segunda-feira, 24 de junho de 2013

RESQUÍCIOS DE UM OUTRORA DISTANTE


Permanecendo aqui, em tão amplo espaço, dádiva de um dos mais recentes jardins da capital (ou parques, se optarmos por essa moderna formalidade), sob um intenso sol de meio-dia, soberano num céu de veludo azul, é inevitável reter certos pensamentos que logo se aprontam para a sua habitual viagem de cogitação. Principalmente, pelos instigadores de tal fenómeno mental se quedaram aqui mesmo, em meu redor. São pilares que sustentarão todas as futuras incidências que criadas serão pelo natural acto de pensar, ou, em alternativa, colocada, talvez, de uma forma mais directa e clara, serão um honroso alento artístico. Pois é precisamente isso que hoje aqui encontro: motivos de inspiração.

Por vezes, é importante que se diga, de certos aspectos, tão simples em aparência, desenvolvem-se razões que medram em campos antes tidos como impensáveis ou inatingíveis, levando assim o intrépido pensador a níveis mais distantes de idealização, não necessariamente densos (quantas virtudes não oferece o fluido pensar…), mas profundos. Daí, no devido tempo, nascerá, brilhante como o sol nascente, o entendimento, magnífica luz que extingue qualquer treva. Assim, é usual se considerar que, percorrido tal caminho, ou seja, a captura do elemento instigador, o desenvolvimento das razões, o aprofundar de cada causa e, por fim, o entendimento do fenómeno em si, um desejo se instale. Afinal, quem não suspira por ver e tocar no tesouro que foi a génese de toda uma demanda? Porque, até este momento, apenas nos quedámos perante os portões que o encerram… O desejo será, assim, o impulso derradeiro, aquilo que nos fará ir ainda mais além do que já fomos, não só para elaborar novas hipóteses, mas para saciar a sede de ver, saber e entender de forma mais ampla e, por isso, plena. Sem permitir, contudo, que tal fogo nos envolva em demasia, pois tal ferir-nos-á e, em última instância, reclamará para si, como caçador que consome a sua presa, toda a paz que havíamos conquistado até então, essa valência infinitamente preciosa, infinitamente sã.

Registo tais dizeres por este lugar, ao qual vagamente me referi, o suficiente, apenas, para o leitor o poder imaginar com a devida liberdade, ser um terreno fértil em elementos instigadores do processo meditativo. De facto, se agora mesmo tomasse os meus olhos e visse aquilo que neste instante eu vejo, iria identificar diversas sustentações da anterior afirmação, ainda que os pensamentos continuassem a ser exclusivamente seus, estimado leitor. Esses pormenores que tão levemente sobressaem da restante paisagem são, aqui, derradeiros símbolos de resistência, um pedaço do passado que ainda subsiste neste presente, o que nos remete, a nós, observadores, a tempos idos. Tal efeito instiga, é certo, o referido desejo de há pouco, sendo neste caso o de relembrar, reviver ou simplesmente imaginar como teria sido. Porque impresso em cada lugar está uma marca antiga que é como uma essência, um indelével aroma, um espírito que nunca se desvaneceu, apenas se ocultou. Assim, com olhares atentos e, principalmente, alma receptiva, tornar-se-á possível a complexa arte de ler nas entrelinhas do tempo, ainda que tal exercício seja profícuo em guiar-nos à especulação e ao deleitoso devaneio poético, confesse-se. Mas… Qual é o quadro que não se abrilhanta com as cores da imaginação?

Contudo, essas referências são meros resquícios de um outrora distante, de um passado já consumido e, por isso, extinto, nada dizendo, por conseguinte, àqueles que o não viveram. Apesar da relativa sensação de indiferença, sobra, no entanto, o místico encanto de uma irresistível e, como tal, inexplicável atracção. Pois as histórias que se contam, entre sussurros, pelos recantos de algo que atravessou eras, fascinam, interiormente, a alma que as escuta ou reconhece, por também elas serem humanas, como todos nós. Por mais que se pretenda fabular uma história, as suas raízes serão sempre humanas, terão causas humanas e sentires humanos, tão comuns em seus amores e tragédias. E tal evidência acaba, de uma maneira naturalmente compreensível, por não só cativar os Homens do agora como encurtar espaços entre tempos, de forma a tornar claro que, por exemplo, as paixões de ontem ainda são as de hoje. Isso, curiosamente, pode de igual forma proporcionar um agradável conforto, fruto de uma imediata empatia ou compaixão entre as coisas de hoje e de antigamente, não tão diferentes como geralmente se entendem e consideram.

Antes de se tornar no parque que hoje é, este local fora, em séculos que não mais se contam, uma simpática quinta merecedora da típica beleza e brio que adornam, habitualmente, as suas semelhantes. A casa original ainda permanece como uma ruinosa reminiscência, embora a sua estrutura de base tenha sido um justo alvo de atenções e de proveitos de recuperação. Eis aqui, logo em primeira revelação, um dos elementos instigadores que anteriormente referi. É certo de se pensar que a imagem dos dias correntes não é mais do que um reflexo do antigamente, pálido e disforme, sem fazer jus à real magnificência de outrora, tenha ela sido natural e simples ou veramente majestosa; mas tais consequências são efeitos do tempo, sempre eterno, sempre presente, e contra os quais pouco ou nada se poderá empreender. Contudo, a atracção maior deste lugar, a que desencadeou tamanho pensamento, tamanha reflexão, não se prende com as efemeridades naturais ou com o desgaste das perecíveis matérias, antes com o que aqui ainda vive. Já o referi leitor: alma receptiva, concentrada, mas fluida, consegue ler nas entrelinhas do tempo. Não reviver um passado que não conheceu, pois tais artes mágicas não parecem ser sua habilidade, mas sentir, como derradeira evocação, uma energia antiga, livre e silvestre, esplendorosamente bravia.

