quinta-feira, 13 de junho de 2013

DAS AMIZADES E DA VIDA EM SI (*)


Em um outro trabalho de minha autoria, elaborado numa ocasião que não esta, escrevi, em jeito de conclusão ao que, à época, poeticamente expunha, que nada há de mais aprazível do que saborear, no presente, o mel que outrora, de forma tão deleitosa, nos foi dado a provar. Por outras palavras, se o leitor, por razões que obviamente desconheço, contrair preferência junto de uma metáfora distinta, poderei igualmente afirmar, se não abuso de sua paciência, que nada de mais satisfatório há do que encontrar, no hoje, o ouro descoberto no passado. E isto, é claro, se o seu gosto recair sobre esse metal precioso, alvo de tanto louvor e cobiça. Ambas, no fundo, constituem diferentes vias de cumprir o mesmo caminho, pois a intenção que as reveste é precisamente a mesma. Digo que «nada de mais aprazível» ou «de satisfatório» há, e assumo os riscos inerentes a essa escolha, contrariando as premissas do bom-senso. Ainda assim, afirmo que, qual súbita aparição que se anuncia, se houver, por ventura, alguma ocorrência capaz de em nós fomentar tamanhos agrados, em tudo idênticos aos anteriormente referidos, colocar-se-á, por certo, no mesmíssimo patamar daqueles agora me apronto para revelar. Repare, contudo, que não me socorri do auxílio das aspas ao transcrever as expressões, pois, como compreenderá, não desejo citar o que, então, escrevi. Apenas, por mera opção de autoria, me parafraseio. Pois esta crónica serve, agora, propósitos bem diferentes daqueles que sustentaram a génese do referido dizer, pelo que será preferível, por não ser este o seu berço original, diluir um pouco de sua essência pelas linhas do trabalho que agora componho, fundindo-a na estrutura que vai sendo erguida palavra a palavra.

Seja como for, e quase que recorro ao «passemos a coisas mais cruciais», o que veramente aqui importa, para dar continuidade prática ao que tem vindo a ser explanado, é que, tal como ontem, continuo a determinantemente defender cada linha do que então escrevi, cada letra da expressão a que dei vida literária e humano significado. Talvez, e eis a razão somatória, por tanto a constatar, no que à sua empírica aplicabilidade diz respeito, de sentido e efeitos, em cada ocorrência da vida que se desenrola diante de nossos olhares, a reavive a cada instante, a cada reencontro, a cada testemunho. No fundo, o que ela, a expressão, compreende? Quem se deu, por esta altura, a uma atenta reflexão sobre a mesma, certamente concluiu que existe uma magia peculiar no súbito despertar de elementos que no nosso passado abundaram, fazendo dele aquilo que foi e é. Não me refiro, nem me referirei, durante este texto, às memórias menos agradáveis que todos retemos com maior ou menor translucidez, pois essas ocupariam um outro espaço e exercício de escrita que hoje, neste espaço e exercício específico, não teriam lugar. Foquemo-nos, por isso, nas recordações que mais acarinhamos. Quando ressurgem da sua terra de neblina, entre brumas de olvido, vêm envoltas numa aura quase que mística e luminosa, como nobres ligações que são com algo que outrora vivemos e sentimos, invocando, assim, as memórias e os sentires que tanto fizeram as delícias dos nossos dias mais idos.

