livres, amparando na palma de nossa aberta mão uma fina centelha, dócil estrela, a ínclita filha da Eternidade.




Pedro Belo Clara.







terça-feira, 22 de maio de 2012

Sobre a Liberdade


Através da leitura de muitas outras publicações anteriores, ficou sublinhado o seguinte facto: a Liberdade, aquela que – a par da Felicidade – muitos de nós procuram trazer até suas existências, reside em nossas escolhas. Sabemos, por isso, que elas poderão ser árduas ou comportar insuportáveis consequências, mas, ainda assim, o opção está sempre em nossas mãos. Esta procura, que em inúmeras ocasiões constitui o mote de uma só vida, poderá demorar-se por toda uma existência, valorizando-a e preenchendo-a com um louvável significado. Contudo, nada existe que não possua o seu término. Aliás, algo terá sempre de cessar para que um outro algo se inicie. Ao entender isto, estaremos, desde já, a autorizar o fluir do Caminho e de seus elementos e ocorrências – ou, fazendo uso de outras palavras, permitir que um livre fluxo corra por nós.  

No entanto, desejamos muitas vezes a Liberdade sem nada fazermos para a experiênciar. E isto porque, em súbitos assaltos de um receio de perda, colamo-nos de uma forma intensa, doentia até, a certos objectos, situações, experiências ou indivíduos. Tememos sempre a mudança, é certo, e o agarrar de algo que nos é familiar concede-nos segurança, um estagnado equilíbrio. Ainda que possa ser o Amor a razão que a eles nos prende, é um facto de que a verdadeira expressão desse sentimento comporta a Liberdade, não o apego ou a manipulação. Contudo, o mundo em que vivemos ainda se rege por antigos padrões e nós, de certa forma, permitimo-nos ser moldados pelos mesmos, muitas vezes até de uma maneira imperceptível e, como tal, inconsciente – o que só ressalva a importância do despertar consciencioso. Por isso, sentimos dor e desolação relativamente a situações diversas, algumas até banais, situações em que, se entendidas fossem sob um aspecto de vista diferente, dar-nos-iam motivos para sorrir ou celebrar em serena alegria.

Um determinado grau de certeza pode verdadeiramente fornecer um terno conforto, mas tudo é efémero – e o Homem que de vera sabedoria se dota entende isso mesmo. Como tal, desapega-se e toca a Eternidade. Porque experiênciar a Liberdade ou desejar estar (ou ser) livre não implica necessariamente tudo abandonarmos para constituirmos residência em um bosque ou caverna longínqua, adoptando um modo de vida introspectivo e de reclusão – exceptuando os casos em que intimamente sintamos tal apelo, pois nisso nosso maior guia – o coração – é soberano. A Liberdade faz-se antes sentir a partir do não domínio e da auto-preservação (tudo se cria e regenera por si só). Se vivermos e deixarmos viver, estaremos a despojarmo-nos de muito! E a ideia desta reflexão vai muito mais além da atitude indolente, leviana ou despreocupada que ela deixa transparecer… Pois todos puxamos para nós as responsabilidades que desejamos aceitar, sabendo de antemão que elas detêm uma tendência para nos aprisionar. Atravessamos problemáticas situações e demais complicações, mas ser livre representa precisamente o saber impedir que tal peso nos afecte, plenamente confiantes em nós e, não obstante, na roda que gera a Vida. E é nesse mesmo despojar que experimentamos uma das mais altas formas de transcendência aqui possíveis, neste plano onde a Alma ainda se encontra anexada a seu veículo, nossos corpos.

Escuta os teus apelos de coração e eles sintonizar-te-ão com a Energia Suprema – serão os ventos que bafejarão as velas de tua embarcação! Nada esperes, antes confia, encontrando as razões da tua própria crença; entende quem és e sê essa verdade, fluindo, certo de que tudo é mutável e passageiro, de que tudo se ergue e se replanta.


