quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Marcas passadas, desafios futuros


Somos essência perene, sejamos ou não somente existência quando desta experiência desfrutamos; somos luz que se expande e contrai, se desenvolve e transmuta em algo de novo, embora jamais abandone os seus básicos princípios – isto é, sem jamais deixar de ser aquilo que é. Aqui nos encontramos, hoje, como o produto de tantas vivências; e, com um maior ou menor número de marcas, aqui permanecemos, brava e dignamente, a cumprir aquilo a que nos propusemos, ainda que isso possa ser o mais oculto segredo da existência. Somos o resultado de múltiplos viveres, sim – a sabedoria, outrora intuída, cresceu em nós através de incontáveis experiências. Contudo, ao longo dessa viagem de experimentação, onde crescemos, aprendemos, contraímos dívidas, saldámos dívidas, sorrimos, chorámos, amámos e fomos amados, certos aspectos cravam a sua marca em nós, de tão vívidos ou dolorosos que foram. São pedras, no fundo, cujo peso nos incomoda e que, como tal, exige ser libertado. Daí advêm nossos medos e inseguranças, por exemplo. Nem todos são o resultado de passadas experiências, é certo, mas muitos têm a sua génese em tempos já esquecidos. No entanto, a sua marca permanece em nós, como ferida calcinada, a impedir a nossa libertação. É claro que a transcendência é a suprema forma de libertação, uma vez que comporta superação, aquela que certos viajantes, em momentos de pura iluminação, atingem e, como exemplo, deixam aos restantes o seu testemunho – ainda que a via pessoal seja díspar da colectiva e, dentro disto, infinitos rumos de esboçam na individualidade de cada um.

De facto, marcas passadas representam desafios futuros, etapas a serem finalmente vencidas, em nome da nossa própria evolução. Contudo, tal desafio, com outros tantos, não se apresenta fácil. Aliás, nunca é fácil lidar com a dor remanescente, provenha ela de relacionamentos falhados, perdas emocionais ou de sentidas quedas. Porém, a libertação impõem-se. O primeiro passo, esse, consiste na consciencialização de que algo está errado, de que algo nos encarcera, nos impede de continuar de forma solta e sadia. Depois, surge a tomada de decisão. É necessário querer a libertação, deixar viver, largar o velho para que o novo surja e tome o seu devido lugar; é necessário entender que velhos padrões são desprovidos de valor e que, assim sendo, jamais se repetirão. Aqui, será já possível compreender que todo este processo é claramente terapêutico, uma autêntica cura de Alma. E todos nós, queridos companheiros, como tão bem sabemos, possuímos nossas feridas. 

Felizmente, todo o viajante dispõe de informação útil e passível de concretizar um efeito auxiliador. Mas, em primeira instância, é importante entender que relembrar é sarar. Aí, como consequência desse exercício, seremos confrontados com a ideia de que tudo é eterno – somente as máscaras e os papéis se alteram. Nada possuímos, na verdade… Somente a ilusão de que, em um dia, fomos donos de algo ou de alguém. Mas nada perdemos… nada! Somos partes de um todo. Quem busca, encontrará, a seu tempo, o motivo de tanta procura – assim será com quem desejar a sua libertação. Dispomos, em torno de nós, de tudo o quanto necessitamos. Então, transmutado esse estado e ultrapassada essa dura pedra, abandonaremos uma existência puramente circular, sem saída ou desenvoltura possível, tal o peso que nos aprisionava. Por fim, estaremos aptos a alcançar o próximo estágio de nossa evolução e experimentação, até que esse excelso mar, de onde proviemos, nos volte a receber, sorridente, em seu reconfortante âmago. E toda a viagem terá terminado, apenas para que uma nova se inicie.


