quarta-feira, 11 de julho de 2012

A arte de celebrar


Certo dia, reuni alguns companheiros em torno de uma mesa. O propósito? Estar; simplesmente, estar… E ser – enquanto que, em simultâneo, nos trespassava uma cândida plenitude, trazendo à lembrança o assumir de outros estados. Assim, ali estávamos, mas não estando; éramos e não éramos, ao mesmo tempo. Contudo, algo mais nos unia, além das óbvias correntes de fraterno companheirismo. Ainda que o Tempo seja, em si, uma ilusão, uma correia pronta a nos aprisionar e manipular, a própria Vida, ou o Mundo em si, apresenta a sua particular medida, isto é, o seu natural suceder de estações, épocas ou etapas – as quais em muito diferem do tempo que amiúde consultamos como indubitável oráculo, e pelo qual, ciosamente, nos regemos.

Acontece, por isso, que, naquele dia, completava-se um ano (de acordo com as ilusões desse tempo pré-estipulado), que um certo sucedido - e suas habituais circunstâncias e elementos componentes - havia cessado. No fundo, tratava-se de um ciclo que a todos nós dizia respeito, com maior ou menor grau de incidência, um ciclo que conhecia agora o seu esperado término (seguindo os parâmetros de um tempo real, ou seja, do natural suceder de todas as coisas). Então, propus que pegássemos em simples copos e que brindássemos, em sereno festejo, ao completar de tal etapa (onde a promessa de muitas outras logo se fez anunciar).

E assim o fizemos, no devido tempo, tranquilamente celebrando a Vida como dádiva que é, como uma valorosa oportunidade de experiência, de partilha e de aprendizagem. É deveras singular sentir a emoção pura que nos invade, quando os sorrisos sinceros se elevam e os corações se abrem em plena felicidade. Bem sabemos da efemeridade dos componentes deste plano… daí apenas eclode a oportunidade de os celebrarmos enquanto existem como coisas ou sentires que são! Que real valor se subtraía do contínuo atrair do peso das inúteis imposições, da seriedade sem sentido, da taciturnidade adquirida, das responsabilidades que se assumem sem, no fundo, as desejarmos ou, pelo menos, nelas encontrarmos um válido propósito? Tudo possui a sua vez, e a Vida é balanceada por um frágil equilíbrio que a si mesmo se sustém - daí a díspar natureza das ocorrências que atravessam os nossos dias.  

Haverá, eventualmente, quem considere tal acto uma perfeita irresponsabilidade, tendo em conta a sobriedade extrema de suas existências… Afinal, seus mundos estão limitados, cofiados às visíveis fronteiras que delimitam aquilo que sempre conheceram. Se tudo sempre foi assim, como poderá ser diferente? Deverá até ser diferente? Evoquemos, então, o Supremo Equilíbrio: não há sol sem chuva, tampouco repouso sem labor. Tudo coabita em plena harmonia. O segredo de todas estas práticas, da mais pensada à mais espontânea, reside no “caminho do meio”, nunca em seus parentes extremistas. Se procuramos a frugal via do equilíbrio, não tomemos o trilho da direita nem o da esquerda, mas sim aquele que, no meio de ambos, se desenha, mesmo que sua entrada se cubra de implacáveis pedras e de ferozes espinhos.

Celebremos, por isso, o dia! Recebamo-lo como a bênção divina que ele é!  Seja a dançar, cantar, orar ou simplesmente a caminhar - celebremo-lo! Ofertemos um sentido abraço a nosso vizinho, enchamos de beijos nossos familiares, comunguemos com o que nos rodeia, laboremos em pleno prazer, colhamos ou semeemos… Não importa; celebremos! E desfrutemos das múltiplas vias para tal, pois em nós está a possibilidade de as escolhermos de acordo com a nossa peculiar natureza. A Vida é o “agora”, como em inúmeras ocasiões falámos; vivamos o “agora”! Entendamos o precioso milagre que ele é! Um Presente a partir do qual se moldará nosso Futuro, é certo; mas, se o vivenciarmos, não mais isso nos importará. Pois estaremos a ser embalados pelos braços da Eternidade, o redentor “vazio” ao qual nos entregámos. Tudo é precioso por si e digno de ser conhecido, contemplado e vivenciado. De que serve nos ocuparmos com as futilidades que, diariamente, rotineiramente, nos são lançadas pelo social mundo? Nossa material existência é um sopro na história universal, e há tanto ainda por descobrir para além da ténue “realidade”… Afinal, estamos só de passagem; aqui, neste lugar, de passagem… rumo a algo imensamente superior.     


Pedro Belo Clara.




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