segunda-feira, 24 de junho de 2013

RESQUÍCIOS DE UM OUTRORA DISTANTE


Permanecendo aqui, em tão amplo espaço, dádiva de um dos mais recentes jardins da capital (ou parques, se optarmos por essa moderna formalidade), sob um intenso sol de meio-dia, soberano num céu de veludo azul, é inevitável reter certos pensamentos que logo se aprontam para a sua habitual viagem de cogitação. Principalmente, pelos instigadores de tal fenómeno mental se quedaram aqui mesmo, em meu redor. São pilares que sustentarão todas as futuras incidências que criadas serão pelo natural acto de pensar, ou, em alternativa, colocada, talvez, de uma forma mais directa e clara, serão um honroso alento artístico. Pois é precisamente isso que hoje aqui encontro: motivos de inspiração.

Por vezes, é importante que se diga, de certos aspectos, tão simples em aparência, desenvolvem-se razões que medram em campos antes tidos como impensáveis ou inatingíveis, levando assim o intrépido pensador a níveis mais distantes de idealização, não necessariamente densos (quantas virtudes não oferece o fluido pensar…), mas profundos. Daí, no devido tempo, nascerá, brilhante como o sol nascente, o entendimento, magnífica luz que extingue qualquer treva. Assim, é usual se considerar que, percorrido tal caminho, ou seja, a captura do elemento instigador, o desenvolvimento das razões, o aprofundar de cada causa e, por fim, o entendimento do fenómeno em si, um desejo se instale. Afinal, quem não suspira por ver e tocar no tesouro que foi a génese de toda uma demanda? Porque, até este momento, apenas nos quedámos perante os portões que o encerram… O desejo será, assim, o impulso derradeiro, aquilo que nos fará ir ainda mais além do que já fomos, não só para elaborar novas hipóteses, mas para saciar a sede de ver, saber e entender de forma mais ampla e, por isso, plena. Sem permitir, contudo, que tal fogo nos envolva em demasia, pois tal ferir-nos-á e, em última instância, reclamará para si, como caçador que consome a sua presa, toda a paz que havíamos conquistado até então, essa valência infinitamente preciosa, infinitamente sã.

Registo tais dizeres por este lugar, ao qual vagamente me referi, o suficiente, apenas, para o leitor o poder imaginar com a devida liberdade, ser um terreno fértil em elementos instigadores do processo meditativo. De facto, se agora mesmo tomasse os meus olhos e visse aquilo que neste instante eu vejo, iria identificar diversas sustentações da anterior afirmação, ainda que os pensamentos continuassem a ser exclusivamente seus, estimado leitor. Esses pormenores que tão levemente sobressaem da restante paisagem são, aqui, derradeiros símbolos de resistência, um pedaço do passado que ainda subsiste neste presente, o que nos remete, a nós, observadores, a tempos idos. Tal efeito instiga, é certo, o referido desejo de há pouco, sendo neste caso o de relembrar, reviver ou simplesmente imaginar como teria sido. Porque impresso em cada lugar está uma marca antiga que é como uma essência, um indelével aroma, um espírito que nunca se desvaneceu, apenas se ocultou. Assim, com olhares atentos e, principalmente, alma receptiva, tornar-se-á possível a complexa arte de ler nas entrelinhas do tempo, ainda que tal exercício seja profícuo em guiar-nos à especulação e ao deleitoso devaneio poético, confesse-se. Mas… Qual é o quadro que não se abrilhanta com as cores da imaginação?

Contudo, essas referências são meros resquícios de um outrora distante, de um passado já consumido e, por isso, extinto, nada dizendo, por conseguinte, àqueles que o não viveram. Apesar da relativa sensação de indiferença, sobra, no entanto, o místico encanto de uma irresistível e, como tal, inexplicável atracção. Pois as histórias que se contam, entre sussurros, pelos recantos de algo que atravessou eras, fascinam, interiormente, a alma que as escuta ou reconhece, por também elas serem humanas, como todos nós. Por mais que se pretenda fabular uma história, as suas raízes serão sempre humanas, terão causas humanas e sentires humanos, tão comuns em seus amores e tragédias. E tal evidência acaba, de uma maneira naturalmente compreensível, por não só cativar os Homens do agora como encurtar espaços entre tempos, de forma a tornar claro que, por exemplo, as paixões de ontem ainda são as de hoje. Isso, curiosamente, pode de igual forma proporcionar um agradável conforto, fruto de uma imediata empatia ou compaixão entre as coisas de hoje e de antigamente, não tão diferentes como geralmente se entendem e consideram.

Antes de se tornar no parque que hoje é, este local fora, em séculos que não mais se contam, uma simpática quinta merecedora da típica beleza e brio que adornam, habitualmente, as suas semelhantes. A casa original ainda permanece como uma ruinosa reminiscência, embora a sua estrutura de base tenha sido um justo alvo de atenções e de proveitos de recuperação. Eis aqui, logo em primeira revelação, um dos elementos instigadores que anteriormente referi. É certo de se pensar que a imagem dos dias correntes não é mais do que um reflexo do antigamente, pálido e disforme, sem fazer jus à real magnificência de outrora, tenha ela sido natural e simples ou veramente majestosa; mas tais consequências são efeitos do tempo, sempre eterno, sempre presente, e contra os quais pouco ou nada se poderá empreender. Contudo, a atracção maior deste lugar, a que desencadeou tamanho pensamento, tamanha reflexão, não se prende com as efemeridades naturais ou com o desgaste das perecíveis matérias, antes com o que aqui ainda vive. Já o referi leitor: alma receptiva, concentrada, mas fluida, consegue ler nas entrelinhas do tempo. Não reviver um passado que não conheceu, pois tais artes mágicas não parecem ser sua habilidade, mas sentir, como derradeira evocação, uma energia antiga, livre e silvestre, esplendorosamente bravia.

Certas coisas, ou substâncias, direi, antes, por esta palavra comportar mais facilmente a razão do etéreo do que a anterior, certas substâncias, então, resistem ao suceder dos tempos, imunes a seus efeitos de roda que não cessa de girar. E, se nos aprontarmos para tal, partiremos deste ponto de agora até às mais remotas eras, permanecendo, serenos, no limbo da dúvida, se realmente sentimos a origem ou se apenas dela nos aproximamos. Que melhor combustível para nos alimentar, então, do que o desejo que antes anunciei? Ele que, aqui, neste caso em tudo mais concreto, assume a forma de um desejo de primordial, uma quase necessidade de retornar às origens ocultas pelas brumas de nossas confusas memórias. Pois, e eis o mais interessante, embora o cenário seja exterior, a mais grandiosa das viagens, a que produz igualmente maiores e mais profundos efeitos, é a interior, ainda que esta se espelhe no cenário que nos rodeia. Mas, afinal, que é o Homem senão um pedaço daquilo que o rodeia? Tanto quanto este Todo é uma parte do Homem? Interior e exterior são uma coisa só… Completam-se, e nenhum poderia existir sem o outro.

Olhando, portanto, em redor do que adorna o meu «aqui» e «acolá», vejo as oliveiras que se quedam, belas em sua simplicidade, e as laranjeiras sempre coloridas e aromáticas, assim como muitos outros elementos de digno registo, embora sejam notoriamente mais recentes e, como tal, impassíveis de nos remeterem aos tempos da quinta briosa. Mas, ao pensar sobre as oliveiras e laranjeiras de há pouco, conseguiremos entender que são elas as herdeiras das mesmíssimas oliveiras e laranjeiras de antigamente, legítimos pedaços de um legado que ainda subsiste. Não só pela notória antiguidade das mesmas, que quase lhes confere o título de «nativas», como pela lógica segura de que tais exemplares são naturais em uma quinta como aquelas que por aqui existiam, nesta região noroeste da cidade. Estando ela, a casa, sob um pequeno outeiro, imagina-se até a redenção da vista que desfrutava à época, uma autêntica bênção matinal, um privilégio para o olhar, concessão natural dos montes sobranceiros e da vegetação que os adornariam. Observar as carroças transportando legumes e vegetais a deslizar pelas pequenas estradas de cobalto, as azinhagas misteriosas, as saudações fraternas entre fraternos vizinhos… Tudo parece reviver. Assim, além de se sentir vivo o ambiente que pairava por aquilo que este espaço fora, a atmosfera própria de uma quinta que, mesmo modesta, prosperava, antes dos anos em que claramente fora negligenciada, sente-se o tempo em que as fronteiras da cidade ainda nem tocavam estes limites. Mesmo que tudo isso seja um devaneio poético, conseguido a derradeiro custo, pois certas assumpções nem sempre são prontamente verificáveis, a essência da principal matéria deste assunto pode ser sentida. Ela estava lá, ela sempre esteve lá – somente o elemento material transmuta a sua forma, funcionando também como uma espécie de receptáculo da mesma, renovando-se aquando do manifestar dos diversos ciclos do ciclo maior, o do eterno retorno.

