segunda-feira, 11 de abril de 2016

MEDITAÇÕES XXXIII



Observa as manhãs de orvalho,
quando um sem fim de gotas
reluz sobre pétalas e folhas
recém-despertas.

Uma multidão aquosa,
onde nenhuma gota reflecte
um reflexo puramente igual:

por cada perspectiva,
uma cor do mundo emerge;
por cada voz alteando-se,
uma história de cristal se relata.

E são tantas sorrindo ao sol-criança,
tantas no perfeito abraço
ao ser-só que as faz ser o que são,
tantas sem pensamento de rio
ou desejo de vento brusco.

Observa as manhãs de orvalho.
Verás subitamente o brilho maior
que em nenhuma se nega:
a viva marca do oceano
que em segredo nelas vive.







(Fonte: www.goodwp.com)


quinta-feira, 17 de março de 2016

MEDITAÇÕES XXXI



Atenta na palavra
a que desejas dar vida.
Atenta na razão,
na necessidade de tal palavra,
e indaga se ainda a desejas
inflamar de vida.

Pois o silêncio revela melodias
que o ruído da palavra tinge,
como púrpura mancha
corrompendo a brancura
da virgem cambraia.

Silêncio sem vigilância
é uma espécie de enterro
onde o espírito míngua,
vergado a um fundo peso
que se não esvazia.

Quando o outro rosto
do silêncio assomar ao ser,
saberás do êxtase da quietude

– e da tão bela canção
que a borboleta à flor segreda,
como que pedindo permissão
para em suas pétalas poisar.



PBC.







(Fonte: imgmob.net)


sexta-feira, 4 de março de 2016

MEDITAÇÕES XXX



É doce a ilusão
que conduz o pensamento:
o amador escolhe o amado.

Haverá semente que escolha
a terra onde cumprir
o seu desígnio de flor ou fruto?

Que a visão se apure:
no amor o ser não escolhe,
no amor o ser é escolhido.

É essa a sua bênção maior.




PBC.






(Fonte: www.pinterest.com)



sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

MEDITAÇÕES XXIX



O espinho existe,
não porque o caminho apenas
de espinhos se compõe
– mas para ilusões de flor
enfim se esfumarem.

No esquecimento em que vive
aquele que caminha,
o reflexo do espelho
confunde-se com a imagem real.

Talvez, de espinho em espinho,
a mão que se fere compreenda
a razão do ferimento.

Cumprido o propósito,
o espinho desaparecerá;
e toda a ilusão será tida
pela verdadeira natureza.

Conhecendo a real face,
como o ser poderá
projectar novos reflexos?

A rosa autêntica despontará.




PBC.







(fonte: gaudiumpress.org)


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

MEDITAÇÕES XXVIII



Assemelha-se a algo vivo,
tal o seu forte pulsar.

Um acumulado de memórias,
acervo de experiência procurada:
um sopro de ilusão e assim
vida se conferiu à identidade
real aos olhos de quem dorme.

No âmago na nuvem,
uma escadaria descendente
anuncia-se – trilhá-la
é o desafio supremo e final.

Até esse instante lúcido,
quantas querelas não fomentará
a sombra que anseia ser luz?
Quantas contendas instigará
esse algo que só anseia ser
aquilo que em verdade não é?

O esquecimento prolonga-lhe a vida.
Todos os frutos do logro
lhe servem de proveitoso alimento.

Porém, cada passo pelo Homem dado
o guiará de volta à soleira
da casa donde partiu um dia.





PBC.








(Fonte: ncmh.info)

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

MEDITAÇÕES XXVII



Tornou-se o Homem pedinte
por força dos anseios cultivados.


O anseio é íntimo à humanidade,
mas o seu cultivo deriva
duma ignorância maior.

Sem restrição ou incentivo,
quem aceita compreende
– primeiro passo de libertação.


Mas quem se prostra pedindo
mais pão para os seus desejos,
só adensa a malha da ilusão.

Encarando a existência
e tomando-a do avesso,
na fantasia que alimenta
afasta o brilho primordial.

Pois como pode aquele que pede
conhecer a autêntica gratidão?

Quem pede vive em pobreza,
por mais esmola que peça.

Porém, o olhar atento descortinará:
naquele que mendiga
ocultam-se gestos de imperador.



PBC. 






(Fonte: selfunification.com)



terça-feira, 15 de dezembro de 2015

MEDITAÇÕES XXVI


Sobre a outra margem
toda a boca te poderá falar.

No entanto,
o que na outra margem pulsa
em palavra alguma poderá caber.

Talvez um indício de ponte
te seja murmurado,
mas nenhuma o será
sem que de ti tenha um pouco.

O braço erguido nunca alcança.
Não se alcança o que já existe
no âmago dum ser.

Mas a noite é cheia de mistérios:
o reflexo do luar na folha
deixa adivinhar a posição da lua.



PBC. 






 (fonte: pinterest.com)