Pedro Belo Clara.





quarta-feira, 16 de maio de 2012

Fluir pelas margens do Ser


O Caminho prolonga-se até ao Infinito. Ele próprio, em sua autêntica verdade, não é dizível ou palpável; existe como coisa eterna, pulsante e mutável, como rio que flui e sua forma transmuta. A sua eternidade reside naquilo que percepcionamos como “momentos”, e eles sucedem-se, a todo o instante, como pequena parte de um ciclo maior, amplamente Universal, a roda que tudo rege e tudo faz girar. O seu segredo maior reside no “agora”, no presente instante, e não num passado que findou ou em um futuro indefinido. Se nele vivermos, ou pelo menos nele focarmos nossa atenção, conseguiremos atingir um novel estado de percepção, diferente do que até aí havíamos experimentado. Em suma, se nos tornarmos fluidos, como folha caída por sobre as águas de um grande rio, revelar-nos-emos conscientes, livres, soltos de qualquer incómodo peso, e confiantes de que, em época propícia, atingiremos a foz, desaguando depois no grande Mar. Mas até que ponto é que se estendem as nossas acções deliberadas? Poderemos interferir num fluxo de ocorrências?

Possuímos nosso direito de escolha, uma opção que nos definirá e, obviamente, nos trará as devidas consequências (para uma causa existe sempre um determinado efeito, assim como o eco devolve, amplificada, a vibração de nossa voz). Por isso, a hipótese de fluir pelos momentos assume, claramente, uma posição de escolha a ser realizada. Ela existe, tanto como os demais possíveis rumos, exacta e perfeitamente viáveis – a opção apenas reside em nós. Contudo, é importante compreender que existem certos elementos e eventos que se encontram fora de nosso alcance, pelo que, como consequência, não os controlamos. É fácil sentirmos um crescente poder, quando definimos um caminho ou traçamos um rumo por nosso próprio punho e deliberada atenção, e tudo vemos a se erguer e, por fim, materializar. Ainda assim, em tempos de maior turbulência, seremos atacados por uma oculta insegurança, um medo que pela calada nos congela o discernimento. E, no seio de tal encarceramento, uma irascível frustração reclamará o seu domínio. Poderemos nos debater, mas nunca possuiremos uma força superior à corrente do rio que nos transporta. Essa é uma inútil luta que em nada nos beneficiará, apenas imprimirá de forma mais funda e indelével suas feridas e dores. E é por isso que ganha um enormíssimo relevo a oportunidade de cultivarmos em nós o não agir, o não saber e o não ser – estados onde uma derradeira liberdade é alcançada. São apenas parâmetros que, no fundo, sustentam a fluidez de ser e estar, ao mesmo tempo em que não somos nem estamos – divino paradoxo! Ou seja: atentos espectadores do mundo que por si se desenrola, vazios como o livre vento e eternos como o Infinito.     

Ao sermos fluidos, entendemos que existe uma certa impotência passível de ser aceite, no doloroso auge de nossa humana fragilidade. Assim são as regras deste jogo que aceitámos jogar, assim se compõem os elementos que habitam e funcionam em pleno neste material plano, onde por ora existimos. E diversas são as vias de sua anuição, pois, uma vez mais, o Indivíduo percorrerá sempre o caminho que mais lhe convier, aquele que mais se adequa à sua peculiar natureza. Afinal, exceptuando a situação em que o própria desejaria modificar-se, nunca poderemos esperar que uma laranjeira faça crescer figos em seus ramos, pois tal não lhe é natural; e, se o fosse, revelar-se-ia uma figueira, assumindo uma condição que certamente nunca foi a sua. Cada coisa, portanto, está em seu devido lugar. Assim, seja pela Fé, pela Revolta, pela Esperança ou até pela Dor, sabe-se que, no fundo, todos se apresentam como díspares rumos que nos guiam ao mesmo destino, com mais ou menos curvas e pedras a distingui-los. Por isso, essa aceitação poderá ser perfeitamente suave, se a isso estiver receptiva a Alma que tanto indaga. Em alternativa (infelizmente a mais comum), sempre poderemos ficar a contas com o assombroso e pesaroso ânimo, que se enegrece como uma vil assombração. Mas nós já não vivemos para carregar tremendas pedras, antes para delas nos libertarmos! Tudo poderemos aceitar, desde que cientes estejamos dos limites de nosso raio de acção. Poderemos decidir não intervir (cultivando a não acção), mas, se o fizermos, debater-nos-emos com nossa impotência. Aí, importará entender que a situação compreende duas partes, uma espécie de trabalho de equipa entre o Indivíduo e o Caminho em si. Façamos, então, tudo o que sentirmos estar ao nosso alcance, mas conscientes de que o resultado final nunca dependerá exclusivamente de nós. É aqui que poderemos modificar um pouco o curso das águas, sem com ele contendermos, mas apenas se tal possibilidade nos for permitida. Afinal, sabemos que uma longa história foi há muito escrita e definida, por nós e outras consciências. Se acreditarmos em um Bem que nos assiste e o deixarmos viver e actuar em nossos rumos, tudo se resolverá por si e por si se encaminhará.

