quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

RETALHOS DA SAGA DE UM ESCRITOR (PARTE II)


              O dia amanhecera plácido e gélido. Após despertar, dirigi-me à janela do quarto para saborear um pouco o álgido ar daquela manhã de tímido sol. Tudo imergia, ainda, numa imensa e invisível onda de tranquilidade que descia dos montes, circundava as casas e naquela pequena varanda encontrava a sua praia ideal para morrer a meus pés. O coração de súbito acelerou-se quando a mente, retornando a si, desfez o resquício do sonho e ressuscitou a inegável realidade. Afinal, era chegado o dia onde todos os compromissos se cumpririam.
            Não me recordo se a noite fora profícua em descanso ou embalada em vagas de súbitas agitações… Apenas que, decidido, focava-me no objectivo que tinha em mente. E a partir daí não pensara em mais nada. O dia tinha nascido. Era chegada a hora. Tão simples quanto isso.
            Após saciar a parca fome e trocar com as companhias de então dois dedos de conversa, entre sumos de laranja, pequenos pães e bolos e cafés fumegantes, retornei ao quarto para finalizar os retoques na indumentária e reunir o material que o evento mais requereria. Estando tudo pronto e na devida ordem, despedi-me de quem de direito e saí do hotel rumo ao destino mais aguardado. Uma vez que na véspera lá tinha estado, não haveria hipótese de engano. Felizmente. 
            O vento era gélido, não sobravam dúvidas… Mas o frio tipicamente seco daquele local eram bastante suportável quando comparado com o frio húmido que habitualmente paira nessa altura do ano pela cidade que me viu nascer. Em suma, o Outono de lá assemelhava-se ao Inverno de Lisboa, extraindo apenas esse húmido factor que tanta estrutura óssea danifica. Nada de grave, portanto. Creio que os termómetros marcariam àquela hora uns condignos cinco graus centígrados, mas para a minha percepção não estariam menos de doze graus. Por aqui se vê o quão se habitua um organismo às temperaturas que reinam pelo seu ambiente nativo.  
            O vento, contudo, auxiliou-me a conservar a mente vazia, despojada de pensamentos menos desejáveis ou de apertos absolutamente injustificáveis. Cheguei ao portão principal da escola, identifiquei-me e, após concedida a autorização de entrada, dirigi-me à biblioteca onde se desenrolaria o evento. Pelos corredores, caminhando assim tão à-vontade, quase que passava despercebido por entre funcionários e alunos. Um novo professor, quem sabe, que se aprontava para se estrear naquele estabelecimento de ensino?
            Munido de alguns exemplares do meu último livro, à data, publicado, entrei na biblioteca e, vendo os arranjos devidamente concretizados, atravessei a fila de cadeiras ainda vazias para me instalar no lugar que seria meu por efémero direito. É claro que o evento não envolveria somente os temas que anteriormente explanei, mas igualmente a oportunidade de vender, a um preço bastante acessível, alguns exemplares da obra que comigo havia trazido (“Nova Era”, um livro de poesia editado em Dezembro de 2011). As vendas foram bastante razoáveis, devo dizê-lo, embora nunca tivesse alimentado a ilusão de que enriqueceria sobejamente com os lucros aí angariados. Mas importante que tudo isso foi a oportunidade dada aos alunos, professores e funcionários de lerem a obra e meditar sobre a sua universal mensagem. Essa sempre é a minha máxima prioridade.
            Enquanto aguardava a chegada dos alunos e da professora de português com quem havia previamente combinado o alinhamento das três sessões, e que do mesmo modo seria a minha companhia de mesa durante todo o evento, desfrutei de uma agradável conversa com a funcionária da biblioteca. Enfim, assuntos banais que somente nos auxiliam a descontrair e a mergulhar, com o devido afinco, no novo ambiente em que nos encontramos. Aqueles minutos, assim, passaram graças à troca de impressões sobre o estado do tempo, o meu conhecimento sobre a vila e a própria região e até sobre as origens ancestrais da família. O facto de descender de beirões, por parte paterna, e devido à grande proximidade entre as duas zonas do país, sempre acalenta uma conversa que, de outro modo, poderia facilmente esmorecer.
            As cortesias foram sendo trocadas de forma bastante genuína e agradável até a referida professora chegar. Cumprimentámo-nos, falámos sobre pertinentes assuntos que mereciam uma derradeira abordagem e, por fim, tomámos o devido lugar na mesa do evento. Os alunos estavam quase a chegar.
            Com uma afluência bastante regular, de pronto se ocuparam todas as cadeiras. Alguns funcionários, inclusive, tiveram de permanecer de pé. Pelo menos, durante a primeira das três sessões que o evento comportaria. As introduções foram feitas e as apresentações concretizadas, até chegar o momento em que me foi dada a palavra. Assim, comecei por relatar a origem da minha história nas letras, bastante curta ainda, na esperança de que em algum momento, fosse de que forma fosse, certas palavras inspirassem a jovem audiência ou, em derradeira instância, os instigasse a reflectir sobre questões veramente importantes. Acima de tudo, optei por ser fluido… Como se se tratasse de uma conversa entre amigos. Que outra forma haverá de manifestar uma sincera acessibilidade?
            Três turmas diferentes escutaram as palavras que naquele dia proferi. Contando com a indispensável pausa para almoço e café, o evento terá encerrado, oficialmente, por volta das três horas e meia da tarde. Ao longo das horas anteriores contaram-se muitos sorrisos, autógrafos, fotografias e momentos de boa disposição e conversa. No período de almoço, inclusive, onde tive o privilégio de partilhar a refeição com a professora de português anteriormente citada em plena cantina escolar. Sinceramente, é nesse meio que prefiro estar: entre as pessoas. Principalmente, e aplicando a fórmula ao caso em questão, no meio daquelas que me vieram ver e ouvir.  
Nada tenho contra as supostas elites, mas o afastamento social que por norma é seu apanágio contraria a minha natureza. A ideia de quem me convidou, soube depois, consistiria em realizar o almoço num restaurante da zona, hipótese que igualmente aceitaria com o maior dos prazeres. Mas a forma como o caso se desenrolou acabou por ser ainda melhor: almoço na cantina entre os alunos e no meio dos alunos. Sem sequer registar um esboço de hesitação em pegar no meu próprio tabuleiro, servir-me convenientemente e arrumá-lo de pronto, quando findou a refeição. A ideia extravasa completamente a tendência (ou bom-senso) de ser romano em Roma; prende-se antes com uma questão de atitude, de abertura e de aceitação para com o meio envolvente.
A imagem que se poderá reter é a de um político que decide almoçar com alguns representantes do povo que governa, partilhando as suas instalações e o seu meio de convivência. Digo isto apenas, é claro, por motivos comparativos, com o intuito de esclarecer o leitor sobre os sentimentos então vividos. Não detenho ambições políticas, nem nunca as tive, mas, se as possuísse, pode o leitor crer que seria alguém bastante próximo da população pelos motivos anteriormente referidos. A íntima natureza que me assiste não permite que seja de um outro modo.
Creio que uma das mais eficazes virtudes que naquele dia decidi colocar em prática foi a de não criar qualquer tipo de expectativa. Afinal, como numa outra ocasião tive a oportunidade de escrever, «só se desilude aquele que se ilude». Portanto, sem expectativa pré-concebida, seria impossível acalentar ilusões vítreas. Permiti-me simplesmente a ir ao encontro do que me esperava de braços bem abertos. Apenas com um objectivo em mente e despojado de iludidas ambições, terminei o dia de coração cheio.
Ainda hoje esboço um sorriso ao recordar certos episódios vividos naquele dia de Novembro: as pertinentes perguntas de alguns alunos menos tímidos, o clima de amizade que senti em cada recanto da escola, as conversas à hora do almoço com a professora que me recebeu, o café saboreado na belíssima instalação termal da vila, o encontro com o director e demais professores e funcionários, entre muitos, muitos outros exemplos. Uma das maiores gratidões que cultivei e que comigo trouxe, no regresso, foi a forma aberta e veramente simpática com que fui recebido. Por todos, direi: alunos, funcionários, professores e director. Muito além dos agradáveis momentos de venda de livros, das fotografias que os alunos quiseram tirar comigo, os cartazes afixados com o meu nome e rosto ou o magnífico cabaz que a direcção me ofereceu no final do dia (o aveludado vinho que o compunha regou, inclusive, a minha ceia de Natal), permaneceu o sorriso das pessoas com quem me cruzei e, principalmente, o agrado dos alunos com a minha simples presença em sua escola. Eu, sendo um completo desconhecido naquelas paragens, senti-me, e muito humildemente o digo, como uma autêntica rock star.
Poderei ter pensado que me depararia com os orgulhosos descendentes dessa tão nobre e ilustre estirpe lusitana: os herdeiros de Viriato. Gentes de rostos sóbrios e agrestes, com olhares de fino brilho lembrando a sua excelsa origem… Porque não? Mas muito me equivocaria… Encontrei jovens, apenas jovens; tão idênticos, em sonhos e esperanças, àquele que não há muitos anos atrás eu próprio fora.
Ainda que tenha tentado manter-me, durante o desenrolar das agradáveis sessões que partilhámos, num patamar onde pudesse ser, com a máxima clareza, compreendido, na verdade poucas coisas distinguiram a audiência do orador… À parte, apenas, o facto de terem nascido e crescido em zonas distintas do país, com um leve contraste urbano/rural a separar as naturais incidências da juventude. Mas tal aspecto remete ao meio exterior, não à essência. E dentro desse tema, eu o senti, compreendíamos todos o mesmo alfabeto.
A história que sombreia a existência individual, que ajuda a explicar um pouco aquilo que hoje ela é, apresenta-se como um factor diferencial e único ao mesmo tempo. Cada indivíduo detém o seu próprio rumo, a sua própria história. Naturalmente. Por isso, anuo: cada um de nós era um filho de múltiplas causas e escreveu histórias diferentes ao longo do percurso pessoal, ainda que estas se possam unir em determinados pontos. No próprio caminho existencial, apenas por em idade ser mais velho que a audiência, sigo eu na dianteira. Mas tal facto não deverá constituir um factor diferencial, um motivo de apartamento ou relativização. Pelo contrário: é uma séria responsabilidade. Muito mais nos uniu do que certamente nos separou.
Não me recordo já do exacto modo como terminei cada palestra ou como daquele amigável ambiente me despedi. As palavras tendem a oxidar com o tempo, e só subsistem, com maior ou menor desvio, enquanto forem recordadas. Pouco importa, contudo, quando sobeja o principal: o sentimento experimentado.
Na manhã seguinte, com apenas dois graus de temperatura, aprontava-me para a partida com um intenso desejo de retorno. Ainda não tinha abandonado a vila e já elaborava planos para voltar. Assim cogitava, enquanto me divertia a assistir ao jovem casal estrangeiro, provavelmente inglês, que raspava o gelo matinal cravado no vidro do seu carro alugado. De facto, pela tipicidade do local, coisas bem típicas e singulares são passíveis de acontecer – o que apenas incrementa a fineza do perfume que tão bem caracteriza aquelas paragens.
Nesta crónica que assino, e que agora se irá encerrar, apenas poderei sublinhar o sentimento de gratidão que efervesceu como resultado de toda aquela experiência. Sei que me repito, mas é justo que o faça. A felicidade que aí colhi deve-se, em grande parte, a esse aprazível sentir. Foi um gosto imenso provar o etéreo abraço de tais gentes.
Terei eu primado, afinal, pela diferença? Concretizado um positivo impacto junto de algum aluno? Não o sei. Provavelmente, apenas lhes proporcionei um óptimo tempo de descontracção ou uma sempre apetecível fuga às aulas vigentes. Isto eu sei: dei o melhor que tinha em mim, em cada sessão me revelando o mais aberto e acessível que sei ser. Também não sei se isso, junto do próximo, terá bastado, mas a minha consciência vive tranquila e em paz por saber que conseguiu alcançar o seu íntimo propósito. 
Talvez um dia mais tarde um daqueles alunos me reencontre num qualquer lugar e diga de sua justiça. Talvez muitos até já me tenham esquecido, mas… o que importa isso afinal? A semente foi plantada. Basta aguardar o crescimento da árvore. Recorrendo às sábias palavras de um famoso ditado chinês, embaralhando-as, sei que ofereci todas as rosas que tinha para dar. Nas mãos que as concederam, as minhas, habita a essência do seu delicado perfume. E durante largos anos aí perdurará. Disso eu estou certo.




