quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O RENASCIMENTO


Já em anteriores publicações abordámos o aspecto cíclico da Vida em si e como este se aplica ao Caminho e a nós, caminhantes. No fundo, todo esse desenrolar é um processo evolutivo: o que perece, renascerá. Esse será, talvez, o aspecto mais básico de toda a existência, a sua mais primordial natureza. Aceitar tal evidência é fluir pelo rio da Vida, entender que sem Inverno nunca haverá um Verão; e aceitar significará transcender, pairar sobre todas as ocorrências e questões como atenta testemunha, caminhar rumo a outros estágios de consciência, em vez de permanecermos grudados a uma dor ou desilusão. Na verdade, somente quem se ilude, previamente, é que se dirá desiludo, de forma posterior. E aquele se ilude é aquele que constrói uma expectativa. Este assunto remete-nos, assim, para um outro: a opção de nada desejar ou esperar; ou, por outras palavras, uma entrega total ao provir. Somos os capitães das nossas embarcações, possuímos leme e bússola; mas, ainda assim, podemos confiar no vento que nos bafeja. Não controlamos o seu sopro, é um facto, e ele sempre se revela presente, com maior ou menor intensidade. Assim, porque não confiar que tal impulso nos levará até bom porto? Mas sempre detemos a opção de pegar no leme e tomar um rumo diferente. Uma vez mais nos deparamos com as diferentes formas de encarar e abraçar a humana existência e sua condição. Em suma, tudo se resume à adopção de diferentes posturas perante algo. E cada um de nós, os caminhantes deste caminho de sol e de lua, acabará por adoptar aquela que mais lhe servir, harmonizando corpo e espírito. Ser a brisa que corre ou a folha que se dobra ao seu passar? Eis a questão que inicia o procedimento de busca e apreendimento.

Contudo, não caiamos em erro: apesar do que foi já dito em espírito de partilha, a dor não é alheia a estes processos. É claro que, por nossa postura, conhecimentos e crenças, poderemos utilizar meios que melhor nos ajudarão a lidar com a presença desse incómodo espinho. No entanto, não a evitaremos. Aliás, querer evitar o sofrimento é querer evitar a própria Vida e todas as múltiplas experiências que ela nos proporciona. Pois este é, a par de muitos outros, seus semelhantes, uma mera consequência das suas peculiares ocorrências. Querer evitar o sofrimento é querer impedir o tombar da chuva ou a chegada de um gélido Inverno. Mas se entendermos que é somente graças à sua presença que os dias de sol chegarão, estaremos a abraçar a Vida em toda a sua plenitude e amplitude. Estaremos a compreender as linhas com que se tece o Caminho de todos nós e a corajosamente aceitar os seus desafios. E, como antes referi, aceitar é transcender.

Na verdade, por mais longa que seja a noite, um novo dia acabará sempre por irromper com todo o seu esplendor. Mesmo que não seja no exacto momento que prevíamos ou desejávamos. Poderemos definir rumos em nossas existências, materializando o fogo que vibra em nossos corações, mas no seio da nossa humildade aceitaremos que certas envolvências não dependem de nossas acções nem estão sob o nosso apertado controlo. Inclusivamente, a nossa liberdade, tanto quanto aqui é possível experiênciar, depende muito de tais questões. Além disso, a fé, nem que esteja apenas assente numa simples premissa, é o amuleto do Homem, a sua bengala, o seu impulso de empreendimento.
No devido tempo, renasceremos. E tomaremos para a nossa essência todo o crescimento e a aprendizagem retida em tal passagem. Não mais seremos os mesmos; antes pequenas luzes cintilando como nunca! Se perscrutarmos as redondezas e atentarmos no funcionamento das mais simples coisas, poderemos tomar o exemplo das árvores de folha caduca: nunca as suas folhar são tão verdes, de uma vibrante e vívida cor, quando são jovens e tenras. Apenas assim se destacam das demais. Depois, é claro, adquirirão tonalidades mais escuras no pleno de sua maturação, equiparando-se às restantes. Mas a maior diferenciação, aquela que de longe mais se faz notar, ocorre na fase do seu maior brilho, intenso e peculiar. Este, não ocorre na fase madura, mas nos instantes que se seguem ao seu renascimento. É aí que elas brilham como nunca mais irão brilhar. Certamente que é árduo abdicar de certas coisas, romper com o antigo ou enterrar sonhos promissores; mas, se não mais nos servem, o seu abandono revela-se crucial à individual evolução. Somente quando o cálice se esvazia, é que poderá ser de novo preenchido.