Pedro Belo Clara.



quarta-feira, 11 de julho de 2012

A arte de celebrar


Certo dia, reuni alguns companheiros em torno de uma mesa. O propósito? Estar; simplesmente, estar… E ser – enquanto que, em simultâneo, nos trespassava uma cândida plenitude, trazendo à lembrança o assumir de outros estados. Assim, ali estávamos, mas não estando; éramos e não éramos, ao mesmo tempo. Contudo, algo mais nos unia, além das óbvias correntes de fraterno companheirismo. Ainda que o Tempo seja, em si, uma ilusão, uma correia pronta a nos aprisionar e manipular, a própria Vida, ou o Mundo em si, apresenta a sua particular medida, isto é, o seu natural suceder de estações, épocas ou etapas – as quais em muito diferem do tempo que amiúde consultamos como indubitável oráculo, e pelo qual, ciosamente, nos regemos.

Acontece, por isso, que, naquele dia, completava-se um ano (de acordo com as ilusões desse tempo pré-estipulado), que um certo sucedido - e suas habituais circunstâncias e elementos componentes - havia cessado. No fundo, tratava-se de um ciclo que a todos nós dizia respeito, com maior ou menor grau de incidência, um ciclo que conhecia agora o seu esperado término (seguindo os parâmetros de um tempo real, ou seja, do natural suceder de todas as coisas). Então, propus que pegássemos em simples copos e que brindássemos, em sereno festejo, ao completar de tal etapa (onde a promessa de muitas outras logo se fez anunciar).

E assim o fizemos, no devido tempo, tranquilamente celebrando a Vida como dádiva que é, como uma valorosa oportunidade de experiência, de partilha e de aprendizagem. É deveras singular sentir a emoção pura que nos invade, quando os sorrisos sinceros se elevam e os corações se abrem em plena felicidade. Bem sabemos da efemeridade dos componentes deste plano… daí apenas eclode a oportunidade de os celebrarmos enquanto existem como coisas ou sentires que são! Que real valor se subtraía do contínuo atrair do peso das inúteis imposições, da seriedade sem sentido, da taciturnidade adquirida, das responsabilidades que se assumem sem, no fundo, as desejarmos ou, pelo menos, nelas encontrarmos um válido propósito? Tudo possui a sua vez, e a Vida é balanceada por um frágil equilíbrio que a si mesmo se sustém - daí a díspar natureza das ocorrências que atravessam os nossos dias.  

Haverá, eventualmente, quem considere tal acto uma perfeita irresponsabilidade, tendo em conta a sobriedade extrema de suas existências… Afinal, seus mundos estão limitados, cofiados às visíveis fronteiras que delimitam aquilo que sempre conheceram. Se tudo sempre foi assim, como poderá ser diferente? Deverá até ser diferente? Evoquemos, então, o Supremo Equilíbrio: não há sol sem chuva, tampouco repouso sem labor. Tudo coabita em plena harmonia. O segredo de todas estas práticas, da mais pensada à mais espontânea, reside no “caminho do meio”, nunca em seus parentes extremistas. Se procuramos a frugal via do equilíbrio, não tomemos o trilho da direita nem o da esquerda, mas sim aquele que, no meio de ambos, se desenha, mesmo que sua entrada se cubra de implacáveis pedras e de ferozes espinhos.

Celebremos, por isso, o dia! Recebamo-lo como a bênção divina que ele é!  Seja a dançar, cantar, orar ou simplesmente a caminhar - celebremo-lo! Ofertemos um sentido abraço a nosso vizinho, enchamos de beijos nossos familiares, comunguemos com o que nos rodeia, laboremos em pleno prazer, colhamos ou semeemos… Não importa; celebremos! E desfrutemos das múltiplas vias para tal, pois em nós está a possibilidade de as escolhermos de acordo com a nossa peculiar natureza. A Vida é o “agora”, como em inúmeras ocasiões falámos; vivamos o “agora”! Entendamos o precioso milagre que ele é! Um Presente a partir do qual se moldará nosso Futuro, é certo; mas, se o vivenciarmos, não mais isso nos importará. Pois estaremos a ser embalados pelos braços da Eternidade, o redentor “vazio” ao qual nos entregámos. Tudo é precioso por si e digno de ser conhecido, contemplado e vivenciado. De que serve nos ocuparmos com as futilidades que, diariamente, rotineiramente, nos são lançadas pelo social mundo? Nossa material existência é um sopro na história universal, e há tanto ainda por descobrir para além da ténue “realidade”… Afinal, estamos só de passagem; aqui, neste lugar, de passagem… rumo a algo imensamente superior.     


