segunda-feira, 25 de novembro de 2013

ALTOS E BAIXOS


Se pensarmos no Caminho como um espaço físico (uma estrada, por exemplo, que se espraia por infindas distâncias), por certo não o imaginamos recto, plano e totalmente desobstruído. Pelo menos, na sua globalidade, não o conceberíamos assim. Seria natural que mentalmente se desenhassem curvas, morros, baixios e outros tipos de inclinações ou acidentes paisagísticos. Assim como este mundo material se preenche, em sua natureza, de vales, montanhas e planícies, também o Caminho, que se justifica ao ser percorrido pelo caminhante (caso contrário, seria somente uma ideia ou concepção filosófica), apresenta os seus peculiares registos de paisagens. Comummente falando, os seus “altos e baixos” – relevos que o adornam e que comportam uma prova para todo aquele que por tais meandros se aventure.

Poder-se-á pensar, para o efeito, que os ditos “altos”, ou zonas de maior elevação, sejam compreendidos pelas emoções mais atreitas ao festejo, celebração ou, simplesmente, ao sorriso. São experimentadas sensações que se revelam quentes e agradáveis, de vibração elevada, e capazes de fomentar uma aprazível experiência. A alegria, por exemplo, será um desses casos. Ao invés, nas demais identificar-se-ão, por senso comum, e seguindo a lógica apresentada, emoções como a melancolia, a tristeza ou a angústia. Sensações, por sua vez, frias e de vibração mais baixa. A presença da dor, nestes casos, pode ser invariavelmente comum – quer ao nível físico, quer ao nível espiritual. Assim, facilmente se entenderá que, por cada passada que no Caminho se invista, novas experiências e sucedidos tomarão o seu lugar. Com eles surgirá uma oportunidade de crescimento, de aprendizagem e de equilíbrio. Como remanescente, a emoção saboreada. Assim se vai recheando o caminho pessoal.

É claro que tal ideia aplicar-se-á a todo o viajante… Apenas se excluirmos a hipótese da transcendência, uma vez que esta, atributo derradeiro dos mais iluminados, naturalmente exclui toda a dualidade. E, no fundo, o que antes foi explanado obedece a esse princípio, fundamental ao bom girar da eterna roda que a existência terrena, com as suas sucessórias estações, é. Aplicando esse molde à ideia que tem vindo a ser transmitida, veremos que experimentar emoções não é mais do caminhar num círculo de sucessões constantes, vivenciando-se ora os “altos” ora os “baixos” que a humana condição pode oferecer. Como o Verão sucede a Primavera, o Inverno o Outono, o sol a lua, a chuva o tempo da seca, as experiências que se coleccionam pela estrada de uma vivência seguem o mesmíssimo propósito. E elas, como evento que se manifesta na matéria, isto é, no mundo físico, comportam a dualidade. Onde há amor, há dor; onde há alegria, há tristeza; onde há euforia, há depressão; onde há vitória, há derrota – é inevitável. Transcender é, por isso, ir além do dual e experimentar um estado de plenitude pura (não confundir com felicidade, pois também essa comporta o seu contrário). Ele é perene, fortemente iluminado e repleto de amor sem entraves ou condições, irradiando de dentro para fora. É nesse momento que a ilusão se quebra e a unidade primordial se revela. Contudo, se falamos de “luz” e de “amor”, facilmente se contraporá a concepção com recurso aos reflexos contrários destes: sombra e dor. Acontece que esse estado de iluminação é apenas a entrada para algo ainda mais superior (ignore-se o subtil pleonasmo). Esse, uma comunhão plena com tudo, é completamente extra-físico. Longa é a jornada de retorno a esse lar… Onde a unidade é finalmente recuperada. Além da luz e da sombra, pulsa o vazio… Um Nada que foi e é Tudo. Da mesma forma exacta em que no lugar de todas palavras está o silêncio, assim que estas cessarem ele, sua origem, fim e recomeço, sobressairá.

Com tais dizeres, não pretendi referir o «não-sentir» ou uma hipotética frieza emocional. O primeiro é um conceito distinto do que foi exposto, e o segundo uma defesa íntima do viajante desiludido, temerário e ferido. Transcender vai ainda para além desses conceitos ou atitudes instintivas ou pré-concebidas. Permanecer no centro elevado de nós próprios – eis o sentido mais translúcido da arte em questão. É um constante contacto com o fluxo energético superior, do qual somos todos uma pequena parte. Muitos viajantes, filhos de múltiplas causas, por diversas ocasiões experimentam estados idênticos, ainda que por efémeros momentos. Este viver (e permanecer) “acima das nuvens” significa estar-se imune aos efeitos da chuva que ocasionalmente tomba, em permanente contacto com o sol que então se revela. Não significa, contudo, que as experiências mais agrestes da vida material cessem para tais indivíduos. Nada disso. Tal estado até será constantemente posto à prova. Embora seja árduo de alcançar, mais árduo é reunir a disciplina necessária para o manter. A conquista da paz interior, no entanto, auxilia (e muito) na experimentação do mesmo.

