domingo, 29 de setembro de 2013

A VALIOSA PROMESSA DE UM VOTO


Deu-se o caso em Lisboa, cidade onde nasci e vivo, mais precisamente numa estreita rua que muito me é familiar – ou não tivesse habitado lá, de forma quase permanente, durante os primeiros dezassete anos da minha vida.

Como se compreende pela minha histórica ligação ao local, possuo razões bastante válidas para continuar a frequentá-lo. Não me refiro apenas às imensas memórias daquele lugar que por meus olhos foi contemplado e por minha alma sentido ao longo das diversas estações que compõe um só ano, ainda que, como no início referi, tenham sido muitos os que lá passei. Refiro-me antes às pessoas que adornam tais espaços e que, na maioria das vezes, fazem deles aquilo que são.

Foi, assim, num retorno a um passado tantas vezes revisitado que o motivo desta crónica se sucedeu. Por outras palavras, visitava um familiar quando a história em causa chegou ao meu conhecimento. Como expliquei no parágrafo anterior: não só de memórias pessoais se ornamentam os lugares. As pessoas são igualmente uma inestimável parte desse património. E, apesar desse capítulo da minha vida ter já conhecido o seu término, continuam a subsistir razões para que retorne ao mesmo. E ainda bem que assim é. Pelo menos, por enquanto. Creio verdadeiramente que todo o vinho merece ser saboreado em pleno antes que a garrafa que o guarda fique vazia. Por isso, não se trata de um «passado extinto»; antes de um «passado» que… evoluiu para «presente».            

Mas não me alongarei mais em assuntos que não sejam tidos como principais. Assim, como dizia, àquele lugar tinha regressado com o intuito de visitar um familiar (e, claro, recordar alegremente outros tempos). Mas antes que relate o resto da história, devo esclarecer o leitor do seguinte: a rua a que me refiro é, a bem da verdade, uma longa calçada. Até o seu próprio nome sublinha essa evidência. Ela vem desaguar, no sentido de quem a desce, numa outra rua, sempre movimentada, e nasce, se continuarmos com a visão do transeunte que a desce, no centro da zona que confere o nome à freguesia onde se situa. Em suma, é longa, estreita e, num determinado ponto, bastante acentuada.

Devo, porém, realizar uma nova pausa e proporcionar ao meu caro leitor brasileiro o seguinte esclarecimento, perfeitamente justificável e, espero, revelador do significado de certas terminologias que irei utilizar. Cada cidade, em Portugal, é constituída por diversas freguesias (não confundir com bairros). No fundo, zonas de um determinado espaço citadino que contam com aquilo a que chamamos de “junta de freguesia”. Assim, cada freguesia possui a sua junta e cada junta o seu presidente. É a expressão mais básica do poder político – o poder local. Por sua vez, cada cidade possui a sua “câmara municipal” e, consequentemente, o seu presidente. É esta figura que assume e desempenha um papel semelhante ao dos “prefeitos” que tão bem os brasileiros conhecem. E sempre que se elegem novos presidentes, para as juntas e para as câmaras, designamos essas eleições de “autárquicas”. Afinal, servem para eleger os novos membros das diversas autarquias do país. Compreendido?

Continuemos: acontece que, como consequência de uma intenção da junta de freguesia local em renovar o pavimento das estradas e ruas da zona, a dita calçada encontrava-se à data (e, confesso, ainda se encontra) em plenas obras de reabilitação. É claro que empreitadas do género não se operam sem a habitual confusão e ruídos próprios dos trabalhos, adensados pelas persistentes queixas de moradores e comerciantes. É inevitável. E, ao mesmo tempo, cómico e antagónico. A intenção de recuperar a calçada foi de pronto louvada; contudo, a obrigatoriedade de passar pelos dias de repavimento, acerto de passeios, remoção de pedras e nuvens de poeira já não é tão pacientemente suportada. O português é um povo pleno de contradições…

No entanto, o processo de melhoramento da via estava demorado. E, como tal, a paciência dos locais cada vez mais extinta. De certa forma, compreendo. Tais obras mobilizam meios e a vida habitual da rua deixa simplesmente de existir. Tudo o que se faz, desde o caminhar sobre o passeio ao entrar num restaurante para almoçar, é condicionado. Não é agradável, obviamente. Mas, em todo o caso, necessário.

Um comerciante local, proprietário de um restaurante, andava particularmente irritado com os ruídos e com a própria demora na conclusão dos trabalhos. Isto sem contar com os avanços e recuos que o processo ia registando. Ora compunham e saiam do local, ora retornavam e compunham-no de novo. Todos temem, neste ponto, perder o habitual fluxo de clientela. Desde o dito dono do restaurante ao proprietário do cabeleireiro em frente. Mas era algo mais do que isso. O pobre homem queixava-se essencialmente da própria confusão, das redes, pilares, fitas e demais obstáculos que permaneciam espalhados pela rua e, muitas vezes, mesmo em frente à porta do seu estabelecimento. Oh, por quantos dias, pela manhã, teve ele de varrer a poeira que adormecia na entrada do restaurante, de forma a torná-lo novamente apetecível?

Mas um comerciante é um homem de contactos. Principalmente os que dirigem restaurantes de afluência local. É um privilégio conhecer a freguesia… Nunca se sabe quando dela iremos precisar. Além do mais, todos somos humanos… Todos necessitamos de uns minutos para desfrutar de uma refeição verdadeiramente retemperadora. Por isso, acabamos sempre por frequentar lugares do géneros, onde todos se conhecem e tudo (quase) se sabe.

Assim, quis o acaso que num belo dia pisasse a soleira da porta do estabelecimento do enfurecido comerciante uma senhora que, lá está, por acaso era assessora da presidente da dita junta de freguesia. Oportunidades dessas jamais se poderão desperdiçar. E o bom homem, convicto, não o fez. Ainda para mais, encontramo-nos em plena época de eleições autárquicas, onde tudo o que um presidente puder fazer em nome da sua excelsa imagem é, por certo, realizado. Ora bem: a dita senhora não perdeu pela demora. Escutou tudo e algo mais ainda. Anotou mentalmente todas as queixas, por mais minuciosas que estas fossem, sem esboçar, assim me contaram, a mínima reacção. Nada como dedicar ao povo a merecida atenção… No fim, para terminar em grande êxtase o seu poderosíssimo discurso, o comerciante em causa usou a mais que evidente “ameaça”: «ou isto muda, ou a sua presidente deixa de contar com o meu voto!».

Pelo que sei, o homem nem nunca deve ter votado na sua vida. Mas fez bom uso do seu espontâneo recurso. Digam o que quiserem dizer, mas a verdade foi esta: no dia seguinte, os sobejos dos trabalhos naquela parte da calçada tinham sido removidos, não existiam fitas a bloquear a via e a mesma, de forma tão fluida, havia sido reaberta ao trânsito. Não obstante, os dedicados trabalhadores foram incumbidos de novas ordens. Para quê reparar apenas um troço da calçada, quando se pode reparar a totalidade da mesma? Pois bem, foi isso mesmo que foi decretado. Ah, as valiosas promessas de um voto… Assim se prova que, querendo, um político consegue realmente empreender. Só gostaria de saber qual será a desculpa que o nosso amigo comerciante encontrará para se justificar, caso a actual presidente não vença as eleições do próximo domingo e lhe envie alguém para prestar as devidas contas… Uma súbita gripe? Bem, vejamos o lado positivo da empresa: pelo menos, as ruas da freguesias terão outra beleza. E já será caso para dizer: «finalmente!».