É nesse tempo turbulento, de dúvidas e agitações, que a mais cintilante das luzes nos habita, como que se fosse uma recompensa pela complexa travessia realizada; uma luz que jamais nos abandonará e que somente ganhará forças quando outras, novas, a ela se juntarem. Assim é toda a existência, assim é o rumo da evolução. Por mais íntimo que seja, certas aspectos são comuns a muitos de nós. Afinal, percorremos as veredas de um só Caminho e, ao contrário do que podemos muitas vezes julgar, não estamos sós. Por isso, quando menos esperarmos, o desejado momento surgirá com a naturalidade de um processo de cultivo – plantação da semente e, na devida estação, colheita do fruto. A paciência é deveras uma virtude, e um proveitoso escudo durante o desenrolar de tais ocorrências. Mas, muito mais que isso, é um sinal de sabedoria. Sendo ela a nossa bandeira, perseveremos – e viveremos para assistir ao nascer desse glorioso e secretamente ansiado dia de concretização.


Pedro Belo Clara.








quinta-feira, 13 de setembro de 2012

AS 10 PREMISSAS DO AMOR


1)      Saber libertar a pessoa amada em prol da sua total felicidade, mesmo que isso compreenda a quebra completa de nosso coração;

2)      Saber aceitar cada pormenor mais sombrio da pessoa amada, pois só assim nos revelaremos dignos da sua luz mais pura;

3)      Saber dar, incondicionalmente, sem nada exigir em troca. Pois aqueles que se dão, invariavelmente recebem, como troca, o mais sinceros dos sorrisos, o mais amável dos gestos e o mais ternos dos carinhos;

4)      Jamais recear a dor; pois, ainda que imperfeita, a pessoa amada detém sempre em si o unguento que sarará a nossa ferida. Mesmo que nos magoe ou desiluda, em certos momentos, só ela – se for a real eleita – é que nos poderá curar;

5)      Saber que não iremos, ao longo do percurso, beber do mesmo copo nem comer do mesmo prato; antes desfrutar da mesmíssima refeição;

6)      Compreender que a luz da lua e a luz das estrelas nunca terão o mesmo brilho se contempladas foram sem a presença de quem, para nós, é o mundo;

7)      Ansiar por tudo: tudo querer realizar, proporcionar, partilhar. Mas, mesmo de coração inquieto, saber respeitar o divino tempo de quem nos acompanha. Pois, se forte for o sentimento e a crença, estaremos dispostos a esperar até ao fim dos dias;

8)      Crescer como duas árvores que desejam ser frondosas, de forma paralela – sem emaranhar a ramagem ou impedir que a outra receba a luz do sol;

9)      Sentir que, por mais longa que seja a caminhada, jamais iremos largar a mão de quem mais amamos, pois somos a sua rocha e o seu farol – tanto quanto ela o é para nós;

10)  Saber que, por mais longínqua que seja a distância, por mais dolorosa que seja a saudade, penoso o peso do coração ou amargo o inevitável desfecho, tão árduo de ser aceite, a luz que uniu as duas enamoradas almas perdurará no tempo e, seja de que forma for, jamais cessará o seu brilho mais autêntico e singelo.



Pedro Belo Clara.




quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O Homem e suas obras



O Caminho existe para ser caminhado, embora seja aquilo que é por si só, sem a necessidade de ser ou não trilhado. Ao longo do mesmo, múltiplas experiências são-nos proporcionadas: encontros casuais ou deveras marcantes, limpezas de dores antigas, equilíbrio entre recalcados sentires, entre muitos outros exemplos. No fundo, toda uma panóplia de ocorrências se estende ao longo do mesmo. Assim, desde logo nos cabe uma de duas opções: a escolha de uma causa somente nossa, a bandeira que ergueremos durante a viagem, ou a entrega de nós mesmo ao fluxo vital que livremente corre, confiantes de que, no tempo certo, chegaremos a bom porto. Contudo, analisando na sua amplitude toda a questão, haverá ainda uma terceira opção que se sobressai, mas que não passa de um misto entre as duas anteriores. Tudo existe por si, tudo é válido por si. Tais escolhas apenas revelarão a nossa conduta, a nossa forma de entendermos e de encararmos o percurso vindouro. E tudo se justificará pela palavra de quem se assume e, por sua livre escolha, nitidamente se define.