Pedro Belo Clara. 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

RETALHOS DA SAGA DE UM ESCRITOR (PARTE I)


          Ao passar, num repente, os meus olhos pelo pequeno calendário da secretária do escritório, espanto-me com a crua evidência que me instiga a meditar na inevitável passagem do tempo.
É deveras espantoso constatar, conscientemente, o término de um ano completo. Especialmente quando as recordações do que então se experiênciou ainda permanecem tão vibrantes quanto o instante em que foram vividas. Ou a qualidade da memória é, de facto, extraordinária (ao ser capaz de reproduzir gravuras tão fidedignas) ou o próprio tempo escapa-se célere demais no seio da fugidia ilusão que ele produz. Seja como for, a realidade é inegável. Tenho, algures, arquivado um poema (testemunha dessa época) que constitui uma irrefutável prova.
Foi há um ano atrás. O céu cobria-se de um cinza completo e pelas estradas amontoavam-se inúmeras folhas acobreadas, proscritas de árvores em natural processo de renovação. Escusado será dizer que o Outono reinava, tal como hoje, em todo o seu esplendor. A brisa não era nem mais fria nem mais quente, e tenho a firme certeza de que os mesmos pássaros ainda hoje cantam nos mesmíssimos ramos. Em clima tão propício, é impossível não reviver a recordação.
Saí de Lisboa nessa manhã de Novembro rumo a uma simpática vila quedada no seio da mais alta montanha de Portugal continental. A escola local, muito gentilmente, havia me convidado para uma palestra de três sessões (nas quais eu seria o próprio palestrante). As mesmas seriam, à vez, dirigidas a outras tantas turmas de diferentes anos lectivos durante o período do final da manhã e início da tarde do dia seguinte. Apesar de tudo, o convite era justificável: um familiar meu leccionava nessa escola e, a seu pedido, enviava-lhe anualmente um exemplar de cada livro que publicava. Os mesmos destinavam-se, obviamente, à biblioteca da escola em questão. É claro que as doações baseavam-se em causas puramente culturais e educacionais, nomeadamente no aumento do espólio e das referências literárias disponíveis naquele local, para que os alunos livremente as pudessem consultar e retirar disso o maior proveito possível. Contudo, ao cabo de tanto envio, o director da escola fez questão de me lançar o desafio: visita ao estabelecimento e palestra aos alunos.
Assim, naturalmente honrado por tal convite, anuí. Apreciei a viagem tanto quanto me foi possível fazê-lo, demorando o olhar contemplativo por cada localidade que passava, por cada monte que subia e vale que atravessava. As ruas da cidade onde parei para por instantes almoçar foram igualmente alvo dessa serena prática, bem como os rostos com que me cruzei por sobre aquele sempre cinzento céu de Novembro. Era o prelúdio, somente, do que estava na iminência de se suceder.
Com voltas a mais ou a menos, fruto de algum hipotético engano (ah, GPS, quão a tua ausência foi notada…), lá me encontrei na vila que me aguardava, diante dos seus bem peculiares cenários dignos de uma beleza sóbria e altiva. Uma vez que não cumpri a dita viagem sozinho, aproveitei para desafiar as minhas fiéis companhias a empreender uma pequeno passeio pelas redondezas envolventes. Após confirmarmos a presença no acolhedor hotel que detinha as nossas reservas, depositar as bagagens e inspirar um pouco daquela quente (e acolhedora) atmosfera, fizemo-nos de novo à estrada. Que outra forma haverá de apreciar as virtudes locais? Pelo menos, de um modo mais aprimorado e tranquilo que uma mera passagem, célere e indiferente, poderia proporcionar.
Antes de mais, devo confessar que nunca havia estado naquele lugar. Para mim, tudo era novidade. Bem que poderia ter sonhado aquela vila, as suas ruas, a pequena ponte e o rio que a atravessa, ou pintá-la até com as mais belas cores que só uma fértil imaginação pode prover. Mas nada se equipara ao facto de vermos e sentirmos com os olhos do rosto e do espírito bem abertos o cenário que se dispõe à nossa frente. Já que me havia prestado ao passeio, aproveitei igualmente para realizar um extraordinariamente útil “reconhecimento de território”. Admito que o facto da vila ser pequena (pouco mais de três mil habitantes) ajudou de sobremaneira. Acabei, então, por me deslocar à escola local, encontrar-me com o familiar que lá leccionava e inspeccionar o sítio onde, no dia seguinte, o evento teria lugar. Ainda hoje evoco os comentário (tímidos) de alguns alunos que se cruzaram comigo no corredor e daqueles que, com olhares curiosos e bocas ansiosas, perscrutavam as redondezas sussurrando: «Será ele? Será o escritor?». Em silêncio, sorria.
De volta ao hotel, houve ainda tempo para relaxar um pouco enquanto o relógio não assinalava a hora do jantar. Assim que se reuniram as companhias devidas, restou-me desfrutar de uma das trutas que ali tão perto em viveiros são criadas e saborear a óptima conversa que durante o manjar foi sendo cultivada por todos os comensais. O tempo, é um facto, passou sem que ninguém desse conta disso. Fosse ele o incumbido de arcar com as despesas da refeição e bem que o hotel naquela noite poderia desfrutar do sempre eficaz auxílio de quatro pares de mãos extra na lavagem da louça remanescente!
No regresso ao quarto, antes de rever as palavras que no dia seguinte seriam com maior ou menor zelo proferidas, dei por mim a fitar o vazio da divisão. Um exercício estranho, talvez; mas, no momento certo, produz uma incrível sensação de despojamento. A consequência? Paz. Por mais efémera que se afigure. Devidamente protegido contra as investidas do gélido ar que por aquelas bandas pairava, acabei por me concentrar na revisão das ideias sobre a palestra e, quando o tempo se afigurou propício a tal, desfrutar, pelo menos em teoria, o melhor possível da noite de sono que tinha pela frente.
Não poderei dizer que me encontrava com os nervos em efervescência. Se o dissesse, estaria a mentir. E, estimado leitor, para consigo nunca desejei incorrer em semelhante falta. Por isso, é justo que admita: não em encontrava em ânsias tortuosas ou assistia a súbitos assaltos contra a minha segurança. Encontrava-me expectante, apenas. E receptivo. É claro que um actor, por mais experiente que seja, sempre sente um burburinho dentro de si antes de pisar o palco que é o seu lar. É o prelúdio da acção, o último esgar de sombra antes da luz raiar. Nada de estranho ou peculiar habita em tal evidência.
De certo modo, aquele tipo de trabalho não era novo para mim. Sob um determinado prisma de análise, evocava-me até alguns que realizara durante os meus tempos de faculdade. Na época, deslocava-me com um pequeno grupo de colegas a diversos liceus de Lisboa e arredores, com o intuito de promover junto dos alunos locais a nossa faculdade. Um trabalho tão simples e imensamente aprazível. Anos atrás, tive a oportunidade de publicar uma crónica onde descrevo uma dessas prazerosas experiências. Portanto, voltar a “discursar” perante os alunos de um liceu não era propriamente uma tarefa desconhecida. A diferença residia apenas nos alunos (estes seriam mais novos) e, claro, no conteúdo dos tais “discursos”. Desta vez, eu mesmo iria servir de tema de conversa.
Agora que revelo este aspecto do convite, devo explanar um pouco mais o seu conteúdo. Fui convidado para partilhar o meu caminho e visão sobre o mundo literário, e, com isso, divulgar as obras que até então havia publicado. Para os alunos da classe mais avançada, falaria ainda um pouco, a pedido da professora de português responsável, sobre Fernando Pessoa e a sua belíssima obra “Mensagem”, presença incontornável no programa escolar daquele ano em particular.
A questão a tudo fulcral não se prendia com os temas a abordar, uma vez que estes se encontravam ao perfeito e natural alcance da minha compreensão, mas com a minha vontade expressa de, como em tudo o que faço, primar pela diferença. Não por vaidade ou por um preciosismo excessivo, é claro não; mas por algo infinitamente superior: deixar impressa uma marca significativa e profunda nos meus ouvintes, por mais pequena que fosse. E nada mais me importava do que essa meta, estimado leitor, independentemente dos visados. Se sublinho essa mesmíssima intenção em tudo o que escrevo, por que motivo é que naquela ocasião seria diferente? Aliás, haverá mesmo algo de mais gratificante que sentir, intimamente, o efeito inspirador de um discurso humano e sensível? Eu poderia ser o veículo de tal concretização. Por isso, soube que a minha posição, naquele dia, exigia uma responsabilidade maior. E estava decidido a cumpri-la da melhor forma possível.



Pedro Belo Clara.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

CONVITE


Estimados amigos e amigas,


É com um enorme prazer que vos convido para a sessão de lançamento do meu novo livro, "O velho sábio das montanhas", dia 21 de Dezembro, pelas 16 horas, na livraria Les Enfant Terribles - Espaço NIMAS.



Antes da sessão, será servido champanhe acompanhado com patés diversos. Após esse momento de descontracção e boa conversa, dar-se-á início à apresentação da obra. 

Conto com a vossa presença!

Até breve.


«Entregou os olhos ao céu. Inspirou e expirou profundamente. De seguida, fixou os profundos espelhos da sua sublime alma num qualquer ponto infinito, num qualquer pormenor que somente ele era capaz de observar. Então, no meio de todos nós, da mesma forma como entre nós sempre havia vivido, a todos falou. Como se fossemos um só.»

Pedro Belo Clara in "O velho sábio das montanhas"




PS: https://www.facebook.com/events/199584233561741/










segunda-feira, 25 de novembro de 2013

ALTOS E BAIXOS


Se pensarmos no Caminho como um espaço físico (uma estrada, por exemplo, que se espraia por infindas distâncias), por certo não o imaginamos recto, plano e totalmente desobstruído. Pelo menos, na sua globalidade, não o conceberíamos assim. Seria natural que mentalmente se desenhassem curvas, morros, baixios e outros tipos de inclinações ou acidentes paisagísticos. Assim como este mundo material se preenche, em sua natureza, de vales, montanhas e planícies, também o Caminho, que se justifica ao ser percorrido pelo caminhante (caso contrário, seria somente uma ideia ou concepção filosófica), apresenta os seus peculiares registos de paisagens. Comummente falando, os seus “altos e baixos” – relevos que o adornam e que comportam uma prova para todo aquele que por tais meandros se aventure.

Poder-se-á pensar, para o efeito, que os ditos “altos”, ou zonas de maior elevação, sejam compreendidos pelas emoções mais atreitas ao festejo, celebração ou, simplesmente, ao sorriso. São experimentadas sensações que se revelam quentes e agradáveis, de vibração elevada, e capazes de fomentar uma aprazível experiência. A alegria, por exemplo, será um desses casos. Ao invés, nas demais identificar-se-ão, por senso comum, e seguindo a lógica apresentada, emoções como a melancolia, a tristeza ou a angústia. Sensações, por sua vez, frias e de vibração mais baixa. A presença da dor, nestes casos, pode ser invariavelmente comum – quer ao nível físico, quer ao nível espiritual. Assim, facilmente se entenderá que, por cada passada que no Caminho se invista, novas experiências e sucedidos tomarão o seu lugar. Com eles surgirá uma oportunidade de crescimento, de aprendizagem e de equilíbrio. Como remanescente, a emoção saboreada. Assim se vai recheando o caminho pessoal.

É claro que tal ideia aplicar-se-á a todo o viajante… Apenas se excluirmos a hipótese da transcendência, uma vez que esta, atributo derradeiro dos mais iluminados, naturalmente exclui toda a dualidade. E, no fundo, o que antes foi explanado obedece a esse princípio, fundamental ao bom girar da eterna roda que a existência terrena, com as suas sucessórias estações, é. Aplicando esse molde à ideia que tem vindo a ser transmitida, veremos que experimentar emoções não é mais do caminhar num círculo de sucessões constantes, vivenciando-se ora os “altos” ora os “baixos” que a humana condição pode oferecer. Como o Verão sucede a Primavera, o Inverno o Outono, o sol a lua, a chuva o tempo da seca, as experiências que se coleccionam pela estrada de uma vivência seguem o mesmíssimo propósito. E elas, como evento que se manifesta na matéria, isto é, no mundo físico, comportam a dualidade. Onde há amor, há dor; onde há alegria, há tristeza; onde há euforia, há depressão; onde há vitória, há derrota – é inevitável. Transcender é, por isso, ir além do dual e experimentar um estado de plenitude pura (não confundir com felicidade, pois também essa comporta o seu contrário). Ele é perene, fortemente iluminado e repleto de amor sem entraves ou condições, irradiando de dentro para fora. É nesse momento que a ilusão se quebra e a unidade primordial se revela. Contudo, se falamos de “luz” e de “amor”, facilmente se contraporá a concepção com recurso aos reflexos contrários destes: sombra e dor. Acontece que esse estado de iluminação é apenas a entrada para algo ainda mais superior (ignore-se o subtil pleonasmo). Esse, uma comunhão plena com tudo, é completamente extra-físico. Longa é a jornada de retorno a esse lar… Onde a unidade é finalmente recuperada. Além da luz e da sombra, pulsa o vazio… Um Nada que foi e é Tudo. Da mesma forma exacta em que no lugar de todas palavras está o silêncio, assim que estas cessarem ele, sua origem, fim e recomeço, sobressairá.