Pedro Belo Clara.




segunda-feira, 25 de junho de 2012

Sobre o Amor


Pelo percorrer de todos os rumos, se para tal experiência estivermos disponíveis, verificaremos a presença de um sentir que é como um brando vento, uma corrente de ar que nos bafeja e guia, nos transforma e nos faz crescer. Ainda que, ao sermos viajantes de tantas causas, resultados de tantas histórias e vivências, possamos senti-lo e descobri-lo à luz de nossa particular percepção, esse sentir é, para muitos, a razão de tudo o que existe, visível e invisível; é a origem de cada coisa, o motivo que faz girar os moinhos que se espalham pela deslumbrante paisagem de nossas existências; um sentir que, na sua máxima expressão, é progenitor dos demais, pois todos nascem de suas centelhas e a todos ele abrange, albergando-os em suas indistintas asas. A que refiro, então? Ao Amor. Mas o que possui ele assim de tão singular? Que coroa o distingue? Porque é que, apesar de frágil, é tantas vezes forte e arrebatador?

De facto, o Caminho, como imenso palco que é, oferece-nos variadas oportunidades de vivência, comportando o granjear de experiência – traduzida posteriormente em sabedoria – e o crescimento / desenvolvimento daquilo que, em essência real, somos. Assim, as relações humanas (e não só) são simplesmente um renovado aroma que perfuma nossas existências. E, na sua base, em diversas e díspares formas e dimensões, encontra-se o Amor. Ele é frágil, sim, dócil e singelo, mas essa é a sua principal força, a valência que o torna no «mais firme dos esteiros». Ele é a causa da redenção nos que se julgam perdidos, da absolvição nos que se pensam culpados, do sossego nos inquietos, da esperança nos desesperançados, da aceitação nos proscritos… Mas só e apenas se a tal luz os indivíduos se abrirem. Afinal, o sol sempre brilha fora de nossas habitações, banhando suas paredes e seu telhado – compete-nos o descerrar de cortinas e o escancarar das amplas janelas, para ele nelas possa entrar.

Contudo, ao ser tão maioral e particular, o Amor nem sempre é por nós bem entendido, manejado, ofertado ou recebido. Em real consideração, experimentá-lo não significa compreendê-lo, embora seja um dos passos que nos conduzem a tal realização – tal arte advém de nossa sabedoria, consolidada em consciência. Muitos são aqueles que, de entre nós, em seus particulares rumos, vêem no Amor as linhas que compõem o apego. Como tal, atraem inevitavelmente o sofrimento. De tão forte, puro e verdadeiro que é, olvidamos o facto de que cada indivíduo possui a sua liberdade, e que essa deverá ser, invariavelmente, respeitada. No fundo, no meio de um turbilhão de dor ou de prazer, revelamo-nos egoístas. É, aliás, fácil tropeçarmos nesta armadilha – mas, convém não olvidar, os erros são o maiores provocadores do nosso desenvolvimento. Tal comportamento é, por isso, banal e difícil de quebrar ou, até, de evitar (antes aceitá-lo, compreendê-lo e transmutá-lo). No entanto, sempre poderemos tentar. Cada dia comporta a sua aprendizagem, pelo que jamais poderá ser tardio o esboçar do primeiro passo.

