terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

DIVAGAÇÕES SOBRE UMA GAIVOTA QUE PASSA


Os dias cinzentos convidam à reflexão. E é no seio dessa húmida atmosfera de marítimos odores, prenhe de saudade e de sal, que se queda um poeta.

No coração escuta o bramir de um mar sempre ausente. Crê que o traz em si, entranhado na mais recôndita das fímbrias do ser, desde que se conhece como é. Em certos dias, quando o rebuliço se reforça e o eco mais se faz sentir, dá por ele a indagar se por suas veias corre o mais comum dos líquidos ou uma qualquer mistura de água e sódio. Nos altos céus de platina, embebidos em melancolia, uma gaivota imprime a sua invisível rota. Algures no meio, entre coração e céu, o poeta, rochedo profundamente fincado num areal de praia imaginada, é testemunha de fenómenos que não compreende. Mas voltemos, por ora, à gaivota.

Devo confessar que o seu voo sempre me intrigou. Agora, intriga-me ainda mais. Intriga-me e seduz. Especialmente quando tais peculiares aves trocam os imensos espelhos onde habitualmente se estudam e revêem em detrimento de deambulações por sobre estradas de rumos confusos, agitações fumegantes e brilhos toscamente intermitentes. Não poderei explicar o porquê, claro está. O voo da gaivota é semelhante ao voo de qualquer outra ave: repleto de mistérios. Talvez por essa mesma razão, ao concluí-la, o Homem tenha almejado (admitamos: cobiçado) essa arte tão intrinsecamente ligada à essência daqueles que ostentam penas e asas.

Mas lá que o voo é intrigante, é. «Gaivotas em terra, sinal de temporal» - escutei tal máxima durante toda a minha infância. Quem sabe se tal repetição não se tornou, com o fermentar dos anos, em ladainha interior até à exaustão repetida, eco após eco, numa espécie de oração que recordava a chegada dos dias cinzentos e chuvosos, os tais que tanto convidam à reflexão? Com eles vinham as gaivotas. E era vê-las pelos céus da cidade, em círculos sobrevoando as construções altivas, masmorras de betão, como se por ali, entre a calçada, buscassem pacientemente a prata de um suculento pescado. Ao mínimo movimento, assim davam a entender, lá investiriam em voo picado, prontas a reclamar o seu justo prémio. Mas nunca o fizeram, curiosamente… Nem nunca, em plena rua, me deparei com uma. Certamente que, se esbarrasse nesse exemplar, haveria de me deparar com um em estado de plena “convalescença”, permita-se a expressão, já que doloroso deverá ser, eu suspeito, o impacto, àquela altitude, na calçada empedrada. Sim, se a pobre ave confundisse as pedras reluzentes com as escamas de um fresco peixe, certamente investiria, ávida e triunfante, sobre o foco da sua ilusão!

Sempre desejei perguntar a uma gaivota o seu nome. Mas nunca encontrei uma disponível para me falar. Gostaria de encontrar o Fernão, confesso… Ou outro qualquer, até. Mas o Fernão é especial. Essa obstinação de ser a gaivota que voa mais alto tem que se lhe diga… Sabedoria intuída, é o que é. Porque procuraria o Fernão? Creio que seria agradável desfrutar da hipótese de lhe expor algumas dúvidas que durante a noite amiúde me assaltam… Talvez o meu voo não seja assim tão seguro quanto o dele. Ou não tenha ainda me despenhado as vezes suficientes. Há quem aprenda a voar pelo simples bater de asas; outros, pelas quedas que suportam. A existência é multifacetada… Ou simplesmente a mudez das tardes cinzas instigasse o sonho de voar que tão profundamente se enraizou no imaginário humano. Existem coisas que as aves conhecem melhor que os Homens… O voo, sempre secreto e místico, tê-las-á abençoado, pois possuem uma visão bem mais acurada das coisas. Muito poderemos aprender com cada uma delas.

Não necessito de asas para voar, é certo… Mas, não podendo, resigno-me a observá-las no alto da cidade. Sim, observar o voo da gaivota. É importante que não percamos o rumo da conversa. Mesmo que não saiba ao certo qual é. Enfim, sempre indaguei o porquê da gaivota eleger a cidade como destino de passeio… Especialmente uma região tão a norte como esta, e naturalmente mais afastada do rio que banha a cidade - o ambiente mais propício ao seu voo. Será efectivamente um refúgio? Ou algum sensor ancestral desperta no interior da gaivota em dias assim, levando-a a instintivamente sobrevoar regiões de marítimos antepassados? Talvez as ruas que hoje calco tenham sido as caves de um mar imenso que milénios atrás cobriu estas estradas envelhecidas… E a gaivota pressinta, muito justamente, um perfume de sal no meio de tanta palavra agreste futilmente lançada ao vento e ruídos metálicos repercutidos até ao seguro limiar da enfraquecida sanidade. Mesmo que a dita tenha, cientificamente falando, agora, nascido a apenas cinco anos atrás (suponhamos, claro - se não lhe sei o nome, como especular sobre a sua idade?). Ao que parece, a intuição de uma gaivota vence o frívolo esquecimento imposto, como uma herança sem hipótese de recusa, pelo implacável Tempo. E ainda há quem não queira ser como elas…

Existem factos que corroboram as evidências. O bairro da Ameixoeira, por exemplo, aqui tão perto desta gaivota que vagueia (quem sabe se não reservou a tarde para explorar as ruas que o formam?), deve o seu peculiar nome, segundo alguns estudiosos, a uma depreciação da palavra “Ameijoeira”, pois, ao que parece, grandes quantidades de fósseis pré-históricos, respeitante aos seres ostentadores de concha, foram descobertos naquela zona da cidade há muitos anos atrás. Ora, não sugere isso que, havendo conchas fossilizadas, algures nas dobras do Tempo um grande mar cobriu a planície? E as gaivotas, em dias cinzentos, ainda hoje lá retornam, mesmo tendo nascido há apenas cinco anos atrás, como a nossa teoria sugeriu, seguindo escrupulosa e fielmente um instinto de apelos distantes, preciosamente legado através de incontáveis gerações. Não é só do voo que se desprende misticismo; o coração de uma gaivota encerra segredos que qualquer Homem ansiaria por conhecer!

A chuva ameaça o seu retorno. A gaivota recolher-se-á em breve. Sinto já, ainda que agora a contemple, a ausência do estridente grasnar que entre as muralhas dos descoloridos prédios ecoava. Uma última dança, então, gaivota, agora que as tuas semelhantes juntam o seu voo ao teu. Eis a valsa da despedida: círculos e círculos sem vestígio impresso na imensa platina do céu melancólico, curvas e contra-curvas embebidas em mistério e oculta sabedoria. O voo da gaivota é uma poesia. Sem rima, verso ou palavra. O voo da gaivota é melodia. E silêncio.

A branca folha até aqui proscrita nas imperfeições do tampo da secretária aclama os afagos da mão deste poeta que sou. Outras palavras urgem ser registadas. De olhar preso ao velho bloco de notas, é hora de a pena desbravar a imensidão das linhas cerradas. Ao mesmo tempo, a gaivota, nas lonjuras celestiais, soletra o seu alfabeto aos pequenos peixes que julga contemplar. Como é bela, ostentando a eternidade dos poemas sem nome... Mas o poeta só incrusta, repetidamente, letras na rudeza das pedras. A sua forma é limitada.

Após mais um círculo desenhado no etéreo, desperta o apelo que perfumou a infância. Desejo ser como a gaivota. Um sopro de vento. Apenas.