Em forma de conclusão, pode-se assumir a imagem (ou ideia) de um estado de ser mais elevado e esclarecido, onde a pequena parte recorda a sua ligação ao todo e, assim, a personagem que no momento da vivência é cessa a sua influência mais directa. Então, o «estado de ser» transforma-se num quase «estado de não-ser». Focado não no vento que sopra, torna-se a folha que, suave, se curva e recurva perante o soprar do sopro primordial em sua existência. A ilusão mundana, como cristal que é, acaba por se quebrar perante tamanha luz alcançada, magnífica e excelsa, invocativa e evocativa. Contudo, para que a luz inunde uma divisão, é imperial descerrar as cortinas.

Mas não olvidemos o que antes havia sido debatido. Se retrocedermos no discurso, retomaremos o ponto dos “altos” e “baixos” que propositadamente povoam as existências. Importa, contudo, esclarecer o seguinte: a transcendência no plano físico não comporta o desfasamento desses relevos. Isto é, o sol e a chuva, metaforicamente falando, é claro, continuarão a se suceder e a verter os seus efeitos sobre o indivíduo. A única diferença reside na forma como este, em pleno estado transcendental, os recebe. Estar além da dualidade é constituir uma imunidade aos seus efeitos, embora não esteja a própria dualidade extinta. Assim se prova o quão possível é «viver na Terra como no Céu».

Não se ignore, ainda assim, a evidência de que o caminho até esse estado sublime se pauta por experiências e provações, por vitórias e derrotas. A dualidade deve ser provada para que conquistada possa ser. E em definitivo tal só se reclama quando as paixões, por exemplo, são saboreadas em constante equilíbrio. Não serão reprimidas, ignoradas ou obedecidas… Mas experimentadas de um modo moderado, apenas. Para isso, bastará saber minimizar os seus fortes apelos. Pois, como aquele que vive e caminha sabe, se seguidas elas tornar-se-ão destrutivas. Afinal, o viajante terá de abandonar o seu plácido centro para seguir no encalço da emoção. Mas tal não significa que não se munam de propósito ou cessem de comportar um relevante sentido.

Admita-se a seguinte imagem: se no topo de uma montanha a visão é claramente mais ampla e esclarecedora sobre a paisagem circundante, é a partir de um vale ou de um terreno côncavo que a visão dessa montanha, em si, se torna possível. No seu cume, apenas nos deslumbramos com a paisagem em redor, mas ignoramos o local onde efectivamente nos encontramos. É fácil esquecer as etapas que ao cume nos guiaram, estando este já conquistado. A visão que só o vale oferece é, assim, igualmente preciosa: auxilia-nos a recordar a beleza da montanha e o quão deslumbrante foi admirar aquele horizonte invencível. Poderá causar desagrado esse “baixo” na existência, mas só ele nos permite compreender a vera bênção que aquele “alto” constituiu.

Por diversas ocasiões, ignora o viajante a sua própria efemeridade. Ao longo da caminhada existencial, enquanto se recorda, se salda, se aprende ou se granjeiam as ferramentas necessárias à conquista da etapa, é não raras vezes consumido por um espírito de tamanha invencibilidade. Mas a condição humana, sob o ponto de vista material, é precisamente o oposto: efémera, como os demais elementos que compõem os tangíveis cenário em seu redor. A sanidade, ou a boa saúde física, apenas se poderá revelar um dado adquirido quando experimentada em seu esplendor. Parecerá eterna; mas, tal como as chuvas que chegam após o sol, não o será. Assim que se vive um “alto”, o seu “baixo” correspondente de pronto se anuncia. Ambos são a sombra um do outro, aguardando a hora em que dela irrompa uma reveladora luz - eis o simples suceder das estações. Neste caso em contrário, isto é, tendo a sanidade como exemplo, o seu contrário será a doença. Ela até encerra um motivo de aprendizagem, pois, ao ser consequência de algum comportamento menos equilibrado ou funcional, denuncia o que de errado tem sido feito ou assumido. Seja qual for a sua índole, origem ou gravidade, sempre é um válido e eficaz “despertador de consciências”, uma vez que se traduz num apelo à mudança e à elevação do ser em causa. É, portanto, uma ocasião de transcendência.