O verdadeiro Amor, assim, quando incondicional, livre de restrições, julgamentos, imposições ou encarceramentos, comporta a liberdade – e essa é a sua maior virtude, diminuta acha de perene Luz. Se tal aspecto for, por fim, compreensível ao nosso entendimento, saberemos (como certas coisas sabem aqueles que veramente crêem) que nenhuma ligação será jamais quebrada, existindo, com o afastamento (breve, por sinal), a promessa de um reencontro. Múltiplos sentires poderão, posteriormente, nos assomar, sendo a saudade a líder dessa implacável manada, mas nós, viajantes, possuímos o Tempo – o curador de todas as injúrias e feridas. Sem olvidarmos o Amor, é claro, sempre abrangente, transmutador e apaziguante. Afinal, nada é, efectivamente, efémero em essência, pois ela, a valência das valências, é veramente eterna por sua etérea condição.


Pedro Belo Clara.   




sábado, 9 de junho de 2012

Estados de experimentação



Ao longo dos nossos dias, que a seu tempo se consolidarão em semanas, meses e anos – na ilusão de uma percepção pré-definida e precocemente implantada –, desfrutamos da oportunidade de experiênciar diversos estados de ser e de estar. No fundo, nossas existências resumem-se a isso mesmo: a experiências (ou hipóteses de experiência). E elas são, por categoria, imensamente variadas. Ora criadas por nós próprios (se decidirmos definir nossos rumos), ora pelo Caminho (se a ele nos entregarmos e nele depositarmos nossa crença e fé), elas permitem-nos percorrer a multiplicidade do Ser, testando-nos, impulsionando o nosso indagar ou proporcionando, simplesmente, o clarificar ou o consubstanciar de uma ideia, atitude ou, em escala alargada, carácter. E, no seio de tudo isso, apesar de lhes ser comum o carácter peculiar (que obviamente as diferencia), há algumas que oferecem ao seu experimentador uma maior hipótese de crescimento. Aliás, não sentimos já, nos nossos particulares mundos, a sensação de que algo nos enviava uma espécie de ultimato? Um derradeiro aviso que não mais se repetiria? E tudo isso porque se impunha o nosso despertar, o abanar de alicerces, a devastação de nossas culturas – apenas para que de novo as pudéssemos plantar. O Infinito fala connosco através de nossos corações, embora possuamos a escolha de os não escutar (o que, como sempre se verifica, conduz a uma determinada consequência).

O Mundo é fruto de uma Una e Suprema Consciência que por si só existe e prolifera, a Roda da Vida que faz girar o fluxo do Rio que flui por nossos dias, que a si própria se arruma e molda, num inquebrável (porém, flexível) equilíbrio que sempre se encontra e mantém – sem que a nossa influência cause impacto. Experiênciamos, sim, mas todos nós, viajantes, sentimos essa calado desejo de retornar a casa – a fonte de onde proviemos. Esse desejo, traduzido em busca, apenas revela um certo grau de despertar, de percepção conscienciosa. Afinal, sabemos onde nos encontramos e tornamo-nos cientes do que existe e do que em torno de nós se desenrola. Contudo, tivemos de caminhar para alcançar esse estado, ou melhor, para que ele pudesse entrar em nós. E tal iluminado acontecimento eclode de nossas experiências, sejam elas escolhias ou “sabiamente atribuídas”. Assim, julgamos aprender, quando no fundo apenas… relembramos.

A Vida é, por si só, composta por ciclos, fazendo ela própria, inclusivamente, parte de uma ciclo maior. Entender isto é saber que tudo se sucede, nasce e se renova. No entanto, entre o Sol e a Chuva, somando toda a sua singularidade e expressa necessidade, existem certos estados que entendemos por maldosos ou passíveis de repressão, rejeição e substanciais vitupérios. De entre eles, a enfermidade. Apesar de sempre nos focarmos uma só objectiva, mirando e recebendo o lado negro de uma esfera bicolor, esse estado, mais do que qualquer outro, oferece-nos uma hipótese de ficarmos mais perto de algo superior. E isto porque nossa consciência altera-se significativamente, tornando-se, como tal, mais receptiva e susceptível – algo que, em momentos de grande vitalidade, não acontece. Existirão outros caminhos e alternativas vias para algo se implementar, é claro, mas – e nem sempre em última análise – este estado assoma-nos. Há um brilhante fundo de verdade no psicossomatismo: nosso corpo envia-nos sinais e reflecte o estado de nossa mente e Alma. Se algo assim nos conquista, então impõe-se uma revisão de actos ou de estilo de vivência. Além disso, do reconhecimento e aceitação de nossas humanas fragilidades irrompe a Humildade; o que, por consequência cultiva o “ser”, não o “ter” – um resultado do nosso exacerbado ego.

