segunda-feira, 2 de maio de 2011

Propósitos diários

Todos desejaríamos que, aquando da conclusão de mais um dia pleno de agitação e de cansaço, em que as certezas que tínhamos por garantidas parecem querer regredir à sua posterior forma de dúvida, fossemos prendados com o mais esplêndido dos hinos, enquanto caminharíamos por entre a mais sublime das guardas de honra. Contudo, quantos de nós não se deparam com a parte mais sombria do silêncio, aquela que se manifesta vaga e opressora? Ainda que tudo o que se obtenha seja o amargo da indiferença ou da incompreensão, a frigidez da repulsa e a inconsciência da não solidariedade, a nossa empresa diária jamais terá sido fútil ou meramente inconsequente! Tal nem sempre é claro de verificar ou de entender mas, acima de qualquer agraciar ou reconhecimento, a palavra mais doce e reconfortante deverá prover de nós e ser para nós mesmos, como num perfeito ciclo de cura e de harmonização. Se empreendermos o máximo que nos é possível, ciente de que nunca capitularemos diante dos obstáculos, colocando a consciência limpa e a nossa visão clara e viva, então escutaremos o tal hino magnânime e caminharemos sob uma guarda de honra, ao som da nossa voz e ao ritmo da nossa dança. A certeza de que executamos nossas tarefas plenos de vontade e de amor, sem olvidar o férreo e deliberado querer, servirá um propósito válido e luminoso, revelando-se na bandeira de uma vida que mais ninguém conseguirá furtar por ser tão marcadamente pessoal. E mesmo nas etapas em que circunstâncias várias se encaminham para uma não resolução, torna-se importante o accionar do rastilho que evocará aquilo que foi executado e aquilo que foi servido, concedendo o devido valor aos novos patamares alcançados ou até mesmo concebidos como meio de fortificação de intentos vindouros, ainda que a nossa limitada percepção (imensamente mergulhada no mar da materialidade) tal não consiga discernir.


Pedro Belo Clara.





terça-feira, 26 de abril de 2011

Gratidão

Em cada etapa do Caminho, existe uma palavra que deverá (se assim o permitirmos) residir no mais suave dos murmúrios emitidos por nossos lábios: gratidão. Mas, ao contrário do que parece ser senso comum, ela nem sempre é compreendida na sua totalidade; na maior parte das ocasiões ou experiências de vida, só o é quando verdadeiramente provamos o mel que dela provém. A ideia idealizada e a ideia concretizada, ou seja, vivida, são dois aspectos bastante distintos: podemos continuar pelo nosso rumo definido e esperar que, a qualquer momento, ela se anuncie ou, ao invés, aplicarmos o seu conteúdo na nossa existência, permitindo que sua luz alumie os recantos mais sombrios de nós mesmos. Por outras palavras, em vez de aguardarmos pela manifestação de qualquer valor em nossos processos de vida, podemos iniciar uma busca que nos trará uma nova visão, elemento esse que nos fará compreender os aspectos vivenciais onde o referido valor reside. Seja qual for o caminho escolhido, os obstáculos a enfrentar, as preocupações a dissipar ou as dúvidas a esclarecer, é possível assumir uma postura de gratidão por tudo aquilo que nos rodeia e que prolifera pelas fronteiras da nossa experiência de vida. Se perscrutamos atentamente o nosso horizonte veremos que, a cada dia, somos prendados com dádivas imensas, das mais simples às mais complexas, mas todas com a potencialidade de nos proporcionar o mesmo sentido de satisfação e plenitude. Mas quantos de nós, ao despertar para o início de um novo dia, se recordam das razões da sua gratidão? Infelizmente, muito poucos. Ao analisarmos a nossa vida de uma forma profunda, certamente que nos depararemos com diversos “potenciais de gratidão”: o rejúbilo e a celebração do amor entre os nossos familiares, as nossas fiéis amizades e os trabalhos realizados com uma sincera paixão são um perfeito exemplo disso mesmo. E o sorriso de felicidade estampado no rosto de nossos filhos? E o brilho no sereno olhar da companheira ou do companheiro que tanto amamos? E o chilrear dos livres pássaros, a suave brisa marítima, os dias de Sol invicto? São essas simples coisas, ou melhor, bênçãos, que nos fazem sentir realmente ricos, preenchendo as nossas existências da mais bela substância, ao mesmo que tempo que nos concedem um engrandecimento e uma iluminação interior mais forte e consistente. Assim sendo, repito a pergunta: não teremos todos nós, cada um na sua forma mais peculiar, motivos para nos sentirmos gratos? Por mais escura que se apresente a estrada, é importante não esquecer este pequeno traço de luz que, a cada momento, cintila e implora pela nossa atenção. Mas se, no entanto, ainda houver algum caminhante que não se sinta dono de tais motivos de gratidão, eu evoco o mais antigo dos ciclos deste mundo: o render da noite pelo dia. Em cada manhã, um novo dia irrompe pelo horizonte, sucedendo ao anterior e levando consigo todos os resíduos já extintos. Será que compreendemos o que aqui reside? As inúmeras oportunidades que, se formos corajosos o suficiente para sermos e nos sentirmos livres, vibram na promessa de uma nova manhã? Cada Homem, por mais perdido que se possa encontrar ou por mais imerso que esteja na sua ilusão, possui no mínimo uma bênção diária, compreendida na oportunidade de realizar hoje aquilo que ontem fora adiado, o que perfaz um total de 365 bênçãos num ano só, e as nossas existências são muito mais longas do que isso. Não será essa uma razão mais que suficiente para entendermos o que nos rodeia e para, finalmente, deixarmos que a gratidão flua por nós? Nós somos verdadeiramente abençoados, em cada hora e em cada dia, mas continuamos a ignorar esse facto. Este é um ponto deveras primordial, a solução que derrubará muitas linhas impostas e tidas como intransponíveis. Todos nós, caminhantes, possuímos as bênçãos das nossas existências multifacetadas, mas a busca e a compreensão dos motivos de gratidão é uma tarefa que somente cada um de nós poderá levar a bom porto.