Celebremos, então, o Sol de nossos Verões, sabendo que em breve virá o Inverno com seus nevões e insanos ventos. Estando a esse aspecto abertos, permitiremos que a Serenidade e a Plenitude nos habitem, enquanto que uma inabalável certeza se fortificará no silêncio de nosso íntimo. Quem disse que esta Vida divina que experimentamos deverá ser sombria e taciturna? Cada um cumpre o seu caminho, é certo, mas a opção de sermos livres existe! Poderemos cultivá-la no imenso terreno fértil que é o nosso sábio coração. Mesmo que a Vida nos traga dureza, saberemos que essa é a sua prova, e que suaves nos poderemos revelar, apesar de tudo o mais.

Sejamos fluidos; e mais próximo estaremos de abraçar a eternidade que reside no Todo, aquele que desde sempre nos enlaça e que tão ardentemente anseia o nosso esperado retorno.


Pedro Belo Clara.




quarta-feira, 25 de abril de 2012

O Indivíduo e seus semelhantes


Por nós próprios trilhamos os quilómetros de nosso caminho, mas não estamos sós no Caminho: há rumos que se entrecruzam, aromas que se desfrutam, cantares que se evocam, rostos que se saúdam e inolvidáveis olhares que se amam. Contudo, caminhamos sós; pois é dessa forma em particular que cada Alma se une a si mesma, até retornar ao infindo mar de onde ela, exígua gota, se escapuliu. Cada indivíduo vale por si e possui um rumo próprio. Mesmo que desprovido estivesse dos adereços de um ego de volúpia e soberba – ambições, projectos, desejos –, não deixaria de possuir um rumo. A única diferença entre ambos reside numa postura específica: navegar ao sabor das vagas sucessórias ou remar pela sua turbulência. Cada Ser, assim, valendo-se dos métodos que lhe sejam mais úteis a seu crescimento e desenvoltura, representa um peculiar universo, um pequeno mar contido em um outro, imensamente maior (como antes referi).

Os raios que provêem do sol não se despojam daquela mesma luz que reside no núcleo de tal estrela. Em todo o processo de despertar consciencioso, tal aspecto revela a importância de seu entendimento. De facto, todos nós partilhamos algo com os demais que nos circundam; existimos por nós próprios, mas não estamos sós – todos possuímos nossas marcas, alegrias, dores, histórias, valência e vicissitudes; algo que só servirá para nos aproximar, fomentando nossas qualidades humanísticas. E assim é porque todos nós, sem excepção, decidimos pegar em nosso cajado e empreender uma (nova) viagem pelas planícies de um mundo de experiência – o nosso palco de ensino e aprendizagem. Por isso, sabemos que cada liberdade é eterna, embora encontre o seu término nas fronteiras de nosso vizinho; sabemos que a aceitação, a tolerância e o respeito por nosso semelhante são cruciais à consolidação do dotar de notáveis capacidades sociais (no fundo, aquelas que deverão povoar as mentes que, por sua vez, povoarão novas e evoluídas sociedades). Deste modo, estaremos a contribuir para o fomentar de uma co-existência pacífica, embora não devamos ser inocentes ao ponto de ignorar o facto de que um barco, para navegar, não só necessita de vento e de boa maré, mas também da vontade de seu comandante em navegar.