Pedro Belo Clara.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

UM CENÁRIO BUCÓLICO


Nascido e criado na grande cidade, no seio de movimentadas avenidas, da azáfama quotidiana, das nuvens de fumo, das ondas de ruído, dos sempre apetecíveis cinemas e dos relaxantes domingos no parque, quis o destino, sempre irónico em suas intenções, que o autor desta crónica fosse portador de uma natureza completamente antagónica em relação ao espaço que o abraçou. Em suma, nasci “do avesso”. Passo a explicar: apesar do meio urbano ter sido aquele que me viu crescer ao longo dos anos, é íntima a minha ligação com as atmosferas bucólicas e os seus motivos campestres. Talvez tenha vindo ao mundo já com esse “erro de ligação” ou, simplesmente, a vida citadina, à proa do seu peso e cansaço, me tenha cultivado a atracção pelo oposto: o campo. Seja como for, o destino foi deveras irónico em suas concepções. Não seria antes de esperar que um citadino fosse um confesso amante do meio onde nasce, cresce e vive? Talvez… Se a vida fosse uma ciência certa e desprovida de excepções. Mas convenhamos: ao assim ser, onde residiria o seu interesse, o seu desafio, a sua beleza?
Eis-me, então, com um pé em dois mundos, bem sobre a mais velha linha que divide uma das mais velhas dicotomias existentes: cidade e campo – os dois lados de uma só fronteira. Não obstante as intensas e obscuras questões inerentes à própria existência, que sempre atormentam o Homem que sobre elas se digna a discorrer, vejam, para derradeiro cúmulo, a constituição de tamanha má-formação logo à nascença!  Nascido na cidade e um confesso amante do campo… Que melhor epíteto haverá? Enfim, dos inconformados será o reino dos céus. Ou talvez não. Se um dia eu o comprovar, talvez regresse para confirmar a premissa que lancei. Combinado? Por enquanto, resta pensar que este estranho fado, esta inata concepção e sua subsequente errância, detêm um válido motivo de ser. Mas isso é já uma questão de fé. E a mesma, ao ser deveras paradoxal, anuncia uma árdua explanação que não convém ao propósito deste texto.
Entretanto, e porque viver “do avesso” não é uma experiência propriamente agradável (experimente o caro leitor, se for um adorador dos trópicos, passar um mês inteiro na Suécia, onde as horas de sol diário por vezes se contam pelos dedos de uma só mão!), este bucólico amor que aqui confesso teve, necessariamente, de encontrar uma via para fluir, uma forma para se manifestar. O implacável destino que tira, é certo, da mesma forma dá. Assim, no tempo que provou ser o adequado, dispus da felicidade de encontrar um autêntico refúgio campestre a “apenas” cem quilómetros da capital (e digo “apenas”, com as aspas devidas, pois para os meus caríssimos amigos brasileiros essa distância é uma perfeita ninharia… É o que dá viver num país imenso como é o de Vera Cruz. Mas acreditem: para um europeu comum, cem quilómetros é uma distância considerável).
Às divindades, pagãs ou não-pagãs (qual delas passível de louvor?), verdadeiramente me gratifico por tamanha achado. Tanto, que o meu epíteto merece agora uma alteração: nascido na cidade, mas um orgulhoso habitante do campo. Ainda que, a bem da verdade, seja na capital que passo, pelos mais variados motivos, a maior parte do meu tempo, envolto nos habituais alvoroços e demais devaneios citadinos. Mesmo assim, é óptimo poder desfrutar da hipótese de um refúgio e de todas as opções que ele nos concede. Pois o desabrochar das flores, a maturação dos frutos ou o acobrear das paisagens são milagres que o cenário urbano nem sempre consegue oferecer na sua máxima plenitude. E as caminhadas por alamedas de pinheiros? E as visitas às ruínas de antigas propriedades? Nessas alturas, recorda o Homem que, afinal, não é apenas um fatigado corpo, mas igualmente um espírito de considerável leveza.
De tanto nos habituarmos às virtudes destes locais, acabamos por construir e a eles associar a venerada imagem de um santuário. Pois são qualquer coisa de sagrado, de virgem, de harmonioso. São, no fundo, os palcos que marcam o retorno do Homem aos mais primordiais aspectos da sua natureza primitiva. Por isso, sentimos uma fortíssima necessidade de os defender e preservar. Mas os anos guardam algo de obscuro em seus fundos bolsos… O dito progresso, se é inevitável, é por norma pouco sustentável. Ainda que pessoalmente não creia que assim deva ser, o Homem teima em optar por essa via. E as consequências vão estando à vista de todos nós.
Foi num dos inúmeros passeios que tenho por hábito dar pelos bucólicos trilhos que tanto me atraem que senti, pela primeira vez naquelas terras, o avanço da cidade. Num dos terrenos que ladeavam a estrada, um local de tamanha vegetação, densa e orgulhosamente imponente, constatei que o que outrora tanto o caracterizou não mais subsistia. A maior parte das árvores lá existentes haviam sido cortadas com o intuito de se proceder à venda da respectiva madeira. Não direi que a imagem era desoladora… Mas incompleta. Até que é comum, por estas paragens, certos proprietários concederem as suas terras ao cultivo do pinheiro e do eucalipto, para que, no tempo adequado, possam recolher os lucros de tal operação. Mesmo os que ao abandono se encontram acabam por ser alvos de “limpezas” do género. Os terrenos possuem donos, negligentes ou não, e, por isso, é justo que cada um faça o que melhor entende com aquilo que é seu. Ademais, existe uma legislação adequada e ela, até ver, tem sido cumprida. Mas… ao olhamos uma paisagem que nos habituámos a considerar como parte de um íntimo santuário, como nos poderemos sentir quando assistimos à profanação do mesmo?
Não deixa, assim, de sobrar um gosto residual cujo sabor não bem se compreende, seja uma sensação de inocência perdida ou de harmonia devassada. É verdade que o desbaste até revelou novos trilhos até então engolidos pela vegetação circundante e uma velhinha casa de pedra (das primeiras a existirem na região) em ruína absoluta, mas tais consolações não se equiparam aos pinheiros que valsavam com o vento e guardavam o viajante dos abusos de um sol duro e ímpio. E o caso não é virgem: noutros locais tenho assistido ao mesmo acto. Se não ao abate de certas espécies de árvores, ao desbravar de terrenos com a intenção de neles realizar despejos de detritos de construções civis. A mudança voa como a brisa da manhã… Então, e mais do que nunca, o havia sentido. Os tentáculos da cidade, envergando a máscara económica, avançam a ritmo lento, mas seguro. A magia que inspirava fadas e duendes dissipa-se perante o esventrar de campos cada vez mais áridos. Algo que tão magistralmente perdurou, não mais se verifica. E o tão amado refúgio corre o risco de deixar de o ser.
Aquela caminhada fomentou em mim diversos pensamentos. E com perfeitas justificações. De um bucólico cenário em particular, facilmente se extrapolaram as conjugações mentais para a generalidade dos acontecimentos. Na verdade, não mais irei prender o olhar no cume daqueles altivos pinheiros, tão briosamente erguidos de encontro aos céus de safira. Outro motivos de contemplação sobejam, é claro, mas há algo que se perde sem que, em nome de um equilíbrio crucial, um outro seja concedido em troca. Há mais de dez anos que me demoro por estes campestres cenários… E nunca, como antes referi, me tinha deparado com sucedidos do género. Seja pela falta de experiência no caso ou pelo alarme que ele indirectamente constitui, a constatação do facto não se revela simples de compreender e aceitar.
É importante referir que nada tenho contra os madeireiros: compreendo o seu trabalho e respeito as suas necessidades. Contudo, sem o equilíbrio necessário à boa administração das acções a empreender, perder-se-á o que de mais natural e belo dispomos em nossas paisagens. E mesmo assim, quando se adopta um método de replantação e corte, não deixa de latejar uma certa dor por entender que tais bosques não mais serão os mágicos e incorruptíveis bosques de outrora. Algo que nós vimos e sentimos, não mais poderá ser visto ou sentido da mesma forma por gerações vindouras. Se agravarmos a questão, estaremos já a lidar com actos que trarão consequências a serem pagas pelos filhos e pelos netos de quem as criou: a gananciosa desflorestação, claro está, que apenas beneficia, e por pouco tempo, as carteiras que se recheiam com o dinheiro sujo de tão desrespeitosas práticas. Não é esse o caso do refúgio que vos falo. Pelo menos, ainda não. E se um dia o for, acredite o leitor, prefiro não estar vivo para o testemunhar. Creio que não aguentaria o terror do cenário. É de família: o meu trisavô abriu o caminho à morte quando se deparou com o abate das inúmeras árvores de fruto que ornamentavam a sua grandiosa quinta (o acto, ordem do governo fascista de Salazar, fora justificado pela vaga e nada reconfortante máxima “interesse nacional”). Portanto, é certo que comigo não seria diferente.
O excesso da exploração florestal é uma chaga que assola diversas nações, sem que os governos, muitas vezes participantes dos lucros dessas grandes corporações, se importem com os nefandos efeitos de tais empreendimentos. É uma prática corrente, mas de futuro bastante sombrio. Chegará o dia em que o Homem compreenderá, por fim, que não pode viver apartado da sua mais primordial origem? Gosto de pensar que sim. Seja pela via mais suave ou pela mais severa, só espero que quando esse raro instante de iluminação lhe surgir não seja já tarde de mais.





Pedro Belo Clara. 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

UMA OBSERVAÇÃO SUBTERRÂNEA


Simples gestos, inocentes causas, profundas manifestações. Deu-se o caso em questão numa viagem, de entre outras tantas, pelo metropolitano de Lisboa. Nesta situação em particular, uma até bastante curta; mas longa o suficiente para testemunhar a incidência que me preparo para relatar, um sucedido passível de registo, de debate e de esclarecedora conclusão.

Confesso, antes de mais, que retiro uma grande satisfação de tais jornadas subterrâneas. Pelos seus princípios, pela sua envolvência, pelos seus “acasos” sempre certos e significativos. Isto, é claro, se exceptuarmos as ditas “horas de ponta”, o maior terror de todo o viajante que se declara um amante confesso das viagens serenas. De facto, como desfrutar da plenitude de tudo o que de bom nos oferecem entre carrosséis de gentes que, em múltiplas cascatas, se parecem lançar de toda e por toda a parte visível e palpável? Atenção: não classifico a tarefa de impossível! Apenas de… complexa. Pois, no seio de tamanhos tumultos, sempre se revela árduo o ofício de focarmos momentaneamente a nossa atenção naquilo que nos rodeia. E daí, posteriormente, poder capturar a mais pitoresca das imagens, a mais simbólica das situações. Admita agora o estimado leitor: se optar por assumir o papel de um passivo observador, quanto entendimento não poderá aflorar daquilo que vê em seu redor? Que ideias, pensamentos, conjugações, axiomas filosóficos? Compreenderá agora, por certo, se antes não havia ainda compreendido, o aspecto deste assunto que foco.

Mas quem, em boa verdade (e pela verdade se diga), consegue atentar nos diversos sucedidos que despontam, a cada instante, em torno de si próprio, quando a única vontade de quem contempla se prende com o agarrar de um espaço vazio numa carruagem apinhada? Um pedaço de ferro disponível, sequer, que o ampare nos sempre imprevisíveis arranques do “comboio”? Principalmente, quando o derradeiro desejo reside no escutar da simpática voz electrónica que anuncia a estação esperada… Até que ela se revela, qual sol entre as nuvens, brilhando de forma profética e redentora, quem, de boa mente, poderá tecer pensamentos sobre o que vê? Tudo isto, não esqueçamos, entre brumas compostas pelos mais diversos (e característicos) perfumes e ecos de musicas reproduzidas em modos gritantes. Leitor: como vê, contemplar no metropolitano pode revelar-se um trabalho deveras hercúleo! Para observar, importa estar disponível e receptivo. Sem dogmas, preconceitos ou outras restrições. Aberto ao que vier, apenas. Como se um rosto sorrisse e se entregasse à fluidez do vento que passa. Então, tudo seguirá o seu ritmo natural.