Com tais dizeres, não pretendi referir o «não-sentir» ou uma hipotética frieza emocional. O primeiro é um conceito distinto do que foi exposto, e o segundo uma defesa íntima do viajante desiludido, temerário e ferido. Transcender vai ainda para além desses conceitos ou atitudes instintivas ou pré-concebidas. Permanecer no centro elevado de nós próprios – eis o sentido mais translúcido da arte em questão. É um constante contacto com o fluxo energético superior, do qual somos todos uma pequena parte. Muitos viajantes, filhos de múltiplas causas, por diversas ocasiões experimentam estados idênticos, ainda que por efémeros momentos. Este viver (e permanecer) “acima das nuvens” significa estar-se imune aos efeitos da chuva que ocasionalmente tomba, em permanente contacto com o sol que então se revela. Não significa, contudo, que as experiências mais agrestes da vida material cessem para tais indivíduos. Nada disso. Tal estado até será constantemente posto à prova. Embora seja árduo de alcançar, mais árduo é reunir a disciplina necessária para o manter. A conquista da paz interior, no entanto, auxilia (e muito) na experimentação do mesmo.

Em forma de conclusão, pode-se assumir a imagem (ou ideia) de um estado de ser mais elevado e esclarecido, onde a pequena parte recorda a sua ligação ao todo e, assim, a personagem que no momento da vivência é cessa a sua influência mais directa. Então, o «estado de ser» transforma-se num quase «estado de não-ser». Focado não no vento que sopra, torna-se a folha que, suave, se curva e recurva perante o soprar do sopro primordial em sua existência. A ilusão mundana, como cristal que é, acaba por se quebrar perante tamanha luz alcançada, magnífica e excelsa, invocativa e evocativa. Contudo, para que a luz inunde uma divisão, é imperial descerrar as cortinas.

Mas não olvidemos o que antes havia sido debatido. Se retrocedermos no discurso, retomaremos o ponto dos “altos” e “baixos” que propositadamente povoam as existências. Importa, contudo, esclarecer o seguinte: a transcendência no plano físico não comporta o desfasamento desses relevos. Isto é, o sol e a chuva, metaforicamente falando, é claro, continuarão a se suceder e a verter os seus efeitos sobre o indivíduo. A única diferença reside na forma como este, em pleno estado transcendental, os recebe. Estar além da dualidade é constituir uma imunidade aos seus efeitos, embora não esteja a própria dualidade extinta. Assim se prova o quão possível é «viver na Terra como no Céu».

Não se ignore, ainda assim, a evidência de que o caminho até esse estado sublime se pauta por experiências e provações, por vitórias e derrotas. A dualidade deve ser provada para que conquistada possa ser. E em definitivo tal só se reclama quando as paixões, por exemplo, são saboreadas em constante equilíbrio. Não serão reprimidas, ignoradas ou obedecidas… Mas experimentadas de um modo moderado, apenas. Para isso, bastará saber minimizar os seus fortes apelos. Pois, como aquele que vive e caminha sabe, se seguidas elas tornar-se-ão destrutivas. Afinal, o viajante terá de abandonar o seu plácido centro para seguir no encalço da emoção. Mas tal não significa que não se munam de propósito ou cessem de comportar um relevante sentido.

Admita-se a seguinte imagem: se no topo de uma montanha a visão é claramente mais ampla e esclarecedora sobre a paisagem circundante, é a partir de um vale ou de um terreno côncavo que a visão dessa montanha, em si, se torna possível. No seu cume, apenas nos deslumbramos com a paisagem em redor, mas ignoramos o local onde efectivamente nos encontramos. É fácil esquecer as etapas que ao cume nos guiaram, estando este já conquistado. A visão que só o vale oferece é, assim, igualmente preciosa: auxilia-nos a recordar a beleza da montanha e o quão deslumbrante foi admirar aquele horizonte invencível. Poderá causar desagrado esse “baixo” na existência, mas só ele nos permite compreender a vera bênção que aquele “alto” constituiu.

Por diversas ocasiões, ignora o viajante a sua própria efemeridade. Ao longo da caminhada existencial, enquanto se recorda, se salda, se aprende ou se granjeiam as ferramentas necessárias à conquista da etapa, é não raras vezes consumido por um espírito de tamanha invencibilidade. Mas a condição humana, sob o ponto de vista material, é precisamente o oposto: efémera, como os demais elementos que compõem os tangíveis cenário em seu redor. A sanidade, ou a boa saúde física, apenas se poderá revelar um dado adquirido quando experimentada em seu esplendor. Parecerá eterna; mas, tal como as chuvas que chegam após o sol, não o será. Assim que se vive um “alto”, o seu “baixo” correspondente de pronto se anuncia. Ambos são a sombra um do outro, aguardando a hora em que dela irrompa uma reveladora luz - eis o simples suceder das estações. Neste caso em contrário, isto é, tendo a sanidade como exemplo, o seu contrário será a doença. Ela até encerra um motivo de aprendizagem, pois, ao ser consequência de algum comportamento menos equilibrado ou funcional, denuncia o que de errado tem sido feito ou assumido. Seja qual for a sua índole, origem ou gravidade, sempre é um válido e eficaz “despertador de consciências”, uma vez que se traduz num apelo à mudança e à elevação do ser em causa. É, portanto, uma ocasião de transcendência.

Poderá parecer dura, agreste ou injusta, mas constitui um rombo no casco da defesa humana, frágil e temerária, a quebra da máscara onde por tantas vezes o viajante se oculta e protege. Em todo o caso, conferir-lhe-á uma visão diferente sobre os sucedidos e a ordem sob a qual tudo se rege. A verdade é que sem ela não existiria lugar ao crescimento e à evolução. O que serviria permanecer no cume da montanha em plena (mas estagnada) alegria, vivendo de ilusões experimentadas? O apego é um veneno para toda a alma que anseie pela ascensão. A jornada deve ser cumprida até ao seu fim. Todo o viajante que não cumprir o seu desígnio, voltará ao caminho, uma e outra vez, até que se despoje de todas as bagagens, dívidas, feridas e dores. Não será preferível, antes, beber da alegria que nos é dada e, findada essa etapa, partir de pronto para a próxima? Um rio flui… Da nascente até à foz. Para quê temer o que nos espera, sem sequer o conhecermos? Essa visão toldada do Caminho assenta-se num medo íntimo e sem fim… Julgar dessa forma é desconhecer o que nos rege e, como tal, recusar aceitar o supremo bem de todas as coisas.

A dor nunca é desejável, claro… Mas é amplamente necessária. Assim como aceitamos o sol, aceitemos de igual modo a chuva. Ambos têm a sua validez, a sua crucialidade. Importa compreender a valiosa lição que trazem consigo. Nada do que se sucede no Caminho é fruto da casualidade. Se o viajante conseguir efectivamente ver à luz da sabedoria pessoal, saberá da inteligência não visível que tudo rege. Nada é por acaso. Nada se opõe ao Homem. Este é que, por sua vez, se opõe a inúmeras coisas. Rema contra a maré dos acontecimentos e morre de cansaço ao lutar contra forças que se recusa a aceitar e compreender. Os “acasos”, como tantas bocas gostam de os apelidar, são apenas causas e efeitos de outros gestos e de outras decisões, muitas vezes perdidas na linha do tempo… Que é recta e infinita. Apenas aqui, no físico plano, pela visão adoptada ser mais densa e restrita, é que tal visão não é assumida. Se nos elevássemos, veríamos o Tempo encaixar na perfeita metáfora de um rio que corre, sem começo ou fim – e onde tudo se sucede no mesmo exacto tempo.

