segunda-feira, 31 de outubro de 2016

MEDITAÇÕES XLIV


De quem amas não queiras nada.
Aquele que pede abdica do reino
que por direito inato é seu.

Sê assim uma espécie de flor
aberta à luz que por bem surgir,
tão certa de que desse sol
nunca dependerá o seu sorriso.

Ou antes um pássaro, se souberes
das asas que ao peito trazes,
cavalgando o vento na toada
duma canção sem começo ou fim.

Sublimes são as árvores, sem céu
a desbravar ou terra por descobrir,
e tão aptas a oferecer o melhor de si
numa doçura que não exige louvor.






(Fonte: Getty Images)


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

MEDITAÇÕES XLIII


Viver a vívida solidão do mundo 
não é ser como uma taça,
seca e dura de tão vazia
que se encontra.

Viver a vívida solidão do mundo
é permitir somente que o fluxo
se não interrompa:
ora vazia e transbordante,
ora cheia e minguando.

O ser, contudo, deixará
de ser a taça que aparenta.
Diluída num mar infindo,
como poderá a gota dizer
de suas nítidas fronteiras?







segunda-feira, 26 de setembro de 2016

MEDITAÇÕES XLII


Não há rio que não tenha
um oceano onde morrer.
Mesmo diante da pedra
que lhe perturba o rumo,
a fluidez de ser permite torneá-la.

Se certas águas adormecem
no falso embalo das lagoas,
tal apenas se sucede pelo fluxo
da corrente se ter negado.

Poderão temer o seu diluir
naquela imensidão de águas
a que nunca deixaram de pertencer,
mas nenhuma lagoa será eterna.

Ainda que a semente necessite
dum derradeiro impulso para assim
dar lugar ao promissor rebento,
ainda que à borboleta se exija
um derradeiro esforço para romper
o seu torpe sono de lagarta,
a via tão subtil da existência
pauta-se por claros contornos:

não-resistência.








(Fonte: extremekindness.com)


quarta-feira, 14 de setembro de 2016

MEDITAÇÕES XLI


Quando a alegria florescer,
permite que os seus perfumes
aos céus em êxtase se ergam
– inebriando as alturas
com aromas de terra
em festejo puro.

Quando a tristeza aflorar,
aceita a desfolha que trouxer
– e as raízes mais fundo
penetrarão no húmido solo,
tocando abismos até então
impossíveis de sonhar.

Haja sol ou chuva,
seja noite ou dia,
o ser que vigia o âmago
sem escolha ou condenação
chegará sem movimento
ao lugar das manhãs eternas.






(Fonte: www.theuncommonjourney.com)


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

MEDITAÇÕES - XL



O ruído ao silêncio furta o espaço.

Não por tamanha dádiva
evolar-se assim de pronto,
somente é impelida ao coração
duma floresta repleta de sonho.

Em noite de luar cristalino,
a sua canção torna-se audível.

O escutar do primeiro acorde
é razão bastante para o resgate
formar a quietude do primeiro gesto.

Assim como a prova
de águas de inigualável frescura
despertam no ser a busca
pela fonte da sua proveniência.







(Fonte: www.ryanphotographic.com)


segunda-feira, 25 de julho de 2016

MEDITAÇÕES XXXIX



Assim como as estrelas
bordadas no veludo celeste,
inúmeros são os abrigos
que propiciam uma vivência
de sombra – antes da sombra final
sobre o ser se debruçar.


Mas onde a sombra subsiste,
não longe estará a luz.

As janelas poderão ser abertas
dum só gesto, ainda que os frutos
requeiram tempo para madurar.
Mas antes do louvor podem as mãos
descerrar as densas cortinas.

Pois pobre é quem decide
na pobreza viver. E rico quem reconhece
os tesouros nunca perdidos.










domingo, 17 de julho de 2016

MEDITAÇÕES XXXVIII



Chega a borboleta,
e sobre a flor poisa;

chega a abelha,
e na flor mergulha;

chega o Homem,
e pela flor os dedos passa.

Todos chegam sedentos,
e todos partem embriagados
por uma fragrância
de indescritível aroma.

Assim é o Amor:
fonte até à qual
nenhum caminho está vedado.