Pedro Belo Clara.




sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

ECOS DA CRISE


            A seguinte história, que a bem da verdade nem chega a merecer o epíteto de “história” (direi antes “relato” por de uma breve narração se tratar), chegou recentemente ao meu conhecimento por intermediários que me são próximos. O mesmo é dizer que não a testemunhei pessoalmente ou dela, tampouco, fiz parte. Escutei-a, somente. E hoje aqui a reproduzo com um assumido apelo à reflexão individual. Que o leitor, então, faça o que mais lhe aprouver com o que daqui sobejar.
          O interveniente directo deste sucedido, o primeiro narrador do caso em questão, não é nem do meu íntimo nem do meu casual conhecimento, como por certo já terá ficado esclarecido. Contudo, pelas palavras que compuseram o retrato da situação, acabou por pertencer a um círculo mais fechado de contactos, fruto da genuína humanidade que regou o seu simples acto. Acalme a sua curiosidade, caro leitor; no momento certo explicar-lhe-ei tudo devidamente.
            Ora, a pessoa em causa, numa manhã de Janeiro, como por certo o faz no alvorecer de cada novo dia de labor, seguia na sua viatura particular numa rua de Campolide, em Lisboa. Naturalmente, e seguindo sensatamente as regras de trânsito vigentes, parou por instantes junto de um semáforo vermelho. Aproveitando o tempo que a espera certamente lhe iria trazer, decidiu desviar a atenção da estrada e fixá-la nas incidências que pelo passeio, mesmo a seu lado, ocorriam. E em boa hora o fez.
            Acontece que naquele exacto momento, um senhor de ascendência africana, por certo um filho de uma das antigas colónias portuguesas daquele continente com extraordinários recursos naturais, encontrava-se de joelhos, sobre a calçada, sondando, ao que parecia, as terras de um pequeno canteiro aí existente. Numa primeira análise, a condutora do veículo por certo terá pensado, como qualquer um de nós perante a insólita situação, que o pobre homem (que não aparentava mais de sessenta anos de idade) havia perdido um dos seus parcos haveres naquele local. E digo parcos pois, pela indumentária que apresentava, gasta e descolorida, ao que se acrescentava a descuidada aparência, não seria certamente dono de muitos mais.  
         «Coitado… Perdeu algo e não o encontra.» - bem que poderia ter sido este o seu primeiro pensamento como espectadora do caso. Contudo, fiel, talvez, a uma indomável curiosidade, ou a uma intuição bem mais profunda, dona de intentos ocultos mas espantosamente acertados, não despregou o olhar daquele homem que em plena rua lisboeta permanecia ajoelhado. De seguida, ao aguçar a percepção do seu olhar, notou que ele não buscava algo entre a terra, mas – imagine-se! – a própria terra. «Porque motivo?» – indagará o leitor. Bem, de seguida o homem levou um punhado da mesma aos seus ressequidos lábios e… tentou mastigá-la. Creio que isso satisfará a dúvida que brevemente pairou por si.
          Sim, era verdade aquilo que os olhos da condutora presenciavam: um homem, em Lisboa, numa manhã de Inverno como tantas outras, ajoelhava-se para comer um pedaço de terra. É claro que a testemunha poderia simplesmente avançar assim que o sinal assumisse a cor verde, prosseguindo calmamente com os planos reservados para o dia que mal começara – absolutamente indiferente ao que tinha observado. Afinal, que homem era aquele que comia terra num canteiro de Lisboa? «Provavelmente detinha mil e um desarranjos psíquicos a carecer de tratamento urgente! É preciso afastarmo-nos de pessoas assim, loucas, desvairadas e sabe-se lá mais o quê, detentoras de patologias que nem nos mais completos livros de medicina surgem descriminadas… Pessoas assim são um flagelo, um perigo para a sociedade!» - no cume da nossa arrogância mesquinha, é provável que pensemos desse modo. Felizmente, existem excepções que ainda muito condignamente questionam as regras mais infundadas.
          A vida deposita um dos seus mais preciosos segredos não nos acontecimentos que a recheiam, mas na forma como cada um de nós, seus intervenientes directos ou indirectos, a eles reagimos. Assim que o sinal ficou verde, e a ordem de arranque foi dada, a dócil mulher, não querendo olvidar a estranheza do que vira, decidiu estacionar o mais perto que lhe foi possível e indagar, por si mesma, o caso que tanto a intrigava.
          «Oh, senhor… O que está a fazer? A comer terra??» - tê-lo-á questionado. Mas, antes que este tivesse tempo de responder, logo acrescentou: «O que se passa? O senhor tem fome?». Fome. Estaria aqui a resposta que deslindaria o estranho caso? «Sim, minha senhora, tenho fome, muita fome…» - respondera o amável indigente, quase lavado em lágrimas. A mulher, decidida, e já bastante incomodada com a crueza daquele retrato que corre sérios riscos de se repetir noutras ruas de outras cidades espalhadas por esse país fora, num repente dirigiu-se à sua viatura e lá reuniu o pouco que no momento possuía: o seu almoço. «Tome lá, homem, tome lá... Tome e deixe-se disso» - completou.  
O que se passou a seguir emocionaria qualquer um: o homem, praticamente afogado na sua própria emoção, prostrou-se aos pés da bondosa mulher e não cessava de repetir, com um ânimo bem vivo e sentido, a única ladainha que sabia: «Obrigado… Obrigado… Obrigado…». Tanto por tão pouco: uma sandes mista e uma peça de fruta.
            Feita a oferta, tão desprendida e isenta de falsas filantropias (oh, como as há por aí…), seguiu a dita senhora o seu rumo deixando o momentaneamente feliz homem a braços com uma refeição que muito provavelmente não desfrutava há dias. As aparências concedem ilusões tremendas, bem se prova… E a capacidade de julgamento do Homem, sempre tão altivo e impregnado de moralismos que nem auxiliam uma ave de asa quebrada, rege-se por parâmetros tão absurdos quanto questionáveis. Problemas psíquicos? Não. Fome. Tão somente fome.  
        A senhora ficou visivelmente abalada com o caso. Até esse aspecto do relato chegou até mim. Contudo, importa ver a questão por um outro lado: naquele exacto momento, uma simples acção trouxe uma luz infinda a um mundo de precário viver. É claro que, e com imenso pesar o digo, como aquele homem muitos outros haverá, assim como mulheres e, mais grave ainda, crianças. São rostos anónimos que se ocultam na bruma capitalista de uma sociedade virada para dentro, isto é, focada nos interesses pessoais das supostas elites que julgam governar. Até a pobreza, essa inaceitável chaga social de um regime que se diz democrático (embora somente pareça empenhado em adensar as disparidades entre todos os escalões na vez de as diluir), torna-se aceitável quando, num ápice, viramos a atenção para o outro lado da estrada e testemunhamos o flagelo da fome.
          Confesso-lhe, estimado amigo que me lê, que durante o meu tempo de vida nunca pensei ver, ou neste caso escutar, os ecos da fome na cidade que me viu nascer. Indigentes sondando caixotes em busca de haveres ou de restos comestíveis de alimentos? Sim. Mas… terra? Quão profundo não seria o desespero daquele homem para se debruçar em plena via pública e pegar num punhado de terra? Ainda que pela cidade existam, efectivamente, resíduos disponíveis (qual a humanidade daqueles que comem as migalhas de um pão que outros renegaram?) e até as famosas e sempre úteis cantinas onde necessitados de diversas causas encontram refeições quentes. Mas aquele homem escolhera a terra. A terra. De um canteiro pequeno e rasteiro. Numa movimentada rua de Lisboa.
         Esta crónica encerra-se aqui. O caso fala por si. E, mais do que dele tão transparentemente sobressai, flutua pungente a intenção e o significado daquilo que o próprio oculta. Que cada um leia e julgue por si mesmo. A tarefa deste escriba foi cumprida. Agora, será dada palavra à reflexão individual.
Uma crise económica é sempre, em primeiro lugar, uma crise humana, de valores e de prioridades. Que cada um possa meditar no rumo que este país começa por assumir, conduzido por governantes que de conveniência se dizem cegos. Será esta a sociedade que desejamos? Serão estes os exemplos que queremos deixar como legado a nossos filhos e netos? Que cada um sonde o seu recanto mais íntimo e entenda, por fim, que quando a base da pirâmide se agita o topo, invariavelmente, cede. Mesmo que quem o ocupe se julgue confortavelmente intangível. Cada um de nós detém a hipótese de influenciar positivamente o mundo que o rodeia. Pequenos actos fazem a maior das diferenças, encerram o mais proveitoso dos impactos. De um gesto simples pode nascer uma luz incrível. A pessoa que testemunhou a ocorrência tornou-se na prova viva dessa premissa.
Que saibamos dar pão a quem só tem terra para comer.