Enfim, que todo este longo enunciado não nos afaste do principal assunto desta crónica dita “subterrânea”… Ou não se desse o caso que a sustenta no específico local em que se deu. De facto, no dia em que tudo se sucedeu, a carruagem que me transportava até se encontrava preenchida… Mas sem tocar, no entanto, os seus extremos mais fundamentalistas. Permaneci de pé ao longo de toda a viagem, embora devidamente amparado e confortável em meu recanto – quase que direi – improvisado. Concluir-se-á, portanto, que, mesmo sem dispor de uma “paz absoluta”, tinha ao meu serviço as condições mínimas necessárias a uma observação atenta. Mas até nem seria necessário tanto, acrescente-se, não fosse o caso dar-se bem perto de minhas barbas. Por mais aparadas que estivessem (e estavam, eu o garanto), foi à curta distância de um toque, tão ligeiro e sem esforço de impulso, que tudo se sucedeu. É natural, nesta fase, que o leitor se questione: para quê observar, quando simplesmente se pode empreender uma viagem da forma mais comum? Viajar, apenas, sem enlevos ou anunciações? Poderia optar por não o fazer, é claro sim. Mas, se assim fosse, não sobejaria uma crónica como esta (enaltecer o valor da mesma não é um envaidecido propósito meu, não… Faço-a pelo registo que os sucedidos dignos de tal merecem e por aquilo que podem transmitir através dos exemplos que comportam). Além do mais, parece que contraio um sério interesse pela arte observadora… Tanto quanto viajar pelas linhas de um qualquer metropolitano. Enfim… Se a cada Homem é-lhe dada a benesse de cultuar uma íntima loucura, seja ela de que índole for, detenha ela as divisas que detiver, aceite-se, então, este sadio devaneio. Que mais não é do que um descontraído entretenimento; uma forma de tocar, conhecer e compreender. Apenas.

Se recuarmos agora um pouco no discurso que tenho vindo a registar, recordaremos a confissão expressa que revelei: satisfaz-me a viagem metropolitana. A raiz desse sentir é profunda, e pauta-se, essencialmente, por uma sensação íntima de estranha beleza, sedutora e cativante, que irrompe do silêncio, quando o há, entre “estranhos”. É uma melodia que se escuta de forma melancólica, com traços de cansaço, abandono e indiferença. Embora sempre reserve um lugar para o sorriso, para o breve toque, para o súbito cruzar de olhares. Ali, numa pequena extensão onde os passageiros se confinam, o espaço que os separa, em ilusão, é o espaço que os une. Se espremesse-mos a imagem, retiraríamos o sumo da mais pura humanidade. Quando refiro “pura”, não pretendo mencionar a ausência de alguma “sujidade” moral ou espiritual – nada disso –; antes o que de mais básico e primordial assiste a nossa condição, comum a todos nós: dores, alegrias, tristezas, dúvidas, preocupações, inseguranças, certezas, paixões. Ser humano é experiênciar um mundo de dualidades, é sentir cada recorte desses e de muitos outros sentires. Ali, numa simples carruagem, os “estranhos” revelam-se família e, entre murmúrios, soltam as suas mais íntimas confissões. Recordam-se os laços que, no fundo, sempre nos uniram, mas que pela ilusão do real foram sendo esquecidos. Nunca deixámos de ser uma coisa só. Devo dizer, aliás, que esse pensamento fascina-me de sobremaneira. Tanto que, anos atrás, compus um conjunto de poemas (quatro, no total) que descrevem toda uma viagem pelo metropolitano lisboeta. Um registo poético, portanto, de cada rosto observado e de cada sentimento sentido. Com os devidos pensamentos e conclusões, como não poderia deixar de ser. A todo o leitor que por tal se interesse, fica no ar o mote para sua procura.

O famoso caso que testemunhei, apesar de tão simples e espontâneo, deteve também a sua quota parte de humanidade. Não no sentir – isto é, na recepção do que se percepcionou –, mas no gesto em si e na profunda significância do mesmo. Em plena viagem, numa determinada estação, contemplada pela linha que frequentava, um grupo de três jovens entrou na carruagem e, de pé, tal como eu, amparam-se o melhor que conseguiram junto das zonas de apoio ainda livres. Como antes revelei, por obra de um qualquer acaso consciencioso, que se preparava para eleger uma testemunha adequada ao evento que se aprontava a despontar, permaneceram bem junto de mim. O grupo compunha-se por duas raparigas e um rapaz, provavelmente partilhando todos da mesmíssima idade (com uma certa segurança, arriscaria as dezasseis ou dezassete primaveras). Mais do que pela indumentária, típica, na sua globalidade, de jovens citadinos em tão tenra idade (se exceptuarmos o chapéu preto que uma das amigas envergava, qual manequim em dia de desfile), mas pelas mochilas que carregavam, era possível concluir que se preparavam para uma óptima tarde de praia.

Até ao momento, nada de pouco usual há a registar: três jovens, amigos fiéis, prontos para desfrutar da aprazível companhia de seus semelhantes, sorrindo, entre habituais brincadeiras de juventude, no seio de uma boa conversa. Mas, de súbito, sem que nada o previsse, uma das raparigas, senhora de uma ímpar beleza de verdes olhos e acobreados cabelos, revelou o que até então havia permanecido oculto à minha percepção. Numa de suas mãos, pendente, guardava um pedaço de pão, mínimo. Mas não julgue aquele resíduo alimentício como um remanescente de abastada sanduíche… Muito pelo contrário! Era um simples pedaço: pão, apenas, seco e gretado, que em seu diâmetro nem preenchia a palma da mão que o segurava! Provavelmente, seria o sobejo de um pão maior (isto é, completo) que a dita moça, sozinha ou em boa companhia, havia consumido.

Na solidão muito se consome, mas pouco se partilha. Pois a exteriorização é nula, em regra geral. Assim, imagine-se o significado maior do dito pão se partilhado tivesse sido, antes, em clima de amigável confraternização. Essa é, aliás, no que a esta crónica diz respeito, a palavra a reter: partilha. É que a jovem, por fim, num gesto tão natural quanto espontâneo, retirou uma parte do já se si exíguo pedaço de pão e, imagine-se, levou-o à boca de um de seus amigos. Enquanto este pacientemente o deglutia, a bela jovem repetiu o seu gesto e “alimentou” o outro amigo que permanecia em falta. De seguida, e ainda sem se extinguir, por completo, o naco do famoso pão, serviu-se a si própria, enquanto se ia preparando para renovar o ciclo da dádiva. Perante isto, que imagem, que alegoria, que evocação sobressai diante da nossa percepção? Uma partilha de pão entre amigos, sem que seja, obviamente, numa derradeira ceia?  

Que de antemão soubesse, nenhum dos jovens era membro de uma qualquer comunidade religiosa, dada, talvez, a práticas daquela índole; tampouco pareciam carecer de um expresso auxílio financeiro para que nada tivessem como alimento, à excepção de um pedaço de pão seco e gretado. Nada disso. A própria indumentária, as conversas e os comportamentos nunca sugeriram tais coisas. É claro que tudo poderia não passar de uma simples brincadeira entre ambos, de um peculiar modo de terminarem um pão que havia sido repartido no início da viagem daqueles três jovens. Tudo isso seria exequível; e importa que se abram, aqui, os caminhos do entendimento, por forma a permanecermos, sempre que possível, receptivos a toda a hipótese. É por isso que afirmo: não desejo ver, na paisagem, elementos que lá não estão; não desejo tornar reais aspectos que são meras assumpções. É vital que sejamos não só coerentes no assunto que relatamos, mas igualmente fiéis ao que foi percepcionado. Contudo, eis o que se sabe, com plena convicção: o caso deu-se e eu fui a sua testemunha; o gesto consumou-se da exacta forma em que o relatei. O resto, como sempre acontece, ficará ao critério de quem o quiser interpretar.

Pessoalmente, tal sucedido instigou uma reflexão em minha pessoa. E considero que ambos, autor e leitor, poderemos reservar um pouco do nosso sempre escasso tempo para reflectir sobre ele. Não no acto em si, é claro; mas na profunda significância do mesmo. Ao constatarmos um gesto tão cristão a implodir, assim, de uma acção tão natural, como se enraizado estive já, de forma inata, na alma daquela jovem, é difícil não indagar sobre a inconsciente intenção que o fomentou. Apesar do toque algo religioso que o caso parece assumir, peço que as atenções se desviem do mesmo… Pois não creio que seja a religião que o suporta, em teoria, o elemento a merecer aqui um digno sublinhado. Toda a religião é uma via; e todas essas vias, com mais ou menos enlevos, acabam por desembocar no mesmo destino. Mais do que a religiosidade em si, independentemente da sua origem (toda ela válida e passível de ser respeitada), o que imperou no acto em questão foi a mais primordial premissa da mais vera das “religiões”, aquela que todo o Homem em seu coração poderia (se não mesmo deveria) cultivar: a fraternidade. Que laço mais forte e sincero poderá advir de outras filosofias e dogmas obscuros do que do próprio sentir fraternal? Esqueçamos a religião, foco de tanto conflito e dúvida; atentemos no mais natural dos gestos que um Homem poderá ter para com o seu semelhante! Foi essa linha de pensar, leitor, que mais se vincou na minha constatação do sucedido… E do quanto ele, o acto, serviria de exemplo para muitos de nós. Se o nosso quotidiano se povoasse de gestos assim, provenham eles de inocentes brincadeiras ou de inatas predisposições fraternas, de amor e compaixão, este velho mundo seria, por certo, um local bem mais luminoso do que aquele que hoje conhecemos.






