quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

RETALHOS DA SAGA DE UM ESCRITOR (PARTE II)


              O dia amanhecera plácido e gélido. Após despertar, dirigi-me à janela do quarto para saborear um pouco o álgido ar daquela manhã de tímido sol. Tudo imergia, ainda, numa imensa e invisível onda de tranquilidade que descia dos montes, circundava as casas e naquela pequena varanda encontrava a sua praia ideal para morrer a meus pés. O coração de súbito acelerou-se quando a mente, retornando a si, desfez o resquício do sonho e ressuscitou a inegável realidade. Afinal, era chegado o dia onde todos os compromissos se cumpririam.
            Não me recordo se a noite fora profícua em descanso ou embalada em vagas de súbitas agitações… Apenas que, decidido, focava-me no objectivo que tinha em mente. E a partir daí não pensara em mais nada. O dia tinha nascido. Era chegada a hora. Tão simples quanto isso.
            Após saciar a parca fome e trocar com as companhias de então dois dedos de conversa, entre sumos de laranja, pequenos pães e bolos e cafés fumegantes, retornei ao quarto para finalizar os retoques na indumentária e reunir o material que o evento mais requereria. Estando tudo pronto e na devida ordem, despedi-me de quem de direito e saí do hotel rumo ao destino mais aguardado. Uma vez que na véspera lá tinha estado, não haveria hipótese de engano. Felizmente. 
            O vento era gélido, não sobravam dúvidas… Mas o frio tipicamente seco daquele local eram bastante suportável quando comparado com o frio húmido que habitualmente paira nessa altura do ano pela cidade que me viu nascer. Em suma, o Outono de lá assemelhava-se ao Inverno de Lisboa, extraindo apenas esse húmido factor que tanta estrutura óssea danifica. Nada de grave, portanto. Creio que os termómetros marcariam àquela hora uns condignos cinco graus centígrados, mas para a minha percepção não estariam menos de doze graus. Por aqui se vê o quão se habitua um organismo às temperaturas que reinam pelo seu ambiente nativo.  
            O vento, contudo, auxiliou-me a conservar a mente vazia, despojada de pensamentos menos desejáveis ou de apertos absolutamente injustificáveis. Cheguei ao portão principal da escola, identifiquei-me e, após concedida a autorização de entrada, dirigi-me à biblioteca onde se desenrolaria o evento. Pelos corredores, caminhando assim tão à-vontade, quase que passava despercebido por entre funcionários e alunos. Um novo professor, quem sabe, que se aprontava para se estrear naquele estabelecimento de ensino?
            Munido de alguns exemplares do meu último livro, à data, publicado, entrei na biblioteca e, vendo os arranjos devidamente concretizados, atravessei a fila de cadeiras ainda vazias para me instalar no lugar que seria meu por efémero direito. É claro que o evento não envolveria somente os temas que anteriormente explanei, mas igualmente a oportunidade de vender, a um preço bastante acessível, alguns exemplares da obra que comigo havia trazido (“Nova Era”, um livro de poesia editado em Dezembro de 2011). As vendas foram bastante razoáveis, devo dizê-lo, embora nunca tivesse alimentado a ilusão de que enriqueceria sobejamente com os lucros aí angariados. Mas importante que tudo isso foi a oportunidade dada aos alunos, professores e funcionários de lerem a obra e meditar sobre a sua universal mensagem. Essa sempre é a minha máxima prioridade.
            Enquanto aguardava a chegada dos alunos e da professora de português com quem havia previamente combinado o alinhamento das três sessões, e que do mesmo modo seria a minha companhia de mesa durante todo o evento, desfrutei de uma agradável conversa com a funcionária da biblioteca. Enfim, assuntos banais que somente nos auxiliam a descontrair e a mergulhar, com o devido afinco, no novo ambiente em que nos encontramos. Aqueles minutos, assim, passaram graças à troca de impressões sobre o estado do tempo, o meu conhecimento sobre a vila e a própria região e até sobre as origens ancestrais da família. O facto de descender de beirões, por parte paterna, e devido à grande proximidade entre as duas zonas do país, sempre acalenta uma conversa que, de outro modo, poderia facilmente esmorecer.