Todas estas e muitas outras essências pairam pelo olhar que se ergue e perscruta para além da penumbra. De entre elas, o saber de que não possuímos o direito de intervir em algo que não é nossa pertença. Aliás, essa é mais uma ilusão fermentada nas barricas do ego: o apego a algo que não nos pertence, embora intimamente nos consideremos seus proprietários. De forma verdadeira, em todos os aspectos, apenas somos responsáveis por nós próprios – somos o pequeno universo que regemos –; o restante trabalho resume-se ao capítulo da orientação. Mas, obstinados, imersos em problemáticas dores e questões, permitimos que se enuble a percepção e invadimos terrenos alheios – essa é a causa da deturpação enganadora. E quantas querelas não já se alimentaram de tais posturas? Vivemos em sociedades de Ter e não de Ser, logo continuamos agarrados a um poder mórbido e à sua necessidade de vitória, de imposição e de esmagamento total. Ao tornarmo-nos conscientes, saberemos que, ao invés de impor a nossos semelhantes os parâmetros e os rumos que julgamos serem certos e a eles adequados, a via de não agressão subsiste em conceder-lhes apoio em suas escolhas de rumo e caminho, mesmo que estas difiram daquelas que para eles havíamos pensado. Repito: cada indivíduo vale por si só; e tal é passível de ser respeitado. É claro que tais actos são, na maioria das ocasiões, feitos ou impostos em nome do maior dos ideias ou da melhor das intenções. Mas, uma vez mais, sobressai o seguinte: gostaríamos que terceiros adoptassem o mesmo comportamento que adoptamos perante os demais? É claro que podemos oferecer, a esses companheiros de caminho que tanto amamos, uma válida via, expor vantagens, mas toda a final decisão caberá ao interessado – e é isso que deveremos aceitar. Afinal, se a andorinha adoptasse o comportamento do rouxinol, ela por certo mudaria o seu canto e as suas cores, passando, por fim, a ser um mero rouxinol.

Nas veias deste dizer corre, pulsa e se expressa um amor, livre de condição, que nada pede nem nada exige, pois é veramente incondicional – um amor que está em nós e cuja oportunidade de aplicação reside naquilo que já foi dito. Cuidamos e amamos os que nos rodeiam através de nossa força, cooperação e carinho, simples e espontâneo, e não pela imposição de ideias que, no fundo, só a nós nos servem (pois por nós foram formuladas). Fluamos nós pela Vida e deixemos que os outros façam o mesmo! Confiando, por certo chegarão ao porto onde mais são esperados. E, sempre que a situação o exigir, teremos nossa fortaleza para os abrigar e nossos amplos braços livres para os amparar.


Pedro Belo Clara.




quarta-feira, 18 de abril de 2012

Numa carruagem de comboio


Devo admitir que sempre apreciei o aspecto análogo – em alguns casos até metafórico – inerente a uma simples carruagem de comboio e seu expectável comportamento. É um autêntico retratar de diversos aspectos de uma existência! As estações por onde se queda e as pessoas que nela entram e saem, tal como o fazemos durante nossas vívidas experiências, nessas viagens onde cruzamos tantos rumos e despedimo-nos de outros tantos rostos, apenas para nos revelarmos receptivos ao encontro dos que ainda passarão por nós. O mecanismo aleatório que existe nesse simples fenómeno é deveras significativo, um digno exemplo de um “acaso” tão simples e aparentemente inocente, mas profundamente certo e sapiente. De facto, a lógica aparentemente oculta que segue é uma belíssima reprodução daquela que, em muito maior escala, paira pelo Caminho de todos nós. Desejamos entender alguns aspectos de seu funcionamento? Atentemos no funcionar da carruagem de um comboio em viagem…

Foi numa dessas mesmas viagens que me deparei com um demonstrar igualmente interessante (e não menos desprovido de propósito e sentido). Observava, como quem entende, um certo companheiro de viagem e o aparente interesse que dedicava à leitura de uma publicação banal. Via, lia, desfolhava e esforçava-se por compreender e por forjar mental parecer, completamente imerso naquela sua actividade. Dir-se-ia até que toda a sua vida se resumia a isso, tal a habilidade com que executava essas operações. Contudo, quando se anunciou a estação pela qual esperava, curiosíssimo foi verificar a rapidez com que se desprendeu daquela actividade para sair em seu esperado destino. No fundo, se conseguirmos captar uma interpretação profunda desses simples gestos, entenderemos que é daquela forma que se comporta o Homem em seu próprio processo evolutivo. Quando despertamos, quando visionamos horizontes mais amplos, de pronto abandonamos actividades e interesses (capas que não mais nos servem, entenda-se) até então tidos por vitais, agora que supérfluos se revelaram. Também aquele companheiro não hesitou em abdicar de sua leitura, outrora tão válida e imprescindível; nada mais dela poderia retirar e, no mais íntimo de si, entendeu esse vero impulso. Além disso, como dedicar a mesmíssima atenção àquela publicação se, ao mesmo tempo, estivesse a caminhar pela estação? Aquela actividade esbulhara-se de sentido… Tomou a sua decisão e abraçou o seu crescimento interno. Em termos mais fundos, ele sabia onde iria sair, sabia qual seria o passo que devia esboçar, sentia aquilo que seria o seu destino – a simples materialização que um Bem superior, a seu silencioso pedido, lhe concedeu –; e de pronto abandonou o veículo que o auxiliou a alcançar tal posto, agora que se desprovia de significado. Se considerarmos com a atenção devida, de que lhe iria ainda servir?