Imergimos, em suma, numa densa escuridão, que dar-nos-á, a seu tempo, a origem de uma luz deveras cintilante. Obviamente que, por sanidade, todos desejamos rejeitar a dor, mas… por vezes o crescimento advém de nossas próprias feridas. Constatar tal via é, tal como há pouco vos falei, entender e aceitar os ciclos deste Mundo e sua dualidade: não existe direita sem esquerda, vida sem morte, preto sem branco, Outono sem Primavera. Mas, por fim, acabaremos por compreender que, ao abraçá-las, superá-las-emos, vibrando em níveis elevados e sendo livres, verdadeiramente livres, amparando na palma de nossa aberta mão uma fina centelha, dócil estrela, a ínclita filha da Eternidade.




Pedro Belo Clara.







terça-feira, 22 de maio de 2012

Sobre a Liberdade


Através da leitura de muitas outras publicações anteriores, ficou sublinhado o seguinte facto: a Liberdade, aquela que – a par da Felicidade – muitos de nós procuram trazer até suas existências, reside em nossas escolhas. Sabemos, por isso, que elas poderão ser árduas ou comportar insuportáveis consequências, mas, ainda assim, o opção está sempre em nossas mãos. Esta procura, que em inúmeras ocasiões constitui o mote de uma só vida, poderá demorar-se por toda uma existência, valorizando-a e preenchendo-a com um louvável significado. Contudo, nada existe que não possua o seu término. Aliás, algo terá sempre de cessar para que um outro algo se inicie. Ao entender isto, estaremos, desde já, a autorizar o fluir do Caminho e de seus elementos e ocorrências – ou, fazendo uso de outras palavras, permitir que um livre fluxo corra por nós.  

No entanto, desejamos muitas vezes a Liberdade sem nada fazermos para a experiênciar. E isto porque, em súbitos assaltos de um receio de perda, colamo-nos de uma forma intensa, doentia até, a certos objectos, situações, experiências ou indivíduos. Tememos sempre a mudança, é certo, e o agarrar de algo que nos é familiar concede-nos segurança, um estagnado equilíbrio. Ainda que possa ser o Amor a razão que a eles nos prende, é um facto de que a verdadeira expressão desse sentimento comporta a Liberdade, não o apego ou a manipulação. Contudo, o mundo em que vivemos ainda se rege por antigos padrões e nós, de certa forma, permitimo-nos ser moldados pelos mesmos, muitas vezes até de uma maneira imperceptível e, como tal, inconsciente – o que só ressalva a importância do despertar consciencioso. Por isso, sentimos dor e desolação relativamente a situações diversas, algumas até banais, situações em que, se entendidas fossem sob um aspecto de vista diferente, dar-nos-iam motivos para sorrir ou celebrar em serena alegria.

Um determinado grau de certeza pode verdadeiramente fornecer um terno conforto, mas tudo é efémero – e o Homem que de vera sabedoria se dota entende isso mesmo. Como tal, desapega-se e toca a Eternidade. Porque experiênciar a Liberdade ou desejar estar (ou ser) livre não implica necessariamente tudo abandonarmos para constituirmos residência em um bosque ou caverna longínqua, adoptando um modo de vida introspectivo e de reclusão – exceptuando os casos em que intimamente sintamos tal apelo, pois nisso nosso maior guia – o coração – é soberano. A Liberdade faz-se antes sentir a partir do não domínio e da auto-preservação (tudo se cria e regenera por si só). Se vivermos e deixarmos viver, estaremos a despojarmo-nos de muito! E a ideia desta reflexão vai muito mais além da atitude indolente, leviana ou despreocupada que ela deixa transparecer… Pois todos puxamos para nós as responsabilidades que desejamos aceitar, sabendo de antemão que elas detêm uma tendência para nos aprisionar. Atravessamos problemáticas situações e demais complicações, mas ser livre representa precisamente o saber impedir que tal peso nos afecte, plenamente confiantes em nós e, não obstante, na roda que gera a Vida. E é nesse mesmo despojar que experimentamos uma das mais altas formas de transcendência aqui possíveis, neste plano onde a Alma ainda se encontra anexada a seu veículo, nossos corpos.