            As cortesias foram sendo trocadas de forma bastante genuína e agradável até a referida professora chegar. Cumprimentámo-nos, falámos sobre pertinentes assuntos que mereciam uma derradeira abordagem e, por fim, tomámos o devido lugar na mesa do evento. Os alunos estavam quase a chegar.
            Com uma afluência bastante regular, de pronto se ocuparam todas as cadeiras. Alguns funcionários, inclusive, tiveram de permanecer de pé. Pelo menos, durante a primeira das três sessões que o evento comportaria. As introduções foram feitas e as apresentações concretizadas, até chegar o momento em que me foi dada a palavra. Assim, comecei por relatar a origem da minha história nas letras, bastante curta ainda, na esperança de que em algum momento, fosse de que forma fosse, certas palavras inspirassem a jovem audiência ou, em derradeira instância, os instigasse a reflectir sobre questões veramente importantes. Acima de tudo, optei por ser fluido… Como se se tratasse de uma conversa entre amigos. Que outra forma haverá de manifestar uma sincera acessibilidade?
            Três turmas diferentes escutaram as palavras que naquele dia proferi. Contando com a indispensável pausa para almoço e café, o evento terá encerrado, oficialmente, por volta das três horas e meia da tarde. Ao longo das horas anteriores contaram-se muitos sorrisos, autógrafos, fotografias e momentos de boa disposição e conversa. No período de almoço, inclusive, onde tive o privilégio de partilhar a refeição com a professora de português anteriormente citada em plena cantina escolar. Sinceramente, é nesse meio que prefiro estar: entre as pessoas. Principalmente, e aplicando a fórmula ao caso em questão, no meio daquelas que me vieram ver e ouvir.  
Nada tenho contra as supostas elites, mas o afastamento social que por norma é seu apanágio contraria a minha natureza. A ideia de quem me convidou, soube depois, consistiria em realizar o almoço num restaurante da zona, hipótese que igualmente aceitaria com o maior dos prazeres. Mas a forma como o caso se desenrolou acabou por ser ainda melhor: almoço na cantina entre os alunos e no meio dos alunos. Sem sequer registar um esboço de hesitação em pegar no meu próprio tabuleiro, servir-me convenientemente e arrumá-lo de pronto, quando findou a refeição. A ideia extravasa completamente a tendência (ou bom-senso) de ser romano em Roma; prende-se antes com uma questão de atitude, de abertura e de aceitação para com o meio envolvente.
A imagem que se poderá reter é a de um político que decide almoçar com alguns representantes do povo que governa, partilhando as suas instalações e o seu meio de convivência. Digo isto apenas, é claro, por motivos comparativos, com o intuito de esclarecer o leitor sobre os sentimentos então vividos. Não detenho ambições políticas, nem nunca as tive, mas, se as possuísse, pode o leitor crer que seria alguém bastante próximo da população pelos motivos anteriormente referidos. A íntima natureza que me assiste não permite que seja de um outro modo.
Creio que uma das mais eficazes virtudes que naquele dia decidi colocar em prática foi a de não criar qualquer tipo de expectativa. Afinal, como numa outra ocasião tive a oportunidade de escrever, «só se desilude aquele que se ilude». Portanto, sem expectativa pré-concebida, seria impossível acalentar ilusões vítreas. Permiti-me simplesmente a ir ao encontro do que me esperava de braços bem abertos. Apenas com um objectivo em mente e despojado de iludidas ambições, terminei o dia de coração cheio.
Ainda hoje esboço um sorriso ao recordar certos episódios vividos naquele dia de Novembro: as pertinentes perguntas de alguns alunos menos tímidos, o clima de amizade que senti em cada recanto da escola, as conversas à hora do almoço com a professora que me recebeu, o café saboreado na belíssima instalação termal da vila, o encontro com o director e demais professores e funcionários, entre muitos, muitos outros exemplos. Uma das maiores gratidões que cultivei e que comigo trouxe, no regresso, foi a forma aberta e veramente simpática com que fui recebido. Por todos, direi: alunos, funcionários, professores e director. Muito além dos agradáveis momentos de venda de livros, das fotografias que os alunos quiseram tirar comigo, os cartazes afixados com o meu nome e rosto ou o magnífico cabaz que a direcção me ofereceu no final do dia (o aveludado vinho que o compunha regou, inclusive, a minha ceia de Natal), permaneceu o sorriso das pessoas com quem me cruzei e, principalmente, o agrado dos alunos com a minha simples presença em sua escola. Eu, sendo um completo desconhecido naquelas paragens, senti-me, e muito humildemente o digo, como uma autêntica rock star.