Eu, por minha vez, continuei viagem e perscrutei outros companheiros que somente despertavam ao anunciar de sua estação (mas que concentravam o mesmo ânimo em nela sair), outros que nem a esse sinal abriam seu olhar, tal era o estado de marasmo e letargia em que estavam imersos, e outros até que, contrariando o exemplo que à pouco referi, seguiam suas actividades de leitura atrapalhadamente, como se permanecessem instáveis, com um pé em duas estradas de diferentes sentidos… Mas eu tinha a minha música; fora minha fiel companhia durante toda a viagem. Permaneci atento, conservei-me desperto e alerta, mas sem perder minha serenidade. E quando se anunciou a minha saída, terei dela abdicado? Não… Como poderemos abdicar de algo que tão intrinsecamente faz parte de nós? Algo que se funde com a nossa natureza? E aquelas canções que vinha escutando representavam isso mesmo, o meu ser revestido de múltiplas formas e cores. Com elas eu transcendia, visitava planos cuja entrada nem sempre consigo encontrar. Sim, elas também eram o meu veículo, um transporte subtil que ainda não me encontro apto a abandonar, da mesma forma que antes já o fizera, em tantas outras etapas percorridas e vencidas. Chegada a minha vez, com elas eu parti rumo ao horizonte que sempre me espera, até que ecluda o instante em que delas não mais necessitarei, onde talvez me encontre solto, livre e vazio, como o vento que me perfuma de histórias e de aromas distantes.

E assim se dispunham os componentes daquele cenário, assim povoaram por breves instantes uma carruagem de comboio – assim existimos nós por nossas abençoadas existências, viajantes de causas que no seu fim convergem em uníssono, atentos à estação que sentimos ser a nossa saída, mas sem jamais perder de vista o vasto horizonte, sempre inalcançável, magnânime e redentor, como uma promessa que se quer eterna no final de cada dia.


Pedro Belo Clara.




quarta-feira, 11 de abril de 2012

Os cárceres como nossa condição


Mais do que poderemos considerar, os cárceres são comuns em nossas existências; quase que dela são parte integrante e, por consequência, nós somos sua pertença. Vivemos algo resignados em relação a este assunto, deveras acomodados como animais de hábitos que julgam o mundo por aquilo que dele sempre conheceram e, como tal, declaram ser a única realidade plausível (e possível, igualmente). Simplesmente, se abandonássemos esse estado amorfo de consciência, esse marasmo que permitimos habitar nos dias, estaríamos aptos a admirar novos horizontes, consideravelmente mais amplos.  E, ao vislumbrar uma beleza sem par, quem é que desejaria, por livre e ciente vontade, regressar aos pântanos onde até então residia? É aqui que refulge o carácter evolutivo da consciência humana, onde a conservação do mistério final se assume como motivo de busca eterna, até que nele nos possamos fundir. Assim, por certo compreenderíamos, por mais esclarecidos estarmos e por novos ângulos de visões possuirmos, o quão prisioneiros éramos. Pois certos aspectos apenas se confirmam quando deles nos afastamos e, com um global entendimento, constatamos a real dimensão dos mesmos.

