segunda-feira, 11 de novembro de 2013

CERTA NOITE, NUM QUARTO SEMI-ILUMINADO


            Em finais de Novembro de 2010 tive a oportunidade de apresentar ao público português o meu primeiro livro. No caso, de poesia. Nem outra coisa seria de esperar, diga-se; pois, à época, nove em cada dez trabalhos meus eram do género poético. Não possuo uma explicação plausível ou lógica para tal evidência, à excepção do facto da poesia sempre ter fluido por mim com uma naturalidade maior do que as restantes formas de literatura. Mas até esse dia nascer, como desde logo se pressagia, muitos outros foram mastigados e engolidos com esgares nem sempre agradáveis, o que deixa desde já antever a complexidade inerente ao próprio processo de edição – desde o momento em que decidimos enveredar por um caminho literário até ao ansiado instante que marca a publicação da obra de estreia.
            Se escrever um livro é uma tarefa complexa, ainda que deveras aprazível, editá-lo é simplesmente um acto que exige forças supra-humanas. Ao nível, provavelmente, segundo rezam os anais da mitologia grega, dos trabalhos que Hera incumbiu ao seu famoso enteado Hércules. Afinal, lidamos com diversas emoções que, qual miríade de pipocas implodindo no microondas, não cessam de vibrar por todas as fímbrias do ser: ansiedade, insegurança, frustração… Sei lá eu o que mais! Todos os que já se aventuraram por tais trilhos compreendem perfeitamente o que pretendo transmitir. Contudo, apesar do cenário geral – e eis a loucura suprema –, movidos por ocultas forças lá acabamos por perseverar em tão longa jornada. Assim se prova o quão capaz poderá ser a força de um verdadeiro amor.
            Assumir o que o coração mais nos implora não é um acto simples de executar. Pelo menos, não tão simples quanto poderá parecer. Escutá-lo até que se afigurará fácil, mas para seguir as linhas do que nos dita requer-se coragem (e uma certa dose de loucura, é claro). Quando chegou a minha vez de decidir um destino, no seio daquelas encruzilhadas existenciais em que ou escolhemos o trilho da direita ou o da esquerda, o comprido azul ou o vermelho, optei pelo caminho menos trilhado, menos provável e menos explorado – ignorando ainda, devo admitir, as belezas que tais rumos sempre encerram por tão poucas vezes serem visitados ou percorridos. Posteriormente, evocaria as célebres palavras do poeta Robert Frost: «Two roads diverged in a wood, and I — / I took the one less traveled by, / And that has made all the difference.» Hipótese de tradução: «Duas estradas bifurcavam num bosque, e eu / Eu segui pela que fora menos utilizada, / E isso fez toda a diferença».
            Sorri, quando me confrontei com este dizer. De certa forma, era um alento para a jornada que eu próprio me aprontava a empreender. Toda a escolha comporta uma consequência (não fosse ela uma forma de acção), mas estava preparado para assumi-la. Para o melhor ou para o pior, ao menos seria “à minha maneira”. Nem de sua justiça Sinatra diria melhor. Aliás, a própria mensagem dessa intemporal canção foi o inspirado mote que impulsionou a minha decisão. A partir daí, nada seria como dantes.
            Se aqui dou a conhecer uma parte do meu início como escritor, com os respectivos sentimentos, escolhas, pensamentos e decisões, é por sentir que para se compreender melhor o meu trabalho e a pessoa que sou importa antes perceber as circunstâncias em que tão decisivas opções foram tomadas. Afinal (publicamente me confesso), abdiquei de uma possivelmente bem sucedida carreira bancária para seguir os mais íntimos intentos deste sempre sábio coração. Terei chocado algumas consciências? Não foi a primeira vez. Como justificar uma certeza que é tão íntima? Somente aquele que a sente a poderá compreender e, posteriormente, seguir o seu subitamente iluminado rumo. É óbvio que o início de um novo caminho apresenta inúmeras dificuldades, testes à resistência do incauto caminhante que se apronta para tamanha empresa. Mas, se efectivamente desejar sentir a suavidade das pétalas da rosa que indaga, terá naturalmente de ultrapassar todos os espinhos que a compõem. É, de certo modo, uma forma de se provar digno do destino que escolheu.
As dúvidas eram gerais… E múltiplas. Ainda assim, não me demoveram do propósito. Aquilo que desejava e que como um apelo sentia a ribombar em mim era forte demais para ser ignorado ou proscrito como qualquer vestimenta que abdicamos ao longo do percurso. Era o que mais felicidade me proporcionava. E, sabendo-a não um fim mas antes uma continuidade, apliquei-me por garantir a sua companhia ao longo da jornada – tanto quanto me fosse possível. É claro que por vezes ela se eclipsava, mas… qual o dia que se diz sem chuva? A vida é impermanente: um conjunto de estações que ininterruptamente se sucedem. Há que saber lidar com tal característica tão primordial e intrínseca. O caminho que escolhemos encarrega-se de nos instruir nas especificações do mesmo. Basta estarmos atentos e receptivos.
