segunda-feira, 25 de julho de 2016

MEDITAÇÕES XXXIX



Assim como as estrelas
bordadas no veludo celeste,
inúmeros são os abrigos
que propiciam uma vivência
de sombra – antes da sombra final
sobre o ser se debruçar.


Mas onde a sombra subsiste,
não longe estará a luz.

As janelas poderão ser abertas
dum só gesto, ainda que os frutos
requeiram tempo para madurar.
Mas antes do louvor podem as mãos
descerrar as densas cortinas.

Pois pobre é quem decide
na pobreza viver. E rico quem reconhece
os tesouros nunca perdidos.










domingo, 17 de julho de 2016

MEDITAÇÕES XXXVIII



Chega a borboleta,
e sobre a flor poisa;

chega a abelha,
e na flor mergulha;

chega o Homem,
e pela flor os dedos passa.

Todos chegam sedentos,
e todos partem embriagados
por uma fragrância
de indescritível aroma.

Assim é o Amor:
fonte até à qual
nenhum caminho está vedado.







quinta-feira, 23 de junho de 2016

MEDITAÇÕES XXXVII


Por cada sorriso nascido do vento,
uma semente-sorriso deposita-se
no pequeno canteiro dos corações
próximos daquele que sorri.

Mesmo que se revele infértil
o ventre que recebe tal dádiva,
ao menos soube do perfume
da semente de tantas promessas.

Uma gota de água pura não expurga
a mancha duma lagoa inquinada,
mas um princípio de pureza aparta
um pedaço de escuridão do manto
envergado por noite tamanha.

Não importa se a fonte nasce
dentro ou fora – com visão limpa
deixar-se-á de julgar dentro ou fora.
A lua tem do sol parte da diáfana luz,
e nesse seu ofício de ser espelho
revela ao caminhante a estrada
nas noites em que mais cheia está.







(Fonte: www.pinterest.com)



segunda-feira, 30 de maio de 2016

MEDITAÇÕES XXXVI


O rio da vida.

Serpenteando por montes
e vales, cobrindo planícies;
correndo como potro indomável,
vogando como pequeno barco
na calmaria das marés.

O rio da vida.

Afaga flores, pedras e frutos,
canta no topo das árvores,
abraça o vento sem o desviar
da incerteza de sua rota.

Todos os pássaros o conhecem,
pois nele todos saciam a sede.
Quem aí reconhecer a sua raiz,
entoará hinos de louvor e gratidão.

De nada se poderá dizer separado.
Em cada ondulação é algo de novo,
e todo o seu correr é uma canção.

Quem com propriedade poderá dizer
donde vem, para onde irá?

O rio da vida: do qual o Homem
é breve gota, cintilando na ilusão
do poiso de suas margens.














segunda-feira, 16 de maio de 2016

MEDITAÇÕES XXXV



A fresca flor que hoje viceja,
será amanhã eco de poeira
solta sobre estrada vazia.

A nuvem que pela manhã chora,
será rio na noite buscando
um largo oceano onde morrer.

A ave na primavera cantando
no alto da verdejante árvore,
será no outono a doce trova
doutra terra de poemas e canções.

O fruto que à luz dourada
apura os seus encantos de mel,
será numa sombra efémera
o alimento do corpo faminto.

Como poderá o Homem dançar
por dias de impermanência?

Na abundância, sê generoso;
na escassez, sê grato.








(Fonte: omegamassage.ca)







quinta-feira, 28 de abril de 2016

MEDITAÇÕES XXXIV



Descobre o pássaro
que há em ti.

Depois, encontra um ramo
onde poisar e com o vento
partilhar a tua trova.

Todo o pássaro sabe ser
uma espécie de flor alada:
no auge da estação,
oferece às aragens, aos frutos,
às pedras, aos rostos,
o aroma da sua rima mais pura.

Simplesmente canta:
canta, canta, canta.
E a existência toda, por tua batuta,
dará os passos que seguem
o ritmo duma dança eterna.

Quando o amor vier para ti,
será então como outro pássaro
que a teu lado escolheu poisar,
desejoso por juntar cada nota
do seu canto ao teu.



PBC.






(Fonte: www.pinterest.com)




segunda-feira, 11 de abril de 2016

MEDITAÇÕES XXXIII



Observa as manhãs de orvalho,
quando um sem fim de gotas
reluz sobre pétalas e folhas
recém-despertas.

Uma multidão aquosa,
onde nenhuma gota reflecte
um reflexo puramente igual:

por cada perspectiva,
uma cor do mundo emerge;
por cada voz alteando-se,
uma história de cristal se relata.

E são tantas sorrindo ao sol-criança,
tantas no perfeito abraço
ao ser-só que as faz ser o que são,
tantas sem pensamento de rio
ou desejo de vento brusco.

Observa as manhãs de orvalho.
Verás subitamente o brilho maior
que em nenhuma se nega:
a viva marca do oceano
que em segredo nelas vive.







(Fonte: www.goodwp.com)