domingo, 6 de outubro de 2013

UM DOMINGO DIFERENTE


Como o caríssimo leitor está por certo recordado, na última crónica que tive o imenso prazer de assinar neste espaço referi, de entre outros assuntos, as eleições autárquicas que num domingo próximo se desenrolariam em Portugal. Ora, acontece que esse domingo já se findou e são os sobejos do mesmo que hoje compõem a razão desta crónica.

Sempre que o clima eleitoral se faz sentir, evoco os dias da minha infância. Não propriamente das enfadonhas campanhas, dos discursos que para a criança que era se afiguravam vazios e complexos (estranha virtude!) ou dos habituais passeios pelas cidades que, à boa moda circense, se enchiam de bandeiras e aplausos. Nada disso. Tais etapas eram apenas os passos necessários que nos guiariam ao grande dia. E é a ele que me referido: ao grande dia! 

A bem da verdade, pouco mudou desde então. Pelo menos, no que ao prelúdio do processo diz respeito. Em geral regra, e digo isto com um certo pesar, as campanhas continuam enfadonhas, os discursos vagos (ainda que implacavelmente oportunistas) e os passeios de angariação de votos são completos desfiles circenses. É, assim, quase sempre difícil compreender a linha da verdade no meio de tanta máscara. Se me refiro agora a tais circunstâncias, é porque as mesmas me incomodam; desde logo, pelo aroma a falsidade que exalam. Ainda assim, gosto de acreditar nessa espécie em extinção que é o “político honesto”.

Contudo, nos tempos da infância, era óbvio o meu diminuto interesse por tais questões. É que nem sequer delas me apercebia. Eram, como referi, um crescendo de acontecimentos que, invariavelmente, iam desembocar do dia da votação. Esse sim, para mim, era o maior feito! Havia algo de especial em dias como aquele. Não só por ser o que era, claro, mas pelo próprio acto de exercer um «dever cívico». Creio até ter cultivado um certo deslumbre sobre essa expressão no imediato momento em que a escutei - «dever cívico». Ah, as coisas maravilhosas que povoam o mágico mundo dos adultos…

Lembro-me perfeitamente de, pelas várias ocasiões que ao longo daqueles anos surgiram, fazer questão de acompanhar os meus pais ou avós no exercer de tal acto indispensável ao bom funcionamento de uma democracia. Como os dias eram sempre de fim-de-semana, a ocasião era duplamente especial. Quem não aprecia um domingo diferente? Os melhores fatos eram usados, os cabelos aprimorados, as gravatas bem afinadas! Excluindo o meu pai, diga-se, pouco ou nada dado a esse apêndice de seda. Mas… que importava isso? O dia era de voto! Quantos suspiros eu soltava, em ânsias contidas, sonhando pelo dia em que eu próprio estaria apto, segundo a sociedade, a exercer tão sagrado direito… Até lá, teria de me contentar em dobrar pequenos papéis com cruzes e depositá-los na minha urna improvisada, o pequeno caixote do lixo doméstico. Vazio e limpo, claro está (pois de sujeiras já o mundo político está cheio!).

Julgo que o meu encanto, mas do que o acto em si, residia na mágica atmosfera que àqueles dias era inerente. A importância, senão mesmo crucialidade, da acção propriamente dita era algo impossível de ignorar. A simples ideia de um mero cidadão poder contribuir para os destinos do seu país era, de igual modo, a grandiosa expressão que resumia todas as envolvências experimentadas. Fascinante!