Pedro Belo Clara. 





segunda-feira, 24 de junho de 2013

RESQUÍCIOS DE UM OUTRORA DISTANTE


Permanecendo aqui, em tão amplo espaço, dádiva de um dos mais recentes jardins da capital (ou parques, se optarmos por essa moderna formalidade), sob um intenso sol de meio-dia, soberano num céu de veludo azul, é inevitável reter certos pensamentos que logo se aprontam para a sua habitual viagem de cogitação. Principalmente, pelos instigadores de tal fenómeno mental se quedaram aqui mesmo, em meu redor. São pilares que sustentarão todas as futuras incidências que criadas serão pelo natural acto de pensar, ou, em alternativa, colocada, talvez, de uma forma mais directa e clara, serão um honroso alento artístico. Pois é precisamente isso que hoje aqui encontro: motivos de inspiração.

Por vezes, é importante que se diga, de certos aspectos, tão simples em aparência, desenvolvem-se razões que medram em campos antes tidos como impensáveis ou inatingíveis, levando assim o intrépido pensador a níveis mais distantes de idealização, não necessariamente densos (quantas virtudes não oferece o fluido pensar…), mas profundos. Daí, no devido tempo, nascerá, brilhante como o sol nascente, o entendimento, magnífica luz que extingue qualquer treva. Assim, é usual se considerar que, percorrido tal caminho, ou seja, a captura do elemento instigador, o desenvolvimento das razões, o aprofundar de cada causa e, por fim, o entendimento do fenómeno em si, um desejo se instale. Afinal, quem não suspira por ver e tocar no tesouro que foi a génese de toda uma demanda? Porque, até este momento, apenas nos quedámos perante os portões que o encerram… O desejo será, assim, o impulso derradeiro, aquilo que nos fará ir ainda mais além do que já fomos, não só para elaborar novas hipóteses, mas para saciar a sede de ver, saber e entender de forma mais ampla e, por isso, plena. Sem permitir, contudo, que tal fogo nos envolva em demasia, pois tal ferir-nos-á e, em última instância, reclamará para si, como caçador que consome a sua presa, toda a paz que havíamos conquistado até então, essa valência infinitamente preciosa, infinitamente sã.

Registo tais dizeres por este lugar, ao qual vagamente me referi, o suficiente, apenas, para o leitor o poder imaginar com a devida liberdade, ser um terreno fértil em elementos instigadores do processo meditativo. De facto, se agora mesmo tomasse os meus olhos e visse aquilo que neste instante eu vejo, iria identificar diversas sustentações da anterior afirmação, ainda que os pensamentos continuassem a ser exclusivamente seus, estimado leitor. Esses pormenores que tão levemente sobressaem da restante paisagem são, aqui, derradeiros símbolos de resistência, um pedaço do passado que ainda subsiste neste presente, o que nos remete, a nós, observadores, a tempos idos. Tal efeito instiga, é certo, o referido desejo de há pouco, sendo neste caso o de relembrar, reviver ou simplesmente imaginar como teria sido. Porque impresso em cada lugar está uma marca antiga que é como uma essência, um indelével aroma, um espírito que nunca se desvaneceu, apenas se ocultou. Assim, com olhares atentos e, principalmente, alma receptiva, tornar-se-á possível a complexa arte de ler nas entrelinhas do tempo, ainda que tal exercício seja profícuo em guiar-nos à especulação e ao deleitoso devaneio poético, confesse-se. Mas… Qual é o quadro que não se abrilhanta com as cores da imaginação?

Contudo, essas referências são meros resquícios de um outrora distante, de um passado já consumido e, por isso, extinto, nada dizendo, por conseguinte, àqueles que o não viveram. Apesar da relativa sensação de indiferença, sobra, no entanto, o místico encanto de uma irresistível e, como tal, inexplicável atracção. Pois as histórias que se contam, entre sussurros, pelos recantos de algo que atravessou eras, fascinam, interiormente, a alma que as escuta ou reconhece, por também elas serem humanas, como todos nós. Por mais que se pretenda fabular uma história, as suas raízes serão sempre humanas, terão causas humanas e sentires humanos, tão comuns em seus amores e tragédias. E tal evidência acaba, de uma maneira naturalmente compreensível, por não só cativar os Homens do agora como encurtar espaços entre tempos, de forma a tornar claro que, por exemplo, as paixões de ontem ainda são as de hoje. Isso, curiosamente, pode de igual forma proporcionar um agradável conforto, fruto de uma imediata empatia ou compaixão entre as coisas de hoje e de antigamente, não tão diferentes como geralmente se entendem e consideram.

Antes de se tornar no parque que hoje é, este local fora, em séculos que não mais se contam, uma simpática quinta merecedora da típica beleza e brio que adornam, habitualmente, as suas semelhantes. A casa original ainda permanece como uma ruinosa reminiscência, embora a sua estrutura de base tenha sido um justo alvo de atenções e de proveitos de recuperação. Eis aqui, logo em primeira revelação, um dos elementos instigadores que anteriormente referi. É certo de se pensar que a imagem dos dias correntes não é mais do que um reflexo do antigamente, pálido e disforme, sem fazer jus à real magnificência de outrora, tenha ela sido natural e simples ou veramente majestosa; mas tais consequências são efeitos do tempo, sempre eterno, sempre presente, e contra os quais pouco ou nada se poderá empreender. Contudo, a atracção maior deste lugar, a que desencadeou tamanho pensamento, tamanha reflexão, não se prende com as efemeridades naturais ou com o desgaste das perecíveis matérias, antes com o que aqui ainda vive. Já o referi leitor: alma receptiva, concentrada, mas fluida, consegue ler nas entrelinhas do tempo. Não reviver um passado que não conheceu, pois tais artes mágicas não parecem ser sua habilidade, mas sentir, como derradeira evocação, uma energia antiga, livre e silvestre, esplendorosamente bravia.

Certas coisas, ou substâncias, direi, antes, por esta palavra comportar mais facilmente a razão do etéreo do que a anterior, certas substâncias, então, resistem ao suceder dos tempos, imunes a seus efeitos de roda que não cessa de girar. E, se nos aprontarmos para tal, partiremos deste ponto de agora até às mais remotas eras, permanecendo, serenos, no limbo da dúvida, se realmente sentimos a origem ou se apenas dela nos aproximamos. Que melhor combustível para nos alimentar, então, do que o desejo que antes anunciei? Ele que, aqui, neste caso em tudo mais concreto, assume a forma de um desejo de primordial, uma quase necessidade de retornar às origens ocultas pelas brumas de nossas confusas memórias. Pois, e eis o mais interessante, embora o cenário seja exterior, a mais grandiosa das viagens, a que produz igualmente maiores e mais profundos efeitos, é a interior, ainda que esta se espelhe no cenário que nos rodeia. Mas, afinal, que é o Homem senão um pedaço daquilo que o rodeia? Tanto quanto este Todo é uma parte do Homem? Interior e exterior são uma coisa só… Completam-se, e nenhum poderia existir sem o outro.

Olhando, portanto, em redor do que adorna o meu «aqui» e «acolá», vejo as oliveiras que se quedam, belas em sua simplicidade, e as laranjeiras sempre coloridas e aromáticas, assim como muitos outros elementos de digno registo, embora sejam notoriamente mais recentes e, como tal, impassíveis de nos remeterem aos tempos da quinta briosa. Mas, ao pensar sobre as oliveiras e laranjeiras de há pouco, conseguiremos entender que são elas as herdeiras das mesmíssimas oliveiras e laranjeiras de antigamente, legítimos pedaços de um legado que ainda subsiste. Não só pela notória antiguidade das mesmas, que quase lhes confere o título de «nativas», como pela lógica segura de que tais exemplares são naturais em uma quinta como aquelas que por aqui existiam, nesta região noroeste da cidade. Estando ela, a casa, sob um pequeno outeiro, imagina-se até a redenção da vista que desfrutava à época, uma autêntica bênção matinal, um privilégio para o olhar, concessão natural dos montes sobranceiros e da vegetação que os adornariam. Observar as carroças transportando legumes e vegetais a deslizar pelas pequenas estradas de cobalto, as azinhagas misteriosas, as saudações fraternas entre fraternos vizinhos… Tudo parece reviver. Assim, além de se sentir vivo o ambiente que pairava por aquilo que este espaço fora, a atmosfera própria de uma quinta que, mesmo modesta, prosperava, antes dos anos em que claramente fora negligenciada, sente-se o tempo em que as fronteiras da cidade ainda nem tocavam estes limites. Mesmo que tudo isso seja um devaneio poético, conseguido a derradeiro custo, pois certas assumpções nem sempre são prontamente verificáveis, a essência da principal matéria deste assunto pode ser sentida. Ela estava lá, ela sempre esteve lá – somente o elemento material transmuta a sua forma, funcionando também como uma espécie de receptáculo da mesma, renovando-se aquando do manifestar dos diversos ciclos do ciclo maior, o do eterno retorno.