Pedro Belo Clara. 





quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

RETALHOS DA SAGA DE UM ESCRITOR (PARTE II)


              O dia amanhecera plácido e gélido. Após despertar, dirigi-me à janela do quarto para saborear um pouco o álgido ar daquela manhã de tímido sol. Tudo imergia, ainda, numa imensa e invisível onda de tranquilidade que descia dos montes, circundava as casas e naquela pequena varanda encontrava a sua praia ideal para morrer a meus pés. O coração de súbito acelerou-se quando a mente, retornando a si, desfez o resquício do sonho e ressuscitou a inegável realidade. Afinal, era chegado o dia onde todos os compromissos se cumpririam.
            Não me recordo se a noite fora profícua em descanso ou embalada em vagas de súbitas agitações… Apenas que, decidido, focava-me no objectivo que tinha em mente. E a partir daí não pensara em mais nada. O dia tinha nascido. Era chegada a hora. Tão simples quanto isso.
            Após saciar a parca fome e trocar com as companhias de então dois dedos de conversa, entre sumos de laranja, pequenos pães e bolos e cafés fumegantes, retornei ao quarto para finalizar os retoques na indumentária e reunir o material que o evento mais requereria. Estando tudo pronto e na devida ordem, despedi-me de quem de direito e saí do hotel rumo ao destino mais aguardado. Uma vez que na véspera lá tinha estado, não haveria hipótese de engano. Felizmente. 
            O vento era gélido, não sobravam dúvidas… Mas o frio tipicamente seco daquele local eram bastante suportável quando comparado com o frio húmido que habitualmente paira nessa altura do ano pela cidade que me viu nascer. Em suma, o Outono de lá assemelhava-se ao Inverno de Lisboa, extraindo apenas esse húmido factor que tanta estrutura óssea danifica. Nada de grave, portanto. Creio que os termómetros marcariam àquela hora uns condignos cinco graus centígrados, mas para a minha percepção não estariam menos de doze graus. Por aqui se vê o quão se habitua um organismo às temperaturas que reinam pelo seu ambiente nativo.  
            O vento, contudo, auxiliou-me a conservar a mente vazia, despojada de pensamentos menos desejáveis ou de apertos absolutamente injustificáveis. Cheguei ao portão principal da escola, identifiquei-me e, após concedida a autorização de entrada, dirigi-me à biblioteca onde se desenrolaria o evento. Pelos corredores, caminhando assim tão à-vontade, quase que passava despercebido por entre funcionários e alunos. Um novo professor, quem sabe, que se aprontava para se estrear naquele estabelecimento de ensino?
            Munido de alguns exemplares do meu último livro, à data, publicado, entrei na biblioteca e, vendo os arranjos devidamente concretizados, atravessei a fila de cadeiras ainda vazias para me instalar no lugar que seria meu por efémero direito. É claro que o evento não envolveria somente os temas que anteriormente explanei, mas igualmente a oportunidade de vender, a um preço bastante acessível, alguns exemplares da obra que comigo havia trazido (“Nova Era”, um livro de poesia editado em Dezembro de 2011). As vendas foram bastante razoáveis, devo dizê-lo, embora nunca tivesse alimentado a ilusão de que enriqueceria sobejamente com os lucros aí angariados. Mas importante que tudo isso foi a oportunidade dada aos alunos, professores e funcionários de lerem a obra e meditar sobre a sua universal mensagem. Essa sempre é a minha máxima prioridade.
            Enquanto aguardava a chegada dos alunos e da professora de português com quem havia previamente combinado o alinhamento das três sessões, e que do mesmo modo seria a minha companhia de mesa durante todo o evento, desfrutei de uma agradável conversa com a funcionária da biblioteca. Enfim, assuntos banais que somente nos auxiliam a descontrair e a mergulhar, com o devido afinco, no novo ambiente em que nos encontramos. Aqueles minutos, assim, passaram graças à troca de impressões sobre o estado do tempo, o meu conhecimento sobre a vila e a própria região e até sobre as origens ancestrais da família. O facto de descender de beirões, por parte paterna, e devido à grande proximidade entre as duas zonas do país, sempre acalenta uma conversa que, de outro modo, poderia facilmente esmorecer.
            As cortesias foram sendo trocadas de forma bastante genuína e agradável até a referida professora chegar. Cumprimentámo-nos, falámos sobre pertinentes assuntos que mereciam uma derradeira abordagem e, por fim, tomámos o devido lugar na mesa do evento. Os alunos estavam quase a chegar.
            Com uma afluência bastante regular, de pronto se ocuparam todas as cadeiras. Alguns funcionários, inclusive, tiveram de permanecer de pé. Pelo menos, durante a primeira das três sessões que o evento comportaria. As introduções foram feitas e as apresentações concretizadas, até chegar o momento em que me foi dada a palavra. Assim, comecei por relatar a origem da minha história nas letras, bastante curta ainda, na esperança de que em algum momento, fosse de que forma fosse, certas palavras inspirassem a jovem audiência ou, em derradeira instância, os instigasse a reflectir sobre questões veramente importantes. Acima de tudo, optei por ser fluido… Como se se tratasse de uma conversa entre amigos. Que outra forma haverá de manifestar uma sincera acessibilidade?
            Três turmas diferentes escutaram as palavras que naquele dia proferi. Contando com a indispensável pausa para almoço e café, o evento terá encerrado, oficialmente, por volta das três horas e meia da tarde. Ao longo das horas anteriores contaram-se muitos sorrisos, autógrafos, fotografias e momentos de boa disposição e conversa. No período de almoço, inclusive, onde tive o privilégio de partilhar a refeição com a professora de português anteriormente citada em plena cantina escolar. Sinceramente, é nesse meio que prefiro estar: entre as pessoas. Principalmente, e aplicando a fórmula ao caso em questão, no meio daquelas que me vieram ver e ouvir.  
Nada tenho contra as supostas elites, mas o afastamento social que por norma é seu apanágio contraria a minha natureza. A ideia de quem me convidou, soube depois, consistiria em realizar o almoço num restaurante da zona, hipótese que igualmente aceitaria com o maior dos prazeres. Mas a forma como o caso se desenrolou acabou por ser ainda melhor: almoço na cantina entre os alunos e no meio dos alunos. Sem sequer registar um esboço de hesitação em pegar no meu próprio tabuleiro, servir-me convenientemente e arrumá-lo de pronto, quando findou a refeição. A ideia extravasa completamente a tendência (ou bom-senso) de ser romano em Roma; prende-se antes com uma questão de atitude, de abertura e de aceitação para com o meio envolvente.
A imagem que se poderá reter é a de um político que decide almoçar com alguns representantes do povo que governa, partilhando as suas instalações e o seu meio de convivência. Digo isto apenas, é claro, por motivos comparativos, com o intuito de esclarecer o leitor sobre os sentimentos então vividos. Não detenho ambições políticas, nem nunca as tive, mas, se as possuísse, pode o leitor crer que seria alguém bastante próximo da população pelos motivos anteriormente referidos. A íntima natureza que me assiste não permite que seja de um outro modo.
Creio que uma das mais eficazes virtudes que naquele dia decidi colocar em prática foi a de não criar qualquer tipo de expectativa. Afinal, como numa outra ocasião tive a oportunidade de escrever, «só se desilude aquele que se ilude». Portanto, sem expectativa pré-concebida, seria impossível acalentar ilusões vítreas. Permiti-me simplesmente a ir ao encontro do que me esperava de braços bem abertos. Apenas com um objectivo em mente e despojado de iludidas ambições, terminei o dia de coração cheio.
Ainda hoje esboço um sorriso ao recordar certos episódios vividos naquele dia de Novembro: as pertinentes perguntas de alguns alunos menos tímidos, o clima de amizade que senti em cada recanto da escola, as conversas à hora do almoço com a professora que me recebeu, o café saboreado na belíssima instalação termal da vila, o encontro com o director e demais professores e funcionários, entre muitos, muitos outros exemplos. Uma das maiores gratidões que cultivei e que comigo trouxe, no regresso, foi a forma aberta e veramente simpática com que fui recebido. Por todos, direi: alunos, funcionários, professores e director. Muito além dos agradáveis momentos de venda de livros, das fotografias que os alunos quiseram tirar comigo, os cartazes afixados com o meu nome e rosto ou o magnífico cabaz que a direcção me ofereceu no final do dia (o aveludado vinho que o compunha regou, inclusive, a minha ceia de Natal), permaneceu o sorriso das pessoas com quem me cruzei e, principalmente, o agrado dos alunos com a minha simples presença em sua escola. Eu, sendo um completo desconhecido naquelas paragens, senti-me, e muito humildemente o digo, como uma autêntica rock star.
Poderei ter pensado que me depararia com os orgulhosos descendentes dessa tão nobre e ilustre estirpe lusitana: os herdeiros de Viriato. Gentes de rostos sóbrios e agrestes, com olhares de fino brilho lembrando a sua excelsa origem… Porque não? Mas muito me equivocaria… Encontrei jovens, apenas jovens; tão idênticos, em sonhos e esperanças, àquele que não há muitos anos atrás eu próprio fora.
Ainda que tenha tentado manter-me, durante o desenrolar das agradáveis sessões que partilhámos, num patamar onde pudesse ser, com a máxima clareza, compreendido, na verdade poucas coisas distinguiram a audiência do orador… À parte, apenas, o facto de terem nascido e crescido em zonas distintas do país, com um leve contraste urbano/rural a separar as naturais incidências da juventude. Mas tal aspecto remete ao meio exterior, não à essência. E dentro desse tema, eu o senti, compreendíamos todos o mesmo alfabeto.
A história que sombreia a existência individual, que ajuda a explicar um pouco aquilo que hoje ela é, apresenta-se como um factor diferencial e único ao mesmo tempo. Cada indivíduo detém o seu próprio rumo, a sua própria história. Naturalmente. Por isso, anuo: cada um de nós era um filho de múltiplas causas e escreveu histórias diferentes ao longo do percurso pessoal, ainda que estas se possam unir em determinados pontos. No próprio caminho existencial, apenas por em idade ser mais velho que a audiência, sigo eu na dianteira. Mas tal facto não deverá constituir um factor diferencial, um motivo de apartamento ou relativização. Pelo contrário: é uma séria responsabilidade. Muito mais nos uniu do que certamente nos separou.
Não me recordo já do exacto modo como terminei cada palestra ou como daquele amigável ambiente me despedi. As palavras tendem a oxidar com o tempo, e só subsistem, com maior ou menor desvio, enquanto forem recordadas. Pouco importa, contudo, quando sobeja o principal: o sentimento experimentado.
Na manhã seguinte, com apenas dois graus de temperatura, aprontava-me para a partida com um intenso desejo de retorno. Ainda não tinha abandonado a vila e já elaborava planos para voltar. Assim cogitava, enquanto me divertia a assistir ao jovem casal estrangeiro, provavelmente inglês, que raspava o gelo matinal cravado no vidro do seu carro alugado. De facto, pela tipicidade do local, coisas bem típicas e singulares são passíveis de acontecer – o que apenas incrementa a fineza do perfume que tão bem caracteriza aquelas paragens.
Nesta crónica que assino, e que agora se irá encerrar, apenas poderei sublinhar o sentimento de gratidão que efervesceu como resultado de toda aquela experiência. Sei que me repito, mas é justo que o faça. A felicidade que aí colhi deve-se, em grande parte, a esse aprazível sentir. Foi um gosto imenso provar o etéreo abraço de tais gentes.
Terei eu primado, afinal, pela diferença? Concretizado um positivo impacto junto de algum aluno? Não o sei. Provavelmente, apenas lhes proporcionei um óptimo tempo de descontracção ou uma sempre apetecível fuga às aulas vigentes. Isto eu sei: dei o melhor que tinha em mim, em cada sessão me revelando o mais aberto e acessível que sei ser. Também não sei se isso, junto do próximo, terá bastado, mas a minha consciência vive tranquila e em paz por saber que conseguiu alcançar o seu íntimo propósito. 
Talvez um dia mais tarde um daqueles alunos me reencontre num qualquer lugar e diga de sua justiça. Talvez muitos até já me tenham esquecido, mas… o que importa isso afinal? A semente foi plantada. Basta aguardar o crescimento da árvore. Recorrendo às sábias palavras de um famoso ditado chinês, embaralhando-as, sei que ofereci todas as rosas que tinha para dar. Nas mãos que as concederam, as minhas, habita a essência do seu delicado perfume. E durante largos anos aí perdurará. Disso eu estou certo.