Se preferirmos, regrediremos ainda mais neste exercício, evocando tempos ainda mais idos. Principalmente, e é exactamente isso que mais me apraz imaginar e sentir, o século que ainda nem o era, quando este horizonte não se preenchia de betão, quando a planície se adornava de vegetação já não idêntica a esta: o tempo em que os primeiros Homens miravam não estes pássaros que hoje eu miro, mas os seus antecessores, quem sabe se deslumbrados com a beleza da imagem, da mesma forma que ela, já tão gasta e sem motivo de surpresa, ainda me deslumbra a mim, como se a admirasse pela primeira vez. Tudo sob o testemunho, ou, se preferirmos a trama poética, a vigília deste mesmo céu azul que me cobre, deste mesmo sol que me ilumina. E tal evidência, leitor, por tão simples que possa parecer, é de momento algo que incrivelmente me fascina. Pois são estas as histórias que compõem os lugares, aqui ditas de forma muito geral, incidências que, mesmo diversas em tantos pontos de seu desenvolvimento, acabam por se tocar num ponto só: o da sua criação.

Miríades de assuntos, personagens, temas, causas e efeitos se poderão encontrar impressas na alma que reveste cada lugar, uma essência singular que para si reclama um igualmente peculiar aroma, o que confere a inexprimível sensação de que o tempo é, no fundo, uma mera passagem, e que tudo, entenda-se, passado, presente e futuro, se interliga em boa verdade. Tal constatação, meu caro, levam-me até onde desejei chegar, ao primordial, à primeira essência, à unidade, ao mais básico de todas as coisas – o elixir que preenche de forma leve e plena o mais vazio dos corações. Pois ele, sempre sedento, como bem sei que muitas vezes o meu se encontra, por breves instantes beberá da fonte da eternidade, e entenderá, por fim, se atento permanecer, que, tal como ela, também ele é eterno. Que conforto se poderá erguer contra esse?




Pedro Belo Clara. 




quinta-feira, 13 de junho de 2013

DAS AMIZADES E DA VIDA EM SI (*)


Em um outro trabalho de minha autoria, elaborado numa ocasião que não esta, escrevi, em jeito de conclusão ao que, à época, poeticamente expunha, que nada há de mais aprazível do que saborear, no presente, o mel que outrora, de forma tão deleitosa, nos foi dado a provar. Por outras palavras, se o leitor, por razões que obviamente desconheço, contrair preferência junto de uma metáfora distinta, poderei igualmente afirmar, se não abuso de sua paciência, que nada de mais satisfatório há do que encontrar, no hoje, o ouro descoberto no passado. E isto, é claro, se o seu gosto recair sobre esse metal precioso, alvo de tanto louvor e cobiça. Ambas, no fundo, constituem diferentes vias de cumprir o mesmo caminho, pois a intenção que as reveste é precisamente a mesma. Digo que «nada de mais aprazível» ou «de satisfatório» há, e assumo os riscos inerentes a essa escolha, contrariando as premissas do bom-senso. Ainda assim, afirmo que, qual súbita aparição que se anuncia, se houver, por ventura, alguma ocorrência capaz de em nós fomentar tamanhos agrados, em tudo idênticos aos anteriormente referidos, colocar-se-á, por certo, no mesmíssimo patamar daqueles agora me apronto para revelar. Repare, contudo, que não me socorri do auxílio das aspas ao transcrever as expressões, pois, como compreenderá, não desejo citar o que, então, escrevi. Apenas, por mera opção de autoria, me parafraseio. Pois esta crónica serve, agora, propósitos bem diferentes daqueles que sustentaram a génese do referido dizer, pelo que será preferível, por não ser este o seu berço original, diluir um pouco de sua essência pelas linhas do trabalho que agora componho, fundindo-a na estrutura que vai sendo erguida palavra a palavra.

Seja como for, e quase que recorro ao «passemos a coisas mais cruciais», o que veramente aqui importa, para dar continuidade prática ao que tem vindo a ser explanado, é que, tal como ontem, continuo a determinantemente defender cada linha do que então escrevi, cada letra da expressão a que dei vida literária e humano significado. Talvez, e eis a razão somatória, por tanto a constatar, no que à sua empírica aplicabilidade diz respeito, de sentido e efeitos, em cada ocorrência da vida que se desenrola diante de nossos olhares, a reavive a cada instante, a cada reencontro, a cada testemunho. No fundo, o que ela, a expressão, compreende? Quem se deu, por esta altura, a uma atenta reflexão sobre a mesma, certamente concluiu que existe uma magia peculiar no súbito despertar de elementos que no nosso passado abundaram, fazendo dele aquilo que foi e é. Não me refiro, nem me referirei, durante este texto, às memórias menos agradáveis que todos retemos com maior ou menor translucidez, pois essas ocupariam um outro espaço e exercício de escrita que hoje, neste espaço e exercício específico, não teriam lugar. Foquemo-nos, por isso, nas recordações que mais acarinhamos. Quando ressurgem da sua terra de neblina, entre brumas de olvido, vêm envoltas numa aura quase que mística e luminosa, como nobres ligações que são com algo que outrora vivemos e sentimos, invocando, assim, as memórias e os sentires que tanto fizeram as delícias dos nossos dias mais idos.

Um exemplo de tal sucedido, chamemos-lhe assim, por forma a evitar a aplicação da palavra “fenómeno”, pois esta quase que nos remete ao imaginário do sobrenatural, e, diga-se, não é essa, de todo, a intenção deste escritor, um exemplo de tal coisa, como ia dizendo, são os reencontros com os rostos de nosso passado. Uma vez mais, sublinho que em nada me refiro às memórias ou experiências que nos confiaram o seu doloroso legado; antes, àquele rosto amigável com quem partilhámos tanto viver. De certa forma, quando nos achamos perante tal acaso, feliz em todo o seu propósito, sentimos que o tempo não cravou o seu cunho em nós, tanto no amigo como na própria pessoa que com ele esbarra pelas curvas do caminho. É como se, em íntima essência, nunca tivéssemos envelhecido, ou, colocando de outra forma o caso, quem sabe se assim de modo mais delicado, como se nunca tivéssemos materialmente crescido, com tudo o que isso comporta. Não brilharão nossos olhos nesse momento de súbito contacto? A irrefutável prova de que as almas cantam, em uníssono, o júbilo que as uniu? Explodindo esse sentir numa miríade de cores, quando os corpos se abraçam fraternamente perante o sorriso ostentado pelos rostos? É nesse inestimável momento, quase que em sereno êxtase, que todas as memórias afloram, que todos os cheiros se recordam e as histórias se recontam. «Lembras-te daquela vez?» - é o começo mais vezes escolhido para encabeçar cada frase. Então, rolam os sucedidos passados, como lágrimas que alegremente se choram, como imagens dispostas por um rodopiante caleidoscópio: «Lembras-te daquela vez, do guarda-chuva?»; «Lembras-te daquela vez, daquele teste em que copiámos?»; «Lembras-te daquela vez, em que faltámos à aula?». E isto quanto não se convidam outras presenças, mesmo que momentaneamente distantes, para a conversa que, como um rio tranquilo, flui: «Lembras-te daquela vez, na casa do João?». E quanto viver assim não vive, apenas por ser, de novo, revivido…

Por certo que o estimado leitor, se agora mesmo se propusesse a vasculhar o seu precioso baú de memórias, encontraria alguns casos gémeos deste que lhe trago. Assim, é perfeitamente plausível afirmar, sem vestígio de pretensiosismo, que compreende aquilo que lhe falo, por precisamente possuir exemplos seus, oriundos de seu mundo, que comprovem tal discorrer. Eu confesso, meu caro, que por diversas ocasiões já pensei, ao reencontrar um velho amigo de infância, seja por obra de um acaso ou por intervenção directa, isto é, através de um encontro previamente agendado, que as únicas coisas que terão em nós cambiado, ao longo dos anos de silêncio, foram a voz, agora digna de tenor (ou, em derradeira e optimista hipótese, de dedicado barítono), e as barbas que finalmente adornam os rostos outrora imberbes. Pois, como antes referi, o temível Cronos, que já os sábios e avisados gregos respeitavam, não tem ofício capaz de interferir com a essência mais pura de cada coisa. Ainda que fosse capaz de engolir o próprio filho, não detém poder sobre essa valência. Envelhece a matéria, perdura o etéreo. Além disso, esse alguém que ainda nos é tão querido, o portador de uma vida que se desenvolveu de forma paralela à nossa, pelo menos até certo ponto da existência, é igualmente o sobejo de tantas histórias capazes de voltarem a arrancar o mais jovial dos sorrisos, a viva evidência de um tempo que se consumiu em aparência. É indescritível a sensação que nos conquista, quando voltamos a desfrutar da companhia de quem tanto nos fez rir… E vice-versa, claro, como será óbvio e suposto de acontecer.