Tudo detém a sua causa, o seu motivo, a sua razão; assim como todo o fruto guarda a sua semente. Apenas quando este se extingue é que a semente, até então protegida, mergulha nos braços da terra que a ela se abrir, iniciando o seu processo de germinação. Os sucedidos, ainda que tal não esteja visível ao viajante, ocorrem em prol do mesmo… Conspiram a favor daquele que caminha. E, querendo ou não, todos nós partilhamos este mundo de ilusões, todos nós nos quedamos perante as mesmas hipóteses e condições. Apesar de nos diferimos na forma como lidamos com tais aspectos, aplicando maiores ou menores doses de íntima sabedoria. Desse modo, cada um fará o seu próprio trajecto, em prol – que assim seja! – do seu benefício supremo.

É importante que a mente de cada um permaneça limpa de superstições, receios e tensões. Uma mente leve vê com maior clareza e clarividência. Sendo saudável, viverá elevada – focada nos mais luminosos princípios. Desde logo, esse é o primordial passo para a transmutação do estado “baixo” antes referido: a doença. Falo, claro está, da cura. Principiando-se no âmago de cada um, qual resposta à mais incessante das perguntas, encontra-se à simples distância de uma intrépida decisão. A transcendência para os casos doentios, que ao longo das vivências vamos coleccionando, detém-se, portanto, num conjunto de crenças em válidas razões, ainda que desconhecidas, e na certeza de que o primeiro passo a empreender compete ao sujeito em causa – tudo se encontra ao alcance de quem se dignar a estender um braço. Tal concede, desde logo, uma paz prometedora. Afinal, não estamos tão sós quanto ilusoriamente julgaríamos, no seio de uma tão alucinante dor. Aquela ferida poderá ser íntima, mas muitos, seja antes ou depois, partilharam ou partilharão da mesma. Todo o remanescente do processo será cumprido através do notável suceder de todas as coisas. Mas, antes de tudo, importa não perder o proveito que a nova experiência comporta – apesar de dolorosa.  

Se um comboio passar junto da sua estação, que o viajante o não perca. Ao fazê-lo, estará também a perder uma viagem deveras singular e tudo o que ela poderá abranger. Porque não arriscar? Porque não fluir? Porque não aceitar? Grandes bens eclodem na abdicação do “eu”… Sem nunca deixe de ser aquilo que é. Muito pelo contrário: apenas será aquilo que na verdade sempre foi. O que julgava que era não passava de uma roupagem, um disfarce temporário tido como real pela ilusão material do plano onde se encontra. Abdicando, fluirá… E entregar-se-á a um Bem supremo. Confiando nas ocultas (mas certas) razões, saboreará ao longo do percurso a mais aliviante das sensações que somente o mais inominável dos confortos poderá conceder: a serenidade de quem cultiva uma fé.





Pedro Belo Clara.