Pedro Belo Clara. 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

RETALHOS DA SAGA DE UM ESCRITOR (PARTE I)


          Ao passar, num repente, os meus olhos pelo pequeno calendário da secretária do escritório, espanto-me com a crua evidência que me instiga a meditar na inevitável passagem do tempo.
É deveras espantoso constatar, conscientemente, o término de um ano completo. Especialmente quando as recordações do que então se experiênciou ainda permanecem tão vibrantes quanto o instante em que foram vividas. Ou a qualidade da memória é, de facto, extraordinária (ao ser capaz de reproduzir gravuras tão fidedignas) ou o próprio tempo escapa-se célere demais no seio da fugidia ilusão que ele produz. Seja como for, a realidade é inegável. Tenho, algures, arquivado um poema (testemunha dessa época) que constitui uma irrefutável prova.
Foi há um ano atrás. O céu cobria-se de um cinza completo e pelas estradas amontoavam-se inúmeras folhas acobreadas, proscritas de árvores em natural processo de renovação. Escusado será dizer que o Outono reinava, tal como hoje, em todo o seu esplendor. A brisa não era nem mais fria nem mais quente, e tenho a firme certeza de que os mesmos pássaros ainda hoje cantam nos mesmíssimos ramos. Em clima tão propício, é impossível não reviver a recordação.
Saí de Lisboa nessa manhã de Novembro rumo a uma simpática vila quedada no seio da mais alta montanha de Portugal continental. A escola local, muito gentilmente, havia me convidado para uma palestra de três sessões (nas quais eu seria o próprio palestrante). As mesmas seriam, à vez, dirigidas a outras tantas turmas de diferentes anos lectivos durante o período do final da manhã e início da tarde do dia seguinte. Apesar de tudo, o convite era justificável: um familiar meu leccionava nessa escola e, a seu pedido, enviava-lhe anualmente um exemplar de cada livro que publicava. Os mesmos destinavam-se, obviamente, à biblioteca da escola em questão. É claro que as doações baseavam-se em causas puramente culturais e educacionais, nomeadamente no aumento do espólio e das referências literárias disponíveis naquele local, para que os alunos livremente as pudessem consultar e retirar disso o maior proveito possível. Contudo, ao cabo de tanto envio, o director da escola fez questão de me lançar o desafio: visita ao estabelecimento e palestra aos alunos.
Assim, naturalmente honrado por tal convite, anuí. Apreciei a viagem tanto quanto me foi possível fazê-lo, demorando o olhar contemplativo por cada localidade que passava, por cada monte que subia e vale que atravessava. As ruas da cidade onde parei para por instantes almoçar foram igualmente alvo dessa serena prática, bem como os rostos com que me cruzei por sobre aquele sempre cinzento céu de Novembro. Era o prelúdio, somente, do que estava na iminência de se suceder.
Com voltas a mais ou a menos, fruto de algum hipotético engano (ah, GPS, quão a tua ausência foi notada…), lá me encontrei na vila que me aguardava, diante dos seus bem peculiares cenários dignos de uma beleza sóbria e altiva. Uma vez que não cumpri a dita viagem sozinho, aproveitei para desafiar as minhas fiéis companhias a empreender uma pequeno passeio pelas redondezas envolventes. Após confirmarmos a presença no acolhedor hotel que detinha as nossas reservas, depositar as bagagens e inspirar um pouco daquela quente (e acolhedora) atmosfera, fizemo-nos de novo à estrada. Que outra forma haverá de apreciar as virtudes locais? Pelo menos, de um modo mais aprimorado e tranquilo que uma mera passagem, célere e indiferente, poderia proporcionar.
Antes de mais, devo confessar que nunca havia estado naquele lugar. Para mim, tudo era novidade. Bem que poderia ter sonhado aquela vila, as suas ruas, a pequena ponte e o rio que a atravessa, ou pintá-la até com as mais belas cores que só uma fértil imaginação pode prover. Mas nada se equipara ao facto de vermos e sentirmos com os olhos do rosto e do espírito bem abertos o cenário que se dispõe à nossa frente. Já que me havia prestado ao passeio, aproveitei igualmente para realizar um extraordinariamente útil “reconhecimento de território”. Admito que o facto da vila ser pequena (pouco mais de três mil habitantes) ajudou de sobremaneira. Acabei, então, por me deslocar à escola local, encontrar-me com o familiar que lá leccionava e inspeccionar o sítio onde, no dia seguinte, o evento teria lugar. Ainda hoje evoco os comentário (tímidos) de alguns alunos que se cruzaram comigo no corredor e daqueles que, com olhares curiosos e bocas ansiosas, perscrutavam as redondezas sussurrando: «Será ele? Será o escritor?». Em silêncio, sorria.
De volta ao hotel, houve ainda tempo para relaxar um pouco enquanto o relógio não assinalava a hora do jantar. Assim que se reuniram as companhias devidas, restou-me desfrutar de uma das trutas que ali tão perto em viveiros são criadas e saborear a óptima conversa que durante o manjar foi sendo cultivada por todos os comensais. O tempo, é um facto, passou sem que ninguém desse conta disso. Fosse ele o incumbido de arcar com as despesas da refeição e bem que o hotel naquela noite poderia desfrutar do sempre eficaz auxílio de quatro pares de mãos extra na lavagem da louça remanescente!
No regresso ao quarto, antes de rever as palavras que no dia seguinte seriam com maior ou menor zelo proferidas, dei por mim a fitar o vazio da divisão. Um exercício estranho, talvez; mas, no momento certo, produz uma incrível sensação de despojamento. A consequência? Paz. Por mais efémera que se afigure. Devidamente protegido contra as investidas do gélido ar que por aquelas bandas pairava, acabei por me concentrar na revisão das ideias sobre a palestra e, quando o tempo se afigurou propício a tal, desfrutar, pelo menos em teoria, o melhor possível da noite de sono que tinha pela frente.
Não poderei dizer que me encontrava com os nervos em efervescência. Se o dissesse, estaria a mentir. E, estimado leitor, para consigo nunca desejei incorrer em semelhante falta. Por isso, é justo que admita: não em encontrava em ânsias tortuosas ou assistia a súbitos assaltos contra a minha segurança. Encontrava-me expectante, apenas. E receptivo. É claro que um actor, por mais experiente que seja, sempre sente um burburinho dentro de si antes de pisar o palco que é o seu lar. É o prelúdio da acção, o último esgar de sombra antes da luz raiar. Nada de estranho ou peculiar habita em tal evidência.
De certo modo, aquele tipo de trabalho não era novo para mim. Sob um determinado prisma de análise, evocava-me até alguns que realizara durante os meus tempos de faculdade. Na época, deslocava-me com um pequeno grupo de colegas a diversos liceus de Lisboa e arredores, com o intuito de promover junto dos alunos locais a nossa faculdade. Um trabalho tão simples e imensamente aprazível. Anos atrás, tive a oportunidade de publicar uma crónica onde descrevo uma dessas prazerosas experiências. Portanto, voltar a “discursar” perante os alunos de um liceu não era propriamente uma tarefa desconhecida. A diferença residia apenas nos alunos (estes seriam mais novos) e, claro, no conteúdo dos tais “discursos”. Desta vez, eu mesmo iria servir de tema de conversa.
Agora que revelo este aspecto do convite, devo explanar um pouco mais o seu conteúdo. Fui convidado para partilhar o meu caminho e visão sobre o mundo literário, e, com isso, divulgar as obras que até então havia publicado. Para os alunos da classe mais avançada, falaria ainda um pouco, a pedido da professora de português responsável, sobre Fernando Pessoa e a sua belíssima obra “Mensagem”, presença incontornável no programa escolar daquele ano em particular.
A questão a tudo fulcral não se prendia com os temas a abordar, uma vez que estes se encontravam ao perfeito e natural alcance da minha compreensão, mas com a minha vontade expressa de, como em tudo o que faço, primar pela diferença. Não por vaidade ou por um preciosismo excessivo, é claro não; mas por algo infinitamente superior: deixar impressa uma marca significativa e profunda nos meus ouvintes, por mais pequena que fosse. E nada mais me importava do que essa meta, estimado leitor, independentemente dos visados. Se sublinho essa mesmíssima intenção em tudo o que escrevo, por que motivo é que naquela ocasião seria diferente? Aliás, haverá mesmo algo de mais gratificante que sentir, intimamente, o efeito inspirador de um discurso humano e sensível? Eu poderia ser o veículo de tal concretização. Por isso, soube que a minha posição, naquele dia, exigia uma responsabilidade maior. E estava decidido a cumpri-la da melhor forma possível.