Escuta os teus apelos de coração e eles sintonizar-te-ão com a Energia Suprema – serão os ventos que bafejarão as velas de tua embarcação! Nada esperes, antes confia, encontrando as razões da tua própria crença; entende quem és e sê essa verdade, fluindo, certo de que tudo é mutável e passageiro, de que tudo se ergue e se replanta.


Pedro Belo Clara.





quarta-feira, 16 de maio de 2012

Fluir pelas margens do Ser


O Caminho prolonga-se até ao Infinito. Ele próprio, em sua autêntica verdade, não é dizível ou palpável; existe como coisa eterna, pulsante e mutável, como rio que flui e sua forma transmuta. A sua eternidade reside naquilo que percepcionamos como “momentos”, e eles sucedem-se, a todo o instante, como pequena parte de um ciclo maior, amplamente Universal, a roda que tudo rege e tudo faz girar. O seu segredo maior reside no “agora”, no presente instante, e não num passado que findou ou em um futuro indefinido. Se nele vivermos, ou pelo menos nele focarmos nossa atenção, conseguiremos atingir um novel estado de percepção, diferente do que até aí havíamos experimentado. Em suma, se nos tornarmos fluidos, como folha caída por sobre as águas de um grande rio, revelar-nos-emos conscientes, livres, soltos de qualquer incómodo peso, e confiantes de que, em época propícia, atingiremos a foz, desaguando depois no grande Mar. Mas até que ponto é que se estendem as nossas acções deliberadas? Poderemos interferir num fluxo de ocorrências?

Possuímos nosso direito de escolha, uma opção que nos definirá e, obviamente, nos trará as devidas consequências (para uma causa existe sempre um determinado efeito, assim como o eco devolve, amplificada, a vibração de nossa voz). Por isso, a hipótese de fluir pelos momentos assume, claramente, uma posição de escolha a ser realizada. Ela existe, tanto como os demais possíveis rumos, exacta e perfeitamente viáveis – a opção apenas reside em nós. Contudo, é importante compreender que existem certos elementos e eventos que se encontram fora de nosso alcance, pelo que, como consequência, não os controlamos. É fácil sentirmos um crescente poder, quando definimos um caminho ou traçamos um rumo por nosso próprio punho e deliberada atenção, e tudo vemos a se erguer e, por fim, materializar. Ainda assim, em tempos de maior turbulência, seremos atacados por uma oculta insegurança, um medo que pela calada nos congela o discernimento. E, no seio de tal encarceramento, uma irascível frustração reclamará o seu domínio. Poderemos nos debater, mas nunca possuiremos uma força superior à corrente do rio que nos transporta. Essa é uma inútil luta que em nada nos beneficiará, apenas imprimirá de forma mais funda e indelével suas feridas e dores. E é por isso que ganha um enormíssimo relevo a oportunidade de cultivarmos em nós o não agir, o não saber e o não ser – estados onde uma derradeira liberdade é alcançada. São apenas parâmetros que, no fundo, sustentam a fluidez de ser e estar, ao mesmo tempo em que não somos nem estamos – divino paradoxo! Ou seja: atentos espectadores do mundo que por si se desenrola, vazios como o livre vento e eternos como o Infinito.     

