sexta-feira, 20 de março de 2015

MEDITAÇÕES X




Num jardim de estações,
o querer é frágil flor:
o instante que o vê nascer
amortalha o enfermo corpo.

Nenhum sol, nenhuma chuva
alimentarão frutos artificiais.
Mas o espectro de tal espécie
assolará o coração de quem o sonhou.

Que arte se forma de débeis cores?
Que essência se depura de esbatido aroma?
Fosse a querença natural
como a água dum rio
e fertilizaria as sementeiras do mundo.

Porém, na vez de se esvaziar,
enche-se. E a semente, maldita,
moribunda para a eternidade,
envenena a terra que a não esqueceu.





PBC.






(Fonte: luismartinssite.blogspot.com)

sexta-feira, 13 de março de 2015

MEDITAÇÕES IX




Compreender é o prelúdio da compaixão.

Quem compreende não alimenta o conflito,
pois a fome que o instiga se saciou.

Quando compreenderes que o teu semelhante
sonha com o mesmo rio,
anseia pela mesma flor
e busca o mesmo fruto,
as fúrias a ele direccionadas
de súbito cessarão.

Tanto quanto a ele o és,
também ele é o teu reflexo,
a tua extensão
– apenas se cobre doutros mantos
e ostenta outras máscaras.




PBC.





(Fonte: www.pintarest.com)

sexta-feira, 6 de março de 2015

MEDITAÇÕES VIII



Se não houvesse manhã
para a cotovia cantar,
que ordem suprema teria
para compor seus versos?

Poderá a cotovia 
da noite fazer madrugada
se madrugada for tudo
o quanto tiver?

Certos mistérios iniciam-se
em abismos longos
e céleres derramam-se
sobre obscuras infinidades.

Na vez de compreenderes o mistério,
recebe-o em ti. Vive-o.
E canta o inominável
como o rouxinol louva o dia.



PBC.








(Fonte: ondeomeuolharseperde.blogspot.pt)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

MEDITAÇÕES VII



Tolo aquele que intenta,
com as suas próprias mãos,
derrubar a árvore frondosa.

Mesmo que a tentasse golpear
com o instrumento adequado,
no primeiro ensaio
não conquistaria o seu desejo.

Na milésima investida,
aquele que usou as mãos
nada terá conseguido –
somente frustração, cansaço e ira.

No milésimo golpe,
quem ostentou o instrumento certo
terá assistido à concretização
do seu intento profundo.

A teimosia não compensa:
é fonte de amarguras.
A persistência é uma arte
capaz de colher doces frutos.




PBC. 






(Fonte: www.pinterest.com)



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

MEDITAÇÕES VI




Incapaz de voar
como as aves que vogam
a imensidão celeste,
sorri a árvore por de poiso servir
às magníficas criaturas que admira.

Será tamanho sorriso ilusão?

Plena a árvore que finca
nas profundezas da terra as raízes
e aos céus distantes oferece
a verdura de ramos seus...

Nada reflecte, nada anseia.
É abrigo de aves e mãe de frutos.

Solitária, brilha na sóbria alegria
das coisas que vivem a verdade que são.




PBC.






(fonte: loopholesonlife.com)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

MEDITAÇÕES V




A solidão é um vazio
que caminha de mãos dadas
com o Homem.

Se aceitares a sua companhia,
verterá sobre ti a doçura
dum néctar de jasmim.

Mas, se sentires o peso
da sua muda presença,
não agites as águas que te habitam.

Entende:
nessa hora, a gota que és
apenas esqueceu o tempo
em que com outras compunha
um oceano sem fim.



PBC.







terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

MEDITAÇÕES IV




Procura o silêncio.
Procura o informe
dentro do próprio silêncio.

Só o espírito saberá
aquilo que poderá ser:
talvez uma rosa,
talvez uma madrugada.

Talvez o argênteo mar
onde enfim te revejas
no que sempre foste.

Procura o silêncio:
a fonte de tudo,
a raiz do nada.

Onde principia, onde termina?
Onde poisa quando cessa
o rumor das inaudíveis asas?

Procura um coração
que ao invisível se abriu.

E deixa o silêncio absorver
cada fronteira que te aparta.



PBC.