Se preferirmos, regrediremos ainda mais neste exercício, evocando tempos ainda mais idos. Principalmente, e é exactamente isso que mais me apraz imaginar e sentir, o século que ainda nem o era, quando este horizonte não se preenchia de betão, quando a planície se adornava de vegetação já não idêntica a esta: o tempo em que os primeiros Homens miravam não estes pássaros que hoje eu miro, mas os seus antecessores, quem sabe se deslumbrados com a beleza da imagem, da mesma forma que ela, já tão gasta e sem motivo de surpresa, ainda me deslumbra a mim, como se a admirasse pela primeira vez. Tudo sob o testemunho, ou, se preferirmos a trama poética, a vigília deste mesmo céu azul que me cobre, deste mesmo sol que me ilumina. E tal evidência, leitor, por tão simples que possa parecer, é de momento algo que incrivelmente me fascina. Pois são estas as histórias que compõem os lugares, aqui ditas de forma muito geral, incidências que, mesmo diversas em tantos pontos de seu desenvolvimento, acabam por se tocar num ponto só: o da sua criação.

Miríades de assuntos, personagens, temas, causas e efeitos se poderão encontrar impressas na alma que reveste cada lugar, uma essência singular que para si reclama um igualmente peculiar aroma, o que confere a inexprimível sensação de que o tempo é, no fundo, uma mera passagem, e que tudo, entenda-se, passado, presente e futuro, se interliga em boa verdade. Tal constatação, meu caro, levam-me até onde desejei chegar, ao primordial, à primeira essência, à unidade, ao mais básico de todas as coisas – o elixir que preenche de forma leve e plena o mais vazio dos corações. Pois ele, sempre sedento, como bem sei que muitas vezes o meu se encontra, por breves instantes beberá da fonte da eternidade, e entenderá, por fim, se atento permanecer, que, tal como ela, também ele é eterno. Que conforto se poderá erguer contra esse?




Pedro Belo Clara. 




quinta-feira, 13 de junho de 2013

DAS AMIZADES E DA VIDA EM SI (*)


Em um outro trabalho de minha autoria, elaborado numa ocasião que não esta, escrevi, em jeito de conclusão ao que, à época, poeticamente expunha, que nada há de mais aprazível do que saborear, no presente, o mel que outrora, de forma tão deleitosa, nos foi dado a provar. Por outras palavras, se o leitor, por razões que obviamente desconheço, contrair preferência junto de uma metáfora distinta, poderei igualmente afirmar, se não abuso de sua paciência, que nada de mais satisfatório há do que encontrar, no hoje, o ouro descoberto no passado. E isto, é claro, se o seu gosto recair sobre esse metal precioso, alvo de tanto louvor e cobiça. Ambas, no fundo, constituem diferentes vias de cumprir o mesmo caminho, pois a intenção que as reveste é precisamente a mesma. Digo que «nada de mais aprazível» ou «de satisfatório» há, e assumo os riscos inerentes a essa escolha, contrariando as premissas do bom-senso. Ainda assim, afirmo que, qual súbita aparição que se anuncia, se houver, por ventura, alguma ocorrência capaz de em nós fomentar tamanhos agrados, em tudo idênticos aos anteriormente referidos, colocar-se-á, por certo, no mesmíssimo patamar daqueles agora me apronto para revelar. Repare, contudo, que não me socorri do auxílio das aspas ao transcrever as expressões, pois, como compreenderá, não desejo citar o que, então, escrevi. Apenas, por mera opção de autoria, me parafraseio. Pois esta crónica serve, agora, propósitos bem diferentes daqueles que sustentaram a génese do referido dizer, pelo que será preferível, por não ser este o seu berço original, diluir um pouco de sua essência pelas linhas do trabalho que agora componho, fundindo-a na estrutura que vai sendo erguida palavra a palavra.

Seja como for, e quase que recorro ao «passemos a coisas mais cruciais», o que veramente aqui importa, para dar continuidade prática ao que tem vindo a ser explanado, é que, tal como ontem, continuo a determinantemente defender cada linha do que então escrevi, cada letra da expressão a que dei vida literária e humano significado. Talvez, e eis a razão somatória, por tanto a constatar, no que à sua empírica aplicabilidade diz respeito, de sentido e efeitos, em cada ocorrência da vida que se desenrola diante de nossos olhares, a reavive a cada instante, a cada reencontro, a cada testemunho. No fundo, o que ela, a expressão, compreende? Quem se deu, por esta altura, a uma atenta reflexão sobre a mesma, certamente concluiu que existe uma magia peculiar no súbito despertar de elementos que no nosso passado abundaram, fazendo dele aquilo que foi e é. Não me refiro, nem me referirei, durante este texto, às memórias menos agradáveis que todos retemos com maior ou menor translucidez, pois essas ocupariam um outro espaço e exercício de escrita que hoje, neste espaço e exercício específico, não teriam lugar. Foquemo-nos, por isso, nas recordações que mais acarinhamos. Quando ressurgem da sua terra de neblina, entre brumas de olvido, vêm envoltas numa aura quase que mística e luminosa, como nobres ligações que são com algo que outrora vivemos e sentimos, invocando, assim, as memórias e os sentires que tanto fizeram as delícias dos nossos dias mais idos.

Um exemplo de tal sucedido, chamemos-lhe assim, por forma a evitar a aplicação da palavra “fenómeno”, pois esta quase que nos remete ao imaginário do sobrenatural, e, diga-se, não é essa, de todo, a intenção deste escritor, um exemplo de tal coisa, como ia dizendo, são os reencontros com os rostos de nosso passado. Uma vez mais, sublinho que em nada me refiro às memórias ou experiências que nos confiaram o seu doloroso legado; antes, àquele rosto amigável com quem partilhámos tanto viver. De certa forma, quando nos achamos perante tal acaso, feliz em todo o seu propósito, sentimos que o tempo não cravou o seu cunho em nós, tanto no amigo como na própria pessoa que com ele esbarra pelas curvas do caminho. É como se, em íntima essência, nunca tivéssemos envelhecido, ou, colocando de outra forma o caso, quem sabe se assim de modo mais delicado, como se nunca tivéssemos materialmente crescido, com tudo o que isso comporta. Não brilharão nossos olhos nesse momento de súbito contacto? A irrefutável prova de que as almas cantam, em uníssono, o júbilo que as uniu? Explodindo esse sentir numa miríade de cores, quando os corpos se abraçam fraternamente perante o sorriso ostentado pelos rostos? É nesse inestimável momento, quase que em sereno êxtase, que todas as memórias afloram, que todos os cheiros se recordam e as histórias se recontam. «Lembras-te daquela vez?» - é o começo mais vezes escolhido para encabeçar cada frase. Então, rolam os sucedidos passados, como lágrimas que alegremente se choram, como imagens dispostas por um rodopiante caleidoscópio: «Lembras-te daquela vez, do guarda-chuva?»; «Lembras-te daquela vez, daquele teste em que copiámos?»; «Lembras-te daquela vez, em que faltámos à aula?». E isto quanto não se convidam outras presenças, mesmo que momentaneamente distantes, para a conversa que, como um rio tranquilo, flui: «Lembras-te daquela vez, na casa do João?». E quanto viver assim não vive, apenas por ser, de novo, revivido…

Por certo que o estimado leitor, se agora mesmo se propusesse a vasculhar o seu precioso baú de memórias, encontraria alguns casos gémeos deste que lhe trago. Assim, é perfeitamente plausível afirmar, sem vestígio de pretensiosismo, que compreende aquilo que lhe falo, por precisamente possuir exemplos seus, oriundos de seu mundo, que comprovem tal discorrer. Eu confesso, meu caro, que por diversas ocasiões já pensei, ao reencontrar um velho amigo de infância, seja por obra de um acaso ou por intervenção directa, isto é, através de um encontro previamente agendado, que as únicas coisas que terão em nós cambiado, ao longo dos anos de silêncio, foram a voz, agora digna de tenor (ou, em derradeira e optimista hipótese, de dedicado barítono), e as barbas que finalmente adornam os rostos outrora imberbes. Pois, como antes referi, o temível Cronos, que já os sábios e avisados gregos respeitavam, não tem ofício capaz de interferir com a essência mais pura de cada coisa. Ainda que fosse capaz de engolir o próprio filho, não detém poder sobre essa valência. Envelhece a matéria, perdura o etéreo. Além disso, esse alguém que ainda nos é tão querido, o portador de uma vida que se desenvolveu de forma paralela à nossa, pelo menos até certo ponto da existência, é igualmente o sobejo de tantas histórias capazes de voltarem a arrancar o mais jovial dos sorrisos, a viva evidência de um tempo que se consumiu em aparência. É indescritível a sensação que nos conquista, quando voltamos a desfrutar da companhia de quem tanto nos fez rir… E vice-versa, claro, como será óbvio e suposto de acontecer.

No suceder de tanto sucedido, ignore-se a redundância, por bonanças e tempestades, bem comuns ao ciclo que a própria vida é, a mesma oferece-nos ainda, além do recordar, e entre muitos outros mais, este imenso prazer: a oportunidade de crescer ao lado de quem tanto nos diz. As conversas hipotéticas de há pouco, são uma clara consequência da verificação desta hipótese, pois só poderiam ocorrer, numa de suas máximas expressões, entre dois entes que tanto partilharam por longos períodos de suas vidas, como autênticos, e bem fieis, companheiros de viagem e de estrada. Se voltarmos a evocar os exemplos pessoais, constataremos: começamos crianças, jogando com bolas de papel amassado, revestidas por fita-cola forte e competente em seu trabalho de unir e colar; tornamo-nos adolescente, e a curiosidade pelos femininos aromas, tão misteriosos e irresistíveis, desperta; depois, o tempo da faculdade e de outros amigos e conhecimentos, sem que isso signifique o olvidar de nossas raízes. Aventuras e desventuras, copos erguidos e batinas amarrotadas, exames e mais exames, formatura, emprego aqui e acolá, namoradas mais a sério, uma apenas ou um leque enorme das mesmas, cada qual na sua devida vez, é claro, que nestes assuntos não é sensato alimentar confusões, esposa, casa e carro a preceito… Filhos? Por certo… Netos? Porque se negaria a sua vinda? Até nascer o dia em que, juntos, evoquem o tempo em tudo começou. Aí, a jornada parecerá infinda. Afinal, a frondosa árvore, hoje tão ampla e poderosa, sempre se surpreende quando relembra que proveio de uma frágil semente.