No suceder de tanto sucedido, ignore-se a redundância, por bonanças e tempestades, bem comuns ao ciclo que a própria vida é, a mesma oferece-nos ainda, além do recordar, e entre muitos outros mais, este imenso prazer: a oportunidade de crescer ao lado de quem tanto nos diz. As conversas hipotéticas de há pouco, são uma clara consequência da verificação desta hipótese, pois só poderiam ocorrer, numa de suas máximas expressões, entre dois entes que tanto partilharam por longos períodos de suas vidas, como autênticos, e bem fieis, companheiros de viagem e de estrada. Se voltarmos a evocar os exemplos pessoais, constataremos: começamos crianças, jogando com bolas de papel amassado, revestidas por fita-cola forte e competente em seu trabalho de unir e colar; tornamo-nos adolescente, e a curiosidade pelos femininos aromas, tão misteriosos e irresistíveis, desperta; depois, o tempo da faculdade e de outros amigos e conhecimentos, sem que isso signifique o olvidar de nossas raízes. Aventuras e desventuras, copos erguidos e batinas amarrotadas, exames e mais exames, formatura, emprego aqui e acolá, namoradas mais a sério, uma apenas ou um leque enorme das mesmas, cada qual na sua devida vez, é claro, que nestes assuntos não é sensato alimentar confusões, esposa, casa e carro a preceito… Filhos? Por certo… Netos? Porque se negaria a sua vinda? Até nascer o dia em que, juntos, evoquem o tempo em tudo começou. Aí, a jornada parecerá infinda. Afinal, a frondosa árvore, hoje tão ampla e poderosa, sempre se surpreende quando relembra que proveio de uma frágil semente.

É claro que muitas outras presenças se extraviam com o contar dos anos, lentos à luz das suas percepções de fragmentos de tempo, mas sempre céleres para aqueles que vivem através dos mesmos, esvaindo-se das futuras histórias da existência que se desenvolve e prospera. E é natural que assim seja. A própria ordem da vida compõe-se de coisas tais, de rumos que se traduzem em escolhas. Não haverá “bem” ou “mal” aqui, somente opção passível de ser respeitada – ainda que não seja compreendida ou aceite na sua globalidade. Mas tais figuras, e elas próprias mais do que ninguém, saberão o que será melhor para si e para suas histórias pessoais, pelo que é perfeitamente normal que sigam os ventos que souberem ser mais propícios à sua navegação. Afinal, de certa forma, todos possuímos um destino para esta viagem, um porto onde desejamos atracar, ainda que a neblina o oculte ou o almirante, confuso, não saiba simplesmente onde o encontrar. Mesmo assim, a dificuldade não deve necessariamente albergar a desistência. Em todo o caso, nem todas as presenças, de forma física, permanecem junto a nós, pelas mais diversas razões. Outros até acabam, quando menos esperam, engolidos pelo mar que desbravavam… Como tudo o que começa, tudo detém igualmente o seu fim – que apenas dá lugar a um outro recomeço.

Perto ou longe, seja pelo físico ou pelo espírito, todas essas incidências, todas essas histórias e rostos, quando passados, tecem o manto daquilo que fomos num tempo que não mais subsiste, a não ser dentro de cada um de nós. É por isso que o reencontro de alguém que pertence a esse cenário é como o retornar a uma casa ou a um lugar onde poderemos dizer que fomos, efectivamente, felizes, pois trazem consigo, entre laivos de recordações, o aroma de tantos momentos vividos e compartilhados, pelo que o sorriso, a dois, é absolutamente garantido. Será a prova de que esse «mel» que foi saboreado não azedou, mas se fermentou e transmutou em algo de mais depurado, como a sublime substância que o compôs. Pois, pelos anos de intervalo, contar-se-ão mais histórias ainda, mais vivência e mais experiência, parcelas, apenas, a somar numa colorida operação cujo resultado a cada dia se colhe, sim, mas de maior expressão se sentirá quando, num futuro não evitável, de novo forem evocadas. Precisamente aí se fará o julgamento final, íntimo e pessoal, quando as barbas se esbranquiçarem, os corpos se arquearem e, quem sabe, os sorrisos se compuserem por uma dentição bem mais escassa… Mas que importância terão, nessa era de recordação constante, os meros (e naturais) efeitos da decrepitude? Os corações estarão cheios de vida, como cálices que de amor transbordam… Não mais, talvez, recordará a mente, às voltas com os nefastos efeitos das traquinices de um alemão peculiar, um tal de Alzh qualquer coisa, mas as almas, ainda que encarceradas na material opressão da idade avançada, refulgirão, internamente, em arco-íris de encanto. Pois que conforto maior poderá advir da certeza íntima de que a existência em causa foi vivida em pleno? Que a personagem cumpriu escrupulosamente o papel que lhe havia sido escrito? Que o conquistador alcançou todas as metas a que se propusera? Sereno se queda o sol por sobre a mais pacificada das consciências.



Pedro Belo Clara.






(*) Nota do autor: Serve esta simples crónica como dedicatória sóbria e justa, por evocar temas em tudo concordantes com a intenção que motiva a mesma, aos meus mais veros e velhos amigos, que desde um outrora distante me acompanham até aos dias que hoje correm por nós, com maior ou menor influência de contacto, com mais ou menos ausências de registo (a vida sempre detém a mais certa das razões). Em todo o caso, o sentimento de estima e de respeito nunca se altera – antes, cresce e solidifica-se. A vós, então, caríssimos companheiros, cujos nomes me escusarei a citar por ser obviamente vão esse acto de mera nomeação, ou não soubessem vós, amigos, ou melhor, Amigos, agora sim, com a mais exacta das precisões, a quem me refiro eu, entre saudades, louvores e, acreditem, gratidão. 






quinta-feira, 6 de junho de 2013

PECULIARIDADES


O peculiar pode, efectivamente, atingir grandes níveis de significância e de profundidade. Estes, por sua vez, em fase, diga-se, posterior, acabam por se assumir através dos moldes em que se constroem os exemplos, algo que, entre muitas outras coisas, é comummente tido como um portador de mudança, pois é passível de ser seguido, de ser uma referência a ter em séria consideração. Compreende-se, então, e permita-se o melhor esclarecimento, como um gesto ou acção comportamental capaz de quebrar padrões pré-estabelecidos, revelando algo de novo, em certa forma mais sincero, depurado e, por isso mesmo, verdadeiro. Tais premissas auxiliam o despertar do olhar ensonado para outras realidades, até então completamente encobertas. Assim, a aprendizagem torna-se possível para todo aquele que a ela se possa disponibilizar. A ideia é simples, tal como a concretização da mesma – assim convirjam e se assumam os elementos necessários a tal.

Voltei a constatar o discorrer acima explanado, qual teoria feita prática, máximo símbolo empírico, de uma forma deveras curiosa e divertida. Em suma, por via absolutamente inesperada, leve e descontraída. Certo dia, então, durante um bastante agradável almoço, enriquecido com a companhia de um familiar que muito estimo, passa a porta de um determinado restaurante lisboeta uma personagem plena de aparentes contradições. Ou, por outras palavras, um exemplar bem digno do adjectivo “singular”. Embora as confirmações viessem somente depois, diversos aspectos, bem presentes em tal figura, como linhas coloridas, deveras vincadas, eram desde logo evidentes e instigavam o interesse e a curiosidade no mais distraído dos espectadores. Permita-me o leitor que sublinhe o seguinte: tais sensações em nada conduziram a julgamentos céleres, tão lamentavelmente usuais, tampouco a rotulagens desprezíveis ou ignóbeis condenações. Nada disso. Ninguém se precipitou na formulação de juízos. Pois os rostos, se tal se verificasse, por certo que o denunciariam. Subsistia antes uma certa expectativa, um quase certeza de que qualquer coisa de renovado, fresco e cativante poderia irromper daquele solo. Talvez da macieira que ela era brotassem limões… Mas quem o poderia saber? Assim, as testemunhas, parcas, diga-se, se abriram à melhor hipótese do porvir, cientes, sem que talvez o soubessem, de que algo de singular iria certamente imergir de tal personagem.

Falo, é justo que agora o revele, de uma simpática (se a minha analítica percepção não se equivocou) senhora de meia-idade, de tez e feições asiáticas, pequena e esguia o quanto baste, como habitualmente se querem os representantes dessa briosa estirpe oriental. Tanto poderia possuir origens chinesas como macaenses... Eis os factos mais prováveis. Falava o português, é certo, mas com um ligeiro sotaque, já algo diluído. Ainda assim, era notório. Mas isso não retira a legitimidade de pensar, ou até de concluir, que a sua origem a remetia para aquela antiga colónia lusitana. Ou, graças a esse incremento das gentes do mandarim em nosso país, talvez fosse mesmo um de seus veneráveis membros que aqui se encontra erradicado, um qualquer comerciante, ou mãe de um, tentando prosperar, dentro de suas capacidades, as linhas de seu negócio, ainda que seja a sorte a ditar, e não em pequena escala, as regras desse ofício. Mas como tais aspectos, ou abordagens secundárias, não comportam qualquer distinção digna de registo, sendo meras impressões primárias e características superficiais, deixemo-los de parte.