Pedro Belo Clara.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

CONVITE


Estimados amigos e amigas,


É com um enorme prazer que vos convido para a sessão de lançamento do meu novo livro, "O velho sábio das montanhas", dia 21 de Dezembro, pelas 16 horas, na livraria Les Enfant Terribles - Espaço NIMAS.



Antes da sessão, será servido champanhe acompanhado com patés diversos. Após esse momento de descontracção e boa conversa, dar-se-á início à apresentação da obra. 

Conto com a vossa presença!

Até breve.


«Entregou os olhos ao céu. Inspirou e expirou profundamente. De seguida, fixou os profundos espelhos da sua sublime alma num qualquer ponto infinito, num qualquer pormenor que somente ele era capaz de observar. Então, no meio de todos nós, da mesma forma como entre nós sempre havia vivido, a todos falou. Como se fossemos um só.»

Pedro Belo Clara in "O velho sábio das montanhas"




PS: https://www.facebook.com/events/199584233561741/










segunda-feira, 25 de novembro de 2013

ALTOS E BAIXOS


Se pensarmos no Caminho como um espaço físico (uma estrada, por exemplo, que se espraia por infindas distâncias), por certo não o imaginamos recto, plano e totalmente desobstruído. Pelo menos, na sua globalidade, não o conceberíamos assim. Seria natural que mentalmente se desenhassem curvas, morros, baixios e outros tipos de inclinações ou acidentes paisagísticos. Assim como este mundo material se preenche, em sua natureza, de vales, montanhas e planícies, também o Caminho, que se justifica ao ser percorrido pelo caminhante (caso contrário, seria somente uma ideia ou concepção filosófica), apresenta os seus peculiares registos de paisagens. Comummente falando, os seus “altos e baixos” – relevos que o adornam e que comportam uma prova para todo aquele que por tais meandros se aventure.

Poder-se-á pensar, para o efeito, que os ditos “altos”, ou zonas de maior elevação, sejam compreendidos pelas emoções mais atreitas ao festejo, celebração ou, simplesmente, ao sorriso. São experimentadas sensações que se revelam quentes e agradáveis, de vibração elevada, e capazes de fomentar uma aprazível experiência. A alegria, por exemplo, será um desses casos. Ao invés, nas demais identificar-se-ão, por senso comum, e seguindo a lógica apresentada, emoções como a melancolia, a tristeza ou a angústia. Sensações, por sua vez, frias e de vibração mais baixa. A presença da dor, nestes casos, pode ser invariavelmente comum – quer ao nível físico, quer ao nível espiritual. Assim, facilmente se entenderá que, por cada passada que no Caminho se invista, novas experiências e sucedidos tomarão o seu lugar. Com eles surgirá uma oportunidade de crescimento, de aprendizagem e de equilíbrio. Como remanescente, a emoção saboreada. Assim se vai recheando o caminho pessoal.

É claro que tal ideia aplicar-se-á a todo o viajante… Apenas se excluirmos a hipótese da transcendência, uma vez que esta, atributo derradeiro dos mais iluminados, naturalmente exclui toda a dualidade. E, no fundo, o que antes foi explanado obedece a esse princípio, fundamental ao bom girar da eterna roda que a existência terrena, com as suas sucessórias estações, é. Aplicando esse molde à ideia que tem vindo a ser transmitida, veremos que experimentar emoções não é mais do caminhar num círculo de sucessões constantes, vivenciando-se ora os “altos” ora os “baixos” que a humana condição pode oferecer. Como o Verão sucede a Primavera, o Inverno o Outono, o sol a lua, a chuva o tempo da seca, as experiências que se coleccionam pela estrada de uma vivência seguem o mesmíssimo propósito. E elas, como evento que se manifesta na matéria, isto é, no mundo físico, comportam a dualidade. Onde há amor, há dor; onde há alegria, há tristeza; onde há euforia, há depressão; onde há vitória, há derrota – é inevitável. Transcender é, por isso, ir além do dual e experimentar um estado de plenitude pura (não confundir com felicidade, pois também essa comporta o seu contrário). Ele é perene, fortemente iluminado e repleto de amor sem entraves ou condições, irradiando de dentro para fora. É nesse momento que a ilusão se quebra e a unidade primordial se revela. Contudo, se falamos de “luz” e de “amor”, facilmente se contraporá a concepção com recurso aos reflexos contrários destes: sombra e dor. Acontece que esse estado de iluminação é apenas a entrada para algo ainda mais superior (ignore-se o subtil pleonasmo). Esse, uma comunhão plena com tudo, é completamente extra-físico. Longa é a jornada de retorno a esse lar… Onde a unidade é finalmente recuperada. Além da luz e da sombra, pulsa o vazio… Um Nada que foi e é Tudo. Da mesma forma exacta em que no lugar de todas palavras está o silêncio, assim que estas cessarem ele, sua origem, fim e recomeço, sobressairá.