segunda-feira, 11 de novembro de 2013

CERTA NOITE, NUM QUARTO SEMI-ILUMINADO


            Em finais de Novembro de 2010 tive a oportunidade de apresentar ao público português o meu primeiro livro. No caso, de poesia. Nem outra coisa seria de esperar, diga-se; pois, à época, nove em cada dez trabalhos meus eram do género poético. Não possuo uma explicação plausível ou lógica para tal evidência, à excepção do facto da poesia sempre ter fluido por mim com uma naturalidade maior do que as restantes formas de literatura. Mas até esse dia nascer, como desde logo se pressagia, muitos outros foram mastigados e engolidos com esgares nem sempre agradáveis, o que deixa desde já antever a complexidade inerente ao próprio processo de edição – desde o momento em que decidimos enveredar por um caminho literário até ao ansiado instante que marca a publicação da obra de estreia.
            Se escrever um livro é uma tarefa complexa, ainda que deveras aprazível, editá-lo é simplesmente um acto que exige forças supra-humanas. Ao nível, provavelmente, segundo rezam os anais da mitologia grega, dos trabalhos que Hera incumbiu ao seu famoso enteado Hércules. Afinal, lidamos com diversas emoções que, qual miríade de pipocas implodindo no microondas, não cessam de vibrar por todas as fímbrias do ser: ansiedade, insegurança, frustração… Sei lá eu o que mais! Todos os que já se aventuraram por tais trilhos compreendem perfeitamente o que pretendo transmitir. Contudo, apesar do cenário geral – e eis a loucura suprema –, movidos por ocultas forças lá acabamos por perseverar em tão longa jornada. Assim se prova o quão capaz poderá ser a força de um verdadeiro amor.
            Assumir o que o coração mais nos implora não é um acto simples de executar. Pelo menos, não tão simples quanto poderá parecer. Escutá-lo até que se afigurará fácil, mas para seguir as linhas do que nos dita requer-se coragem (e uma certa dose de loucura, é claro). Quando chegou a minha vez de decidir um destino, no seio daquelas encruzilhadas existenciais em que ou escolhemos o trilho da direita ou o da esquerda, o comprido azul ou o vermelho, optei pelo caminho menos trilhado, menos provável e menos explorado – ignorando ainda, devo admitir, as belezas que tais rumos sempre encerram por tão poucas vezes serem visitados ou percorridos. Posteriormente, evocaria as célebres palavras do poeta Robert Frost: «Two roads diverged in a wood, and I — / I took the one less traveled by, / And that has made all the difference.» Hipótese de tradução: «Duas estradas bifurcavam num bosque, e eu / Eu segui pela que fora menos utilizada, / E isso fez toda a diferença».
            Sorri, quando me confrontei com este dizer. De certa forma, era um alento para a jornada que eu próprio me aprontava a empreender. Toda a escolha comporta uma consequência (não fosse ela uma forma de acção), mas estava preparado para assumi-la. Para o melhor ou para o pior, ao menos seria “à minha maneira”. Nem de sua justiça Sinatra diria melhor. Aliás, a própria mensagem dessa intemporal canção foi o inspirado mote que impulsionou a minha decisão. A partir daí, nada seria como dantes.
            Se aqui dou a conhecer uma parte do meu início como escritor, com os respectivos sentimentos, escolhas, pensamentos e decisões, é por sentir que para se compreender melhor o meu trabalho e a pessoa que sou importa antes perceber as circunstâncias em que tão decisivas opções foram tomadas. Afinal (publicamente me confesso), abdiquei de uma possivelmente bem sucedida carreira bancária para seguir os mais íntimos intentos deste sempre sábio coração. Terei chocado algumas consciências? Não foi a primeira vez. Como justificar uma certeza que é tão íntima? Somente aquele que a sente a poderá compreender e, posteriormente, seguir o seu subitamente iluminado rumo. É óbvio que o início de um novo caminho apresenta inúmeras dificuldades, testes à resistência do incauto caminhante que se apronta para tamanha empresa. Mas, se efectivamente desejar sentir a suavidade das pétalas da rosa que indaga, terá naturalmente de ultrapassar todos os espinhos que a compõem. É, de certo modo, uma forma de se provar digno do destino que escolheu.
As dúvidas eram gerais… E múltiplas. Ainda assim, não me demoveram do propósito. Aquilo que desejava e que como um apelo sentia a ribombar em mim era forte demais para ser ignorado ou proscrito como qualquer vestimenta que abdicamos ao longo do percurso. Era o que mais felicidade me proporcionava. E, sabendo-a não um fim mas antes uma continuidade, apliquei-me por garantir a sua companhia ao longo da jornada – tanto quanto me fosse possível. É claro que por vezes ela se eclipsava, mas… qual o dia que se diz sem chuva? A vida é impermanente: um conjunto de estações que ininterruptamente se sucedem. Há que saber lidar com tal característica tão primordial e intrínseca. O caminho que escolhemos encarrega-se de nos instruir nas especificações do mesmo. Basta estarmos atentos e receptivos.
Enfim, para poupar o leitor a detalhes possivelmente enfadonhos, resumo a ideia: o crucial é assumir a escolha, dar o melhor de nós próprios e… acreditar. Existe, contudo, uma diferença expressa entre “desejos” e “apelos”. Os primeiros são muitas vezes resultados dos devaneios de um corpo de prazeres ou de uma iludida alma que a eles perdidamente se entrega, sem vestígios de harmonia e equilíbrio; os últimos são os ecos da voz da alma, profundos, íntegros, genuínos… E não em raras ocasiões são o mais fiel guia que um Homem pode possuir em dias de tempestade. Haja sabedoria para os distinguir!
Mas, naquele tempo, ainda não compreendia totalmente o meu raio de actuação enquanto escritor. Sabia que queria seguir por essa via. Apesar de tão árdua e parca em estabilidade futura, ainda assim a queria. E a alma nunca cessava de me recordar tal coisa. Era por ali o caminho, e era naquela decisão que tudo se concretizaria. A criação literária trazia até mim um conforto extraordinário, uma felicidade imensa! Como poderia ignorar tal coisa? Renegar tamanha bênção? Por isso, confiei no meu sucesso. Tanto quanto hoje nele ainda confio. Não é uma extensão da arrogância esta íntima crença, mas uma forma de se perseverar no ofício que desenvolvemos. Cheguei a uma idade em que compreendi: se não confiarmos veramente em nós próprios, no nosso trabalho e em nossas acções, ninguém mais o fará. Pelo menos, com a força que só os visados conseguem (e podem) imprimir. Assim sendo, restava seguir em frente… E atravessar todas as brumas que assomavam ao horizonte.
Nos dias que correm, com outra perspectiva, naturalmente mais madura, ponderada e transcendente a muitas poeiras que as questões nunca respondidas levantam, entendo a totalidade do meu trabalho e a minha real função enquanto escritor. Acredito piamente que todo o Homem pode ser um farol para o seu semelhante. E o papel que escolhi é somente uma forma de justificar essa crença. O importante é cada um compreender a sua própria natureza, aceitá-la e, mediante o que se lhe apresenta, optar pela via que mais servirá o seu carácter. Assim, permanecendo e evoluindo no “lugar certo”, cumprindo as “certas funções”, dará um contributo muito mais eficaz e valioso a si próprio e ao colectivo que o rodeia.