Na verdade, o que sobressaía em tal persona eram os enormes headphones que a dita senhora, o objecto desta crónica, levava no topo de sua cabeça, perfeitamente acomodados, tombando por seus ouvidos, de forma a cobri-los. Ou seja, encontravam-se devidamente colocados e prontos a funcionar, como ordenam as leis da sua boa utilização, escorrendo o longo fio até ao orifício de um pequeno rádio de mão, o seu natural destino. Bem sei o que poderá pensar, caro leitor... Um rádio de mão? Podendo ser um discman, um leitor de mp3 ou mp4... Um IPhone, até! (e aqui se excluiu a hipótese, remota, de ter a terra do sol nascente como berço, tendo em conta a necessidade vanguardista de consumo tecnológico que assola, se não mesmo contagia, o dito povo – esclareça-se: o japonês). Mas, contrariando as expectativas mais modernas, era um rádio de mão que segurava. Até nisso era peculiar, a senhora. Contudo, que não se considere o dito instrumento de som, os headphones, claro, banal ou corriqueiro... Muito pelo contrário. Contrastando com a simplicidade do pequeno rádio, estes apresentavam, em cada face do mesmo, naquelas largas “rodas” (permita-se a caracterização) que cobriam cada uma das orelhas, um fundo de rosa berrante, adornado, a negro, pelo desconcertante timbre do mais brioso dos piratas: tíbias cruzadas e uma caveira de meter respeito a muito boa gente. Que interessante é ver uma senhora de meia-idade, assumida sem complexos, ostentando um adereço bem típico de adolescentes asiáticos... Tê-los-á retirado a uma hipotética filha? Num regime de empréstimo ou compartilha de bens, previsto numa qualquer cláusula, por certo obscura, do íntimo contrato que une, pela lei dos Homens e pela lei dos Deuses, coisas tão próximas e, ainda assim, tão distantes, como são a progenitora e sua cria? Isso, caro leitor, já o escriba desta crónica não sabe... Nem detém pistas que o possam elucidar. A si e a ele próprio, está claro. Mas como seria pura especulação o que mais se visse a acrescentar a este tópico, e, como tal, irrelevante para o relato em causa, fiquemo-nos, no que toca a este assunto, definitivamente por aqui.

Seja como for, aquela derradeira tentativa de agarrar uma já ida juventude parecia ser por demais clara e óbvia, ainda que a idade se assuma como um tema que suporta o seu quê de subjectividade. Mas os contraste de tal figura, por sua vez, revelaram-se e adensaram-se ainda mais quando se anunciou um simpático carrinho de compras que a nossa estimada amiga trazia de arrasto, aqueles bem conhecidos sacos de tecido que evoca um padrão nitidamente escocês, de rodas munidos, e que, num outrora não muito distante, acompanhavam a mais castiça das senhoras portuguesas nas suas idas aos mercados e praças. Assim se evidenciaram os dois traços distintos que se cruzavam num só ponto, ou, se preferirmos, dois contrários, não necessariamente antagónicos, que coabitavam numa só figura: a linha portuguesa e a asiática e a expressão da inconsciente juventude e da idade madura. Dois símbolos tão díspares que, curiosamente, ali encontravam a sua estranha harmonia.

Essa ideia perdurou um pouco mais pelas mentes sondadoras lá presentes e alcançou o seu zénite quando, já acomodada em sua mesa, diante de um refrigerante de limão, viu chegar o seu pedido – um magnífico e amplamente bem servido cozido à portuguesa. Colar esta imagem tão lusitana a essa outra que retrata a figura de alguém com cariz marcadamente oriental é um facto causador, por certo, de uma estranheza peculiar, mas apenas por se revestir de originalidade. Seria o equivalente, nestes termos, a testemunhar o senhor José Fernandes, dono de umas suíças capazes de despoletar a mais figadal das invejas em seus semelhantes, um garboso nativo de Mondim de Basto, imaginemos, e resignado resistente das pungentes agruras da arte da lavoura, a deliciar-se com os delicados sabores e contrastes de um belo chop-suey! Inevitável, portanto, não questionar se, efectivamente, os pólos não se terão invertido... Mas talvez seja esse o significado prático de ser-se global, de viver numa era marcadamente globalizada, com povos e culturas mais próximos e conscientes uns dos outros. Assim, sobejam casos como este, deveras intrigantes e curiosos, admita-se, mas, ao mesmo tempo, verdadeiramente refrescantes.

Contudo, as surpresas e, claro está, as peculiaridades que, inconscientemente, a nossa amiga tinha reservado para o seu atento e, ainda assim, atónito público, não se ficaram por aqui. A meio de sua refeição, entre profundas degustações de exemplares gastronómicos de grande brio, e perdoe-me o leitor por repetir o adjectivo, componentes de tão típico prato, desde o bem composto chouriço de carne ao simples, mas bastante nutritivo, nabo, de uma forma absolutamente natural e inocente os lábios da referida personagem se entreabriram, não para revelar os despojos da degustação, entenda-se, mas para entoar uma absurdamente desafinada nota musical. Sim, caro leitor, era verdade: os headphones estiveram, de facto, ligados durante todo esse tempo, sem que ninguém disso se apercebesse... Apesar de terem continuado sempre no mesmo local de uso.

Ali mesmo, tivemos, eu e os restantes presentes, a nossa redenção... Em pleno restaurante, a meio de sua refeição, uma tão singular senhora a acompanhar, sem embaraços, as linhas de uma qualquer canção que somente ela poderia escutar... Imagina o cenário, amigo leitor? A nossa heroína a cantar, no meio de mesas já quase vazias, palavras soltas de uma qualquer melodia? Sem esquecer, claro, o chouriço de carne que fazia a delícia dos seus apetites, o qual mordiscava sempre que a canção lhe dava descanso. Contrapor-se-á: foi um lapso, uma aceitável distracção... Daquelas coisas que acontecem apenas por uma vez, pois de pronto se envergonham os seus embaraçados autores, secretamente desejando que mais ninguém tenha visto ou escutado a origem do seu vexame. E repetem esse mesmo desejo vezes sem conta, até que nele, iludidos, piamente acreditem, de forma a finalmente expiarem toda a vergonha que haviam retido. Mas desengane-se o estimado leitor se assim considerou o caso. Pois, por mais incrível que pudesse parecer, sem que ninguém o esperasse, aturdidas que estavam as testemunhas por tamanha surpresa musical, logo se libertou mais um cantar arrastado. Sim, o acto melódico teve a sua continuidade. Ainda que, a espaços, apenas parecesse ser o arranhar constante de britânicas palavras que se soltavam, sem nexo ou ligação. Um «together» aqui e um «forever» acolá, se me faço entender... Escusado será dizer que o espanto era geral. Perante a medíocre reprodução e não só, pois a irrisória ocorrência tinha tanto de cómica como de singular. Não demorou muito mais até que tal implodisse num deveras saudável, e por demais expectável, desfecho: o riso, a forças contido. Embora ninguém, acredito, se sentisse profundamente incomodado com tamanha cantoria. Não só as horas eram já um pouco tardias, o que desde logo não convidava muitos transeuntes a parar para uma refeição, daí o facto de os poucos presentes estarem já nos derradeiros instantes de suas degustações, senão as estivessem mesmo já findadas por completo, como ainda o canto do asiático rouxinol surgia intervalado (já antes o referi: boca ocupada é incapaz de cantar) e não era propriamente ruidoso. Apenas fomentava, como se percebe, a boa disposição e o divertimento.

Entre os clientes já conhecidos da casa, o dono e respectivo funcionário, eu e a companhia que na ocasião me assistia, os sorrisos que nos assomavam os rostos eram leves e inócuos.  Não sendo, assim, emitidos em tom jocoso, entenda-se isso; antes num clima de companheirismo e cumplicidade entre estranhos, sadio e jovial. Não ríamos, é claro, de tal senhora; ríamos somente com ela – o que são coisas bem diferentes, díspares vertentes de um só comportamento. Ou seja: o acto, esse sim, é idêntico, mas a intenção que o suporta é bem distinta, inócua como os sorrisos que atrás caracterizei. Perguntará, pleno de legitimidade, o atento leitor: mas a senhora não se apercebia de seus trinados? Como reagia ela a isso e, estando consciente, aos sentimentos que provocava em sua audiência? Na verdade, e, permita-me o leitor que o admita, eis o principal factor que fomentou todo este relato, toda esta já longa crónica, a dita senhora, por esta altura já nossa conhecida, quase tão íntima quanto os bons vizinhos prometem ser, revelava uma postura sóbria e descontraída, completamente indiferente aos ecos que a ladeavam, fruto de seus moderados gritos. Alheia a tudo e a todos (talvez essa alienação, quiçá natural, justificasse o seu comportamento), permanecia focada em seu mundo de cantigas e de cozido à portuguesa, com ocasionais espreitadelas, fruto de qualquer súbita curiosidade, ao noticiário que se desenrolava bem à sua frente. Não me questione o leitor se o fazia consciente ou inconscientemente, pois já antes prometi não divagar ao sabor de dúbias especulações… Apenas relato o que vi e senti. E aquilo que então presenciei foi isso mesmo: o alheamento a todo e qualquer sorriso provocado por suas árias arrancadas em espontânea desgarrada, a singularidade que a assistia e que era, simultaneamente, a sua mais íntima beleza. Pois tais aspectos, tão naturais e bravios como são, remetem a sua origem para coisas bem profundas e sustentadas, comportando muito mais do que, em primeira e, como tal, inexperiente análise, se poderia pensar.