Com tais dizeres, não pretendi referir o «não-sentir» ou uma hipotética frieza emocional. O primeiro é um conceito distinto do que foi exposto, e o segundo uma defesa íntima do viajante desiludido, temerário e ferido. Transcender vai ainda para além desses conceitos ou atitudes instintivas ou pré-concebidas. Permanecer no centro elevado de nós próprios – eis o sentido mais translúcido da arte em questão. É um constante contacto com o fluxo energético superior, do qual somos todos uma pequena parte. Muitos viajantes, filhos de múltiplas causas, por diversas ocasiões experimentam estados idênticos, ainda que por efémeros momentos. Este viver (e permanecer) “acima das nuvens” significa estar-se imune aos efeitos da chuva que ocasionalmente tomba, em permanente contacto com o sol que então se revela. Não significa, contudo, que as experiências mais agrestes da vida material cessem para tais indivíduos. Nada disso. Tal estado até será constantemente posto à prova. Embora seja árduo de alcançar, mais árduo é reunir a disciplina necessária para o manter. A conquista da paz interior, no entanto, auxilia (e muito) na experimentação do mesmo.

Em forma de conclusão, pode-se assumir a imagem (ou ideia) de um estado de ser mais elevado e esclarecido, onde a pequena parte recorda a sua ligação ao todo e, assim, a personagem que no momento da vivência é cessa a sua influência mais directa. Então, o «estado de ser» transforma-se num quase «estado de não-ser». Focado não no vento que sopra, torna-se a folha que, suave, se curva e recurva perante o soprar do sopro primordial em sua existência. A ilusão mundana, como cristal que é, acaba por se quebrar perante tamanha luz alcançada, magnífica e excelsa, invocativa e evocativa. Contudo, para que a luz inunde uma divisão, é imperial descerrar as cortinas.

Mas não olvidemos o que antes havia sido debatido. Se retrocedermos no discurso, retomaremos o ponto dos “altos” e “baixos” que propositadamente povoam as existências. Importa, contudo, esclarecer o seguinte: a transcendência no plano físico não comporta o desfasamento desses relevos. Isto é, o sol e a chuva, metaforicamente falando, é claro, continuarão a se suceder e a verter os seus efeitos sobre o indivíduo. A única diferença reside na forma como este, em pleno estado transcendental, os recebe. Estar além da dualidade é constituir uma imunidade aos seus efeitos, embora não esteja a própria dualidade extinta. Assim se prova o quão possível é «viver na Terra como no Céu».

Não se ignore, ainda assim, a evidência de que o caminho até esse estado sublime se pauta por experiências e provações, por vitórias e derrotas. A dualidade deve ser provada para que conquistada possa ser. E em definitivo tal só se reclama quando as paixões, por exemplo, são saboreadas em constante equilíbrio. Não serão reprimidas, ignoradas ou obedecidas… Mas experimentadas de um modo moderado, apenas. Para isso, bastará saber minimizar os seus fortes apelos. Pois, como aquele que vive e caminha sabe, se seguidas elas tornar-se-ão destrutivas. Afinal, o viajante terá de abandonar o seu plácido centro para seguir no encalço da emoção. Mas tal não significa que não se munam de propósito ou cessem de comportar um relevante sentido.

Admita-se a seguinte imagem: se no topo de uma montanha a visão é claramente mais ampla e esclarecedora sobre a paisagem circundante, é a partir de um vale ou de um terreno côncavo que a visão dessa montanha, em si, se torna possível. No seu cume, apenas nos deslumbramos com a paisagem em redor, mas ignoramos o local onde efectivamente nos encontramos. É fácil esquecer as etapas que ao cume nos guiaram, estando este já conquistado. A visão que só o vale oferece é, assim, igualmente preciosa: auxilia-nos a recordar a beleza da montanha e o quão deslumbrante foi admirar aquele horizonte invencível. Poderá causar desagrado esse “baixo” na existência, mas só ele nos permite compreender a vera bênção que aquele “alto” constituiu.

Por diversas ocasiões, ignora o viajante a sua própria efemeridade. Ao longo da caminhada existencial, enquanto se recorda, se salda, se aprende ou se granjeiam as ferramentas necessárias à conquista da etapa, é não raras vezes consumido por um espírito de tamanha invencibilidade. Mas a condição humana, sob o ponto de vista material, é precisamente o oposto: efémera, como os demais elementos que compõem os tangíveis cenário em seu redor. A sanidade, ou a boa saúde física, apenas se poderá revelar um dado adquirido quando experimentada em seu esplendor. Parecerá eterna; mas, tal como as chuvas que chegam após o sol, não o será. Assim que se vive um “alto”, o seu “baixo” correspondente de pronto se anuncia. Ambos são a sombra um do outro, aguardando a hora em que dela irrompa uma reveladora luz - eis o simples suceder das estações. Neste caso em contrário, isto é, tendo a sanidade como exemplo, o seu contrário será a doença. Ela até encerra um motivo de aprendizagem, pois, ao ser consequência de algum comportamento menos equilibrado ou funcional, denuncia o que de errado tem sido feito ou assumido. Seja qual for a sua índole, origem ou gravidade, sempre é um válido e eficaz “despertador de consciências”, uma vez que se traduz num apelo à mudança e à elevação do ser em causa. É, portanto, uma ocasião de transcendência.

Poderá parecer dura, agreste ou injusta, mas constitui um rombo no casco da defesa humana, frágil e temerária, a quebra da máscara onde por tantas vezes o viajante se oculta e protege. Em todo o caso, conferir-lhe-á uma visão diferente sobre os sucedidos e a ordem sob a qual tudo se rege. A verdade é que sem ela não existiria lugar ao crescimento e à evolução. O que serviria permanecer no cume da montanha em plena (mas estagnada) alegria, vivendo de ilusões experimentadas? O apego é um veneno para toda a alma que anseie pela ascensão. A jornada deve ser cumprida até ao seu fim. Todo o viajante que não cumprir o seu desígnio, voltará ao caminho, uma e outra vez, até que se despoje de todas as bagagens, dívidas, feridas e dores. Não será preferível, antes, beber da alegria que nos é dada e, findada essa etapa, partir de pronto para a próxima? Um rio flui… Da nascente até à foz. Para quê temer o que nos espera, sem sequer o conhecermos? Essa visão toldada do Caminho assenta-se num medo íntimo e sem fim… Julgar dessa forma é desconhecer o que nos rege e, como tal, recusar aceitar o supremo bem de todas as coisas.

A dor nunca é desejável, claro… Mas é amplamente necessária. Assim como aceitamos o sol, aceitemos de igual modo a chuva. Ambos têm a sua validez, a sua crucialidade. Importa compreender a valiosa lição que trazem consigo. Nada do que se sucede no Caminho é fruto da casualidade. Se o viajante conseguir efectivamente ver à luz da sabedoria pessoal, saberá da inteligência não visível que tudo rege. Nada é por acaso. Nada se opõe ao Homem. Este é que, por sua vez, se opõe a inúmeras coisas. Rema contra a maré dos acontecimentos e morre de cansaço ao lutar contra forças que se recusa a aceitar e compreender. Os “acasos”, como tantas bocas gostam de os apelidar, são apenas causas e efeitos de outros gestos e de outras decisões, muitas vezes perdidas na linha do tempo… Que é recta e infinita. Apenas aqui, no físico plano, pela visão adoptada ser mais densa e restrita, é que tal visão não é assumida. Se nos elevássemos, veríamos o Tempo encaixar na perfeita metáfora de um rio que corre, sem começo ou fim – e onde tudo se sucede no mesmo exacto tempo.