Seja de forma for, nenhum Homem se revela desprendido o suficiente para não deixar vestígios de sua passagem por este lugar. De certa forma, isso acaba por ser o legado que cada um de nós aqui deixa, nas mãos dos futuros caminhantes ou nas bermas dos caminhos por desbravar. Essa será a nossa obra, expressamente construída ou inconscientemente moldada. Não estamos sós; conhecemos e somos conhecidos, vivemos e somos vividos – as nossas palavras e as nossas acções, mesmo que frugais, registam, por vezes, impactos muito para além do imaginado. Seja qual for o nosso papel no grande Ciclo da Vida. Pois não é necessário erguer catedrais para louvar coisas sacras, escrever livros para transmitir sabedoria, governar para uma visível marca deixar impressa num povo – na maior das simplicidades, reside o mais autêntico dos efeitos. Mesmo sabendo da efemeridade de todas as coisas.

Cada um de nós, aqui, com uma afinação mais certa ou desconcertada, possui uma bússola que o orientará ao longo de sua viagem. Por isso, apenas um Homem saberá dizer o que murmuram os intentos do seu coração. Que seja fiel à sua sapiência! Nada é passível de ser julgado, condenado ou argumentado por terceiros. A Verdade é de cada um; e cada um sabe, no mais íntimo de si, o que desejará concretizar. Que sejamos sempre, então, audazes o suficiente para querer escutar essa douta voz e para permitir que tal fogo nos inunde, comande nossos luminosos impulsos e se materialize, por fim, na mais digna das obras. De certa forma, temos, à partida, essa dívida para com os que ainda virão: a revelação de nossa visão, impressa em nossas obras. Serão sempre uma mão que se estende para receber os novos visitantes e uma boca que lhes sussurra tudo o que foi visto e sentido – apenas para eles possam aprender a ver e a sentir por si mesmos. Mas sabemos da efemeridade das coisas. Contudo, e se nelas impregnarmos o nosso mais íntimo perfume, as obras perdurarão muito para além das linhas do tempo! Principalmente, no coração de quem mais nos amou.

Ao entender a sua obra e ao realizá-la, pelo tempo que for necessário, cada Homem não só saberá dizer quem, na verdade, é, como também conseguirá indicar o seu lugar no grande Ciclo, enquanto a sua jornada por este mundo de experiências e aprendizagens não terminar. Todos possuímos um pedaço de fértil terra junto a nós, onde algo poderemos plantar. Essa, no fundo, será a nossa obra, o nosso legado, a folha onde impressa será a nossa visão. Alguém, um dia, recebê-la-á – seja nossa descendência ou não. E quem poderá saber que luzes, então, despertarão naquele olhar? Todo o processo subjacente é árduo, claro, mas que jamais nos falte a força para o cumprir ou a coragem para replantar o que destruído for pelas secas e pelos dilúvios! Eis a crua verdade: somos Humanos. Nossas obras poderão não ser perfeitas, mas poderão atingir profundidade. Nenhum de nós, irmãos de viagem, sabe se ainda virão tempestades insanas ou secas avassaladoras para nos assombrarem; de facto, é bem provável que o seu tempo acabe por chegar. Sabemos isso, mesmo que o temamos. Mas somente a persistência nos guiará à devida recompensa. E, em cada etapa, pelo sol e pela chuva pautadas, percorreremos o nosso trilho evolutivo.

Cuidemos de nossos pomares, nobres irmãos. Eles são da nossa única e exclusiva responsabilidade. Cuidemos de cada árvore com amor lá plantada, regando-as, podando-as, livrando-as da mais oculta das ameaças. Se perecerem, outras serão plantadas com a mesma paixão! Mesmo que o coração se quebre… Mas até ele conhecerá o dia do seu amanhecer. Actuemos até onde os nossos braços chegam, cumprindo cada tarefa que escolhemos e sabemos cumprir. O resto já não dependerá de nós. E será no silêncio da entrega que a luz maior brilhará, como resultado esperado, como colheita abundante e por demais justificada.