Creio que, agora que me apronto para findar, a todos os membros daquela improvisada e surpresa plateia, a soprano que os encantou concedeu, da mesma inesperada forma, uma valiosa lição de vivência: a imunidade ao julgamento alheio. Quantos de nós, admitamos, pelos mais distintos motivos, não renunciariam de seus modos e convicções perante o implacável temor do parecer de terceiros? A verdade é que, em silêncio, ninguém aprecia o lugar do réu, os seus pensamentos habituais e, principalmente, os seus densos sentires. Pois todos tememos o julgamento e as luzes da ribalta que sobre nós recairão em caso de inevitável condenação, tornando-nos, logo à partida, objecto de desprezo, gozo ou falatório. A diferença mora naqueles que, apesar disso, não capitulam de si próprios, isto é, não abdicam de ser aquilo que naturalmente são, apenas como forma de evitar tais terríveis rumos. Mas tal expressão, infelizmente, não constitui a maioria. Já a senhora de que falamos, por sua vez, encontrava-se apenas a ser aquilo que ela era, afirmando a sua natureza sem a renegar, tampouco recuando em seus intentos perante o olhar indagador do semelhante mais curioso. Mediante a comum realidade, isso sempre é digno de louvor. Provando, assim, que na maior das loucuras, e também das excentricidades, reside uma indomável rebeldia, uma surpreendente sanidade, comportando, ambas, impactos deveras destabilizadores (num necessariamente bom sentido), capazes de agitar mentalidades e de quebrar, ou, pelo menos, fender, padrões pré-estabelecidos.

Em derradeira análise, está claro que foi precisamente isso que tal personagem realizou. Não por cantar em bandeiras quase despregadas os temas que escutava, obviamente, mas por se focar em sua felicidade, não incomodando os demais, e sendo aquilo que exactamente ela era – e não o que outros desejariam que ela fosse. Em máxima conclusão, temos aqui a suprema expressão e afirmação de uma natureza ou personalidade. E, assim, ressalvou, fortificou e a todos apresentou, enobrecida, o exemplo que por seu registo comportamental se formou. Afinal, já não será estranho ou complexo de entender que o peculiar pode, efectivamente, atingir grandes níveis de significância e de profundidade. Basta, para isso, deter a coragem necessária para o assumir e o elevar à clara luz do sol da revelação.



Pedro Belo Clara.




segunda-feira, 27 de maio de 2013

O CAMINHO


O Caminho não é uma via única, exclusiva. O Caminho, a poder ser falado, escrito e entendido, é uma coisa só, na mais total das abrangências. O Caminho nasceu no Infinito e nele terá o seu término. É Tudo. E Nada é. Parece circular; mas é uma longa linha recta sob a qual incidem os acontecimentos, vivências e suas etapas, assim como os ciclos que tudo regem nos prados materiais. Apenas uma percepção limitada, ainda não desperta, considera tempos e secções naquilo que é eterno. Mesmo que o cenário se altere, por efémera ser a matéria, a essência mantêm-se. Renova-se o que é fugaz, preservando assim a sua eternidade. O que é perene, é imutável.

O Caminho é um todo indivisível. E cada intrépido viajante que o decidir caminhar, uma e outra vez, sendo ele caminhante de justo epíteto, deverá descobrir por si a língua em que ele murmura, o alfabeto em que ele se faz expressar. E todas as línguas por ele são faladas, todos os caracteres por ele são compreendidos. A sua real ideia está muito para além de tudo o que sobre ele se poderá idealizar. Se se pensa sobre ele, não se pensa sobre o verdadeiro Caminho. Ele é o impensável, o que não se pode idealizar. Porém, quando se sente a sua magia, quando se escuta o silêncio que profere, todo o caminhante sabe aquilo que ele é. Não são os olhos do rosto que o verão, antes os da Alma. E tudo o que aqui está escrito, da mesma forma se destina à Alma. É para ser lido, sentido e absorvido pela luminosa percepção que a reveste. A Palavra, tal como o Caminho, fala ao Divino que habita em cada Homem.

Do centro da figura humana, no instante em que esboça um passo, uma panóplia de caminhos e direcções se criam, se abrem e se completam aos pés de cada um. Linhas infinitas que partem da mesma infinidade, paralelas entre elas, embora sejam subdivisões da sua principal matriz. Para cada uma, um destino. E um rumo que, findado esse, de pronto se fará anunciar. Mas tal fenómeno é apenas a arte da roda que eterna gira. Afinal, na matéria reina o efémero e o dual, com a concordância e o equilíbrio das estações. Como tal, a ideia que mais sobressai, a impressão logo captada pela percepção mais desperta e, como tal, atenta, é a da sucessão. Por vezes, é o caminho da cegueira que ao viajante concede a visão. Assim como o da sombra lhe trará o da luz, o da dúvida lhe fornecerá o da fé, o da manipulação lhe dará o do amor… São gémeos, em suma, com particularidades que os distinguem. Será necessário, por vezes, atravessar todo um inóspito deserto para desfrutar do mais paradisíaco dos oásis, aquele que se queda na clareira de um âmago íntimo e profundo. Ou simplesmente crer na ideia que detém como certa e verdadeira para si próprio e permitir-se esperar… Até alcançar a sua conquista. Até o mais inverosímil dos caminhos desemboca no mesmo local de todos os outros. Apesar disso, os rumos não deixam de estar adornados de hipóteses e de escolhas. Tudo está escrito em ténues palavras… Cabe ao viajante, por suas opções e actos, reforçá-las. Então, estará a fluir pelo rumo que cria. Seja ele qual for.

Mas nem só de rumos se compõem as existências… Não fossem elas as condições mais intrincadamente simplificadas. Os sentires, as percepções, as quebras, as dívidas, os encontros, são outros aspectos de toda uma diversidade que cabe na vida terrena. Que, acumulada por outras tantas viagens, reúne matéria digna de contemplação. Mas a experiência forma-se de tais coisas, tece-se em linhas de mil cores. Não só auxiliarão o viajante a recordar, como também a lhe fornecer as condições que mais necessita para cumprir a sua meta, o seu mais divino propósito. Por isso, resistir significa quebrar e perder sentidos… Enquanto a brandura, flexível, permite fluidez. É essa a grande lição do humilde junco, em contraste com o orgulho do frondoso carvalho. Embora, para tal, seja importante, em primeiro lugar, entender, e, só então, construir o estrado que suportará a crença que munirá o viajante. Essa valência, como será claro de se notar, necessita de longas raízes para ser forte e profunda.

É comum a indagação ao longo do trilho percorrido. Tal aspecto é intrínseco à condição humana, esteja ele mais ou menos vincado no coração de cada caminhante. Compreende-se, no fundo, como uma parte do processo de experiência o entendimento do próprio ser e daquilo que o rodeia. Principalmente, por o esquecimento o ter assolado, como uma nuvem que cobre e filtra a luz do sol. Contudo, o espírito esclarecido é um sopro, o mesmo que afastará a nuvem e permitirá, de novo, o completo raiar desse excelso sol. Cura o negrume do olvido, fomentador de múltiplos temores, a água que jorra da fonte da memória. Por vezes, a jornada pessoal revela-se paralela à demanda por tais águas. Até porque esses aspectos compõem um trilho evolutivo e, assim, ascensional – a suprema intenção, inicialmente oculta, de todo aquele que caminha por sobre esta terra.

É claro que a experiência, ao ser diversa, por consequência da multiplicidade deste mundo de matéria, comporta em si uma miríade de elementos. Aí se confundirão as percepções. Não se traduz num erro, pois cada visão justifica o seu parecer; mas certas nuvens, uma vez mais, poderão embaciar o sol que sempre brilha. Mais do que o sofrimento, a felicidade, a justiça ou o amor, a natureza humana denuncia-se aqui, na simples experiência. Os restantes, são os seus objectos ou alvos, sendo ela, assim, superior, no sentido de global, a todos eles. Não se entenderá o sofrimento como uma opção, ainda que a dor esteja naturalmente ligada à dualidade da vida efémera? Ou como uma ponte para algo mais de superior e de divino, se se excluir a baixeza vibracional da simples vitimização, lamentavelmente comum de ocorrer. Pois, se um sorriso se une à dor, o sofrimento desde logo se esvai, ainda que esta, qual incómodo espinho, continue a latejar (bem se sabe de sua necessidade, ao ser por sua força que se racha a dura casca que envolve a adormecida consciência). E a felicidade? Entre doutas filosofias e notáveis discorreres, terá já aquela mente mais insaciável, que mais se dedica e se sacrifica a essa busca, questionado e, consequentemente, entendido que a verdadeira felicidade, aquela que aqui se pode experiênciar, ainda que seja um estado efémero e, assim, sujeito a alterações de forma e conteúdo, apenas significa estar-se em paz consigo próprio? E a justiça não será apenas um escudo do ego, ou seja, da personalidade que de rojo arrasta (ignore-se o possível pleonasmo) a personagem ao sabor de seus caprichos, servindo de motivo a vis intentos, dos quais certos castigos e vinganças são lamentáveis exemplos? Essa fúria é filha de outras tormentas, apaziguadas pelas diversas formas do amor. Embora só a sua mais suprema face se poderá unir à plenitude, o vento que baila pelas etéreas dimensões. Aquela que aqui se reflecte, mesmo sem saber como há o viajante de lidar com seus pressupostos, é sublime, sim, mas de frágil equilíbrio… É flor que exige rega constante. Na sua máxima expressão, as condições extinguem-se. Assim, é motivo que pode (e deve) enlaçar os Homens, sem espaço para apegos, supressões, tiranias ou subserviências. A justificação de uma existência? Por certo que sim, se esse for o seu íntimo trilho. 

