quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O Homem e suas obras



O Caminho existe para ser caminhado, embora seja aquilo que é por si só, sem a necessidade de ser ou não trilhado. Ao longo do mesmo, múltiplas experiências são-nos proporcionadas: encontros casuais ou deveras marcantes, limpezas de dores antigas, equilíbrio entre recalcados sentires, entre muitos outros exemplos. No fundo, toda uma panóplia de ocorrências se estende ao longo do mesmo. Assim, desde logo nos cabe uma de duas opções: a escolha de uma causa somente nossa, a bandeira que ergueremos durante a viagem, ou a entrega de nós mesmo ao fluxo vital que livremente corre, confiantes de que, no tempo certo, chegaremos a bom porto. Contudo, analisando na sua amplitude toda a questão, haverá ainda uma terceira opção que se sobressai, mas que não passa de um misto entre as duas anteriores. Tudo existe por si, tudo é válido por si. Tais escolhas apenas revelarão a nossa conduta, a nossa forma de entendermos e de encararmos o percurso vindouro. E tudo se justificará pela palavra de quem se assume e, por sua livre escolha, nitidamente se define.

Seja de forma for, nenhum Homem se revela desprendido o suficiente para não deixar vestígios de sua passagem por este lugar. De certa forma, isso acaba por ser o legado que cada um de nós aqui deixa, nas mãos dos futuros caminhantes ou nas bermas dos caminhos por desbravar. Essa será a nossa obra, expressamente construída ou inconscientemente moldada. Não estamos sós; conhecemos e somos conhecidos, vivemos e somos vividos – as nossas palavras e as nossas acções, mesmo que frugais, registam, por vezes, impactos muito para além do imaginado. Seja qual for o nosso papel no grande Ciclo da Vida. Pois não é necessário erguer catedrais para louvar coisas sacras, escrever livros para transmitir sabedoria, governar para uma visível marca deixar impressa num povo – na maior das simplicidades, reside o mais autêntico dos efeitos. Mesmo sabendo da efemeridade de todas as coisas.

Cada um de nós, aqui, com uma afinação mais certa ou desconcertada, possui uma bússola que o orientará ao longo de sua viagem. Por isso, apenas um Homem saberá dizer o que murmuram os intentos do seu coração. Que seja fiel à sua sapiência! Nada é passível de ser julgado, condenado ou argumentado por terceiros. A Verdade é de cada um; e cada um sabe, no mais íntimo de si, o que desejará concretizar. Que sejamos sempre, então, audazes o suficiente para querer escutar essa douta voz e para permitir que tal fogo nos inunde, comande nossos luminosos impulsos e se materialize, por fim, na mais digna das obras. De certa forma, temos, à partida, essa dívida para com os que ainda virão: a revelação de nossa visão, impressa em nossas obras. Serão sempre uma mão que se estende para receber os novos visitantes e uma boca que lhes sussurra tudo o que foi visto e sentido – apenas para eles possam aprender a ver e a sentir por si mesmos. Mas sabemos da efemeridade das coisas. Contudo, e se nelas impregnarmos o nosso mais íntimo perfume, as obras perdurarão muito para além das linhas do tempo! Principalmente, no coração de quem mais nos amou.

Ao entender a sua obra e ao realizá-la, pelo tempo que for necessário, cada Homem não só saberá dizer quem, na verdade, é, como também conseguirá indicar o seu lugar no grande Ciclo, enquanto a sua jornada por este mundo de experiências e aprendizagens não terminar. Todos possuímos um pedaço de fértil terra junto a nós, onde algo poderemos plantar. Essa, no fundo, será a nossa obra, o nosso legado, a folha onde impressa será a nossa visão. Alguém, um dia, recebê-la-á – seja nossa descendência ou não. E quem poderá saber que luzes, então, despertarão naquele olhar? Todo o processo subjacente é árduo, claro, mas que jamais nos falte a força para o cumprir ou a coragem para replantar o que destruído for pelas secas e pelos dilúvios! Eis a crua verdade: somos Humanos. Nossas obras poderão não ser perfeitas, mas poderão atingir profundidade. Nenhum de nós, irmãos de viagem, sabe se ainda virão tempestades insanas ou secas avassaladoras para nos assombrarem; de facto, é bem provável que o seu tempo acabe por chegar. Sabemos isso, mesmo que o temamos. Mas somente a persistência nos guiará à devida recompensa. E, em cada etapa, pelo sol e pela chuva pautadas, percorreremos o nosso trilho evolutivo.

Cuidemos de nossos pomares, nobres irmãos. Eles são da nossa única e exclusiva responsabilidade. Cuidemos de cada árvore com amor lá plantada, regando-as, podando-as, livrando-as da mais oculta das ameaças. Se perecerem, outras serão plantadas com a mesma paixão! Mesmo que o coração se quebre… Mas até ele conhecerá o dia do seu amanhecer. Actuemos até onde os nossos braços chegam, cumprindo cada tarefa que escolhemos e sabemos cumprir. O resto já não dependerá de nós. E será no silêncio da entrega que a luz maior brilhará, como resultado esperado, como colheita abundante e por demais justificada.



Pedro Belo Clara.







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