Ao sermos fluidos, entendemos que existe uma certa impotência passível de ser aceite, no doloroso auge de nossa humana fragilidade. Assim são as regras deste jogo que aceitámos jogar, assim se compõem os elementos que habitam e funcionam em pleno neste material plano, onde por ora existimos. E diversas são as vias de sua anuição, pois, uma vez mais, o Indivíduo percorrerá sempre o caminho que mais lhe convier, aquele que mais se adequa à sua peculiar natureza. Afinal, exceptuando a situação em que o própria desejaria modificar-se, nunca poderemos esperar que uma laranjeira faça crescer figos em seus ramos, pois tal não lhe é natural; e, se o fosse, revelar-se-ia uma figueira, assumindo uma condição que certamente nunca foi a sua. Cada coisa, portanto, está em seu devido lugar. Assim, seja pela Fé, pela Revolta, pela Esperança ou até pela Dor, sabe-se que, no fundo, todos se apresentam como díspares rumos que nos guiam ao mesmo destino, com mais ou menos curvas e pedras a distingui-los. Por isso, essa aceitação poderá ser perfeitamente suave, se a isso estiver receptiva a Alma que tanto indaga. Em alternativa (infelizmente a mais comum), sempre poderemos ficar a contas com o assombroso e pesaroso ânimo, que se enegrece como uma vil assombração. Mas nós já não vivemos para carregar tremendas pedras, antes para delas nos libertarmos! Tudo poderemos aceitar, desde que cientes estejamos dos limites de nosso raio de acção. Poderemos decidir não intervir (cultivando a não acção), mas, se o fizermos, debater-nos-emos com nossa impotência. Aí, importará entender que a situação compreende duas partes, uma espécie de trabalho de equipa entre o Indivíduo e o Caminho em si. Façamos, então, tudo o que sentirmos estar ao nosso alcance, mas conscientes de que o resultado final nunca dependerá exclusivamente de nós. É aqui que poderemos modificar um pouco o curso das águas, sem com ele contendermos, mas apenas se tal possibilidade nos for permitida. Afinal, sabemos que uma longa história foi há muito escrita e definida, por nós e outras consciências. Se acreditarmos em um Bem que nos assiste e o deixarmos viver e actuar em nossos rumos, tudo se resolverá por si e por si se encaminhará.

Celebremos, então, o Sol de nossos Verões, sabendo que em breve virá o Inverno com seus nevões e insanos ventos. Estando a esse aspecto abertos, permitiremos que a Serenidade e a Plenitude nos habitem, enquanto que uma inabalável certeza se fortificará no silêncio de nosso íntimo. Quem disse que esta Vida divina que experimentamos deverá ser sombria e taciturna? Cada um cumpre o seu caminho, é certo, mas a opção de sermos livres existe! Poderemos cultivá-la no imenso terreno fértil que é o nosso sábio coração. Mesmo que a Vida nos traga dureza, saberemos que essa é a sua prova, e que suaves nos poderemos revelar, apesar de tudo o mais.

Sejamos fluidos; e mais próximo estaremos de abraçar a eternidade que reside no Todo, aquele que desde sempre nos enlaça e que tão ardentemente anseia o nosso esperado retorno.


Pedro Belo Clara.




quarta-feira, 25 de abril de 2012

O Indivíduo e seus semelhantes


Por nós próprios trilhamos os quilómetros de nosso caminho, mas não estamos sós no Caminho: há rumos que se entrecruzam, aromas que se desfrutam, cantares que se evocam, rostos que se saúdam e inolvidáveis olhares que se amam. Contudo, caminhamos sós; pois é dessa forma em particular que cada Alma se une a si mesma, até retornar ao infindo mar de onde ela, exígua gota, se escapuliu. Cada indivíduo vale por si e possui um rumo próprio. Mesmo que desprovido estivesse dos adereços de um ego de volúpia e soberba – ambições, projectos, desejos –, não deixaria de possuir um rumo. A única diferença entre ambos reside numa postura específica: navegar ao sabor das vagas sucessórias ou remar pela sua turbulência. Cada Ser, assim, valendo-se dos métodos que lhe sejam mais úteis a seu crescimento e desenvoltura, representa um peculiar universo, um pequeno mar contido em um outro, imensamente maior (como antes referi).