O motivo, assim, é de ascensão. Mas cada degrau é alcançado pelo esforço do espírito, cada vez mais solto e liberto. A cada passada, uma vida, uma personagem e demais envolvências. Em suma, uma experiência. Que, obviamente, pode (e, certamente, irá) comportar o saborear de diversos elementos: amor, felicidade, justiça, pobreza, dor, riqueza, poder, opressão, transcendência num derradeiro grito emudecido… Mas que são tais coisas senão elementos de uma singular experiência? Eis a natureza global, ou, se vista por um outro ângulo, primordial, da humana condição que reveste e serve o caminhante. É um campo aberto ao cultivo. O que aí medrar, serão sementes lavradas pela mão de cada viajante, em nome de sua intenção e propósito. Mas por que bebe da fonte mais distante, aquele que tem água por perto? Apenas se sentir o apelo do trilho que o guiará até esse destino… Pois se tudo é experiência, tudo igualmente é aprendizagem. E esse é o seu pressuposto mais básico.

O que sobeja, então, como resíduo final, como resultado da soma de todas as parcelas? Sabedoria incrementada e à Alma dividida anexada, recordação e evolução. Assim, a Alma, esclarecida, compreenderá que ela mesma fora um raio desse sol que, magnânime, sempre brilhou. E com um sorriso recordará o quase que infindos dias em que o contemplou, entre nuvens, sem saber que, de tão simples forma, contemplava a resposta a todas as suas perguntas, admirava cada recorte do destino que a aguardava e suspirava, néscia, diante da luz que foi o seu princípio e será o seu fim. Até à eternidade.




Pedro Belo Clara.





sexta-feira, 26 de abril de 2013

PASSAGENS



Um pequeno pássaro lança-se nos braços do dia, certo de que seu voo será amparado. Da mesma forma, a árvore produz o seu fruto na certeza de que alguém nele encontrará satisfação. Se assim é, porque o caminhante não confia? Porque não se entrega ele? Esquecer-se-á de que é como o rio? Que, fluindo, sempre alcança a foz e desagua no oceano que o espera? Derrubar as barreiras do medo, que apenas medra por subsistir a dúvida e o desconhecido, é uma via de se ser livre e de cumprir o intento maior. Resistir significa colocar pedras no fluxo desse rio, que, com o passar do tempo e com a frequência com que são lançadas, se tornará numa lagoa descolorida e inerte. Existe, contudo, um arbítrio. Como tal, a escolha reside em cada um – ainda que a sua totalidade ou abrangência seja universal. Mas também ela detém os seus limites. Tal como o lavrador que cuida de sua horta, ele não controla os raios do sol ou os pingos da chuva. Se permanecer atento, descortinará as linhas que compõem e regem cada coisa. E uma luz brilhará sobre si.

Por vias mais directas ou indirectas, se o permitir, todo o viajante se torna um discípulo da própria Vida. Tanto esta o instruirá como o auxiliará a recordar. De facto, nunca estará só. Para cada gesto, a correspondente manifestação. É por isso que certos caminhantes, já capazes de ver e entender tal realização, à própria Vida se entregam, no auge de sua fé e de sua humildade. Isso significa confiar em forças superiores a si próprio, ainda que estas não se encontrem distantes de sua presença. Aceita, portanto, os limites da sua condição – por ora limitada. Mas, ainda que partilhe da mesma origem ou razão de seu semelhante, nem todo o viajante se queda no mesmo patamar. Por consequência, nem todos detêm a mesma visão, pois cada um se encontra em partes distintas da montanha que escalam. Aqui se definem as responsabilidades de cada um perante os demais. Os vestígios deixados ao longo do trilho são o testemunho disso mesmo: deixará para trás a sua palavra ou sinal aquele que por si já desbravou o caminho que outros agora percorrem. Mas porque trabalha o viajante em prol do seu semelhante? Eis a distinção entre Ter e Ser.

Nunca estamos sós e todos somos uma coisa só. Aquele que trabalha apenas em virtude dos proveitos pessoais, esquece que é parte de um todo e que tudo o que o rodeia são extensões da sua individualidade. Ao renegá-las, estará a renegar si próprio. Mas, quando o sentir da fraternidade se instalar no coração que deseja beber da Fonte Eterna, logo esse dever se instala em si… Como se inato fosse. Aquele que sabe, contrai uma dívida apenas saldada através da partilha de sua sabedoria, moldando-a em palavras, imagens ou visões. E não poderá ser essa a razão do retorno de um caminhante? Prestes a banhar-se no Mar de Luz, prestes a se tornar uno, por consciente decisão adia a profunda comunhão e regressa aos prados terrenos, mergulhando na dor da ambiguidade e na incerteza da dualidade. Alta brilha a estrela de tais seres, silenciosamente cumprindo a vigília do mais longo dos sonos…

Mas todo aquele que ensina, bem como aquele que é ensinado e aquele que renega o próprio ensino, são personagens que desfrutam de uma experiência singular, e nenhum poderia existir sem o outro. Seja qual for o rumo, ou, antes disso, a génese do retorno, por nada se faz cessar o carácter experimental da vivência, mais ou menos avisada. Pois toda ela detém uma razão clara e luminosa, ainda que aos olhos embaciados não seja ela visível e, por isso, revelada. É preciso imergir bem fundo no lago na consciência, que se renova através das fontes subterrâneas da Consciência Maior, para que tal evidência seja resgatada. Ela própria se reflecte no dom que é a singular arte de cada caminhante. Assim, e se toda a existência é plena de propósito, porque vivê-la como se desprovida estivesse de profundo intento? Apenas ao seu “não descobrimento” se poderá atribuir um “não rumo”, ainda que isso seja, paradoxalmente, um rumo individual – isto é, um rumo passível de ser escolhido. 

Mas nem sempre de suas escolhas está o viajante consciente ou por elas se responsabiliza. E aqui se revela a maturidade de sua essência: no entendimento de cada efeito e na aceitação das respectivas consequências. Apenas ao levar a cabo uma existência imatura, isto é, adormecida, distante da sua primeira intenção, é que o viajante se poderá dizer perdido, inconsciente, incapaz de caminhar, desligado da luz mais primordial. Quando entender esse seu passado, talvez até nem necessite mais de retornar à matéria; talvez opte por se unir à energia que o criou. Então, dirá: «agora me encontrei, eu que havia estado perdido; agora sou a Consciência, eu que havia estado inconsciente; agora sou capaz de caminhar, eu que havia adormecido na berma da estrada; agora sou a luz primordial, eu que havia em entregue à escuridão do não conhecimento». E a personagem que fora interpretada, de pronto se descarta como uma roupagem antiga. Parecendo-lhe tudo deveras ancestral, inconcebível na sua nova realidade, os cenários que compuseram a material existência, ainda bem vivos e presentes, serão apenas resquícios de um mundo que não mais subsiste. Esteja ele prestes a mergulhar na Fonte ou apenas a se preparar para uma nova etapa. O sentimento, em forma de noção adquirida, será idêntico.

Afinal, o que é o tempo de uma vida só? No deserto da eternidade, esse episódio é um mero grão de areia, impossível de distinguir dos demais. Mas, ainda assim, crucial à criação do seu todo. Apenas se findou a turbulência, apenas tudo se fez cumprir. Em ambos os mundos, brilha a aura daquele que cumpriu. Mesmo que regresse, mesmo que volte a palmilhar o vale do esquecimento, será bafejado pelo sereno êxtase dos que vivem elevados. Essa conquista é pessoal, pelo que nada mais se lhe poderá furtar. Em cada passo, o magnífico Ser se aproxima cada vez mais da casa onde nasceu.




Pedro Belo Clara. 





quarta-feira, 17 de abril de 2013

FINALIDADES



O sol despontou, abençoou a vida em seu redor e a jornada do viajante se iniciou. Longo será o seu percurso, solitário também; mas disporá, se cultivar em si a visão, de todos os elementos necessários à concretização de seus propósitos e à própria evolução do Ser em causa. É esse um dos tesouros que encerra em si e que, no começo de sua viagem, olvidou – assim como a ideia de que é parte ínfima de um Todo infinito. Tais sentires, que serão certezas para a sua Alma, concederão ao viajante sabedor um doce conforto, catalizador de sua crença e fomentador de paz e equilíbrio. Não teme o negro fundo do poço aquele que sabe, em sua verdade, o que lá o espera – e toda a realidade se molda pela pessoal visão que se projecta em cada coisa.

