sexta-feira, 4 de março de 2016

MEDITAÇÕES XXX



É doce a ilusão
que conduz o pensamento:
o amador escolhe o amado.

Haverá semente que escolha
a terra onde cumprir
o seu desígnio de flor ou fruto?

Que a visão se apure:
no amor o ser não escolhe,
no amor o ser é escolhido.

É essa a sua bênção maior.




PBC.






(Fonte: www.pinterest.com)



sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

MEDITAÇÕES XXIX



O espinho existe,
não porque o caminho apenas
de espinhos se compõe
– mas para ilusões de flor
enfim se esfumarem.

No esquecimento em que vive
aquele que caminha,
o reflexo do espelho
confunde-se com a imagem real.

Talvez, de espinho em espinho,
a mão que se fere compreenda
a razão do ferimento.

Cumprido o propósito,
o espinho desaparecerá;
e toda a ilusão será tida
pela verdadeira natureza.

Conhecendo a real face,
como o ser poderá
projectar novos reflexos?

A rosa autêntica despontará.




PBC.







(fonte: gaudiumpress.org)


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

MEDITAÇÕES XXVIII



Assemelha-se a algo vivo,
tal o seu forte pulsar.

Um acumulado de memórias,
acervo de experiência procurada:
um sopro de ilusão e assim
vida se conferiu à identidade
real aos olhos de quem dorme.

No âmago na nuvem,
uma escadaria descendente
anuncia-se – trilhá-la
é o desafio supremo e final.

Até esse instante lúcido,
quantas querelas não fomentará
a sombra que anseia ser luz?
Quantas contendas instigará
esse algo que só anseia ser
aquilo que em verdade não é?

O esquecimento prolonga-lhe a vida.
Todos os frutos do logro
lhe servem de proveitoso alimento.

Porém, cada passo pelo Homem dado
o guiará de volta à soleira
da casa donde partiu um dia.





PBC.








(Fonte: ncmh.info)

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

MEDITAÇÕES XXVII



Tornou-se o Homem pedinte
por força dos anseios cultivados.


O anseio é íntimo à humanidade,
mas o seu cultivo deriva
duma ignorância maior.

Sem restrição ou incentivo,
quem aceita compreende
– primeiro passo de libertação.


Mas quem se prostra pedindo
mais pão para os seus desejos,
só adensa a malha da ilusão.

Encarando a existência
e tomando-a do avesso,
na fantasia que alimenta
afasta o brilho primordial.

Pois como pode aquele que pede
conhecer a autêntica gratidão?

Quem pede vive em pobreza,
por mais esmola que peça.

Porém, o olhar atento descortinará:
naquele que mendiga
ocultam-se gestos de imperador.



PBC. 






(Fonte: selfunification.com)



terça-feira, 15 de dezembro de 2015

MEDITAÇÕES XXVI


Sobre a outra margem
toda a boca te poderá falar.

No entanto,
o que na outra margem pulsa
em palavra alguma poderá caber.

Talvez um indício de ponte
te seja murmurado,
mas nenhuma o será
sem que de ti tenha um pouco.

O braço erguido nunca alcança.
Não se alcança o que já existe
no âmago dum ser.

Mas a noite é cheia de mistérios:
o reflexo do luar na folha
deixa adivinhar a posição da lua.



PBC. 






 (fonte: pinterest.com)



domingo, 29 de novembro de 2015

MEDITAÇÕES XXV


Nascimento e morte
são opostos dum só segmento
em constante sucessão.

Entre eles, desenrola-se
o que a mente entende por vida.

Ambos os pólos perecem,
de tão extremados que são:
áridos terrenos, por mais cultivo
que lhes seja dado.

A essência do meio, porém,
é deveras um campo fértil.

Investir a existência
num ou noutro
torna os Homens em ilhas.

Só no âmago se poderá revelar
o infindo oceano
que a onda ainda desconhece ser.



PBC.






(Fonte: www.dhammawheel.com)




segunda-feira, 23 de novembro de 2015

MEDITAÇÕES XXIV


Silencia o pensamento,
permite a quietude do coração:
e a consciência virá limpa
a teus também limpos olhos.

Sem expressão exacta o suficiente
para exprimir o que for,
contemplarás o silencioso
deslumbre da criação.

Assim te reconhecerás.




PBC.








(fonte: www.tuku.cn)