Pedro Belo Clara.







quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Marcas passadas, desafios futuros


Somos essência perene, sejamos ou não somente existência quando desta experiência desfrutamos; somos luz que se expande e contrai, se desenvolve e transmuta em algo de novo, embora jamais abandone os seus básicos princípios – isto é, sem jamais deixar de ser aquilo que é. Aqui nos encontramos, hoje, como o produto de tantas vivências; e, com um maior ou menor número de marcas, aqui permanecemos, brava e dignamente, a cumprir aquilo a que nos propusemos, ainda que isso possa ser o mais oculto segredo da existência. Somos o resultado de múltiplos viveres, sim – a sabedoria, outrora intuída, cresceu em nós através de incontáveis experiências. Contudo, ao longo dessa viagem de experimentação, onde crescemos, aprendemos, contraímos dívidas, saldámos dívidas, sorrimos, chorámos, amámos e fomos amados, certos aspectos cravam a sua marca em nós, de tão vívidos ou dolorosos que foram. São pedras, no fundo, cujo peso nos incomoda e que, como tal, exige ser libertado. Daí advêm nossos medos e inseguranças, por exemplo. Nem todos são o resultado de passadas experiências, é certo, mas muitos têm a sua génese em tempos já esquecidos. No entanto, a sua marca permanece em nós, como ferida calcinada, a impedir a nossa libertação. É claro que a transcendência é a suprema forma de libertação, uma vez que comporta superação, aquela que certos viajantes, em momentos de pura iluminação, atingem e, como exemplo, deixam aos restantes o seu testemunho – ainda que a via pessoal seja díspar da colectiva e, dentro disto, infinitos rumos de esboçam na individualidade de cada um.

De facto, marcas passadas representam desafios futuros, etapas a serem finalmente vencidas, em nome da nossa própria evolução. Contudo, tal desafio, com outros tantos, não se apresenta fácil. Aliás, nunca é fácil lidar com a dor remanescente, provenha ela de relacionamentos falhados, perdas emocionais ou de sentidas quedas. Porém, a libertação impõem-se. O primeiro passo, esse, consiste na consciencialização de que algo está errado, de que algo nos encarcera, nos impede de continuar de forma solta e sadia. Depois, surge a tomada de decisão. É necessário querer a libertação, deixar viver, largar o velho para que o novo surja e tome o seu devido lugar; é necessário entender que velhos padrões são desprovidos de valor e que, assim sendo, jamais se repetirão. Aqui, será já possível compreender que todo este processo é claramente terapêutico, uma autêntica cura de Alma. E todos nós, queridos companheiros, como tão bem sabemos, possuímos nossas feridas. 

Felizmente, todo o viajante dispõe de informação útil e passível de concretizar um efeito auxiliador. Mas, em primeira instância, é importante entender que relembrar é sarar. Aí, como consequência desse exercício, seremos confrontados com a ideia de que tudo é eterno – somente as máscaras e os papéis se alteram. Nada possuímos, na verdade… Somente a ilusão de que, em um dia, fomos donos de algo ou de alguém. Mas nada perdemos… nada! Somos partes de um todo. Quem busca, encontrará, a seu tempo, o motivo de tanta procura – assim será com quem desejar a sua libertação. Dispomos, em torno de nós, de tudo o quanto necessitamos. Então, transmutado esse estado e ultrapassada essa dura pedra, abandonaremos uma existência puramente circular, sem saída ou desenvoltura possível, tal o peso que nos aprisionava. Por fim, estaremos aptos a alcançar o próximo estágio de nossa evolução e experimentação, até que esse excelso mar, de onde proviemos, nos volte a receber, sorridente, em seu reconfortante âmago. E toda a viagem terá terminado, apenas para que uma nova se inicie.


Pedro Belo Clara.



quarta-feira, 11 de julho de 2012

A arte de celebrar


Certo dia, reuni alguns companheiros em torno de uma mesa. O propósito? Estar; simplesmente, estar… E ser – enquanto que, em simultâneo, nos trespassava uma cândida plenitude, trazendo à lembrança o assumir de outros estados. Assim, ali estávamos, mas não estando; éramos e não éramos, ao mesmo tempo. Contudo, algo mais nos unia, além das óbvias correntes de fraterno companheirismo. Ainda que o Tempo seja, em si, uma ilusão, uma correia pronta a nos aprisionar e manipular, a própria Vida, ou o Mundo em si, apresenta a sua particular medida, isto é, o seu natural suceder de estações, épocas ou etapas – as quais em muito diferem do tempo que amiúde consultamos como indubitável oráculo, e pelo qual, ciosamente, nos regemos.