Mas, as diversas etapas que o esperam, não são detentoras de um vazio despropositado ou completamente absurdo. São, em sua vez, nuvens que, sucessivamente alcançadas e domadas, o guiarão até à morada das estrelas. Nesse percurso (ou, melhor dizendo, ao longo do mesmo), é comum questionar-se a  finalidade do mesmo. Isto é: o motivo de todo o palmilhar, a razão que sustenta a viagem, a génese de todo o primordial impulso que o impeliu a realizar algo que já não recorda. A pequena gota de água separou-se do oceano que a albergava, onde era una com todas as demais gotas que, juntas, compunham o oceano em si, apenas para que de novo a ele pudesse regressar. Não foi já tal coisa dita e partilhada? E o oceano? Deixará de existir ao se saber desprovido da sua preciosa gota? Ambos vivem um no outro, ambos são uma coisa só. E nunca cessarão a sua existência. Mas, qual o porquê da partida? O que causa a separação? Porque se distende o que antes estava unido? Por punição? Por desprezo? Por consequência de mesquinhas calúnias? Essas ilusões assombrarão as mentes que se auto-limitarem, mas num Universo de Amor tais ideias são finos espectros que desvanecem à luz da crença e do esclarecimento. Recordo: todo o caminho é um escolha e suporta a sua causa. Mas a sabedoria íntima, ganha através de muitas vivências (ainda que essa não seja uma via exclusiva), é uma luz imensa, deveras fascinante e profunda… E também se poderá resumir a isto: experiência. Eis a razão maior. Tudo será recordado, toda a verdadeira realidade será revelada quando a gota de água se fundir no seu eterno oceano, quando a centelha de luz retornar ao seu sol, quando o filho que há muito partiu regressar a casa de seus pais – simples metáforas para os caminhos da existência e suas finalidades, aqui vistos através da mais simples das formas.

Ainda que os rumos difiram entre os inúmeros caminhantes que os delineiam, a causa global é comum. Todos somos as partes de um Todo aqui projectado, por ilusões divido e apartado. Assim, antes de beber o elixir do esquecimento, o viajante definirá o seu rumo até à origem, mesmo que isso signifique o assumir da dúvida mais abrangente e o suprimir de toda a crença. Pois também essa decisão é um caminho, e esse caminho é certamente passível de ser trilhado. Por mais díspares que possam ser, desembocam todos no mesmo lugar: o Infinito. Pois o Céptico e o Religioso, assim apresentados pela dualidade deste mundo, são também eles uma coisa só – como o Grande e o Pequeno, o Alto e o Baixo, a sua Esquerda e a sua Direita. Se se entregar nos braços da Vida, confiando nas forças que brandamente a regem – aquelas energias superiores ao próprio viajante, mas das quais também ele é parte integrante – encontrará aí uma suave via para atingir o seu propósito. Mas, como referi, essa é apenas uma mera direcção, uma pequena pétala de uma só rosa. Toda a direcção serve o mesmo fim, toda a pétala compõe a doce formosura de uma rosa.

Entre esses tempos de chegada e partida, pois a existência material é um simples sopro, célere e efémero, contam-se as diversas etapas a cumprir, a alta escadaria que em seu percurso o viajante irá subir, até ser recebido, de braços bem abertos, no Mar de Luz que o espera. A diversidade por ele experimentada será, de facto, vasta, fazendo jus à sua própria nomenclatura. Mas que não olvide ele o principal: o que é, é-o por uma sólida razão. As experiências serão, por isso, causadoras das mais amplas sensações e aprendizagens. À medida que certos impactos sejam causados, tanto nele como em nós (pois que somos nós, leitor, senão os caminhantes de uma grande jornada, seus semelhantes em condição?), as impressões que restarem, essa maré que traz pensares e conclusões até às margens de nosso Ser, impulsionarão certos padrões de comportamento que serão, a seu tempo, consolidados. Importa, pois, ao mais avisado dos viajantes, entender cada um deles, avaliá-los e julgá-los, escolhendo o que poderá ser melhor para a sua existência, para a história que de momento se encontra a escrever. Apenas aqui poderá ele ser detentor do direito de julgar: sobre o que deve ou não entrar no capítulo de sua existência, de forma tão branda quanto a brisa afaga as folhas do grande carvalho. Poderá, assim, escolher o seu padrão, a sua rota de acção ou até mesmo de passividade ou entrega, desde o mais complexo dos roteiros ao mais simples e desapegado ideal de experiência. Como nos demais casos e hipóteses, é uma opção. Pois tudo depende da perspectiva de cada um de nós, do olhar adoptado perante cada coisa nova, das razões que motivam o que fazemos e o que escolhemos. E, uma vez identificado, ou o consolidará ou o transmutará, quebrando a velha ligação e cultivando uma nova.

Ser ou estar consciente é, numa primeira fase, saber colocar tais questões e encontrar as suas devidas respostas. Poderá entender que se perderá no devaneio turbulento das emoções sentidas e, como tal, escolher uma vivência longe do seu extremo. Aí, estará a sua escolha. No entanto, poderá considerar que essa plenitude de sentires é a última peça da sua experiência. Assim, decidirá aproveitá-la. Ou, ainda, ser mais brando e experiênciar o «melhor dos dois mundos». A analogia é clara: três homens estão sentados à mesma mesa, bebendo da mesma garrafa de vinho. Contudo, ambos o saboreiam de formas distintas. Um, mal recebe o primeiro gole, de pronto o cospe, não desejando entrar nas expirais embriagantes. Outro, muito menos comedido, esvazia o seu cálice de um trago e deleita-se já com as maravilhas de uma segunda garrafa. O último, por sua vez, deseja deliberadamente saborear o vinho, embora não intente tombar nas mais ébrias tentações. Os mesmos elementos, mas personagens diferentes… Causas idênticas, efeitos distintos. Estar consciente é entender o efeito do vinho, à partida, e suas implicações. O resto… é escolha. O guerreiro que opta pela batalha, quando a sua escolha é definível, questiona-se: «granjeio protecção para a batalha por ser sensato ou por temer a dolorosa ferida?». Dessa mesma forma, o faminto que desconfiar do pão que lhe for servido, desde logo o estará a envenenar. Eis a perspectiva e o comportamento perante os sucedidos. Serão esses que guiarão o viajante até ao término de sua jornada, no tempo em que todas as estações se findarem, fazendo-o cumprir o propósito a que se dispôs. Quão maravilhado ficará quando entender, em sua Alma, que cada gesto, cada toque ou sopro o conduziu àquele esplendoroso momento…

O que estará, então, no final de todos os seus rumos, quando os diversos trilhos se unirem num só espaço, num só destino? Para muitos, a Liberdade, a Felicidade, o Amor, a Compaixão, a Redenção… Estarão erradas essas idealizações? Não, em essência… Ainda que todas sejam pedaços da mesma tapeçaria, são igualmente, aqui, em sua forma reconhecível, ventos que sopram, ventos que vão e vêem. Desprovidas de eternidade, a centelha que lhes preencheria e que delas faria Unidade, são fugazes estados de ser, arquétipos que o viajante experiência e assume, ainda que não os mantenha de forma perene. Fazem parte da experiência, sim, mas são igualmente requisitos de algo superior, uma vez que com suas linhas se tece o Infinito. Seja qual for a razão da busca de um caminhante, para o seu íntimo parecer ela será a sua finalidade, enquanto se demorar pelos campos da matéria que o ampara. Cada um buscará aquilo que dentro de si mais veemente pulsar, implorando desbravamento, impulso ou conquista. Mas… o que dizer do sábio que opta por renunciar ao mérito que lhe é justo e devido, transmitindo-o aos demais, no auge de seu amor e compaixão? Não saberá ele que algo mais infindo o espera? Não será ele, por ser precisamente aquilo que é, motivo de inspiração para o seu semelhante? Um farol capaz de iluminar a mais tenebrosa escuridão? Uma firme mão que se desflora em expresso auxílio? Quem abre os braços a essa renúncia, encontra-se muito além do que motiva a experimentação… Pois vive no Eterno, tendo ele próprio, consciente disso mesmo, o Eterno em si.