Enfim, para poupar o leitor a detalhes possivelmente enfadonhos, resumo a ideia: o crucial é assumir a escolha, dar o melhor de nós próprios e… acreditar. Existe, contudo, uma diferença expressa entre “desejos” e “apelos”. Os primeiros são muitas vezes resultados dos devaneios de um corpo de prazeres ou de uma iludida alma que a eles perdidamente se entrega, sem vestígios de harmonia e equilíbrio; os últimos são os ecos da voz da alma, profundos, íntegros, genuínos… E não em raras ocasiões são o mais fiel guia que um Homem pode possuir em dias de tempestade. Haja sabedoria para os distinguir!
Mas, naquele tempo, ainda não compreendia totalmente o meu raio de actuação enquanto escritor. Sabia que queria seguir por essa via. Apesar de tão árdua e parca em estabilidade futura, ainda assim a queria. E a alma nunca cessava de me recordar tal coisa. Era por ali o caminho, e era naquela decisão que tudo se concretizaria. A criação literária trazia até mim um conforto extraordinário, uma felicidade imensa! Como poderia ignorar tal coisa? Renegar tamanha bênção? Por isso, confiei no meu sucesso. Tanto quanto hoje nele ainda confio. Não é uma extensão da arrogância esta íntima crença, mas uma forma de se perseverar no ofício que desenvolvemos. Cheguei a uma idade em que compreendi: se não confiarmos veramente em nós próprios, no nosso trabalho e em nossas acções, ninguém mais o fará. Pelo menos, com a força que só os visados conseguem (e podem) imprimir. Assim sendo, restava seguir em frente… E atravessar todas as brumas que assomavam ao horizonte.
Nos dias que correm, com outra perspectiva, naturalmente mais madura, ponderada e transcendente a muitas poeiras que as questões nunca respondidas levantam, entendo a totalidade do meu trabalho e a minha real função enquanto escritor. Acredito piamente que todo o Homem pode ser um farol para o seu semelhante. E o papel que escolhi é somente uma forma de justificar essa crença. O importante é cada um compreender a sua própria natureza, aceitá-la e, mediante o que se lhe apresenta, optar pela via que mais servirá o seu carácter. Assim, permanecendo e evoluindo no “lugar certo”, cumprindo as “certas funções”, dará um contributo muito mais eficaz e valioso a si próprio e ao colectivo que o rodeia.
Dias e dias de dúvidas, frustrações e poucas certezas depois, sempre com uma fé intensa no provir, mesmo em alturas onde as fundações lhe faltavam, eis que chega o momento de publicamente apresentar o meu primeiro livro. É extraordinário como aquele pequeno objecto consegue resumir tantos suspiros e dores… Memórias do processo findado, sem dúvida. Cada etapa vencida guiou-me até aquele dia. A primeira vitória foi nunca claudicar perante a subtil descrença que sempre sobrevinha de tempos a tempos (acima de tudo, é crucial persistir e jamais desesperar), mas naquele momento deu-se o glorificar de todo o negrume. Justificou-se, em suma, na luz daquele dia singular.
O evento correu optimamente bem, rodeado de amigos, familiares e simples curiosos. Dar autógrafos foi a grande novidade, mas posso abertamente afirmar que tal experiência se revelou bastante prazerosa. Nem poderia imaginar algo melhor. Entretanto, já tive a oportunidade de a repetir por mais duas ocasiões ditas “oficiais”. Em breve, dar-se-á a terceira – felizmente. Mas mais importante que isso é sentir o apoio e a amizade daqueles que nos querem bem. Entre todos a dúvida pode ser geral, a princípio; mas as pequenas vitórias vão igualmente provando aos demais o nosso empenho e vontade em proliferar no rumo que escolhemos. No final, somente contam os sorrisos e os desejos luminosos. Recordo os votos que no término desse dia uma amiga muito querida tão amavelmente me endereçou: «que continues a ser o orgulho da tua família e amigos». O que dizer perante tal coisa? Tempos depois, um outro amigo me confessaria o seguinte: «É desta! Vou iniciar um negócio por conta própria… E tu, com as decisões que tomastes em tua vida, foste um exemplo para mim!». Continuo sem saber o que dizer em resposta.