Pedro Belo Clara.



quarta-feira, 9 de março de 2011

Tempos de renúncia e podridão

Aqui te encontras, fatigado pelas infindas
Ocasiões em que foste esquecido,
Repousando na espessa sombra
Que provém da completa condição
Do carvalho frondoso e ancestral;
Aqui te delongas, consciente,
Sem qualquer razão de ânsia
Ou impulsionadora de vontade –
Quem rompeu a bandeira do orgulho?
Houve alguém que quisesse furtar
O refulgir que de ti transparecia?
Quem te deturpou ou te diluiu?
Quem renegou as tuas causas vitais
Ou as amordaçou nas gélidas manhãs
Destes tempos de renúncia e podridão?

À sombra do velho carvalho,
Aguardando o desgaste dos anos,
Emudece e perece o molde do Ideal
Que outrora fora o nobre motivo
Do erguer dos braços derrotados,
A inspiração de todos os Poetas,
A bravia onda que elevava os desejos
De navegantes em seus corcéis navais.

Senhores, não tolerais mais o olvidar
Da procedência de tamanho Bem,
Da semente de onde brotaram
As mais ínclitas e primordiais flores!
Pois, assim, tudo terá sido em vão,
Todo o eco perderá o seu efeito,
Engolido pelo turbilhão vasto e vazio
Destes tempos de renúncia e podridão.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Poemas de uma viagem na linha gaivota

IV.

Há um tempo que se aproxima
Do seu espectável término,
Mas tal não impede uma afluência
Desenfreada e constante de gentes
Com o aroma de outras paragens
E com os sobejos de mais um dia de vivência;

Há todo um contar de rápidas horas
Que não consentem a sua captura
E um cunho sentido apodera-se
Dos corações que nessa realidade
Pacatamente se confinam –
A ligação esmorece.

Será das novas gentes?
Será esse o motivo dos frágeis
Sorrisos agora escassearem?
São tantos os mundos a conhecer,
Mas tão poucos aqueles que
Verdadeiramente se abrem
Ao temivelmente amplo exterior:
Incessantes batalhas interiores,
Histórias com definido moral,
Lições de vida vivida com o sabor do mar –
Que títulos mais a eles se poderão adequar?