Um exemplo de tal sucedido, chamemos-lhe assim, por forma a evitar a aplicação da palavra “fenómeno”, pois esta quase que nos remete ao imaginário do sobrenatural, e, diga-se, não é essa, de todo, a intenção deste escritor, um exemplo de tal coisa, como ia dizendo, são os reencontros com os rostos de nosso passado. Uma vez mais, sublinho que em nada me refiro às memórias ou experiências que nos confiaram o seu doloroso legado; antes, àquele rosto amigável com quem partilhámos tanto viver. De certa forma, quando nos achamos perante tal acaso, feliz em todo o seu propósito, sentimos que o tempo não cravou o seu cunho em nós, tanto no amigo como na própria pessoa que com ele esbarra pelas curvas do caminho. É como se, em íntima essência, nunca tivéssemos envelhecido, ou, colocando de outra forma o caso, quem sabe se assim de modo mais delicado, como se nunca tivéssemos materialmente crescido, com tudo o que isso comporta. Não brilharão nossos olhos nesse momento de súbito contacto? A irrefutável prova de que as almas cantam, em uníssono, o júbilo que as uniu? Explodindo esse sentir numa miríade de cores, quando os corpos se abraçam fraternamente perante o sorriso ostentado pelos rostos? É nesse inestimável momento, quase que em sereno êxtase, que todas as memórias afloram, que todos os cheiros se recordam e as histórias se recontam. «Lembras-te daquela vez?» - é o começo mais vezes escolhido para encabeçar cada frase. Então, rolam os sucedidos passados, como lágrimas que alegremente se choram, como imagens dispostas por um rodopiante caleidoscópio: «Lembras-te daquela vez, do guarda-chuva?»; «Lembras-te daquela vez, daquele teste em que copiámos?»; «Lembras-te daquela vez, em que faltámos à aula?». E isto quanto não se convidam outras presenças, mesmo que momentaneamente distantes, para a conversa que, como um rio tranquilo, flui: «Lembras-te daquela vez, na casa do João?». E quanto viver assim não vive, apenas por ser, de novo, revivido…

Por certo que o estimado leitor, se agora mesmo se propusesse a vasculhar o seu precioso baú de memórias, encontraria alguns casos gémeos deste que lhe trago. Assim, é perfeitamente plausível afirmar, sem vestígio de pretensiosismo, que compreende aquilo que lhe falo, por precisamente possuir exemplos seus, oriundos de seu mundo, que comprovem tal discorrer. Eu confesso, meu caro, que por diversas ocasiões já pensei, ao reencontrar um velho amigo de infância, seja por obra de um acaso ou por intervenção directa, isto é, através de um encontro previamente agendado, que as únicas coisas que terão em nós cambiado, ao longo dos anos de silêncio, foram a voz, agora digna de tenor (ou, em derradeira e optimista hipótese, de dedicado barítono), e as barbas que finalmente adornam os rostos outrora imberbes. Pois, como antes referi, o temível Cronos, que já os sábios e avisados gregos respeitavam, não tem ofício capaz de interferir com a essência mais pura de cada coisa. Ainda que fosse capaz de engolir o próprio filho, não detém poder sobre essa valência. Envelhece a matéria, perdura o etéreo. Além disso, esse alguém que ainda nos é tão querido, o portador de uma vida que se desenvolveu de forma paralela à nossa, pelo menos até certo ponto da existência, é igualmente o sobejo de tantas histórias capazes de voltarem a arrancar o mais jovial dos sorrisos, a viva evidência de um tempo que se consumiu em aparência. É indescritível a sensação que nos conquista, quando voltamos a desfrutar da companhia de quem tanto nos fez rir… E vice-versa, claro, como será óbvio e suposto de acontecer.

No suceder de tanto sucedido, ignore-se a redundância, por bonanças e tempestades, bem comuns ao ciclo que a própria vida é, a mesma oferece-nos ainda, além do recordar, e entre muitos outros mais, este imenso prazer: a oportunidade de crescer ao lado de quem tanto nos diz. As conversas hipotéticas de há pouco, são uma clara consequência da verificação desta hipótese, pois só poderiam ocorrer, numa de suas máximas expressões, entre dois entes que tanto partilharam por longos períodos de suas vidas, como autênticos, e bem fieis, companheiros de viagem e de estrada. Se voltarmos a evocar os exemplos pessoais, constataremos: começamos crianças, jogando com bolas de papel amassado, revestidas por fita-cola forte e competente em seu trabalho de unir e colar; tornamo-nos adolescente, e a curiosidade pelos femininos aromas, tão misteriosos e irresistíveis, desperta; depois, o tempo da faculdade e de outros amigos e conhecimentos, sem que isso signifique o olvidar de nossas raízes. Aventuras e desventuras, copos erguidos e batinas amarrotadas, exames e mais exames, formatura, emprego aqui e acolá, namoradas mais a sério, uma apenas ou um leque enorme das mesmas, cada qual na sua devida vez, é claro, que nestes assuntos não é sensato alimentar confusões, esposa, casa e carro a preceito… Filhos? Por certo… Netos? Porque se negaria a sua vinda? Até nascer o dia em que, juntos, evoquem o tempo em tudo começou. Aí, a jornada parecerá infinda. Afinal, a frondosa árvore, hoje tão ampla e poderosa, sempre se surpreende quando relembra que proveio de uma frágil semente.