É claro que muitas outras presenças se extraviam com o contar dos anos, lentos à luz das suas percepções de fragmentos de tempo, mas sempre céleres para aqueles que vivem através dos mesmos, esvaindo-se das futuras histórias da existência que se desenvolve e prospera. E é natural que assim seja. A própria ordem da vida compõe-se de coisas tais, de rumos que se traduzem em escolhas. Não haverá “bem” ou “mal” aqui, somente opção passível de ser respeitada – ainda que não seja compreendida ou aceite na sua globalidade. Mas tais figuras, e elas próprias mais do que ninguém, saberão o que será melhor para si e para suas histórias pessoais, pelo que é perfeitamente normal que sigam os ventos que souberem ser mais propícios à sua navegação. Afinal, de certa forma, todos possuímos um destino para esta viagem, um porto onde desejamos atracar, ainda que a neblina o oculte ou o almirante, confuso, não saiba simplesmente onde o encontrar. Mesmo assim, a dificuldade não deve necessariamente albergar a desistência. Em todo o caso, nem todas as presenças, de forma física, permanecem junto a nós, pelas mais diversas razões. Outros até acabam, quando menos esperam, engolidos pelo mar que desbravavam… Como tudo o que começa, tudo detém igualmente o seu fim – que apenas dá lugar a um outro recomeço.

Perto ou longe, seja pelo físico ou pelo espírito, todas essas incidências, todas essas histórias e rostos, quando passados, tecem o manto daquilo que fomos num tempo que não mais subsiste, a não ser dentro de cada um de nós. É por isso que o reencontro de alguém que pertence a esse cenário é como o retornar a uma casa ou a um lugar onde poderemos dizer que fomos, efectivamente, felizes, pois trazem consigo, entre laivos de recordações, o aroma de tantos momentos vividos e compartilhados, pelo que o sorriso, a dois, é absolutamente garantido. Será a prova de que esse «mel» que foi saboreado não azedou, mas se fermentou e transmutou em algo de mais depurado, como a sublime substância que o compôs. Pois, pelos anos de intervalo, contar-se-ão mais histórias ainda, mais vivência e mais experiência, parcelas, apenas, a somar numa colorida operação cujo resultado a cada dia se colhe, sim, mas de maior expressão se sentirá quando, num futuro não evitável, de novo forem evocadas. Precisamente aí se fará o julgamento final, íntimo e pessoal, quando as barbas se esbranquiçarem, os corpos se arquearem e, quem sabe, os sorrisos se compuserem por uma dentição bem mais escassa… Mas que importância terão, nessa era de recordação constante, os meros (e naturais) efeitos da decrepitude? Os corações estarão cheios de vida, como cálices que de amor transbordam… Não mais, talvez, recordará a mente, às voltas com os nefastos efeitos das traquinices de um alemão peculiar, um tal de Alzh qualquer coisa, mas as almas, ainda que encarceradas na material opressão da idade avançada, refulgirão, internamente, em arco-íris de encanto. Pois que conforto maior poderá advir da certeza íntima de que a existência em causa foi vivida em pleno? Que a personagem cumpriu escrupulosamente o papel que lhe havia sido escrito? Que o conquistador alcançou todas as metas a que se propusera? Sereno se queda o sol por sobre a mais pacificada das consciências.



Pedro Belo Clara.






(*) Nota do autor: Serve esta simples crónica como dedicatória sóbria e justa, por evocar temas em tudo concordantes com a intenção que motiva a mesma, aos meus mais veros e velhos amigos, que desde um outrora distante me acompanham até aos dias que hoje correm por nós, com maior ou menor influência de contacto, com mais ou menos ausências de registo (a vida sempre detém a mais certa das razões). Em todo o caso, o sentimento de estima e de respeito nunca se altera – antes, cresce e solidifica-se. A vós, então, caríssimos companheiros, cujos nomes me escusarei a citar por ser obviamente vão esse acto de mera nomeação, ou não soubessem vós, amigos, ou melhor, Amigos, agora sim, com a mais exacta das precisões, a quem me refiro eu, entre saudades, louvores e, acreditem, gratidão. 






quinta-feira, 6 de junho de 2013

PECULIARIDADES


O peculiar pode, efectivamente, atingir grandes níveis de significância e de profundidade. Estes, por sua vez, em fase, diga-se, posterior, acabam por se assumir através dos moldes em que se constroem os exemplos, algo que, entre muitas outras coisas, é comummente tido como um portador de mudança, pois é passível de ser seguido, de ser uma referência a ter em séria consideração. Compreende-se, então, e permita-se o melhor esclarecimento, como um gesto ou acção comportamental capaz de quebrar padrões pré-estabelecidos, revelando algo de novo, em certa forma mais sincero, depurado e, por isso mesmo, verdadeiro. Tais premissas auxiliam o despertar do olhar ensonado para outras realidades, até então completamente encobertas. Assim, a aprendizagem torna-se possível para todo aquele que a ela se possa disponibilizar. A ideia é simples, tal como a concretização da mesma – assim convirjam e se assumam os elementos necessários a tal.

Voltei a constatar o discorrer acima explanado, qual teoria feita prática, máximo símbolo empírico, de uma forma deveras curiosa e divertida. Em suma, por via absolutamente inesperada, leve e descontraída. Certo dia, então, durante um bastante agradável almoço, enriquecido com a companhia de um familiar que muito estimo, passa a porta de um determinado restaurante lisboeta uma personagem plena de aparentes contradições. Ou, por outras palavras, um exemplar bem digno do adjectivo “singular”. Embora as confirmações viessem somente depois, diversos aspectos, bem presentes em tal figura, como linhas coloridas, deveras vincadas, eram desde logo evidentes e instigavam o interesse e a curiosidade no mais distraído dos espectadores. Permita-me o leitor que sublinhe o seguinte: tais sensações em nada conduziram a julgamentos céleres, tão lamentavelmente usuais, tampouco a rotulagens desprezíveis ou ignóbeis condenações. Nada disso. Ninguém se precipitou na formulação de juízos. Pois os rostos, se tal se verificasse, por certo que o denunciariam. Subsistia antes uma certa expectativa, um quase certeza de que qualquer coisa de renovado, fresco e cativante poderia irromper daquele solo. Talvez da macieira que ela era brotassem limões… Mas quem o poderia saber? Assim, as testemunhas, parcas, diga-se, se abriram à melhor hipótese do porvir, cientes, sem que talvez o soubessem, de que algo de singular iria certamente imergir de tal personagem.

Falo, é justo que agora o revele, de uma simpática (se a minha analítica percepção não se equivocou) senhora de meia-idade, de tez e feições asiáticas, pequena e esguia o quanto baste, como habitualmente se querem os representantes dessa briosa estirpe oriental. Tanto poderia possuir origens chinesas como macaenses... Eis os factos mais prováveis. Falava o português, é certo, mas com um ligeiro sotaque, já algo diluído. Ainda assim, era notório. Mas isso não retira a legitimidade de pensar, ou até de concluir, que a sua origem a remetia para aquela antiga colónia lusitana. Ou, graças a esse incremento das gentes do mandarim em nosso país, talvez fosse mesmo um de seus veneráveis membros que aqui se encontra erradicado, um qualquer comerciante, ou mãe de um, tentando prosperar, dentro de suas capacidades, as linhas de seu negócio, ainda que seja a sorte a ditar, e não em pequena escala, as regras desse ofício. Mas como tais aspectos, ou abordagens secundárias, não comportam qualquer distinção digna de registo, sendo meras impressões primárias e características superficiais, deixemo-los de parte.

Na verdade, o que sobressaía em tal persona eram os enormes headphones que a dita senhora, o objecto desta crónica, levava no topo de sua cabeça, perfeitamente acomodados, tombando por seus ouvidos, de forma a cobri-los. Ou seja, encontravam-se devidamente colocados e prontos a funcionar, como ordenam as leis da sua boa utilização, escorrendo o longo fio até ao orifício de um pequeno rádio de mão, o seu natural destino. Bem sei o que poderá pensar, caro leitor... Um rádio de mão? Podendo ser um discman, um leitor de mp3 ou mp4... Um IPhone, até! (e aqui se excluiu a hipótese, remota, de ter a terra do sol nascente como berço, tendo em conta a necessidade vanguardista de consumo tecnológico que assola, se não mesmo contagia, o dito povo – esclareça-se: o japonês). Mas, contrariando as expectativas mais modernas, era um rádio de mão que segurava. Até nisso era peculiar, a senhora. Contudo, que não se considere o dito instrumento de som, os headphones, claro, banal ou corriqueiro... Muito pelo contrário. Contrastando com a simplicidade do pequeno rádio, estes apresentavam, em cada face do mesmo, naquelas largas “rodas” (permita-se a caracterização) que cobriam cada uma das orelhas, um fundo de rosa berrante, adornado, a negro, pelo desconcertante timbre do mais brioso dos piratas: tíbias cruzadas e uma caveira de meter respeito a muito boa gente. Que interessante é ver uma senhora de meia-idade, assumida sem complexos, ostentando um adereço bem típico de adolescentes asiáticos... Tê-los-á retirado a uma hipotética filha? Num regime de empréstimo ou compartilha de bens, previsto numa qualquer cláusula, por certo obscura, do íntimo contrato que une, pela lei dos Homens e pela lei dos Deuses, coisas tão próximas e, ainda assim, tão distantes, como são a progenitora e sua cria? Isso, caro leitor, já o escriba desta crónica não sabe... Nem detém pistas que o possam elucidar. A si e a ele próprio, está claro. Mas como seria pura especulação o que mais se visse a acrescentar a este tópico, e, como tal, irrelevante para o relato em causa, fiquemo-nos, no que toca a este assunto, definitivamente por aqui.