Os raios que provêem do sol não se despojam daquela mesma luz que reside no núcleo de tal estrela. Em todo o processo de despertar consciencioso, tal aspecto revela a importância de seu entendimento. De facto, todos nós partilhamos algo com os demais que nos circundam; existimos por nós próprios, mas não estamos sós – todos possuímos nossas marcas, alegrias, dores, histórias, valência e vicissitudes; algo que só servirá para nos aproximar, fomentando nossas qualidades humanísticas. E assim é porque todos nós, sem excepção, decidimos pegar em nosso cajado e empreender uma (nova) viagem pelas planícies de um mundo de experiência – o nosso palco de ensino e aprendizagem. Por isso, sabemos que cada liberdade é eterna, embora encontre o seu término nas fronteiras de nosso vizinho; sabemos que a aceitação, a tolerância e o respeito por nosso semelhante são cruciais à consolidação do dotar de notáveis capacidades sociais (no fundo, aquelas que deverão povoar as mentes que, por sua vez, povoarão novas e evoluídas sociedades). Deste modo, estaremos a contribuir para o fomentar de uma co-existência pacífica, embora não devamos ser inocentes ao ponto de ignorar o facto de que um barco, para navegar, não só necessita de vento e de boa maré, mas também da vontade de seu comandante em navegar.

Todas estas e muitas outras essências pairam pelo olhar que se ergue e perscruta para além da penumbra. De entre elas, o saber de que não possuímos o direito de intervir em algo que não é nossa pertença. Aliás, essa é mais uma ilusão fermentada nas barricas do ego: o apego a algo que não nos pertence, embora intimamente nos consideremos seus proprietários. De forma verdadeira, em todos os aspectos, apenas somos responsáveis por nós próprios – somos o pequeno universo que regemos –; o restante trabalho resume-se ao capítulo da orientação. Mas, obstinados, imersos em problemáticas dores e questões, permitimos que se enuble a percepção e invadimos terrenos alheios – essa é a causa da deturpação enganadora. E quantas querelas não já se alimentaram de tais posturas? Vivemos em sociedades de Ter e não de Ser, logo continuamos agarrados a um poder mórbido e à sua necessidade de vitória, de imposição e de esmagamento total. Ao tornarmo-nos conscientes, saberemos que, ao invés de impor a nossos semelhantes os parâmetros e os rumos que julgamos serem certos e a eles adequados, a via de não agressão subsiste em conceder-lhes apoio em suas escolhas de rumo e caminho, mesmo que estas difiram daquelas que para eles havíamos pensado. Repito: cada indivíduo vale por si só; e tal é passível de ser respeitado. É claro que tais actos são, na maioria das ocasiões, feitos ou impostos em nome do maior dos ideias ou da melhor das intenções. Mas, uma vez mais, sobressai o seguinte: gostaríamos que terceiros adoptassem o mesmo comportamento que adoptamos perante os demais? É claro que podemos oferecer, a esses companheiros de caminho que tanto amamos, uma válida via, expor vantagens, mas toda a final decisão caberá ao interessado – e é isso que deveremos aceitar. Afinal, se a andorinha adoptasse o comportamento do rouxinol, ela por certo mudaria o seu canto e as suas cores, passando, por fim, a ser um mero rouxinol.

Nas veias deste dizer corre, pulsa e se expressa um amor, livre de condição, que nada pede nem nada exige, pois é veramente incondicional – um amor que está em nós e cuja oportunidade de aplicação reside naquilo que já foi dito. Cuidamos e amamos os que nos rodeiam através de nossa força, cooperação e carinho, simples e espontâneo, e não pela imposição de ideias que, no fundo, só a nós nos servem (pois por nós foram formuladas). Fluamos nós pela Vida e deixemos que os outros façam o mesmo! Confiando, por certo chegarão ao porto onde mais são esperados. E, sempre que a situação o exigir, teremos nossa fortaleza para os abrigar e nossos amplos braços livres para os amparar.


Pedro Belo Clara.