Tudo detém a sua causa, o seu motivo, a sua razão; assim como todo o fruto guarda a sua semente. Apenas quando este se extingue é que a semente, até então protegida, mergulha nos braços da terra que a ela se abrir, iniciando o seu processo de germinação. Os sucedidos, ainda que tal não esteja visível ao viajante, ocorrem em prol do mesmo… Conspiram a favor daquele que caminha. E, querendo ou não, todos nós partilhamos este mundo de ilusões, todos nós nos quedamos perante as mesmas hipóteses e condições. Apesar de nos diferimos na forma como lidamos com tais aspectos, aplicando maiores ou menores doses de íntima sabedoria. Desse modo, cada um fará o seu próprio trajecto, em prol – que assim seja! – do seu benefício supremo.

É importante que a mente de cada um permaneça limpa de superstições, receios e tensões. Uma mente leve vê com maior clareza e clarividência. Sendo saudável, viverá elevada – focada nos mais luminosos princípios. Desde logo, esse é o primordial passo para a transmutação do estado “baixo” antes referido: a doença. Falo, claro está, da cura. Principiando-se no âmago de cada um, qual resposta à mais incessante das perguntas, encontra-se à simples distância de uma intrépida decisão. A transcendência para os casos doentios, que ao longo das vivências vamos coleccionando, detém-se, portanto, num conjunto de crenças em válidas razões, ainda que desconhecidas, e na certeza de que o primeiro passo a empreender compete ao sujeito em causa – tudo se encontra ao alcance de quem se dignar a estender um braço. Tal concede, desde logo, uma paz prometedora. Afinal, não estamos tão sós quanto ilusoriamente julgaríamos, no seio de uma tão alucinante dor. Aquela ferida poderá ser íntima, mas muitos, seja antes ou depois, partilharam ou partilharão da mesma. Todo o remanescente do processo será cumprido através do notável suceder de todas as coisas. Mas, antes de tudo, importa não perder o proveito que a nova experiência comporta – apesar de dolorosa.  

Se um comboio passar junto da sua estação, que o viajante o não perca. Ao fazê-lo, estará também a perder uma viagem deveras singular e tudo o que ela poderá abranger. Porque não arriscar? Porque não fluir? Porque não aceitar? Grandes bens eclodem na abdicação do “eu”… Sem nunca deixe de ser aquilo que é. Muito pelo contrário: apenas será aquilo que na verdade sempre foi. O que julgava que era não passava de uma roupagem, um disfarce temporário tido como real pela ilusão material do plano onde se encontra. Abdicando, fluirá… E entregar-se-á a um Bem supremo. Confiando nas ocultas (mas certas) razões, saboreará ao longo do percurso a mais aliviante das sensações que somente o mais inominável dos confortos poderá conceder: a serenidade de quem cultiva uma fé.





Pedro Belo Clara.