Mas é chegado o momento em que abandono
O papel de passageiro que desempenhei,
Assumindo-me como viajante no partir,
E, antes de tal acontecer, em silêncio,
Minha família estranha e obscura,
Concedo-vos o conforto das palavras:

Por mais intenso que seja o cansaço,
A desilusão ou a gasta nostalgia,
São somente as premissas de um dia
De Novembro que agora se concluem.

Afinal, de uma forma mais árdua ou aprazível,
Todos vós sobrevivestes a um novo obstáculo
E conservaram a vossa própria substância.
E, no final, isso é o tudo que comporta
A mais célebre importância.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Poemas de uma viagem da linha gaivota

III.

Corre, toupeira mecânica,
Como se esse caminho
Se prolongasse pelo infinito!
Em derradeira hipótese
Imortalizamos este instante iluminado,
Onde vários olhos indagadores
Se fixam em tudo quanto vêm,
Onde os calados suspiros
São tão compreendidos e aceites,
Onde nada ameaça quebrar a ligação,
Por mais insistente que seja
A técnica do pedinte.

E, a cada passada empreendida,
A entrada de uma nova estação:
Viajantes que vão e vêm
Em tão natural movimento,
Tal como o é na vida –
Curioso é constatar
Como o rosto da nossa existência
Se depara com o rosto
Da existência de alguém.

Que força ordena à carruagem
Para parar e abrir suas portas
Onde, para além delas, está
Um jovial sorriso de princesa?
Que soberbo fenómeno aleatório!
Será somente um acaso?

Tudo possui a sua Razão
Não fundamentada
E a sua Ordem desordenada
Criada por outros tantos,
A começar por nós mesmos;

Rectilínea e completa
Apenas é a linha metálica
Que define este percurso.  

 

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Poemas de uma viagem na linha gaivota

II.

Preenchida está a carruagem,
Sem lugar para a extensão sobreviver,
Num misto intenso e berrante
De cores espalhadas e misturadas
Em tela nova –

A viagem continua
Pelos meandros da escuridão
E das luzes estranhas
Que enfeitam cada paragem.

Os passageiros de todos os momentos,
Aninhados a nem sei bem o quê,
Pesando um silêncio que se impõe
Por entre tímidos murmúrios,
Parecem finalmente unir-se
Num ambiente próspero a confissões,
Como uma família distante –
Ainda que estranha e obscura –
Que partilha um reencontro.

Fantásticas são as obras
Operadas pelos espaços restritos!

Então, todo um chorrilho de emoções
Flúi pelos corredores apertados
E em rostos com expressões
Tão diferentes e únicas:

Uns, sorriem na inocência,
Outros, por vergonha,
Impelem como podem
O derramar de lágrimas
Ansiosas por eclodir
E outros ainda se mantêm
Em sua natural condição
De simplesmente estar,
Serenos em si, mas com uma
Fadiga expressa no olhar. 



domingo, 13 de fevereiro de 2011

Poemas de uma viagem na linha gaivota

I.

É um fim de tarde frio,
Este que agora se apresenta
Perante mais um dia de Novembro.

Concentrado em pensamentos
E melodias que se afinam só para mim,
Desço a curta escadaria
Que dá acesso à entrada
Para os túneis do progresso.

Progresso?
Mas que suposto progresso é este
Que se diz construtor do futuro,
Mas que em tantas ocasiões
Se encontra embargado?

Talvez ele se reflicta
Em cada um dos olhares
Desta civilização dispersa,
Embora ordenada ao longo
Dos imensos bancos corridos,
Como se de pombos contemplativos
Repousando numa saliência
Da fachada de um prédio se tratassem –

Cada um com seus pensamentos,
Imergidos no esforçado calor
De cachecóis e golas altas,
Escutando suas melodias monocórdicas. 

Alegria? Tristeza?
Algum sentimento,
Por mais efémero que seja?

Mas refrega o teu descontentamento,
Pena minha (ou será entusiasmo?),
Pois a locomotiva subterrânea,
Galopando como orgulhoso garanhão,
Já se aproxima do adro
Desta apinhada estação.