Dias e dias de dúvidas, frustrações e poucas certezas depois, sempre com uma fé intensa no provir, mesmo em alturas onde as fundações lhe faltavam, eis que chega o momento de publicamente apresentar o meu primeiro livro. É extraordinário como aquele pequeno objecto consegue resumir tantos suspiros e dores… Memórias do processo findado, sem dúvida. Cada etapa vencida guiou-me até aquele dia. A primeira vitória foi nunca claudicar perante a subtil descrença que sempre sobrevinha de tempos a tempos (acima de tudo, é crucial persistir e jamais desesperar), mas naquele momento deu-se o glorificar de todo o negrume. Justificou-se, em suma, na luz daquele dia singular.
O evento correu optimamente bem, rodeado de amigos, familiares e simples curiosos. Dar autógrafos foi a grande novidade, mas posso abertamente afirmar que tal experiência se revelou bastante prazerosa. Nem poderia imaginar algo melhor. Entretanto, já tive a oportunidade de a repetir por mais duas ocasiões ditas “oficiais”. Em breve, dar-se-á a terceira – felizmente. Mas mais importante que isso é sentir o apoio e a amizade daqueles que nos querem bem. Entre todos a dúvida pode ser geral, a princípio; mas as pequenas vitórias vão igualmente provando aos demais o nosso empenho e vontade em proliferar no rumo que escolhemos. No final, somente contam os sorrisos e os desejos luminosos. Recordo os votos que no término desse dia uma amiga muito querida tão amavelmente me endereçou: «que continues a ser o orgulho da tua família e amigos». O que dizer perante tal coisa? Tempos depois, um outro amigo me confessaria o seguinte: «É desta! Vou iniciar um negócio por conta própria… E tu, com as decisões que tomastes em tua vida, foste um exemplo para mim!». Continuo sem saber o que dizer em resposta.
Eis algo ao qual na altura permanecia cego: o simples facto de poder primar pela diferença ao assumir uma escolha tão ilógica quanto incomum. Confesso que ignorava, de todo, essa hipótese. Mas os dias consumidos, como ondas de um mar de experiências, até às minhas orlas trouxeram a evidência: é possível ser-se um luminoso exemplo e sobre os demais exercer uma influência positiva através da afirmação daquilo que nós próprios somos. Na verdade, nem sei ser outra coisa além daquela que sou, neste tão breve tempo de vida.
A mais simples palavra, dita e assumida no mais casual dos instantes, pode comportar consequências extraordinárias! Não considere o leitor que com tudo isto me envaideço, pois o meu trabalho, e principalmente a intenção que o pensa, estará sempre em primeiro lugar, mesmo em relação à minha pessoa. Esta surge até em último lugar, uma vez que antes ainda se contam aqueles que sirvo através do ofício que laboro. Sejamos sinceros: o que deverá ser o obrar de um trabalho, se não uma material manifestação do amor? E de que serve o amor se não for dirigido àqueles que nos rodeiam? O Amor, meu caro leitor, é a chave que abre todas as portas, a sementeira a partir da qual tudo floresce, a base sobre a qual tudo se constrói.
Como entenderá aquele que agora me lê, nada de mais profundo poderei eu experimentar do que uma expressa gratidão por tudo aquilo que tão generosamente tenho recebido. É um privilégio, deveras. Sei-me intimamente abençoado. Além do mais, o meu trabalho justifica-se sempre que uma luz se reacende em meu semelhante. Afinal, é para ele que escrevo, é por ele que faço aquilo que faço. Porquê? Nem o sei… Apenas por ser assim que deve ser, apenas por ser desse modo que a minha existência se “encaixa” na eterna roda da vida. Os chineses, porém, no auge da sua sabedoria encontram uma belíssima razão: «Fica sempre um pouco de perfume na mão que oferece rosas». Nem todas as respostas estão disponíveis no consciente humano, mas essa é a minha intenção mais primordial. Pelo menos, consigo identificá-la e reunir os meios para a cumprir. E o consequente sentimento é a doce realização.
O caminho é longo, bem o sei… Ainda há tão pouco tempo nele me iniciei. Tenho o hábito de repetir uma expressão que um dia escrevi: «Nuvem após nuvem, até alcançar as estrelas». Apenas para que com essa luz própria uma outra possa ser incidida sobre toda a face que a ela se dirigir. Assim, abertamente afirmo: sou um homem feliz. Restrições? Claro que as há! Indiquem-me uma existência que esteja desprovida delas… Sou um homem feliz. Lamentosamente, nem todos poderão dizer o mesmo; mas oxalá um dia ainda o possam. Desejo-o fervorosamente. O meu testemunho é apenas a minha simples história, tão igual a qualquer outra. Em muitos casos, as ocasiões e os eventos são semelhantes; a diferença reside somente na forma como cada um de nós as aproveita e os vive. Ainda assim, espero que uma nova madrugada possa irromper na vida de tais caminhantes (uma simples metáfora para o que no fundo aqui somos: os caminhantes de uma extensa jornada existencial). Ou que uma qualquer alma se possa rever e encontrar em alguma linha desta crónica que escrevo e com sincero amor compartilho. O fruto, pelo menos, foi colhido e aqui se deposita. Que aquele que fome sentir possa encontrar a sua ansiada satisfação.
Muito há ainda a percorrer… Naturalmente. Mas permaneço diante da minha estrada mais vibrante e sorridente do que nunca. O infinito alonga-se no horizonte e a cada dia me aproximo mais do intento final. Tem sido uma jornada incrível… Perguntar-me-á o amigo leitor: valeu a pena? Vale a pena todos os dias! Por derrotas e vitórias vale um milhão de penas. Faria tudo de novo, se tal me fosse proposto em desafio. Indubitavelmente. E a julgar que tudo começou com um simples pensamento, com uma decisão a implorar o seu definitivo assumir… Há apenas três anos atrás, numa noite de reflexão, no mesmo quarto semi-iluminado onde agora me apronto a encerrar esta crónica.


Pedro Belo Clara.




PS: Dedico estas longas linhas à minha amiga e talentosa poetisa Paula Marques, que muito em breve estará a lançar o seu primeiro livro de poesias.


Nenhum caminho é igual a um outro. Ainda assim, deixei impresso o meu testemunho, resumido à sua forma mais crucial. Que nele consiga se rever e compreender que as dificuldades que experimentamos não nos assistem exclusivamente – em diversas circunstâncias são um lugar-comum. Assim, estreita-se a solidão do Homem. Felicidades à dedicada e a si, leitor, se por ventura se prepara para trilhar um caminho semelhante. Saibam, ambos, que alguém que sofre e ama como vós já trilhou rumos idênticos; saibam que não estarão sós; saibam que valerá a pena se permanecerem fiéis a vós próprios. E não se esqueçam: a vida é um sopro. Dêem-lhe forma!  