Eis algo ao qual na altura permanecia cego: o simples facto de poder primar pela diferença ao assumir uma escolha tão ilógica quanto incomum. Confesso que ignorava, de todo, essa hipótese. Mas os dias consumidos, como ondas de um mar de experiências, até às minhas orlas trouxeram a evidência: é possível ser-se um luminoso exemplo e sobre os demais exercer uma influência positiva através da afirmação daquilo que nós próprios somos. Na verdade, nem sei ser outra coisa além daquela que sou, neste tão breve tempo de vida.
A mais simples palavra, dita e assumida no mais casual dos instantes, pode comportar consequências extraordinárias! Não considere o leitor que com tudo isto me envaideço, pois o meu trabalho, e principalmente a intenção que o pensa, estará sempre em primeiro lugar, mesmo em relação à minha pessoa. Esta surge até em último lugar, uma vez que antes ainda se contam aqueles que sirvo através do ofício que laboro. Sejamos sinceros: o que deverá ser o obrar de um trabalho, se não uma material manifestação do amor? E de que serve o amor se não for dirigido àqueles que nos rodeiam? O Amor, meu caro leitor, é a chave que abre todas as portas, a sementeira a partir da qual tudo floresce, a base sobre a qual tudo se constrói.
Como entenderá aquele que agora me lê, nada de mais profundo poderei eu experimentar do que uma expressa gratidão por tudo aquilo que tão generosamente tenho recebido. É um privilégio, deveras. Sei-me intimamente abençoado. Além do mais, o meu trabalho justifica-se sempre que uma luz se reacende em meu semelhante. Afinal, é para ele que escrevo, é por ele que faço aquilo que faço. Porquê? Nem o sei… Apenas por ser assim que deve ser, apenas por ser desse modo que a minha existência se “encaixa” na eterna roda da vida. Os chineses, porém, no auge da sua sabedoria encontram uma belíssima razão: «Fica sempre um pouco de perfume na mão que oferece rosas». Nem todas as respostas estão disponíveis no consciente humano, mas essa é a minha intenção mais primordial. Pelo menos, consigo identificá-la e reunir os meios para a cumprir. E o consequente sentimento é a doce realização.
O caminho é longo, bem o sei… Ainda há tão pouco tempo nele me iniciei. Tenho o hábito de repetir uma expressão que um dia escrevi: «Nuvem após nuvem, até alcançar as estrelas». Apenas para que com essa luz própria uma outra possa ser incidida sobre toda a face que a ela se dirigir. Assim, abertamente afirmo: sou um homem feliz. Restrições? Claro que as há! Indiquem-me uma existência que esteja desprovida delas… Sou um homem feliz. Lamentosamente, nem todos poderão dizer o mesmo; mas oxalá um dia ainda o possam. Desejo-o fervorosamente. O meu testemunho é apenas a minha simples história, tão igual a qualquer outra. Em muitos casos, as ocasiões e os eventos são semelhantes; a diferença reside somente na forma como cada um de nós as aproveita e os vive. Ainda assim, espero que uma nova madrugada possa irromper na vida de tais caminhantes (uma simples metáfora para o que no fundo aqui somos: os caminhantes de uma extensa jornada existencial). Ou que uma qualquer alma se possa rever e encontrar em alguma linha desta crónica que escrevo e com sincero amor compartilho. O fruto, pelo menos, foi colhido e aqui se deposita. Que aquele que fome sentir possa encontrar a sua ansiada satisfação.
Muito há ainda a percorrer… Naturalmente. Mas permaneço diante da minha estrada mais vibrante e sorridente do que nunca. O infinito alonga-se no horizonte e a cada dia me aproximo mais do intento final. Tem sido uma jornada incrível… Perguntar-me-á o amigo leitor: valeu a pena? Vale a pena todos os dias! Por derrotas e vitórias vale um milhão de penas. Faria tudo de novo, se tal me fosse proposto em desafio. Indubitavelmente. E a julgar que tudo começou com um simples pensamento, com uma decisão a implorar o seu definitivo assumir… Há apenas três anos atrás, numa noite de reflexão, no mesmo quarto semi-iluminado onde agora me apronto a encerrar esta crónica.


Pedro Belo Clara.




PS: Dedico estas longas linhas à minha amiga e talentosa poetisa Paula Marques, que muito em breve estará a lançar o seu primeiro livro de poesias.


Nenhum caminho é igual a um outro. Ainda assim, deixei impresso o meu testemunho, resumido à sua forma mais crucial. Que nele consiga se rever e compreender que as dificuldades que experimentamos não nos assistem exclusivamente – em diversas circunstâncias são um lugar-comum. Assim, estreita-se a solidão do Homem. Felicidades à dedicada e a si, leitor, se por ventura se prepara para trilhar um caminho semelhante. Saibam, ambos, que alguém que sofre e ama como vós já trilhou rumos idênticos; saibam que não estarão sós; saibam que valerá a pena se permanecerem fiéis a vós próprios. E não se esqueçam: a vida é um sopro. Dêem-lhe forma!  


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