Poderei ter pensado que me depararia com os orgulhosos descendentes dessa tão nobre e ilustre estirpe lusitana: os herdeiros de Viriato. Gentes de rostos sóbrios e agrestes, com olhares de fino brilho lembrando a sua excelsa origem… Porque não? Mas muito me equivocaria… Encontrei jovens, apenas jovens; tão idênticos, em sonhos e esperanças, àquele que não há muitos anos atrás eu próprio fora.
Ainda que tenha tentado manter-me, durante o desenrolar das agradáveis sessões que partilhámos, num patamar onde pudesse ser, com a máxima clareza, compreendido, na verdade poucas coisas distinguiram a audiência do orador… À parte, apenas, o facto de terem nascido e crescido em zonas distintas do país, com um leve contraste urbano/rural a separar as naturais incidências da juventude. Mas tal aspecto remete ao meio exterior, não à essência. E dentro desse tema, eu o senti, compreendíamos todos o mesmo alfabeto.
A história que sombreia a existência individual, que ajuda a explicar um pouco aquilo que hoje ela é, apresenta-se como um factor diferencial e único ao mesmo tempo. Cada indivíduo detém o seu próprio rumo, a sua própria história. Naturalmente. Por isso, anuo: cada um de nós era um filho de múltiplas causas e escreveu histórias diferentes ao longo do percurso pessoal, ainda que estas se possam unir em determinados pontos. No próprio caminho existencial, apenas por em idade ser mais velho que a audiência, sigo eu na dianteira. Mas tal facto não deverá constituir um factor diferencial, um motivo de apartamento ou relativização. Pelo contrário: é uma séria responsabilidade. Muito mais nos uniu do que certamente nos separou.
Não me recordo já do exacto modo como terminei cada palestra ou como daquele amigável ambiente me despedi. As palavras tendem a oxidar com o tempo, e só subsistem, com maior ou menor desvio, enquanto forem recordadas. Pouco importa, contudo, quando sobeja o principal: o sentimento experimentado.
Na manhã seguinte, com apenas dois graus de temperatura, aprontava-me para a partida com um intenso desejo de retorno. Ainda não tinha abandonado a vila e já elaborava planos para voltar. Assim cogitava, enquanto me divertia a assistir ao jovem casal estrangeiro, provavelmente inglês, que raspava o gelo matinal cravado no vidro do seu carro alugado. De facto, pela tipicidade do local, coisas bem típicas e singulares são passíveis de acontecer – o que apenas incrementa a fineza do perfume que tão bem caracteriza aquelas paragens.
Nesta crónica que assino, e que agora se irá encerrar, apenas poderei sublinhar o sentimento de gratidão que efervesceu como resultado de toda aquela experiência. Sei que me repito, mas é justo que o faça. A felicidade que aí colhi deve-se, em grande parte, a esse aprazível sentir. Foi um gosto imenso provar o etéreo abraço de tais gentes.
Terei eu primado, afinal, pela diferença? Concretizado um positivo impacto junto de algum aluno? Não o sei. Provavelmente, apenas lhes proporcionei um óptimo tempo de descontracção ou uma sempre apetecível fuga às aulas vigentes. Isto eu sei: dei o melhor que tinha em mim, em cada sessão me revelando o mais aberto e acessível que sei ser. Também não sei se isso, junto do próximo, terá bastado, mas a minha consciência vive tranquila e em paz por saber que conseguiu alcançar o seu íntimo propósito. 
Talvez um dia mais tarde um daqueles alunos me reencontre num qualquer lugar e diga de sua justiça. Talvez muitos até já me tenham esquecido, mas… o que importa isso afinal? A semente foi plantada. Basta aguardar o crescimento da árvore. Recorrendo às sábias palavras de um famoso ditado chinês, embaralhando-as, sei que ofereci todas as rosas que tinha para dar. Nas mãos que as concederam, as minhas, habita a essência do seu delicado perfume. E durante largos anos aí perdurará. Disso eu estou certo.




Pedro Belo Clara. 

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