sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

MEDITAÇÕES XLVIII


Tão raro é o Amor.

Não esse amor que só viça
quando a rega sobre si se verte,
que oferece sorrisos para colher
todos os sorrisos do mundo,
que mastiga afiados espinhos
por se achar longe das rosas,
que alimenta sedes por julgar
verdadeira a sede que sente.

Tão raro é o Amor.
Não por escassa existência,
mas por parca manifestação.
Quantos batalhões de nuvens
no moldar da dádiva o afogam?

Essa flor de matiz que não há
canta sob a bênção da luz
e sob o assombro da noite.
O Amor canta a eternidade
que sabe caber em si.

E nem esse é o seu modo último:
quando reconhecer o rosto
no infinito que traz no peito,
todas as canções tecidas
serão poemas de silêncio.







(Fonte: pinterest.com)




sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

MEDITAÇÕES XLVII


Ambíguo, o olhar do Homem.
Mas que outra visão esperar,
se dual é a forma onde se exprime?

Observando o mar da existência,
quando prevê o nascer de alta onda
só teme sucumbir à força do seu sal.
Saberá que se lhe tomasse a crista
tão perto ficaria das estrelas?

Cego de vagas, ignora a absoluta
permanência do oceano que as gera.
Como poderá a simplicidade
ser bebida por tão complexa pessoa?

Ao fecundar a ilusão que cria,
por mais promissor que pareça
o destino tecido em fantasia,
fica aquém do que em verdade é.

Assim, por sua mão se condena
ao exílio dos pássaros moribundos,
esses que de tanto temerem a queda
nunca ousaram dar cor às asas.
Como uma melodia sem coração
para de eco lhe servir, desaprenderam
a arte que sempre lhes fora inata.

Pela imensidão da terra vagueiam
decepados da sua realidade,
afogados no sonho que crêem,
chorando o céu donde se expulsaram.







quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

MEDITAÇÕES XLVI


Há uma canção que ecoa
desde o princípio do tempo.
(Tão raros os Homens
que a souberam escutar.)

A existência inteira
ao seu ritmo sem som dança,
como se uma espécie de vento
percorresse o coração
de cada ente dançante.

(Um olhar veramente vivo
verá como se entregam
em gestos de êxtase puro.)

Nenhuma parte é excluída,
pois que parte pode existir
num todo completo?

Certos do amor primordial,
árvores, pássaros, rios e flores
dançam a luz em si.

Porque não o Homem?







(Fonte: shantagabriel.com)



terça-feira, 8 de novembro de 2016

MEDITAÇÕES XLV


Conforme for o sonho sonhado,
assim o sonhador o viverá.

Que espera acontece até dançar
no cume duma flor aberta
aos silêncios do alvor?

Só existe o que é.
Para alguns dos que nutrem a busca,
o longo vale da ilusão será
caminho de pedras e espinhos.
Ignoram a sublime eminência
das montanhas ladeando a estrada.

Para à verdade dedicar
um sincero amor, de certos rumos
faz-se passagem obrigatória.
Mas quem o julga e porque julga?

Quando estiverem às portas
dessa solidão que como vazio
de águas extravasa margens,
saberão do sóbrio movimento
de regar os canteiros do mundo.

Na terra da verdade nunca o sol se põe.
Repouse o braço que deseja ter
aquilo que sem saber já possui.

Não busque o ente a verdade.
Dispa-se apenas da mentira
com que nesciamente se vestiu.










segunda-feira, 31 de outubro de 2016

MEDITAÇÕES XLIV


De quem amas não queiras nada.
Aquele que pede abdica do reino
que por direito inato é seu.

Sê assim uma espécie de flor
aberta à luz que por bem surgir,
tão certa de que desse sol
nunca dependerá o seu sorriso.

Ou antes um pássaro, se souberes
das asas que ao peito trazes,
cavalgando o vento na toada
duma canção sem começo ou fim.

Sublimes são as árvores, sem céu
a desbravar ou terra por descobrir,
e tão aptas a oferecer o melhor de si
numa doçura que não exige louvor.






(Fonte: Getty Images)


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

MEDITAÇÕES XLIII


Viver a vívida solidão do mundo 
não é ser como uma taça,
seca e dura de tão vazia
que se encontra.

Viver a vívida solidão do mundo
é permitir somente que o fluxo
se não interrompa:
ora vazia e transbordante,
ora cheia e minguando.

O ser, contudo, deixará
de ser a taça que aparenta.
Diluída num mar infindo,
como poderá a gota dizer
de suas nítidas fronteiras?







segunda-feira, 26 de setembro de 2016

MEDITAÇÕES XLII


Não há rio que não tenha
um oceano onde morrer.
Mesmo diante da pedra
que lhe perturba o rumo,
a fluidez de ser permite torneá-la.

Se certas águas adormecem
no falso embalo das lagoas,
tal apenas se sucede pelo fluxo
da corrente se ter negado.

Poderão temer o seu diluir
naquela imensidão de águas
a que nunca deixaram de pertencer,
mas nenhuma lagoa será eterna.

Ainda que a semente necessite
dum derradeiro impulso para assim
dar lugar ao promissor rebento,
ainda que à borboleta se exija
um derradeiro esforço para romper
o seu torpe sono de lagarta,
a via tão subtil da existência
pauta-se por claros contornos:

não-resistência.








(Fonte: extremekindness.com)