sexta-feira, 18 de setembro de 2015

MEDITAÇÕES XXIII



Aqueles que são ave
inquietos cruzam
a imensidão do mar celeste.
Que estrela procuram?

Aqueles que são lobo
sem matilha onde voltar,
palmilham solitários
as pedras da velha estrada.
Farejam um trilho para o lar?

Aqueles que são raposa
afinam a sua astúcia
na perseguição de cada presa.
É a caça razão de viver?

Aqueles que são árvore
fincam as raízes bem fundo
na terra que os viu nascer,
sem que aos altos céus
deixem de erguer os ramos.

E servem de poiso às aves,
quando se fatigam de voar;
oferecem fresca sombra
ao lobo em sua jornada;
abrem refúgio à raposa,
se vir em sua curta vida
mais do que as presas que caça.



PBC.





(Fonte: www.myenglishclub.com)

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

MEDITAÇÕES XXII



Noite estrelada.

Como cintilam
as pequenas centelhas de luz!

Chegam as nuvens.
E as estrelas cessam ao olhar
o brilho que tanto o encantava.

Oculta-se o que sempre cintilou.
Ainda cintilará,
por mais que à densidade
os olhos se habituem?

Passam as nuvens, enfim.
E as estrelas de novo cintilam
sobre o prado que as contempla.

São as nuvens
quem julgas que és.

São as estrelas
quem sempre foste.



PBC.






(Fonte: nationalgeographic.com)

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

MEDITAÇÕES XXI


É animal voraz
e o Homem assim o nomeou:
desejo.

Por mais que a sua fome
seja satisfeita,
mais insaciável se revela.

Como lhe por um termo?

O desejo é filho
da ilusão do Homem.
Para viver, necessita de tempo.
E tempo, além de fantasia,
é encarceramento.


O tempo comporta duas margens.
Se uma se inundar,
a outra logo desaparecerá.


Quando tomba a cortina,
o que sobra?
A verdade plena.

Mãe do silêncio,
em seu seio só se embala
uma quietude profunda.



PBC.






(Fonte: ravenessences.com)

sexta-feira, 17 de julho de 2015

MEDITAÇÕES XX



Por quanto tempo mais
terá a borboleta de findar
seu voo na terra prostrada,
e assim renascer em flor?

Murchando a flor,
antes berço de tanta vida,
outra borboleta, algures,
gerar-se-á.

Gerada a borboleta,
um outro voo a seu tempo
prostrar-se-á na mesma terra
donde uma flor brotará.

Se asas coloridas tem,
por que não faz a borboleta
uso de tamanha valência
e voga pela imensidão
do céu que tem em si?

Por que não é essa flor
da borboleta gerada
tão natural e simples
em sua profunda verdade?
O néctar deslumbra a borboleta,
o perfume inebria a flor.

É certo:
de tão quieto,
o silêncio é despercebido;
de tão vasto,
o vazio assusta o ser.

Sem a completa liberdade, porém,
o retorno é estrada infinita.



PBC.







(Fonte: wolfram.com)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

MEDITAÇÕES XIX



A verdade de cada coisa
é como um pequeno sol:
cega o olhar
que súbito a ele torna.

A verdade de cada coisa,
por ferir o que julgas teu,
é raiz de injurias e proscrições.

A mentira, porém,
é como dormitar na sombra
fresca da oliveira gentil.

Aquele que dorme
tarda em despertar.
Aquele que se cega
aprende a ver.



PBC.








quinta-feira, 25 de junho de 2015

MEDITAÇÕES XVIII


Pensamentos são frutos
de memórias e experiências,
obstáculos à observação
da natureza das coisas.

Pensamentos são sons:
agridem o silêncio.
Pensamentos são nuvens:
cobrem o sol mais brilhante.

Como sons que são,
também cessam
diante da mudez mais profunda;
como nuvens que são,
também se dissolvem
à passagem do leve vento.

A eterna testemunha:
o magnânimo céu.




PBC.






(Fonte: ak-studios.deviantart.com)

quarta-feira, 17 de junho de 2015

MEDITAÇÕES XVII



Que sabemos nós das estrelas?
Do que palpita, seguro,
sob as formas que os olhos vêem?

O amor que sabemos
implora gestos para que viva.
Só ama se amado.

Foi a melhor semente
que soubemos lançar à terra.

E a flor, na vez de dentro,
cresceu para fora.




PBC.








(Fonte: amc-nh.org)