Muitos de nós poderão considerar tais ideias como sendo a meta da viajem que empreendem. De facto, para muitos são aquilo que a impulsionam: encontrar, um dia, o Amor, saborear o vento da Liberdade, sentir o sorriso da Felicidade. Essas são as razões que urgem ser encontradas e justificadas, no que ao seu entendimento diz respeito. Mas, quando o viajante os detém junto de si e dentro de si, não entenderá ele que tais sentires mais não são do que efémeros estados? Uma condição aliada à matéria, onde tudo é mutável e passageiro, e que se assemelha às estações, onde tudo se sucede e é sucedido? Quando o viajante for ainda mais fundo em sua busca, quando alcançar lugares ainda mais interiores, entenderá, por fim, que a vera finalidade, respeitante aos estados de ser, ou o término de sua longa jornada, é a própria Plenitude. Só esta paira sobre todos os ciclos, sendo mais do que vazio resultante do desapego e do despojo (que para muitos é a finalidade); só esta, de tão árdua conquista e manutenção, se queda para além de tudo o que é dual. Eis o aspecto diferenciador: a dualidade, característica intrinsecamente material. Onde coabita o Amor, existe a Dor; na Liberdade vive o Encarceramento; a outra face da Felicidade é a Infelicidade. A Plenitude, por sua vez, é a cortina que descerra uma paisagem infinita. Embora aqui, neste plano tão familiar, também ela se possa fazer sentir através de uma sensação de preenchimento luminoso e de constante fluidez, serena e branda. Muitos saboreiam esse fruto através da contemplação, que mais não é do que um mero estado meditativo. Mas qualquer sentir será apenas a projecção de algo sobejamente superior, assim como o é com tudo o que de mais sentimos. Mas isso, é certo, não invalida a sua experimentação.

A emoção é algo de inconcebível no outro lado do véu que separa este lugar do lugar onde o viajante teve origem e terá o fim de sua caminhada. Assim, como os sentires poderão aí subsistir? Cessa o dual, inicia-se a infinidade. Aliada a seu par, a Paz, a Plenitude cobrirá a Alma com o mais reluzente dos mantos. E aí estará a desejada eternidade.



Pedro Belo Clara.






segunda-feira, 1 de abril de 2013

CAMINHOS DE ASCENÇÃO



É deveras usual e, de certa forma, compreensível que, à medida que progredimos no Caminho, povoem as nossas mentes pensamentos que invocam o porquê de tamanha viagem, a razão de um certo percurso, de uma peculiar via, de determinada ocorrência. Questionar é, na realidade, um dos actos mais reveladores e impulsionadores do nosso crescimento. É, além disso, uma pequena semente que em nós se plantou desde o dia em que iniciámos a jornada. A diferença reside apenas entre aqueles que a decidiram cultivar e os que a remeteram ao abandono e ao olvido.

Entenderemos que muito se estende, prolifera e pulsa muito para além da ilusão das coisas. Toda a origem se queda em nós, mesmo que adormecida. Tudo é sabido; apenas de momento não o é recordado. Tal poderá ser, ainda assim, questionado, mas no caminhante mais atento e receptivo desabrochará algo tão forte quanto a fé, a singular génese da entrega. E cada um de nós constrói, de forma particular, os motivos da mesma. Independentemente das vias escolhidas, pois cada existência a isso mesmo se resume, a escolhas, nunca deixámos de ser as pequenas gotas de água que intimamente desejam regressar ao infinito oceano de onde foram derramadas. Mas é justo que se realce: a cada um pertence as suas próprias conclusões, pois todos somos, por vias distintas, cultivadores de diversos pomares.

Poder-se-á, assim, indagar o motivo dos motivos, a razão mais primordial de todas… E entender que bem antes da mente compreender, já a Alma sabia e detinha esse saber como uma íntima e preciosa relíquia. Existe uma grande aprendizagem em esquecer o caminho de casa, apenas para que de novo este seja reencontrado. É o tesouro que sempre possuímos e que devemos perder, somente para de novo o encontrar. Além disso, a origem, a primordial Unidade, apenas se justifica na manifestação de suas extensões, isto é, na criação da matéria e nas tão distintas experiências que proporciona. Essa história, tão bela e profunda, encontra-se impressa em cada alma, em cada coisa que vive. E adorna o Caminho com a sua deveras cativante essência, pulverizada em cada encontro e desencontro, saudação, diálogo, contemplação… Bebemos o néctar do olvido apenas para que de novo pudéssemos recordar. E em toda a gota de água que se escorre pelos recantos do mundo pulsa tal coisa, pois a água que a compõe, apesar de distinta na forma, é em essência igual à de seu semelhante – sendo, por sua vez, idênticas à da fonte que as jorrou. A separação é uma mera ilusão. No âmago de cada coisa se manifesta a parte mais sagrada de si, por aí mesmo ela existir, unindo-a à sua divina origem.

É claro que cada viajante percorre o seu solitário rumo, ainda que nunca esteja verdadeiramente só. E, ao longo do mesmo, queima etapas que somente o engrandecerão – os degraus de sua ascensão. Quem vê o oculto Bem de todo o sucedido, confia em seu percurso. E quem confia, entrega-se. Essa é a via da Fé, uma entre tantas outras. Cada processo levar-nos-á até outras paragens, inóspitas ou não, mas por certo o próximo desenvolvimento do percurso que o caminhante decidiu vivênciar. E, sublinho, tal decisão é assumida a um nível bem mais profundo, ditada e firmada em clara sabedoria. A Unidade, ao se dividir, justifica-se; com isso, surge a dualidade, juntamente com o proliferar da restante criação. Assim surge a matéria, a forma que receberá as gotas etéreas, que em seus recipiente caminharão pelo imenso palco de um mundo deveras diverso. Em cada viagem, uma personagem; e todas serão criadas em nome da experiência e da pessoal evolução. Assumimos a sua condição quando definimos a nossa postura perante a Vida em si, tomando um de diversos caminhos que não são, claro está, exclusivos ou perenes. E caminharemos… Até se findar a jornada e a centelha se reunir à chama de onde proveio.

Entre todas essas coisas, é claro, muito mais ainda se detém. Entre o Céu e a Terra, inúmeras coisas vivem, pulsam e existem… Assim o é, na mesma exacta forma. Por isso, em cada caminhada, em cada etapa vencida e alcançada, o viajante muito experiencia. A forma como o faz, apenas depende dele. É essa, de igual maneira, a sua prova. O mais sábio de todos saberá que no centro da tempestade que o assola encontrará refúgio, por este ser calmo e sereno, ao invés do chorrilho que as emoções exacerbadas provocam… Nessas águas, muitos se poderão afogar. Mas até isso será aprendizagem. O cansaço assomará esse fatigado viajante, rendido, tornando pesado o erguer de um só dedo. Sentir-se-á esgotado em sua Alma, desprovido de forças, incapaz de se erguer, de novo, após futuras quedas… Mas até isso é aprendizagem. Não estará sempre, junto dele, uma mão aberta, mesmo que não a saiba ver? Não terá sempre a hipótese de transcender, mesmo que julgue não saber como? Não terá o tempo para pedir o que mais necessita, para que depois lhe possa ser dado? Quem vê o oculto Bem de todo o sucedido, confia… E quem confia, entrega-se.

Mas, no centro da tempestade, terá o lugar ideal para a sua vigília, enquanto medita e constrói a sua decisão, enquanto o rodar do ciclo de sempre continuar a fermentar as suas causas e efeitos. Eis a segunda opção. Mas, seja qual for o rumo seguido, se não olvidar a razão de seu caminhar, após todas as turbulências que por certo passará, as que apenas o testarão e instruirão, surgirá, por fim, a hora da transmutação maior. Aí, descobrirá forças que julgaria impossíveis, desconhecidas por sua ainda limitada visão. Depois, no seguinte sopro,  o processo evoluirá e se completará. E nova etapa ter-se-á consumido, um novo degrau terá sido conquistado na longa escadaria que se inicia no íntimo de cada viajante, espraiando-se até às margens do Eterno.

Onde reside a via da Fé, encontra-se a do Amor, da Compaixão, da Sabedoria, da Transcendência… E poderá o viajante dedicar-se a uma só? Não ficará ele sabedor de cada preceito? Ainda que toda a natureza seja exclusiva e singular, ela, por ser uma parte, compõe o infinito manto que reveste o Todo. Somos, sem dúvidas obscuras, pequenos seres especiais e únicos, desde a diversidade que nos habita a cada gesto peculiar e forma de entendimento e reacção. Não é, por isso, a experiência em si que despoleta tal coisa, pois ela poderá ser comum a muitos de nós. A curiosidade maior, antes fascínio para quem a observa, reside no impacto que cada uma cria em nós e na nossa íntima maneira de com isso lidar. Através desse acontecimento, definimos a forma de recebimento (que, desde já, volta a comportar uma escolha), de aprendizagem e de como permitiremos que se impulsione o desenvolvimento do ser que somos. Pois, após inúmeras viagens, sobejam sempre remanescentes que nos poderão impedir de caminhar: pesos a libertar, dívidas a saldar, feridas a serem saradas – eis o que nos poderá limitar o acesso ao próximo degrau do processo evolutivo. Mas até isso, claro está, é aprendizagem.

Com maiores ou menores envolvências, escolhas assumidas ou arrependidas, seguiremos rumo ao horizonte de sempre. Seja qual for a via escolhida, da qual façamos a nossa maior bandeira. Se continuarmos a desvendar e a crer no Bem oculto de todas as coisas, seja pelo Amor, Compaixão, Brandura ou Paciência, fomentaremos a nossa crença. E aquele que confia, é certo, esteja onde ele estiver, exerce e pratica o despojo maior – a renúncia e a entrega.



Pedro Belo Clara.