Mas o dia não se queria assim tão incipiente ou incompleto. O dever era orgulhosamente cumprido pelos adultos – enquanto eu, sempre curioso, viajava de cabine em cabine para conferir as opções políticas dos familiares –, mas, findado o acto, todos nos reuníamos para desfrutar da seguinte etapa do nosso passeio de domingo. Como a hora escolhida para votar era geralmente a matinal, seguia-se, obviamente, o saborear de uma refeição a preceito. Por isso, os dias de voto eram, invariavelmente, dias de celebração familiar. Talvez esse aspecto só sublinhasse o gosto e a importância que à data eu conferia. Mas não éramos caso único. Era comum, lembro-me, ver casais com crianças como eu, e até indivíduos mais idosos, na companhia dos seus deslocarem-se aos locais de voto de carro e, cumprido o «dever cívico», seguirem para um restaurante com o intuito de partilharem os remanescentes instantes daqueles domingos felizes. Parecia ser algo inquestionável: dia de votação implicava almoço de família.

Satisfeitos os apetites, retornávamos ao lar e, ao início da noite, conferíamos as primeiras projecções dos resultados que seriam os finais. Depois, era celebrar ou resignar conforme os ânimos e as inclinações de cada um. E adormecer feliz, claro, após um dia muitíssimo bem passado na carinhosa companhia de quem mais amava (e amo! – é importante que acrescente esse facto). Simples ou não, era a nossa tradição.

Mas os anos passam e certas coisas tendem a tombar nos negros abismos do olvido. Não só para os próprios como para quem os rodeia. No passado domingo, como o leitor já o sabe, fomos a votos. É verdade que a persistente chuva que se abateu por Lisboa naquele dia afastou muitos eleitores das mesas de voto, enquanto que para os mais resistentes apenas terá estragado um ou outro plano. Mas… confesso que senti a falta dos carros com famílias dentro, dos grupos que habitualmente  conversavam à entrada do edifício, das pequenas multidões que entravam e saiam e, claro, dos almoços subsequentes. Na verdade, esse bom hábito tem caído em desuso. E este dia de votação revelou-se um dia de chuva, tão banal quanto qualquer outro.

Não sou homem de me prender a passados. Contudo, acredito que o melhor de nós, sejam práticas, tendências ou hábitos, se ainda nos servir, merece ser aplicado em algo de concreto. Tal poderá recordar um passado ido, sim; mas não mais será esse passado. Se atentarmos bem, veremos que o Tempo é algo de impermanente. Por isso, aquele passado nunca mais o será. Evoluirá, apenas, para uma outra forma temporal.

Por razões pessoais, foi-me impossível exercer o dito «dever cívico» de manhã. Mas de tarde, debaixo daquela chuva ininterrupta, não deixei de o fazer. Como poderia? Eu, que sempre havia esperado pelo dia dos meus dezoito anos para legalmente estar apto a votar? Então, entrei no edifício da Junta onde resido e juntei-me alegremente à população que por lá se quedava. Desde logo me deparei com uma das virtudes da democracia, o governo do povo para o povo (em teoria, pelo menos). Como é habitual em dias de votação, junto às urnas estão outros eleitores como nós, previamente seleccionados para o efeito, habitantes da mesma freguesia em que votamos. E eles também detém o direito ao voto, obviamente, mas ali permanecem no cumprir de um trabalho deveras comunitário. Nada de políticos, polícias ou elementos de qualquer instituição governamental. Pessoas comuns, como eu e o estimado leitor, a orientar um processo tão importante como o eleitoral em clima sóbrio e familiar. É uma bela imagem, não acha?

Cumprido o dever e suportada a chuva, o retorno ao lar. Desta vez, não haveria passeio ou restaurante. Convívio familiar, apenas, no calor doméstico. Enquanto se aguardavam as primeiras projecções, é claro. Parece simples, não? Mas é algo de reconfortante. E essa é a primeira base para um sorriso sincero eclodir. Assim como foi no outrora, é-o, em moldes adaptados, no presente. Em memória de outros dias e das queridas presenças, entretanto idas, que também os coloriam. Que outros não mantenham o legado em que foram criados, é um problema dos mesmos. São opções. Mas perdem algo de precioso, em minha opinião. Prefiro prolongar a atmosfera em que cresci. Pelo menos em minha casa, a boa tradição ainda é o que era. E somente isso importa.





Pedro Belo Clara.

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