Seja como for, aquela derradeira tentativa de agarrar uma já ida juventude parecia ser por demais clara e óbvia, ainda que a idade se assuma como um tema que suporta o seu quê de subjectividade. Mas os contraste de tal figura, por sua vez, revelaram-se e adensaram-se ainda mais quando se anunciou um simpático carrinho de compras que a nossa estimada amiga trazia de arrasto, aqueles bem conhecidos sacos de tecido que evoca um padrão nitidamente escocês, de rodas munidos, e que, num outrora não muito distante, acompanhavam a mais castiça das senhoras portuguesas nas suas idas aos mercados e praças. Assim se evidenciaram os dois traços distintos que se cruzavam num só ponto, ou, se preferirmos, dois contrários, não necessariamente antagónicos, que coabitavam numa só figura: a linha portuguesa e a asiática e a expressão da inconsciente juventude e da idade madura. Dois símbolos tão díspares que, curiosamente, ali encontravam a sua estranha harmonia.

Essa ideia perdurou um pouco mais pelas mentes sondadoras lá presentes e alcançou o seu zénite quando, já acomodada em sua mesa, diante de um refrigerante de limão, viu chegar o seu pedido – um magnífico e amplamente bem servido cozido à portuguesa. Colar esta imagem tão lusitana a essa outra que retrata a figura de alguém com cariz marcadamente oriental é um facto causador, por certo, de uma estranheza peculiar, mas apenas por se revestir de originalidade. Seria o equivalente, nestes termos, a testemunhar o senhor José Fernandes, dono de umas suíças capazes de despoletar a mais figadal das invejas em seus semelhantes, um garboso nativo de Mondim de Basto, imaginemos, e resignado resistente das pungentes agruras da arte da lavoura, a deliciar-se com os delicados sabores e contrastes de um belo chop-suey! Inevitável, portanto, não questionar se, efectivamente, os pólos não se terão invertido... Mas talvez seja esse o significado prático de ser-se global, de viver numa era marcadamente globalizada, com povos e culturas mais próximos e conscientes uns dos outros. Assim, sobejam casos como este, deveras intrigantes e curiosos, admita-se, mas, ao mesmo tempo, verdadeiramente refrescantes.

Contudo, as surpresas e, claro está, as peculiaridades que, inconscientemente, a nossa amiga tinha reservado para o seu atento e, ainda assim, atónito público, não se ficaram por aqui. A meio de sua refeição, entre profundas degustações de exemplares gastronómicos de grande brio, e perdoe-me o leitor por repetir o adjectivo, componentes de tão típico prato, desde o bem composto chouriço de carne ao simples, mas bastante nutritivo, nabo, de uma forma absolutamente natural e inocente os lábios da referida personagem se entreabriram, não para revelar os despojos da degustação, entenda-se, mas para entoar uma absurdamente desafinada nota musical. Sim, caro leitor, era verdade: os headphones estiveram, de facto, ligados durante todo esse tempo, sem que ninguém disso se apercebesse... Apesar de terem continuado sempre no mesmo local de uso.

Ali mesmo, tivemos, eu e os restantes presentes, a nossa redenção... Em pleno restaurante, a meio de sua refeição, uma tão singular senhora a acompanhar, sem embaraços, as linhas de uma qualquer canção que somente ela poderia escutar... Imagina o cenário, amigo leitor? A nossa heroína a cantar, no meio de mesas já quase vazias, palavras soltas de uma qualquer melodia? Sem esquecer, claro, o chouriço de carne que fazia a delícia dos seus apetites, o qual mordiscava sempre que a canção lhe dava descanso. Contrapor-se-á: foi um lapso, uma aceitável distracção... Daquelas coisas que acontecem apenas por uma vez, pois de pronto se envergonham os seus embaraçados autores, secretamente desejando que mais ninguém tenha visto ou escutado a origem do seu vexame. E repetem esse mesmo desejo vezes sem conta, até que nele, iludidos, piamente acreditem, de forma a finalmente expiarem toda a vergonha que haviam retido. Mas desengane-se o estimado leitor se assim considerou o caso. Pois, por mais incrível que pudesse parecer, sem que ninguém o esperasse, aturdidas que estavam as testemunhas por tamanha surpresa musical, logo se libertou mais um cantar arrastado. Sim, o acto melódico teve a sua continuidade. Ainda que, a espaços, apenas parecesse ser o arranhar constante de britânicas palavras que se soltavam, sem nexo ou ligação. Um «together» aqui e um «forever» acolá, se me faço entender... Escusado será dizer que o espanto era geral. Perante a medíocre reprodução e não só, pois a irrisória ocorrência tinha tanto de cómica como de singular. Não demorou muito mais até que tal implodisse num deveras saudável, e por demais expectável, desfecho: o riso, a forças contido. Embora ninguém, acredito, se sentisse profundamente incomodado com tamanha cantoria. Não só as horas eram já um pouco tardias, o que desde logo não convidava muitos transeuntes a parar para uma refeição, daí o facto de os poucos presentes estarem já nos derradeiros instantes de suas degustações, senão as estivessem mesmo já findadas por completo, como ainda o canto do asiático rouxinol surgia intervalado (já antes o referi: boca ocupada é incapaz de cantar) e não era propriamente ruidoso. Apenas fomentava, como se percebe, a boa disposição e o divertimento.

Entre os clientes já conhecidos da casa, o dono e respectivo funcionário, eu e a companhia que na ocasião me assistia, os sorrisos que nos assomavam os rostos eram leves e inócuos.  Não sendo, assim, emitidos em tom jocoso, entenda-se isso; antes num clima de companheirismo e cumplicidade entre estranhos, sadio e jovial. Não ríamos, é claro, de tal senhora; ríamos somente com ela – o que são coisas bem diferentes, díspares vertentes de um só comportamento. Ou seja: o acto, esse sim, é idêntico, mas a intenção que o suporta é bem distinta, inócua como os sorrisos que atrás caracterizei. Perguntará, pleno de legitimidade, o atento leitor: mas a senhora não se apercebia de seus trinados? Como reagia ela a isso e, estando consciente, aos sentimentos que provocava em sua audiência? Na verdade, e, permita-me o leitor que o admita, eis o principal factor que fomentou todo este relato, toda esta já longa crónica, a dita senhora, por esta altura já nossa conhecida, quase tão íntima quanto os bons vizinhos prometem ser, revelava uma postura sóbria e descontraída, completamente indiferente aos ecos que a ladeavam, fruto de seus moderados gritos. Alheia a tudo e a todos (talvez essa alienação, quiçá natural, justificasse o seu comportamento), permanecia focada em seu mundo de cantigas e de cozido à portuguesa, com ocasionais espreitadelas, fruto de qualquer súbita curiosidade, ao noticiário que se desenrolava bem à sua frente. Não me questione o leitor se o fazia consciente ou inconscientemente, pois já antes prometi não divagar ao sabor de dúbias especulações… Apenas relato o que vi e senti. E aquilo que então presenciei foi isso mesmo: o alheamento a todo e qualquer sorriso provocado por suas árias arrancadas em espontânea desgarrada, a singularidade que a assistia e que era, simultaneamente, a sua mais íntima beleza. Pois tais aspectos, tão naturais e bravios como são, remetem a sua origem para coisas bem profundas e sustentadas, comportando muito mais do que, em primeira e, como tal, inexperiente análise, se poderia pensar.

Creio que, agora que me apronto para findar, a todos os membros daquela improvisada e surpresa plateia, a soprano que os encantou concedeu, da mesma inesperada forma, uma valiosa lição de vivência: a imunidade ao julgamento alheio. Quantos de nós, admitamos, pelos mais distintos motivos, não renunciariam de seus modos e convicções perante o implacável temor do parecer de terceiros? A verdade é que, em silêncio, ninguém aprecia o lugar do réu, os seus pensamentos habituais e, principalmente, os seus densos sentires. Pois todos tememos o julgamento e as luzes da ribalta que sobre nós recairão em caso de inevitável condenação, tornando-nos, logo à partida, objecto de desprezo, gozo ou falatório. A diferença mora naqueles que, apesar disso, não capitulam de si próprios, isto é, não abdicam de ser aquilo que naturalmente são, apenas como forma de evitar tais terríveis rumos. Mas tal expressão, infelizmente, não constitui a maioria. Já a senhora de que falamos, por sua vez, encontrava-se apenas a ser aquilo que ela era, afirmando a sua natureza sem a renegar, tampouco recuando em seus intentos perante o olhar indagador do semelhante mais curioso. Mediante a comum realidade, isso sempre é digno de louvor. Provando, assim, que na maior das loucuras, e também das excentricidades, reside uma indomável rebeldia, uma surpreendente sanidade, comportando, ambas, impactos deveras destabilizadores (num necessariamente bom sentido), capazes de agitar mentalidades e de quebrar, ou, pelo menos, fender, padrões pré-estabelecidos.