segunda-feira, 11 de novembro de 2013

CERTA NOITE, NUM QUARTO SEMI-ILUMINADO


            Em finais de Novembro de 2010 tive a oportunidade de apresentar ao público português o meu primeiro livro. No caso, de poesia. Nem outra coisa seria de esperar, diga-se; pois, à época, nove em cada dez trabalhos meus eram do género poético. Não possuo uma explicação plausível ou lógica para tal evidência, à excepção do facto da poesia sempre ter fluido por mim com uma naturalidade maior do que as restantes formas de literatura. Mas até esse dia nascer, como desde logo se pressagia, muitos outros foram mastigados e engolidos com esgares nem sempre agradáveis, o que deixa desde já antever a complexidade inerente ao próprio processo de edição – desde o momento em que decidimos enveredar por um caminho literário até ao ansiado instante que marca a publicação da obra de estreia.
            Se escrever um livro é uma tarefa complexa, ainda que deveras aprazível, editá-lo é simplesmente um acto que exige forças supra-humanas. Ao nível, provavelmente, segundo rezam os anais da mitologia grega, dos trabalhos que Hera incumbiu ao seu famoso enteado Hércules. Afinal, lidamos com diversas emoções que, qual miríade de pipocas implodindo no microondas, não cessam de vibrar por todas as fímbrias do ser: ansiedade, insegurança, frustração… Sei lá eu o que mais! Todos os que já se aventuraram por tais trilhos compreendem perfeitamente o que pretendo transmitir. Contudo, apesar do cenário geral – e eis a loucura suprema –, movidos por ocultas forças lá acabamos por perseverar em tão longa jornada. Assim se prova o quão capaz poderá ser a força de um verdadeiro amor.
            Assumir o que o coração mais nos implora não é um acto simples de executar. Pelo menos, não tão simples quanto poderá parecer. Escutá-lo até que se afigurará fácil, mas para seguir as linhas do que nos dita requer-se coragem (e uma certa dose de loucura, é claro). Quando chegou a minha vez de decidir um destino, no seio daquelas encruzilhadas existenciais em que ou escolhemos o trilho da direita ou o da esquerda, o comprido azul ou o vermelho, optei pelo caminho menos trilhado, menos provável e menos explorado – ignorando ainda, devo admitir, as belezas que tais rumos sempre encerram por tão poucas vezes serem visitados ou percorridos. Posteriormente, evocaria as célebres palavras do poeta Robert Frost: «Two roads diverged in a wood, and I — / I took the one less traveled by, / And that has made all the difference.» Hipótese de tradução: «Duas estradas bifurcavam num bosque, e eu / Eu segui pela que fora menos utilizada, / E isso fez toda a diferença».
            Sorri, quando me confrontei com este dizer. De certa forma, era um alento para a jornada que eu próprio me aprontava a empreender. Toda a escolha comporta uma consequência (não fosse ela uma forma de acção), mas estava preparado para assumi-la. Para o melhor ou para o pior, ao menos seria “à minha maneira”. Nem de sua justiça Sinatra diria melhor. Aliás, a própria mensagem dessa intemporal canção foi o inspirado mote que impulsionou a minha decisão. A partir daí, nada seria como dantes.
            Se aqui dou a conhecer uma parte do meu início como escritor, com os respectivos sentimentos, escolhas, pensamentos e decisões, é por sentir que para se compreender melhor o meu trabalho e a pessoa que sou importa antes perceber as circunstâncias em que tão decisivas opções foram tomadas. Afinal (publicamente me confesso), abdiquei de uma possivelmente bem sucedida carreira bancária para seguir os mais íntimos intentos deste sempre sábio coração. Terei chocado algumas consciências? Não foi a primeira vez. Como justificar uma certeza que é tão íntima? Somente aquele que a sente a poderá compreender e, posteriormente, seguir o seu subitamente iluminado rumo. É óbvio que o início de um novo caminho apresenta inúmeras dificuldades, testes à resistência do incauto caminhante que se apronta para tamanha empresa. Mas, se efectivamente desejar sentir a suavidade das pétalas da rosa que indaga, terá naturalmente de ultrapassar todos os espinhos que a compõem. É, de certo modo, uma forma de se provar digno do destino que escolheu.
As dúvidas eram gerais… E múltiplas. Ainda assim, não me demoveram do propósito. Aquilo que desejava e que como um apelo sentia a ribombar em mim era forte demais para ser ignorado ou proscrito como qualquer vestimenta que abdicamos ao longo do percurso. Era o que mais felicidade me proporcionava. E, sabendo-a não um fim mas antes uma continuidade, apliquei-me por garantir a sua companhia ao longo da jornada – tanto quanto me fosse possível. É claro que por vezes ela se eclipsava, mas… qual o dia que se diz sem chuva? A vida é impermanente: um conjunto de estações que ininterruptamente se sucedem. Há que saber lidar com tal característica tão primordial e intrínseca. O caminho que escolhemos encarrega-se de nos instruir nas especificações do mesmo. Basta estarmos atentos e receptivos.
Enfim, para poupar o leitor a detalhes possivelmente enfadonhos, resumo a ideia: o crucial é assumir a escolha, dar o melhor de nós próprios e… acreditar. Existe, contudo, uma diferença expressa entre “desejos” e “apelos”. Os primeiros são muitas vezes resultados dos devaneios de um corpo de prazeres ou de uma iludida alma que a eles perdidamente se entrega, sem vestígios de harmonia e equilíbrio; os últimos são os ecos da voz da alma, profundos, íntegros, genuínos… E não em raras ocasiões são o mais fiel guia que um Homem pode possuir em dias de tempestade. Haja sabedoria para os distinguir!
Mas, naquele tempo, ainda não compreendia totalmente o meu raio de actuação enquanto escritor. Sabia que queria seguir por essa via. Apesar de tão árdua e parca em estabilidade futura, ainda assim a queria. E a alma nunca cessava de me recordar tal coisa. Era por ali o caminho, e era naquela decisão que tudo se concretizaria. A criação literária trazia até mim um conforto extraordinário, uma felicidade imensa! Como poderia ignorar tal coisa? Renegar tamanha bênção? Por isso, confiei no meu sucesso. Tanto quanto hoje nele ainda confio. Não é uma extensão da arrogância esta íntima crença, mas uma forma de se perseverar no ofício que desenvolvemos. Cheguei a uma idade em que compreendi: se não confiarmos veramente em nós próprios, no nosso trabalho e em nossas acções, ninguém mais o fará. Pelo menos, com a força que só os visados conseguem (e podem) imprimir. Assim sendo, restava seguir em frente… E atravessar todas as brumas que assomavam ao horizonte.
Nos dias que correm, com outra perspectiva, naturalmente mais madura, ponderada e transcendente a muitas poeiras que as questões nunca respondidas levantam, entendo a totalidade do meu trabalho e a minha real função enquanto escritor. Acredito piamente que todo o Homem pode ser um farol para o seu semelhante. E o papel que escolhi é somente uma forma de justificar essa crença. O importante é cada um compreender a sua própria natureza, aceitá-la e, mediante o que se lhe apresenta, optar pela via que mais servirá o seu carácter. Assim, permanecendo e evoluindo no “lugar certo”, cumprindo as “certas funções”, dará um contributo muito mais eficaz e valioso a si próprio e ao colectivo que o rodeia.
Dias e dias de dúvidas, frustrações e poucas certezas depois, sempre com uma fé intensa no provir, mesmo em alturas onde as fundações lhe faltavam, eis que chega o momento de publicamente apresentar o meu primeiro livro. É extraordinário como aquele pequeno objecto consegue resumir tantos suspiros e dores… Memórias do processo findado, sem dúvida. Cada etapa vencida guiou-me até aquele dia. A primeira vitória foi nunca claudicar perante a subtil descrença que sempre sobrevinha de tempos a tempos (acima de tudo, é crucial persistir e jamais desesperar), mas naquele momento deu-se o glorificar de todo o negrume. Justificou-se, em suma, na luz daquele dia singular.
O evento correu optimamente bem, rodeado de amigos, familiares e simples curiosos. Dar autógrafos foi a grande novidade, mas posso abertamente afirmar que tal experiência se revelou bastante prazerosa. Nem poderia imaginar algo melhor. Entretanto, já tive a oportunidade de a repetir por mais duas ocasiões ditas “oficiais”. Em breve, dar-se-á a terceira – felizmente. Mas mais importante que isso é sentir o apoio e a amizade daqueles que nos querem bem. Entre todos a dúvida pode ser geral, a princípio; mas as pequenas vitórias vão igualmente provando aos demais o nosso empenho e vontade em proliferar no rumo que escolhemos. No final, somente contam os sorrisos e os desejos luminosos. Recordo os votos que no término desse dia uma amiga muito querida tão amavelmente me endereçou: «que continues a ser o orgulho da tua família e amigos». O que dizer perante tal coisa? Tempos depois, um outro amigo me confessaria o seguinte: «É desta! Vou iniciar um negócio por conta própria… E tu, com as decisões que tomastes em tua vida, foste um exemplo para mim!». Continuo sem saber o que dizer em resposta.
Eis algo ao qual na altura permanecia cego: o simples facto de poder primar pela diferença ao assumir uma escolha tão ilógica quanto incomum. Confesso que ignorava, de todo, essa hipótese. Mas os dias consumidos, como ondas de um mar de experiências, até às minhas orlas trouxeram a evidência: é possível ser-se um luminoso exemplo e sobre os demais exercer uma influência positiva através da afirmação daquilo que nós próprios somos. Na verdade, nem sei ser outra coisa além daquela que sou, neste tão breve tempo de vida.
A mais simples palavra, dita e assumida no mais casual dos instantes, pode comportar consequências extraordinárias! Não considere o leitor que com tudo isto me envaideço, pois o meu trabalho, e principalmente a intenção que o pensa, estará sempre em primeiro lugar, mesmo em relação à minha pessoa. Esta surge até em último lugar, uma vez que antes ainda se contam aqueles que sirvo através do ofício que laboro. Sejamos sinceros: o que deverá ser o obrar de um trabalho, se não uma material manifestação do amor? E de que serve o amor se não for dirigido àqueles que nos rodeiam? O Amor, meu caro leitor, é a chave que abre todas as portas, a sementeira a partir da qual tudo floresce, a base sobre a qual tudo se constrói.
Como entenderá aquele que agora me lê, nada de mais profundo poderei eu experimentar do que uma expressa gratidão por tudo aquilo que tão generosamente tenho recebido. É um privilégio, deveras. Sei-me intimamente abençoado. Além do mais, o meu trabalho justifica-se sempre que uma luz se reacende em meu semelhante. Afinal, é para ele que escrevo, é por ele que faço aquilo que faço. Porquê? Nem o sei… Apenas por ser assim que deve ser, apenas por ser desse modo que a minha existência se “encaixa” na eterna roda da vida. Os chineses, porém, no auge da sua sabedoria encontram uma belíssima razão: «Fica sempre um pouco de perfume na mão que oferece rosas». Nem todas as respostas estão disponíveis no consciente humano, mas essa é a minha intenção mais primordial. Pelo menos, consigo identificá-la e reunir os meios para a cumprir. E o consequente sentimento é a doce realização.
O caminho é longo, bem o sei… Ainda há tão pouco tempo nele me iniciei. Tenho o hábito de repetir uma expressão que um dia escrevi: «Nuvem após nuvem, até alcançar as estrelas». Apenas para que com essa luz própria uma outra possa ser incidida sobre toda a face que a ela se dirigir. Assim, abertamente afirmo: sou um homem feliz. Restrições? Claro que as há! Indiquem-me uma existência que esteja desprovida delas… Sou um homem feliz. Lamentosamente, nem todos poderão dizer o mesmo; mas oxalá um dia ainda o possam. Desejo-o fervorosamente. O meu testemunho é apenas a minha simples história, tão igual a qualquer outra. Em muitos casos, as ocasiões e os eventos são semelhantes; a diferença reside somente na forma como cada um de nós as aproveita e os vive. Ainda assim, espero que uma nova madrugada possa irromper na vida de tais caminhantes (uma simples metáfora para o que no fundo aqui somos: os caminhantes de uma extensa jornada existencial). Ou que uma qualquer alma se possa rever e encontrar em alguma linha desta crónica que escrevo e com sincero amor compartilho. O fruto, pelo menos, foi colhido e aqui se deposita. Que aquele que fome sentir possa encontrar a sua ansiada satisfação.
Muito há ainda a percorrer… Naturalmente. Mas permaneço diante da minha estrada mais vibrante e sorridente do que nunca. O infinito alonga-se no horizonte e a cada dia me aproximo mais do intento final. Tem sido uma jornada incrível… Perguntar-me-á o amigo leitor: valeu a pena? Vale a pena todos os dias! Por derrotas e vitórias vale um milhão de penas. Faria tudo de novo, se tal me fosse proposto em desafio. Indubitavelmente. E a julgar que tudo começou com um simples pensamento, com uma decisão a implorar o seu definitivo assumir… Há apenas três anos atrás, numa noite de reflexão, no mesmo quarto semi-iluminado onde agora me apronto a encerrar esta crónica.


Pedro Belo Clara.




PS: Dedico estas longas linhas à minha amiga e talentosa poetisa Paula Marques, que muito em breve estará a lançar o seu primeiro livro de poesias.


Nenhum caminho é igual a um outro. Ainda assim, deixei impresso o meu testemunho, resumido à sua forma mais crucial. Que nele consiga se rever e compreender que as dificuldades que experimentamos não nos assistem exclusivamente – em diversas circunstâncias são um lugar-comum. Assim, estreita-se a solidão do Homem. Felicidades à dedicada e a si, leitor, se por ventura se prepara para trilhar um caminho semelhante. Saibam, ambos, que alguém que sofre e ama como vós já trilhou rumos idênticos; saibam que não estarão sós; saibam que valerá a pena se permanecerem fiéis a vós próprios. E não se esqueçam: a vida é um sopro. Dêem-lhe forma!