Acontece, por isso, que, naquele dia, completava-se um ano (de acordo com as ilusões desse tempo pré-estipulado), que um certo sucedido - e suas habituais circunstâncias e elementos componentes - havia cessado. No fundo, tratava-se de um ciclo que a todos nós dizia respeito, com maior ou menor grau de incidência, um ciclo que conhecia agora o seu esperado término (seguindo os parâmetros de um tempo real, ou seja, do natural suceder de todas as coisas). Então, propus que pegássemos em simples copos e que brindássemos, em sereno festejo, ao completar de tal etapa (onde a promessa de muitas outras logo se fez anunciar).

E assim o fizemos, no devido tempo, tranquilamente celebrando a Vida como dádiva que é, como uma valorosa oportunidade de experiência, de partilha e de aprendizagem. É deveras singular sentir a emoção pura que nos invade, quando os sorrisos sinceros se elevam e os corações se abrem em plena felicidade. Bem sabemos da efemeridade dos componentes deste plano… daí apenas eclode a oportunidade de os celebrarmos enquanto existem como coisas ou sentires que são! Que real valor se subtraía do contínuo atrair do peso das inúteis imposições, da seriedade sem sentido, da taciturnidade adquirida, das responsabilidades que se assumem sem, no fundo, as desejarmos ou, pelo menos, nelas encontrarmos um válido propósito? Tudo possui a sua vez, e a Vida é balanceada por um frágil equilíbrio que a si mesmo se sustém - daí a díspar natureza das ocorrências que atravessam os nossos dias.  

Haverá, eventualmente, quem considere tal acto uma perfeita irresponsabilidade, tendo em conta a sobriedade extrema de suas existências… Afinal, seus mundos estão limitados, cofiados às visíveis fronteiras que delimitam aquilo que sempre conheceram. Se tudo sempre foi assim, como poderá ser diferente? Deverá até ser diferente? Evoquemos, então, o Supremo Equilíbrio: não há sol sem chuva, tampouco repouso sem labor. Tudo coabita em plena harmonia. O segredo de todas estas práticas, da mais pensada à mais espontânea, reside no “caminho do meio”, nunca em seus parentes extremistas. Se procuramos a frugal via do equilíbrio, não tomemos o trilho da direita nem o da esquerda, mas sim aquele que, no meio de ambos, se desenha, mesmo que sua entrada se cubra de implacáveis pedras e de ferozes espinhos.

Celebremos, por isso, o dia! Recebamo-lo como a bênção divina que ele é!  Seja a dançar, cantar, orar ou simplesmente a caminhar - celebremo-lo! Ofertemos um sentido abraço a nosso vizinho, enchamos de beijos nossos familiares, comunguemos com o que nos rodeia, laboremos em pleno prazer, colhamos ou semeemos… Não importa; celebremos! E desfrutemos das múltiplas vias para tal, pois em nós está a possibilidade de as escolhermos de acordo com a nossa peculiar natureza. A Vida é o “agora”, como em inúmeras ocasiões falámos; vivamos o “agora”! Entendamos o precioso milagre que ele é! Um Presente a partir do qual se moldará nosso Futuro, é certo; mas, se o vivenciarmos, não mais isso nos importará. Pois estaremos a ser embalados pelos braços da Eternidade, o redentor “vazio” ao qual nos entregámos. Tudo é precioso por si e digno de ser conhecido, contemplado e vivenciado. De que serve nos ocuparmos com as futilidades que, diariamente, rotineiramente, nos são lançadas pelo social mundo? Nossa material existência é um sopro na história universal, e há tanto ainda por descobrir para além da ténue “realidade”… Afinal, estamos só de passagem; aqui, neste lugar, de passagem… rumo a algo imensamente superior.     


