quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O RENASCIMENTO


Já em anteriores publicações abordámos o aspecto cíclico da Vida em si e como este se aplica ao Caminho e a nós, caminhantes. No fundo, todo esse desenrolar é um processo evolutivo: o que perece, renascerá. Esse será, talvez, o aspecto mais básico de toda a existência, a sua mais primordial natureza. Aceitar tal evidência é fluir pelo rio da Vida, entender que sem Inverno nunca haverá um Verão; e aceitar significará transcender, pairar sobre todas as ocorrências e questões como atenta testemunha, caminhar rumo a outros estágios de consciência, em vez de permanecermos grudados a uma dor ou desilusão. Na verdade, somente quem se ilude, previamente, é que se dirá desiludo, de forma posterior. E aquele se ilude é aquele que constrói uma expectativa. Este assunto remete-nos, assim, para um outro: a opção de nada desejar ou esperar; ou, por outras palavras, uma entrega total ao provir. Somos os capitães das nossas embarcações, possuímos leme e bússola; mas, ainda assim, podemos confiar no vento que nos bafeja. Não controlamos o seu sopro, é um facto, e ele sempre se revela presente, com maior ou menor intensidade. Assim, porque não confiar que tal impulso nos levará até bom porto? Mas sempre detemos a opção de pegar no leme e tomar um rumo diferente. Uma vez mais nos deparamos com as diferentes formas de encarar e abraçar a humana existência e sua condição. Em suma, tudo se resume à adopção de diferentes posturas perante algo. E cada um de nós, os caminhantes deste caminho de sol e de lua, acabará por adoptar aquela que mais lhe servir, harmonizando corpo e espírito. Ser a brisa que corre ou a folha que se dobra ao seu passar? Eis a questão que inicia o procedimento de busca e apreendimento.

Contudo, não caiamos em erro: apesar do que foi já dito em espírito de partilha, a dor não é alheia a estes processos. É claro que, por nossa postura, conhecimentos e crenças, poderemos utilizar meios que melhor nos ajudarão a lidar com a presença desse incómodo espinho. No entanto, não a evitaremos. Aliás, querer evitar o sofrimento é querer evitar a própria Vida e todas as múltiplas experiências que ela nos proporciona. Pois este é, a par de muitos outros, seus semelhantes, uma mera consequência das suas peculiares ocorrências. Querer evitar o sofrimento é querer impedir o tombar da chuva ou a chegada de um gélido Inverno. Mas se entendermos que é somente graças à sua presença que os dias de sol chegarão, estaremos a abraçar a Vida em toda a sua plenitude e amplitude. Estaremos a compreender as linhas com que se tece o Caminho de todos nós e a corajosamente aceitar os seus desafios. E, como antes referi, aceitar é transcender.

Na verdade, por mais longa que seja a noite, um novo dia acabará sempre por irromper com todo o seu esplendor. Mesmo que não seja no exacto momento que prevíamos ou desejávamos. Poderemos definir rumos em nossas existências, materializando o fogo que vibra em nossos corações, mas no seio da nossa humildade aceitaremos que certas envolvências não dependem de nossas acções nem estão sob o nosso apertado controlo. Inclusivamente, a nossa liberdade, tanto quanto aqui é possível experiênciar, depende muito de tais questões. Além disso, a fé, nem que esteja apenas assente numa simples premissa, é o amuleto do Homem, a sua bengala, o seu impulso de empreendimento.
No devido tempo, renasceremos. E tomaremos para a nossa essência todo o crescimento e a aprendizagem retida em tal passagem. Não mais seremos os mesmos; antes pequenas luzes cintilando como nunca! Se perscrutarmos as redondezas e atentarmos no funcionamento das mais simples coisas, poderemos tomar o exemplo das árvores de folha caduca: nunca as suas folhar são tão verdes, de uma vibrante e vívida cor, quando são jovens e tenras. Apenas assim se destacam das demais. Depois, é claro, adquirirão tonalidades mais escuras no pleno de sua maturação, equiparando-se às restantes. Mas a maior diferenciação, aquela que de longe mais se faz notar, ocorre na fase do seu maior brilho, intenso e peculiar. Este, não ocorre na fase madura, mas nos instantes que se seguem ao seu renascimento. É aí que elas brilham como nunca mais irão brilhar. Certamente que é árduo abdicar de certas coisas, romper com o antigo ou enterrar sonhos promissores; mas, se não mais nos servem, o seu abandono revela-se crucial à individual evolução. Somente quando o cálice se esvazia, é que poderá ser de novo preenchido.

É nesse tempo turbulento, de dúvidas e agitações, que a mais cintilante das luzes nos habita, como que se fosse uma recompensa pela complexa travessia realizada; uma luz que jamais nos abandonará e que somente ganhará forças quando outras, novas, a ela se juntarem. Assim é toda a existência, assim é o rumo da evolução. Por mais íntimo que seja, certas aspectos são comuns a muitos de nós. Afinal, percorremos as veredas de um só Caminho e, ao contrário do que podemos muitas vezes julgar, não estamos sós. Por isso, quando menos esperarmos, o desejado momento surgirá com a naturalidade de um processo de cultivo – plantação da semente e, na devida estação, colheita do fruto. A paciência é deveras uma virtude, e um proveitoso escudo durante o desenrolar de tais ocorrências. Mas, muito mais que isso, é um sinal de sabedoria. Sendo ela a nossa bandeira, perseveremos – e viveremos para assistir ao nascer desse glorioso e secretamente ansiado dia de concretização.


Pedro Belo Clara.








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