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

PECULIARIDADES DE SE SER EUROPEU

          
Aqui, repousando placidamente numa esplanada aberta a uma tão agradável tarde de início de Outono, não renego o pensamento que sublinha as peculiaridades que fazem deste país e da grande maioria das nações do velho continente locais deveras singulares e especiais. Todos os povos detém as suas características, é certo, e os portugueses, honestamente o digo, possuem traços bem particulares e distintos dos demais europeus. Contudo, não é sobre esse assunto que pretendo me debruçar. Afinal, encontro-me numa esplanada. E que outro local mais propício a ideias de união, sejam elas filosóficas, literárias ou musicais, poderá existir do que uma esplanada? A mera extensão do berço onde nasceram, outrora, tantos ideais que revolucionaram o continente e o próprio mundo?

De facto, a Europa das culturas criou-se em redor dos cafés. Desde A Brasileira, em Lisboa, onde Pessoa maturou as linhas do seu génio grandioso, ao famoso Café de la Paix (O Café da Paz), perto da Rue de la Paix (Rua da Paz), em Paris, onde o poeta canadiano Robert Service escreveu o poema “The Absinthe Drinker” (“O Bebedor de Absinto”). Ou o Café de Flore, por exemplo, onde por horas infindas Sartre e Beauvoir debateram as suas filosofias. E isto sem esquecer, de entre muitos outros, os cafés da Dinamarca onde Kierkegaard discorria e de Viena, na Áustria, onde certo dia um largo grupo de amigos se dispôs a escrever uma só sinfonia. É inevitável: na Europa citadina respira-se cultura!

Ainda que estes exemplos sejam partes de um passado, é importante compreender que novas ideias podem irromper de antigos berços. Neles, a mesma energia, a mesma atmosfera inspiradora e cativante ainda se faz sentir, quase que implorando por uma via de manifestação imediata. Impresso este dizer na folha branca e de pronto me assomem à memórias as palavras que George Steiner proferiu na sua iluminada palestra que se tornou o belíssimo ensaio “A Ideia de Europa”: «o café é um local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais». E isso é, em regra geral, um privilégio da Europa.

Por mais grandiosas que possam ser outras nações de outros continentes (tomemos o exemplo dos Estados Unidos da América), a verdade é que elas não desfrutam de tão peculiares características que, como antes referi, são o autêntico berço dos renascimentos culturais. É uma questão inata, mesmo, uma forma de abordar, em primeira instância, a concepção de uma cidade. Ao passearmos por Nova Iorque, no seio do seu alvoroço que é, simultaneamente, dinâmico e atraente, entre as luzes, os edifícios gigantescos e a constante noção de que tudo o que a compõe é altivo e, diga-se, enorme, visitamos a Quinta ou a Sétima Avenida, entre outras hipóteses. Em suma, ruas e mais ruas que sobriamente foram organizadas e nomeadas através de simples números. Existem excepções, é claro. Mas veja-se o caso europeu: as mesmas ruas, mais amplas ou mais estreitas, evocam o nome de poetas, romancistas, filósofos, dramaturgos, estadistas e até mesmo de grandes batalhas de outrora. São, indubitavelmente, locais onde a história está a ser constantemente revivida, mesmo que pouco ou nada saibamos sobre ela. E, como tal, numa espécie de simbiose cultural, esta não corre o risco de cair no olvido.

Se tal acontece na Europa é porque o velho continente é pródigo em acontecimentos marcantes que fazem a história de hoje, graças à sua evidente ancestralidade quando comparado, por exemplo, com o dito “Novo Mundo”. Mas essa característica não se torna obsoleta ou alvo de ataques jocosos. Muito pelo contrário! É sobejamente aproveitada e reafirmada como orgulhosa característica, concedendo à atmosfera que a envolve um teor mais elevado, translúcido e limpo. Pois não se trata apenas do nome das ruas ou das estátuas que embelezam as praças. Os próprios locais fazem questão de orgulhosamente preservar a sua memória mais preciosa. Em Lisboa, por exemplo, basta referir o café Nicola para logo se evocar a figura do poeta Bocage que ali sempre saboreava o seu indispensável cafezinho.

A Europa é isto: história e cultura! À parte de todos os demais defeitos que, como em qualquer outro caso elevado à categoria de exemplo, lhe poderemos apontar. Esqueçamos, por hoje, tais questões. Foquemo-nos somente naquilo que nos prende a atenção. E, estando eu nesta esplanada aberta a uma tão agradável tarde de início de Outono, é perfeitamente compreensível que livremente discorra sobre tais matérias, a meu ver, fascinantes.

Não direi, contudo, que neste caso o banal comporta o grandioso. Ou seja: muito provavelmente, o casal que se senta bem à minha frente não discute Kafka ou as problemáticas do “eu” comportadas pelo existencialismo de Sartre; apenas factos normais da vida quotidiana. Mas… e se tal não se verificasse? E se debatessem mesmo a obra de Kafka, o existencialismo de Sartre? O quão espantoso não seria testemunhar, neste berço igual a tantos outros que do mesmo modo se revelaram profícuos, o debate de novas ideias e de novas concepções? Um novo entendimento da poesia? Uma revolucionária visão sobre a forma como consumimos a música contemporânea? Enfim… Devaneios de idealista, por certo. Embora acredite que outras cores revestiriam este lugar, bem mais vivas e pulsantes… Essa é uma esperança de que nunca quererei abdicar.

Escrevo estas linhas e recordo um episódio que horas atrás testemunhei na secção musical de uma conhecida cadeia comercial. Pois ele é bem representativo de uma das consequências da estrutura cultural que suporta a grande parte dos países europeus: a espontaneidade. Então, como dizia, estava eu a caminhar pelo corredor do dito espaço quando escutei uma simples (mas bela) melodia a ser perfeitamente completada por sua suave (e doce) voz feminina. Frágil e quase tímida, sim; mas dona de uma harmonia espantosa. Ora, escusado será dizer que a atmosfera de tal lugar de pronto se modificou. Admito que, por breves segundos, pensei que se trataria de um qualquer DVD que, como lá é habitual, estivesse a passar num dos ecrãs. Nada disso. A voz provinha de uma jovem que, num súbito impulso, havia pegado num bandolim que se encontrava exposto e, com o auxílio de um amigo que amparava uma guitarra clássica, lá ia esboçando as linhas da sua improvisada melodia.

Cultura manifestada na sua mais espontânea e pura forma: é tão agradavelmente contagiante! Não irei afirmar que tais exemplos são exclusivos da Europa. Nada disso. E ainda bem que assim é. Pois a arte é apenas a expressão, em forma sublimada, da alma humana. Embora outros países não disponham da mentalidade cultural que se formou na maioria das nações europeias, tal não significa que a mesma neles permaneça inerte. E a encarnação de tamanhas dádivas assume-se, por exemplo, nos músicos que povoam as ruas de Nova Iorque, nas melodias improvisadas nos cafés de bairro no Brasil, nos tangos sussurrados em bares argentinos, nos ritmos entoados nas secas vias que traçam caminhos por essa África fora – entre muitos, muitos outros.

É isto que, em suma, me cativa e atrai: a naturalidade da arte, a partilha incondicional de talentos, a celebração da própria criação improvisada no instante mais fugidio! E, volto a repetir, a atmosfera que se cria em tais circunstâncias. Pois viver com e pela cultura é, indubitavelmente, conquistar um lugar superior de consciência e de convivência social. Sim, a cultura engrandece e alteia o Homem. Efectivamente autêntica, livre e acessível a todos. Numa opinião muito pessoal, esse factor, aliado à preservação de todo um legado valiosíssimo, é o que torna a vida citadina europeia bem mais suportável. Pelo menos, por instantes se olvidam os apertos paisagísticos do betão, as múltiplas perturbações dos múltiplos ruídos e a permanente sensação de encarceramento. Na manifestação da arte e na sua difusão, a alma encontra fluidez e uma aprazível sensação de liberdade.

Se agora somarmos todos os factores culturais ligados à Europa, compreenderemos uma das vantagens que, a esse ponto, o continente, em regra, nos oferece: a possibilidade, sempre presente, de construir o amanhã através das escolhas que hoje se assumem, mais elevadas, humanas e justas. Que será, afinal, a cultura? Se não um meio de junção de povos e de celebração da sua identidade? O que comporta, então, essa valiosa vertente, por tantas ocasiões lamentavelmente ignorada, se não a educação das gerações vindouras? É um legado que se confia de herdeiro para herdeiro.