Em derradeira análise, está claro que foi precisamente isso que tal personagem realizou. Não por cantar em bandeiras quase despregadas os temas que escutava, obviamente, mas por se focar em sua felicidade, não incomodando os demais, e sendo aquilo que exactamente ela era – e não o que outros desejariam que ela fosse. Em máxima conclusão, temos aqui a suprema expressão e afirmação de uma natureza ou personalidade. E, assim, ressalvou, fortificou e a todos apresentou, enobrecida, o exemplo que por seu registo comportamental se formou. Afinal, já não será estranho ou complexo de entender que o peculiar pode, efectivamente, atingir grandes níveis de significância e de profundidade. Basta, para isso, deter a coragem necessária para o assumir e o elevar à clara luz do sol da revelação.



Pedro Belo Clara.




segunda-feira, 27 de maio de 2013

O CAMINHO


O Caminho não é uma via única, exclusiva. O Caminho, a poder ser falado, escrito e entendido, é uma coisa só, na mais total das abrangências. O Caminho nasceu no Infinito e nele terá o seu término. É Tudo. E Nada é. Parece circular; mas é uma longa linha recta sob a qual incidem os acontecimentos, vivências e suas etapas, assim como os ciclos que tudo regem nos prados materiais. Apenas uma percepção limitada, ainda não desperta, considera tempos e secções naquilo que é eterno. Mesmo que o cenário se altere, por efémera ser a matéria, a essência mantêm-se. Renova-se o que é fugaz, preservando assim a sua eternidade. O que é perene, é imutável.

O Caminho é um todo indivisível. E cada intrépido viajante que o decidir caminhar, uma e outra vez, sendo ele caminhante de justo epíteto, deverá descobrir por si a língua em que ele murmura, o alfabeto em que ele se faz expressar. E todas as línguas por ele são faladas, todos os caracteres por ele são compreendidos. A sua real ideia está muito para além de tudo o que sobre ele se poderá idealizar. Se se pensa sobre ele, não se pensa sobre o verdadeiro Caminho. Ele é o impensável, o que não se pode idealizar. Porém, quando se sente a sua magia, quando se escuta o silêncio que profere, todo o caminhante sabe aquilo que ele é. Não são os olhos do rosto que o verão, antes os da Alma. E tudo o que aqui está escrito, da mesma forma se destina à Alma. É para ser lido, sentido e absorvido pela luminosa percepção que a reveste. A Palavra, tal como o Caminho, fala ao Divino que habita em cada Homem.

Do centro da figura humana, no instante em que esboça um passo, uma panóplia de caminhos e direcções se criam, se abrem e se completam aos pés de cada um. Linhas infinitas que partem da mesma infinidade, paralelas entre elas, embora sejam subdivisões da sua principal matriz. Para cada uma, um destino. E um rumo que, findado esse, de pronto se fará anunciar. Mas tal fenómeno é apenas a arte da roda que eterna gira. Afinal, na matéria reina o efémero e o dual, com a concordância e o equilíbrio das estações. Como tal, a ideia que mais sobressai, a impressão logo captada pela percepção mais desperta e, como tal, atenta, é a da sucessão. Por vezes, é o caminho da cegueira que ao viajante concede a visão. Assim como o da sombra lhe trará o da luz, o da dúvida lhe fornecerá o da fé, o da manipulação lhe dará o do amor… São gémeos, em suma, com particularidades que os distinguem. Será necessário, por vezes, atravessar todo um inóspito deserto para desfrutar do mais paradisíaco dos oásis, aquele que se queda na clareira de um âmago íntimo e profundo. Ou simplesmente crer na ideia que detém como certa e verdadeira para si próprio e permitir-se esperar… Até alcançar a sua conquista. Até o mais inverosímil dos caminhos desemboca no mesmo local de todos os outros. Apesar disso, os rumos não deixam de estar adornados de hipóteses e de escolhas. Tudo está escrito em ténues palavras… Cabe ao viajante, por suas opções e actos, reforçá-las. Então, estará a fluir pelo rumo que cria. Seja ele qual for.

Mas nem só de rumos se compõem as existências… Não fossem elas as condições mais intrincadamente simplificadas. Os sentires, as percepções, as quebras, as dívidas, os encontros, são outros aspectos de toda uma diversidade que cabe na vida terrena. Que, acumulada por outras tantas viagens, reúne matéria digna de contemplação. Mas a experiência forma-se de tais coisas, tece-se em linhas de mil cores. Não só auxiliarão o viajante a recordar, como também a lhe fornecer as condições que mais necessita para cumprir a sua meta, o seu mais divino propósito. Por isso, resistir significa quebrar e perder sentidos… Enquanto a brandura, flexível, permite fluidez. É essa a grande lição do humilde junco, em contraste com o orgulho do frondoso carvalho. Embora, para tal, seja importante, em primeiro lugar, entender, e, só então, construir o estrado que suportará a crença que munirá o viajante. Essa valência, como será claro de se notar, necessita de longas raízes para ser forte e profunda.

É comum a indagação ao longo do trilho percorrido. Tal aspecto é intrínseco à condição humana, esteja ele mais ou menos vincado no coração de cada caminhante. Compreende-se, no fundo, como uma parte do processo de experiência o entendimento do próprio ser e daquilo que o rodeia. Principalmente, por o esquecimento o ter assolado, como uma nuvem que cobre e filtra a luz do sol. Contudo, o espírito esclarecido é um sopro, o mesmo que afastará a nuvem e permitirá, de novo, o completo raiar desse excelso sol. Cura o negrume do olvido, fomentador de múltiplos temores, a água que jorra da fonte da memória. Por vezes, a jornada pessoal revela-se paralela à demanda por tais águas. Até porque esses aspectos compõem um trilho evolutivo e, assim, ascensional – a suprema intenção, inicialmente oculta, de todo aquele que caminha por sobre esta terra.

É claro que a experiência, ao ser diversa, por consequência da multiplicidade deste mundo de matéria, comporta em si uma miríade de elementos. Aí se confundirão as percepções. Não se traduz num erro, pois cada visão justifica o seu parecer; mas certas nuvens, uma vez mais, poderão embaciar o sol que sempre brilha. Mais do que o sofrimento, a felicidade, a justiça ou o amor, a natureza humana denuncia-se aqui, na simples experiência. Os restantes, são os seus objectos ou alvos, sendo ela, assim, superior, no sentido de global, a todos eles. Não se entenderá o sofrimento como uma opção, ainda que a dor esteja naturalmente ligada à dualidade da vida efémera? Ou como uma ponte para algo mais de superior e de divino, se se excluir a baixeza vibracional da simples vitimização, lamentavelmente comum de ocorrer. Pois, se um sorriso se une à dor, o sofrimento desde logo se esvai, ainda que esta, qual incómodo espinho, continue a latejar (bem se sabe de sua necessidade, ao ser por sua força que se racha a dura casca que envolve a adormecida consciência). E a felicidade? Entre doutas filosofias e notáveis discorreres, terá já aquela mente mais insaciável, que mais se dedica e se sacrifica a essa busca, questionado e, consequentemente, entendido que a verdadeira felicidade, aquela que aqui se pode experiênciar, ainda que seja um estado efémero e, assim, sujeito a alterações de forma e conteúdo, apenas significa estar-se em paz consigo próprio? E a justiça não será apenas um escudo do ego, ou seja, da personalidade que de rojo arrasta (ignore-se o possível pleonasmo) a personagem ao sabor de seus caprichos, servindo de motivo a vis intentos, dos quais certos castigos e vinganças são lamentáveis exemplos? Essa fúria é filha de outras tormentas, apaziguadas pelas diversas formas do amor. Embora só a sua mais suprema face se poderá unir à plenitude, o vento que baila pelas etéreas dimensões. Aquela que aqui se reflecte, mesmo sem saber como há o viajante de lidar com seus pressupostos, é sublime, sim, mas de frágil equilíbrio… É flor que exige rega constante. Na sua máxima expressão, as condições extinguem-se. Assim, é motivo que pode (e deve) enlaçar os Homens, sem espaço para apegos, supressões, tiranias ou subserviências. A justificação de uma existência? Por certo que sim, se esse for o seu íntimo trilho. 

O motivo, assim, é de ascensão. Mas cada degrau é alcançado pelo esforço do espírito, cada vez mais solto e liberto. A cada passada, uma vida, uma personagem e demais envolvências. Em suma, uma experiência. Que, obviamente, pode (e, certamente, irá) comportar o saborear de diversos elementos: amor, felicidade, justiça, pobreza, dor, riqueza, poder, opressão, transcendência num derradeiro grito emudecido… Mas que são tais coisas senão elementos de uma singular experiência? Eis a natureza global, ou, se vista por um outro ângulo, primordial, da humana condição que reveste e serve o caminhante. É um campo aberto ao cultivo. O que aí medrar, serão sementes lavradas pela mão de cada viajante, em nome de sua intenção e propósito. Mas por que bebe da fonte mais distante, aquele que tem água por perto? Apenas se sentir o apelo do trilho que o guiará até esse destino… Pois se tudo é experiência, tudo igualmente é aprendizagem. E esse é o seu pressuposto mais básico.

O que sobeja, então, como resíduo final, como resultado da soma de todas as parcelas? Sabedoria incrementada e à Alma dividida anexada, recordação e evolução. Assim, a Alma, esclarecida, compreenderá que ela mesma fora um raio desse sol que, magnânime, sempre brilhou. E com um sorriso recordará o quase que infindos dias em que o contemplou, entre nuvens, sem saber que, de tão simples forma, contemplava a resposta a todas as suas perguntas, admirava cada recorte do destino que a aguardava e suspirava, néscia, diante da luz que foi o seu princípio e será o seu fim. Até à eternidade.




Pedro Belo Clara.