Poderá parecer dura, agreste ou injusta, mas constitui um rombo no casco da defesa humana, frágil e temerária, a quebra da máscara onde por tantas vezes o viajante se oculta e protege. Em todo o caso, conferir-lhe-á uma visão diferente sobre os sucedidos e a ordem sob a qual tudo se rege. A verdade é que sem ela não existiria lugar ao crescimento e à evolução. O que serviria permanecer no cume da montanha em plena (mas estagnada) alegria, vivendo de ilusões experimentadas? O apego é um veneno para toda a alma que anseie pela ascensão. A jornada deve ser cumprida até ao seu fim. Todo o viajante que não cumprir o seu desígnio, voltará ao caminho, uma e outra vez, até que se despoje de todas as bagagens, dívidas, feridas e dores. Não será preferível, antes, beber da alegria que nos é dada e, findada essa etapa, partir de pronto para a próxima? Um rio flui… Da nascente até à foz. Para quê temer o que nos espera, sem sequer o conhecermos? Essa visão toldada do Caminho assenta-se num medo íntimo e sem fim… Julgar dessa forma é desconhecer o que nos rege e, como tal, recusar aceitar o supremo bem de todas as coisas.

A dor nunca é desejável, claro… Mas é amplamente necessária. Assim como aceitamos o sol, aceitemos de igual modo a chuva. Ambos têm a sua validez, a sua crucialidade. Importa compreender a valiosa lição que trazem consigo. Nada do que se sucede no Caminho é fruto da casualidade. Se o viajante conseguir efectivamente ver à luz da sabedoria pessoal, saberá da inteligência não visível que tudo rege. Nada é por acaso. Nada se opõe ao Homem. Este é que, por sua vez, se opõe a inúmeras coisas. Rema contra a maré dos acontecimentos e morre de cansaço ao lutar contra forças que se recusa a aceitar e compreender. Os “acasos”, como tantas bocas gostam de os apelidar, são apenas causas e efeitos de outros gestos e de outras decisões, muitas vezes perdidas na linha do tempo… Que é recta e infinita. Apenas aqui, no físico plano, pela visão adoptada ser mais densa e restrita, é que tal visão não é assumida. Se nos elevássemos, veríamos o Tempo encaixar na perfeita metáfora de um rio que corre, sem começo ou fim – e onde tudo se sucede no mesmo exacto tempo.

Tudo detém a sua causa, o seu motivo, a sua razão; assim como todo o fruto guarda a sua semente. Apenas quando este se extingue é que a semente, até então protegida, mergulha nos braços da terra que a ela se abrir, iniciando o seu processo de germinação. Os sucedidos, ainda que tal não esteja visível ao viajante, ocorrem em prol do mesmo… Conspiram a favor daquele que caminha. E, querendo ou não, todos nós partilhamos este mundo de ilusões, todos nós nos quedamos perante as mesmas hipóteses e condições. Apesar de nos diferimos na forma como lidamos com tais aspectos, aplicando maiores ou menores doses de íntima sabedoria. Desse modo, cada um fará o seu próprio trajecto, em prol – que assim seja! – do seu benefício supremo.

É importante que a mente de cada um permaneça limpa de superstições, receios e tensões. Uma mente leve vê com maior clareza e clarividência. Sendo saudável, viverá elevada – focada nos mais luminosos princípios. Desde logo, esse é o primordial passo para a transmutação do estado “baixo” antes referido: a doença. Falo, claro está, da cura. Principiando-se no âmago de cada um, qual resposta à mais incessante das perguntas, encontra-se à simples distância de uma intrépida decisão. A transcendência para os casos doentios, que ao longo das vivências vamos coleccionando, detém-se, portanto, num conjunto de crenças em válidas razões, ainda que desconhecidas, e na certeza de que o primeiro passo a empreender compete ao sujeito em causa – tudo se encontra ao alcance de quem se dignar a estender um braço. Tal concede, desde logo, uma paz prometedora. Afinal, não estamos tão sós quanto ilusoriamente julgaríamos, no seio de uma tão alucinante dor. Aquela ferida poderá ser íntima, mas muitos, seja antes ou depois, partilharam ou partilharão da mesma. Todo o remanescente do processo será cumprido através do notável suceder de todas as coisas. Mas, antes de tudo, importa não perder o proveito que a nova experiência comporta – apesar de dolorosa.  

Se um comboio passar junto da sua estação, que o viajante o não perca. Ao fazê-lo, estará também a perder uma viagem deveras singular e tudo o que ela poderá abranger. Porque não arriscar? Porque não fluir? Porque não aceitar? Grandes bens eclodem na abdicação do “eu”… Sem nunca deixe de ser aquilo que é. Muito pelo contrário: apenas será aquilo que na verdade sempre foi. O que julgava que era não passava de uma roupagem, um disfarce temporário tido como real pela ilusão material do plano onde se encontra. Abdicando, fluirá… E entregar-se-á a um Bem supremo. Confiando nas ocultas (mas certas) razões, saboreará ao longo do percurso a mais aliviante das sensações que somente o mais inominável dos confortos poderá conceder: a serenidade de quem cultiva uma fé.





Pedro Belo Clara.






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