Ainda que seja nativo de um país que, por opção política, provisoriamente aboliu o ministério que tutelava a cultura, não me importo agora com as temporárias restrições que nada são quando comparadas com a perene invencibilidade de outros valores e ideais bem mais elevados. Afinal, como alguém um dia afirmou, poderão matar todas as flores, mas jamais matarão a Primavera. Continuarás europeia, Europa, fiel ao teu estilo mais íntimo, pois por teus territórios haverá sempre alguém a defender as gloriosas virtudes que ostentas. Assim, permanecerás livre. Tão livre quanto o pensamento daqueles que te idealizaram.

Volto a saborear o café. Tranquilo, sorrio por ser e me sentir veramente europeu numa esplanada que bem poderia ser o centro do mundo. Hoje, e mais do que nunca, respiro o mesmo perfume que outrora tanto inebriou as iluminadas mentes de outrora.




Pedro Belo Clara.   

domingo, 6 de outubro de 2013

UM DOMINGO DIFERENTE


Como o caríssimo leitor está por certo recordado, na última crónica que tive o imenso prazer de assinar neste espaço referi, de entre outros assuntos, as eleições autárquicas que num domingo próximo se desenrolariam em Portugal. Ora, acontece que esse domingo já se findou e são os sobejos do mesmo que hoje compõem a razão desta crónica.

Sempre que o clima eleitoral se faz sentir, evoco os dias da minha infância. Não propriamente das enfadonhas campanhas, dos discursos que para a criança que era se afiguravam vazios e complexos (estranha virtude!) ou dos habituais passeios pelas cidades que, à boa moda circense, se enchiam de bandeiras e aplausos. Nada disso. Tais etapas eram apenas os passos necessários que nos guiariam ao grande dia. E é a ele que me referido: ao grande dia! 

A bem da verdade, pouco mudou desde então. Pelo menos, no que ao prelúdio do processo diz respeito. Em geral regra, e digo isto com um certo pesar, as campanhas continuam enfadonhas, os discursos vagos (ainda que implacavelmente oportunistas) e os passeios de angariação de votos são completos desfiles circenses. É, assim, quase sempre difícil compreender a linha da verdade no meio de tanta máscara. Se me refiro agora a tais circunstâncias, é porque as mesmas me incomodam; desde logo, pelo aroma a falsidade que exalam. Ainda assim, gosto de acreditar nessa espécie em extinção que é o “político honesto”.

Contudo, nos tempos da infância, era óbvio o meu diminuto interesse por tais questões. É que nem sequer delas me apercebia. Eram, como referi, um crescendo de acontecimentos que, invariavelmente, iam desembocar do dia da votação. Esse sim, para mim, era o maior feito! Havia algo de especial em dias como aquele. Não só por ser o que era, claro, mas pelo próprio acto de exercer um «dever cívico». Creio até ter cultivado um certo deslumbre sobre essa expressão no imediato momento em que a escutei - «dever cívico». Ah, as coisas maravilhosas que povoam o mágico mundo dos adultos…

Lembro-me perfeitamente de, pelas várias ocasiões que ao longo daqueles anos surgiram, fazer questão de acompanhar os meus pais ou avós no exercer de tal acto indispensável ao bom funcionamento de uma democracia. Como os dias eram sempre de fim-de-semana, a ocasião era duplamente especial. Quem não aprecia um domingo diferente? Os melhores fatos eram usados, os cabelos aprimorados, as gravatas bem afinadas! Excluindo o meu pai, diga-se, pouco ou nada dado a esse apêndice de seda. Mas… que importava isso? O dia era de voto! Quantos suspiros eu soltava, em ânsias contidas, sonhando pelo dia em que eu próprio estaria apto, segundo a sociedade, a exercer tão sagrado direito… Até lá, teria de me contentar em dobrar pequenos papéis com cruzes e depositá-los na minha urna improvisada, o pequeno caixote do lixo doméstico. Vazio e limpo, claro está (pois de sujeiras já o mundo político está cheio!).

Julgo que o meu encanto, mas do que o acto em si, residia na mágica atmosfera que àqueles dias era inerente. A importância, senão mesmo crucialidade, da acção propriamente dita era algo impossível de ignorar. A simples ideia de um mero cidadão poder contribuir para os destinos do seu país era, de igual modo, a grandiosa expressão que resumia todas as envolvências experimentadas. Fascinante!

Mas o dia não se queria assim tão incipiente ou incompleto. O dever era orgulhosamente cumprido pelos adultos – enquanto eu, sempre curioso, viajava de cabine em cabine para conferir as opções políticas dos familiares –, mas, findado o acto, todos nos reuníamos para desfrutar da seguinte etapa do nosso passeio de domingo. Como a hora escolhida para votar era geralmente a matinal, seguia-se, obviamente, o saborear de uma refeição a preceito. Por isso, os dias de voto eram, invariavelmente, dias de celebração familiar. Talvez esse aspecto só sublinhasse o gosto e a importância que à data eu conferia. Mas não éramos caso único. Era comum, lembro-me, ver casais com crianças como eu, e até indivíduos mais idosos, na companhia dos seus deslocarem-se aos locais de voto de carro e, cumprido o «dever cívico», seguirem para um restaurante com o intuito de partilharem os remanescentes instantes daqueles domingos felizes. Parecia ser algo inquestionável: dia de votação implicava almoço de família.

Satisfeitos os apetites, retornávamos ao lar e, ao início da noite, conferíamos as primeiras projecções dos resultados que seriam os finais. Depois, era celebrar ou resignar conforme os ânimos e as inclinações de cada um. E adormecer feliz, claro, após um dia muitíssimo bem passado na carinhosa companhia de quem mais amava (e amo! – é importante que acrescente esse facto). Simples ou não, era a nossa tradição.

Mas os anos passam e certas coisas tendem a tombar nos negros abismos do olvido. Não só para os próprios como para quem os rodeia. No passado domingo, como o leitor já o sabe, fomos a votos. É verdade que a persistente chuva que se abateu por Lisboa naquele dia afastou muitos eleitores das mesas de voto, enquanto que para os mais resistentes apenas terá estragado um ou outro plano. Mas… confesso que senti a falta dos carros com famílias dentro, dos grupos que habitualmente  conversavam à entrada do edifício, das pequenas multidões que entravam e saiam e, claro, dos almoços subsequentes. Na verdade, esse bom hábito tem caído em desuso. E este dia de votação revelou-se um dia de chuva, tão banal quanto qualquer outro.

Não sou homem de me prender a passados. Contudo, acredito que o melhor de nós, sejam práticas, tendências ou hábitos, se ainda nos servir, merece ser aplicado em algo de concreto. Tal poderá recordar um passado ido, sim; mas não mais será esse passado. Se atentarmos bem, veremos que o Tempo é algo de impermanente. Por isso, aquele passado nunca mais o será. Evoluirá, apenas, para uma outra forma temporal.

Por razões pessoais, foi-me impossível exercer o dito «dever cívico» de manhã. Mas de tarde, debaixo daquela chuva ininterrupta, não deixei de o fazer. Como poderia? Eu, que sempre havia esperado pelo dia dos meus dezoito anos para legalmente estar apto a votar? Então, entrei no edifício da Junta onde resido e juntei-me alegremente à população que por lá se quedava. Desde logo me deparei com uma das virtudes da democracia, o governo do povo para o povo (em teoria, pelo menos). Como é habitual em dias de votação, junto às urnas estão outros eleitores como nós, previamente seleccionados para o efeito, habitantes da mesma freguesia em que votamos. E eles também detém o direito ao voto, obviamente, mas ali permanecem no cumprir de um trabalho deveras comunitário. Nada de políticos, polícias ou elementos de qualquer instituição governamental. Pessoas comuns, como eu e o estimado leitor, a orientar um processo tão importante como o eleitoral em clima sóbrio e familiar. É uma bela imagem, não acha?

Cumprido o dever e suportada a chuva, o retorno ao lar. Desta vez, não haveria passeio ou restaurante. Convívio familiar, apenas, no calor doméstico. Enquanto se aguardavam as primeiras projecções, é claro. Parece simples, não? Mas é algo de reconfortante. E essa é a primeira base para um sorriso sincero eclodir. Assim como foi no outrora, é-o, em moldes adaptados, no presente. Em memória de outros dias e das queridas presenças, entretanto idas, que também os coloriam. Que outros não mantenham o legado em que foram criados, é um problema dos mesmos. São opções. Mas perdem algo de precioso, em minha opinião. Prefiro prolongar a atmosfera em que cresci. Pelo menos em minha casa, a boa tradição ainda é o que era. E somente isso importa.





Pedro Belo Clara.