Pedro Belo Clara.




segunda-feira, 25 de junho de 2012

Sobre o Amor


Pelo percorrer de todos os rumos, se para tal experiência estivermos disponíveis, verificaremos a presença de um sentir que é como um brando vento, uma corrente de ar que nos bafeja e guia, nos transforma e nos faz crescer. Ainda que, ao sermos viajantes de tantas causas, resultados de tantas histórias e vivências, possamos senti-lo e descobri-lo à luz de nossa particular percepção, esse sentir é, para muitos, a razão de tudo o que existe, visível e invisível; é a origem de cada coisa, o motivo que faz girar os moinhos que se espalham pela deslumbrante paisagem de nossas existências; um sentir que, na sua máxima expressão, é progenitor dos demais, pois todos nascem de suas centelhas e a todos ele abrange, albergando-os em suas indistintas asas. A que refiro, então? Ao Amor. Mas o que possui ele assim de tão singular? Que coroa o distingue? Porque é que, apesar de frágil, é tantas vezes forte e arrebatador?

De facto, o Caminho, como imenso palco que é, oferece-nos variadas oportunidades de vivência, comportando o granjear de experiência – traduzida posteriormente em sabedoria – e o crescimento / desenvolvimento daquilo que, em essência real, somos. Assim, as relações humanas (e não só) são simplesmente um renovado aroma que perfuma nossas existências. E, na sua base, em diversas e díspares formas e dimensões, encontra-se o Amor. Ele é frágil, sim, dócil e singelo, mas essa é a sua principal força, a valência que o torna no «mais firme dos esteiros». Ele é a causa da redenção nos que se julgam perdidos, da absolvição nos que se pensam culpados, do sossego nos inquietos, da esperança nos desesperançados, da aceitação nos proscritos… Mas só e apenas se a tal luz os indivíduos se abrirem. Afinal, o sol sempre brilha fora de nossas habitações, banhando suas paredes e seu telhado – compete-nos o descerrar de cortinas e o escancarar das amplas janelas, para ele nelas possa entrar.

Contudo, ao ser tão maioral e particular, o Amor nem sempre é por nós bem entendido, manejado, ofertado ou recebido. Em real consideração, experimentá-lo não significa compreendê-lo, embora seja um dos passos que nos conduzem a tal realização – tal arte advém de nossa sabedoria, consolidada em consciência. Muitos são aqueles que, de entre nós, em seus particulares rumos, vêem no Amor as linhas que compõem o apego. Como tal, atraem inevitavelmente o sofrimento. De tão forte, puro e verdadeiro que é, olvidamos o facto de que cada indivíduo possui a sua liberdade, e que essa deverá ser, invariavelmente, respeitada. No fundo, no meio de um turbilhão de dor ou de prazer, revelamo-nos egoístas. É, aliás, fácil tropeçarmos nesta armadilha – mas, convém não olvidar, os erros são o maiores provocadores do nosso desenvolvimento. Tal comportamento é, por isso, banal e difícil de quebrar ou, até, de evitar (antes aceitá-lo, compreendê-lo e transmutá-lo). No entanto, sempre poderemos tentar. Cada dia comporta a sua aprendizagem, pelo que jamais poderá ser tardio o esboçar do primeiro passo.

O verdadeiro Amor, assim, quando incondicional, livre de restrições, julgamentos, imposições ou encarceramentos, comporta a liberdade – e essa é a sua maior virtude, diminuta acha de perene Luz. Se tal aspecto for, por fim, compreensível ao nosso entendimento, saberemos (como certas coisas sabem aqueles que veramente crêem) que nenhuma ligação será jamais quebrada, existindo, com o afastamento (breve, por sinal), a promessa de um reencontro. Múltiplos sentires poderão, posteriormente, nos assomar, sendo a saudade a líder dessa implacável manada, mas nós, viajantes, possuímos o Tempo – o curador de todas as injúrias e feridas. Sem olvidarmos o Amor, é claro, sempre abrangente, transmutador e apaziguante. Afinal, nada é, efectivamente, efémero em essência, pois ela, a valência das valências, é veramente eterna por sua etérea condição.