De facto, se de momento nos debruçarmos sobre tal exercício, por certo iríamos entender que todos somos prisioneiros de algo ou de alguém. Por mais árduo que seja de admitir, todos nós nos achamos encarcerados sob díspares formas: em nossas casas, em nossas rotinas, em relações decadentes e destrutivas, em ocupações inúteis, em receios, em vícios, em ilusões, em objectos, em superstições, em imposições, em julgamentos, em moralidades, em institucionalizações… Enfim, a lista é por demais extensa. Mas é precisamente devido ao facto de sabermos que a Vida nem sempre é um fácil caminho que podemos adoptar várias posturas, mediante a situação anunciada. E uma das mais naturais é, por si só, a arte de caminhar. Se todos nós somos caminhantes, ainda que nos encontremos parados ou adormecidos, porque não optar pela caminhada, no mais real e físico sentido da palavra? Pois, ao fazê-lo, estaremos a experimentar um tipo de liberdade bastante peculiar, atingindo um estado de plenitude e de soltura equiparável ao do vento que nos bafeja o rosto. É claro que, para tal acontecer, exige-se prática e paciência para atingir resultados palpáveis. Mas, ao menos, naqueles instantes de passeio (por mais breves que sejam), estaremos a nos despojar de tudo o que nos possa pesar e oprimir, deixando que o coração se transforme e se encha de Vida! Embora a batalha (que deverá ser serena, diga-se) contra as investidas da mente possa ser bastante longa e fatigante, quando vencida, o Ser apresenta-se como um autêntico vazio, a junção infindos espaços onde somente pulsa uma luz, a nossa própria Luz, aquela que é, por ora, a nossa identidade mais profunda. Mas, como sempre digo, esta é apenas uma de muitas válidas vias, já que ao indivíduo cabe a descoberta dos caminhos que o levarão ao seu íntimo oculto.

Todos possuímos hipóteses de escolha, e é bom que tal aspecto permaneça activo. Mesmo que não as consigamos encontrar, saibamos que todo o Ser pode ser livre, simplesmente através do caso de escolher ser livre! Jamais poderá ser natural o facto de, por exemplo, encararmos nossas ocupações como meras obrigações, pois um trabalho, seja de que tipo for, deve completar o Homem, nunca o aprisionar. Apenas consideramos, por moldados estarmos de acordo com velhos padrões (ainda vigentes), que tal deve ser assim, que se trata de uma imposição à qual ninguém poderá escapar. Quão enubladas estão nossas percepções… Em dias claros, entenderíamos o prazer que o Homem poderá retirar de sua ocupação! Onde está, então, nossa felicidade? Aparentemente, bem longe das escolhas que tomamos, aquelas que inevitavelmente nos conduzem ao encarceramento. Porque permitimos que o medo impere? Nada nos é imposto, somos viajantes que vogam ao sabor do vento! Porque forçamos a Vida e com ela contendemos quando apenas a deveríamos deixar fluir, confiando plenamente em seus desígnios? Eis o salto de fé que ficou por dar. Mas a mudança reside em nós, e todo o tempo é válido quando decidimos seguir o que de mais secreto em nós lateja. O mundo pode conspirar em nosso favor sempre que intentamos algo e as correntes do Rio Universal mudam seu curso, mas o primeiro passo, a prima consciencialização, terá sempre de partir daquele que se deseja desencarcerar. No seio de nosso silêncio, encontraremos sempre orientação, se a ela estivermos abertos e dispostos a aceitá-la. Depois, importa anuir toda a consequência que de tal acto poderá advir – é crucial para nossa libertação! Pois, não em raras ocasiões, não nos disponibilizamos a carregar tal peso; e, por isso, consideramos que nos encontramos numa situação desprovida de escolha. Mas ela sempre existe, dentro daquilo que se encontra ao nosso alcance. Poderemos optar por “opções menores” ou “minimizações de impacto”, mas tais hipóteses não deixam se ser escolhas! Até mesmo quando sentimos que nada mais há a fazer, excepto fluir no curso natural da Vida…

A Vida é o momento, ela tece-se no agora; como tal, é no agora que reside a oportunidade de se libertarem e de admirar os vastos horizontes. Não num amanhã, mas no agora; agora, onde nossa existência se desenrola e enriquece. Sejam quem são, fluidos e naturais, e em breve já serão outros (sem jamais deixarem de ser vocês próprios), sigam aquilo que amam e vos faz feliz, pois a Vida não mais é do que um palco de descoberta, aprendizagem e, acima dos demais, celebração. Em consequência, provarão o mais doce dos méis que adocicam a existência humana. Atrevam-se a tal! E tocarão no rosto do Infinito apenas com um simples respirar.


Pedro Belo Clara.