É claro que muitas outras presenças se extraviam com o contar dos anos, lentos à luz das suas percepções de fragmentos de tempo, mas sempre céleres para aqueles que vivem através dos mesmos, esvaindo-se das futuras histórias da existência que se desenvolve e prospera. E é natural que assim seja. A própria ordem da vida compõe-se de coisas tais, de rumos que se traduzem em escolhas. Não haverá “bem” ou “mal” aqui, somente opção passível de ser respeitada – ainda que não seja compreendida ou aceite na sua globalidade. Mas tais figuras, e elas próprias mais do que ninguém, saberão o que será melhor para si e para suas histórias pessoais, pelo que é perfeitamente normal que sigam os ventos que souberem ser mais propícios à sua navegação. Afinal, de certa forma, todos possuímos um destino para esta viagem, um porto onde desejamos atracar, ainda que a neblina o oculte ou o almirante, confuso, não saiba simplesmente onde o encontrar. Mesmo assim, a dificuldade não deve necessariamente albergar a desistência. Em todo o caso, nem todas as presenças, de forma física, permanecem junto a nós, pelas mais diversas razões. Outros até acabam, quando menos esperam, engolidos pelo mar que desbravavam… Como tudo o que começa, tudo detém igualmente o seu fim – que apenas dá lugar a um outro recomeço.

Perto ou longe, seja pelo físico ou pelo espírito, todas essas incidências, todas essas histórias e rostos, quando passados, tecem o manto daquilo que fomos num tempo que não mais subsiste, a não ser dentro de cada um de nós. É por isso que o reencontro de alguém que pertence a esse cenário é como o retornar a uma casa ou a um lugar onde poderemos dizer que fomos, efectivamente, felizes, pois trazem consigo, entre laivos de recordações, o aroma de tantos momentos vividos e compartilhados, pelo que o sorriso, a dois, é absolutamente garantido. Será a prova de que esse «mel» que foi saboreado não azedou, mas se fermentou e transmutou em algo de mais depurado, como a sublime substância que o compôs. Pois, pelos anos de intervalo, contar-se-ão mais histórias ainda, mais vivência e mais experiência, parcelas, apenas, a somar numa colorida operação cujo resultado a cada dia se colhe, sim, mas de maior expressão se sentirá quando, num futuro não evitável, de novo forem evocadas. Precisamente aí se fará o julgamento final, íntimo e pessoal, quando as barbas se esbranquiçarem, os corpos se arquearem e, quem sabe, os sorrisos se compuserem por uma dentição bem mais escassa… Mas que importância terão, nessa era de recordação constante, os meros (e naturais) efeitos da decrepitude? Os corações estarão cheios de vida, como cálices que de amor transbordam… Não mais, talvez, recordará a mente, às voltas com os nefastos efeitos das traquinices de um alemão peculiar, um tal de Alzh qualquer coisa, mas as almas, ainda que encarceradas na material opressão da idade avançada, refulgirão, internamente, em arco-íris de encanto. Pois que conforto maior poderá advir da certeza íntima de que a existência em causa foi vivida em pleno? Que a personagem cumpriu escrupulosamente o papel que lhe havia sido escrito? Que o conquistador alcançou todas as metas a que se propusera? Sereno se queda o sol por sobre a mais pacificada das consciências.



Pedro Belo Clara.






(*) Nota do autor: Serve esta simples crónica como dedicatória sóbria e justa, por evocar temas em tudo concordantes com a intenção que motiva a mesma, aos meus mais veros e velhos amigos, que desde um outrora distante me acompanham até aos dias que hoje correm por nós, com maior ou menor influência de contacto, com mais ou menos ausências de registo (a vida sempre detém a mais certa das razões). Em todo o caso, o sentimento de estima e de respeito nunca se altera – antes, cresce e solidifica-se. A vós, então, caríssimos companheiros, cujos nomes me escusarei a citar por ser obviamente vão esse acto de mera nomeação, ou não soubessem vós, amigos, ou melhor, Amigos, agora sim, com a mais exacta das precisões, a quem me refiro eu, entre saudades, louvores e, acreditem, gratidão. 






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