Pedro Belo Clara.   




sábado, 9 de junho de 2012

Estados de experimentação



Ao longo dos nossos dias, que a seu tempo se consolidarão em semanas, meses e anos – na ilusão de uma percepção pré-definida e precocemente implantada –, desfrutamos da oportunidade de experiênciar diversos estados de ser e de estar. No fundo, nossas existências resumem-se a isso mesmo: a experiências (ou hipóteses de experiência). E elas são, por categoria, imensamente variadas. Ora criadas por nós próprios (se decidirmos definir nossos rumos), ora pelo Caminho (se a ele nos entregarmos e nele depositarmos nossa crença e fé), elas permitem-nos percorrer a multiplicidade do Ser, testando-nos, impulsionando o nosso indagar ou proporcionando, simplesmente, o clarificar ou o consubstanciar de uma ideia, atitude ou, em escala alargada, carácter. E, no seio de tudo isso, apesar de lhes ser comum o carácter peculiar (que obviamente as diferencia), há algumas que oferecem ao seu experimentador uma maior hipótese de crescimento. Aliás, não sentimos já, nos nossos particulares mundos, a sensação de que algo nos enviava uma espécie de ultimato? Um derradeiro aviso que não mais se repetiria? E tudo isso porque se impunha o nosso despertar, o abanar de alicerces, a devastação de nossas culturas – apenas para que de novo as pudéssemos plantar. O Infinito fala connosco através de nossos corações, embora possuamos a escolha de os não escutar (o que, como sempre se verifica, conduz a uma determinada consequência).

O Mundo é fruto de uma Una e Suprema Consciência que por si só existe e prolifera, a Roda da Vida que faz girar o fluxo do Rio que flui por nossos dias, que a si própria se arruma e molda, num inquebrável (porém, flexível) equilíbrio que sempre se encontra e mantém – sem que a nossa influência cause impacto. Experiênciamos, sim, mas todos nós, viajantes, sentimos essa calado desejo de retornar a casa – a fonte de onde proviemos. Esse desejo, traduzido em busca, apenas revela um certo grau de despertar, de percepção conscienciosa. Afinal, sabemos onde nos encontramos e tornamo-nos cientes do que existe e do que em torno de nós se desenrola. Contudo, tivemos de caminhar para alcançar esse estado, ou melhor, para que ele pudesse entrar em nós. E tal iluminado acontecimento eclode de nossas experiências, sejam elas escolhias ou “sabiamente atribuídas”. Assim, julgamos aprender, quando no fundo apenas… relembramos.

A Vida é, por si só, composta por ciclos, fazendo ela própria, inclusivamente, parte de uma ciclo maior. Entender isto é saber que tudo se sucede, nasce e se renova. No entanto, entre o Sol e a Chuva, somando toda a sua singularidade e expressa necessidade, existem certos estados que entendemos por maldosos ou passíveis de repressão, rejeição e substanciais vitupérios. De entre eles, a enfermidade. Apesar de sempre nos focarmos uma só objectiva, mirando e recebendo o lado negro de uma esfera bicolor, esse estado, mais do que qualquer outro, oferece-nos uma hipótese de ficarmos mais perto de algo superior. E isto porque nossa consciência altera-se significativamente, tornando-se, como tal, mais receptiva e susceptível – algo que, em momentos de grande vitalidade, não acontece. Existirão outros caminhos e alternativas vias para algo se implementar, é claro, mas – e nem sempre em última análise – este estado assoma-nos. Há um brilhante fundo de verdade no psicossomatismo: nosso corpo envia-nos sinais e reflecte o estado de nossa mente e Alma. Se algo assim nos conquista, então impõe-se uma revisão de actos ou de estilo de vivência. Além disso, do reconhecimento e aceitação de nossas humanas fragilidades irrompe a Humildade; o que, por consequência cultiva o “ser”, não o “ter” – um resultado do nosso exacerbado ego.

Imergimos, em suma, numa densa escuridão, que dar-nos-á, a seu tempo, a origem de uma luz deveras cintilante. Obviamente que, por sanidade, todos desejamos rejeitar a dor, mas… por vezes o crescimento advém de nossas próprias feridas. Constatar tal via é, tal como há pouco vos falei, entender e aceitar os ciclos deste Mundo e sua dualidade: não existe direita sem esquerda, vida sem morte, preto sem branco, Outono sem Primavera. Mas, por fim, acabaremos por compreender que, ao abraçá-las, superá-las-emos, vibrando em níveis elevados e sendo livres, verdadeiramente livres, amparando na palma de nossa aberta mão uma fina centelha, dócil estrela, a ínclita filha da Eternidade.




Pedro Belo Clara.