Certas coisas, ou substâncias, direi, antes, por esta palavra comportar mais facilmente a razão do etéreo do que a anterior, certas substâncias, então, resistem ao suceder dos tempos, imunes a seus efeitos de roda que não cessa de girar. E, se nos aprontarmos para tal, partiremos deste ponto de agora até às mais remotas eras, permanecendo, serenos, no limbo da dúvida, se realmente sentimos a origem ou se apenas dela nos aproximamos. Que melhor combustível para nos alimentar, então, do que o desejo que antes anunciei? Ele que, aqui, neste caso em tudo mais concreto, assume a forma de um desejo de primordial, uma quase necessidade de retornar às origens ocultas pelas brumas de nossas confusas memórias. Pois, e eis o mais interessante, embora o cenário seja exterior, a mais grandiosa das viagens, a que produz igualmente maiores e mais profundos efeitos, é a interior, ainda que esta se espelhe no cenário que nos rodeia. Mas, afinal, que é o Homem senão um pedaço daquilo que o rodeia? Tanto quanto este Todo é uma parte do Homem? Interior e exterior são uma coisa só… Completam-se, e nenhum poderia existir sem o outro.

Olhando, portanto, em redor do que adorna o meu «aqui» e «acolá», vejo as oliveiras que se quedam, belas em sua simplicidade, e as laranjeiras sempre coloridas e aromáticas, assim como muitos outros elementos de digno registo, embora sejam notoriamente mais recentes e, como tal, impassíveis de nos remeterem aos tempos da quinta briosa. Mas, ao pensar sobre as oliveiras e laranjeiras de há pouco, conseguiremos entender que são elas as herdeiras das mesmíssimas oliveiras e laranjeiras de antigamente, legítimos pedaços de um legado que ainda subsiste. Não só pela notória antiguidade das mesmas, que quase lhes confere o título de «nativas», como pela lógica segura de que tais exemplares são naturais em uma quinta como aquelas que por aqui existiam, nesta região noroeste da cidade. Estando ela, a casa, sob um pequeno outeiro, imagina-se até a redenção da vista que desfrutava à época, uma autêntica bênção matinal, um privilégio para o olhar, concessão natural dos montes sobranceiros e da vegetação que os adornariam. Observar as carroças transportando legumes e vegetais a deslizar pelas pequenas estradas de cobalto, as azinhagas misteriosas, as saudações fraternas entre fraternos vizinhos… Tudo parece reviver. Assim, além de se sentir vivo o ambiente que pairava por aquilo que este espaço fora, a atmosfera própria de uma quinta que, mesmo modesta, prosperava, antes dos anos em que claramente fora negligenciada, sente-se o tempo em que as fronteiras da cidade ainda nem tocavam estes limites. Mesmo que tudo isso seja um devaneio poético, conseguido a derradeiro custo, pois certas assumpções nem sempre são prontamente verificáveis, a essência da principal matéria deste assunto pode ser sentida. Ela estava lá, ela sempre esteve lá – somente o elemento material transmuta a sua forma, funcionando também como uma espécie de receptáculo da mesma, renovando-se aquando do manifestar dos diversos ciclos do ciclo maior, o do eterno retorno.

Se preferirmos, regrediremos ainda mais neste exercício, evocando tempos ainda mais idos. Principalmente, e é exactamente isso que mais me apraz imaginar e sentir, o século que ainda nem o era, quando este horizonte não se preenchia de betão, quando a planície se adornava de vegetação já não idêntica a esta: o tempo em que os primeiros Homens miravam não estes pássaros que hoje eu miro, mas os seus antecessores, quem sabe se deslumbrados com a beleza da imagem, da mesma forma que ela, já tão gasta e sem motivo de surpresa, ainda me deslumbra a mim, como se a admirasse pela primeira vez. Tudo sob o testemunho, ou, se preferirmos a trama poética, a vigília deste mesmo céu azul que me cobre, deste mesmo sol que me ilumina. E tal evidência, leitor, por tão simples que possa parecer, é de momento algo que incrivelmente me fascina. Pois são estas as histórias que compõem os lugares, aqui ditas de forma muito geral, incidências que, mesmo diversas em tantos pontos de seu desenvolvimento, acabam por se tocar num ponto só: o da sua criação.

Miríades de assuntos, personagens, temas, causas e efeitos se poderão encontrar impressas na alma que reveste cada lugar, uma essência singular que para si reclama um igualmente peculiar aroma, o que confere a inexprimível sensação de que o tempo é, no fundo, uma mera passagem, e que tudo, entenda-se, passado, presente e futuro, se interliga em boa verdade. Tal constatação, meu caro, levam-me até onde desejei chegar, ao primordial, à primeira essência, à unidade, ao mais básico de todas as coisas – o elixir que preenche de forma leve e plena o mais vazio dos corações. Pois ele, sempre sedento, como bem sei que muitas vezes o meu se encontra, por breves instantes beberá da fonte da eternidade, e entenderá, por fim, se atento permanecer, que, tal como ela, também ele é eterno. Que conforto se poderá erguer contra esse?




Pedro Belo Clara. 




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