O caminho não é uma via única. Não poderá ser falado, escrito e entendido com exactidão lógica, somente experienciado. Sendo tudo, nada é. Quem o trilha saberá que caminho e viajante são uma coisa só.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Lançamento do livro "Palavras de Luz"
Queridos amigos e seguidores,
Foi com um enorme prazer que no passado dia 30 de Novembro, pelas 19h, lancei ao público o meu terceiro livro (o primeiro fora do género poético), de nome "Palavras de Luz".
A todos os presentes, mas sem olvidar os ausentes, o meu agradecimento pela partilha dos momentos de amizade e companheirismo que, durante o evento, tivemos oportunidade de desfrutar.
Caso queiram saber mais informações sobre a obra em questão, ou eventualmente adquiri-la, poderão consultar o seguinte link: http://www.chiadoeditora.com/index.php?page=shop.product_details&flypage=flypage.tpl&product_id=916&category_id=15&option=com_virtuemart&Itemid=171
Um forte abraço e até breve.
Pedro Belo Clara.
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
ALVAS FLORES EM NEGROS CABELOS
Bem que poderia ser mais uma bela tarde de Outono que sobre
aquele amplo jardim se instalava, com as alamedas de tombadas folhas na fresca
relva, os voos errantes de algumas apressadas aves, os pequenos – mas
preenchidos – bancos de madeira e a luz de um sol que acalentava os mais
pálidos rostos. De certa forma, até o foi. Mas, subitamente, entre cafés,
serenas conversas e silenciosas leituras, um estranho cântico irrompeu. Todos
os que presenciavam esse inesperado fenómeno de pronto desviaram o olhar de
suas tarefas, sondando a origem de tal coisa. Para muitos, era já familiar;
para outros, desconhecida e… efectivamente estranha. No meu caso particular,
confesso a familiaridade com a mesma. Eis, então, docemente invadindo aquele
espaço, uma mulher cantarolando uma incógnita canção (pergunto-me até se não a
teria inventado mesmo ali) com alvas flores em seus negros cabelos. Muitos,
desde logo, elaboraram seus diagnósticos e assinaram as suas íntimas conclusões
e julgamentos, pois apenas a existência de problemas psicológicos – e graves! –
justificariam tal comportamento. Outros, reconhecendo-a, lamentavam a sorte de
tal figura – sem conseguirem reter alguns breves comentários sobre a
indumentária da jovial cantora, que por certo seria um alvo da miseração
alheia.
Mas, tendo avançado já um pouco no relato de tal episódio, creio
dever ao leitor o seguinte esclarecimento: embora o nome da referida mulher me
seja completamente oculto, bem como o local de seu abrigo (que imagino e até
desejo que confortável seja), é verdade que meus olhos facilmente a reconhecem
quando tropeçam em sua figura. Diria que todo o bairro tem as suas peculiares
personagens – e em diversas deambulações pelas ruas que formam o meu me cruzei
com tal presença. Como tal, não poderia estranhar tal comportamento; não, tendo
já testemunhado o que as suas declaradas peculiaridades podem proporcionar:
lábios forte e desordenadamente pintados, fitas coloridas no cabelo, a hábil
arte de encontrar cigarros abandonados, diálogos aos quatro ventos ou o
mastigar de uma complexa ideia entre imperceptíveis sussurros.
Aquela improvisada plateia, célere retomou os seus urgentes
afazeres sob pena de envenenar um tão aprazível lazer. Mas ela, solta e
inocente, continuava com o seu peculiar e improvisado flamengo (sim, creio
agora ser esse o estilo mais adequado) junto de um canteiro de flores. Mirei-a
por um pouco mais. Sorri. Poderão terceiros considerá-la louca (convenhamos que
era a definição que até aqui tentava evitar) e compadecer-se por sua lamentável
condição, mas… terão eles visto o vigor de sua dança? Um certo brilho em seu
rosto marcado? O quão concentrada e rejubilante estava no seio de sua estranha
e árdua tarefa? Oh, quantos de nós não almejam alcançar tal fórmula? A da
felicidade expressa em cada coisa feita? Em cada pulsar de um coração que vive?
E ali estava a resposta: tão singular, tão natural, tão estranhamente certa…
Cada boca dirá o que mais lhe aprouver e convier, está claro, mas esta renegada
princesa, excomungada de algum conto de fada esquecido, encontrava-se veramente
feliz na ilusão do seu mundo tão magnificamente criado, onde apenas residem as
personagens que ela própria escolhe e define. Sim, talvez seja insana… E talvez
tal sentimento se esfumasse em breves momentos, consequência de uma existência
delineada entre dois extremos tão distantes, tão dolorosamente instáveis. Mas,
naquele instante, naquele preciso instante, ela era feliz – por mais efémero
que tal estado possa efectivamente ser. E poderemos nós, aqueles que tanto
buscam o mesmo efeito que a assomou, veramente recriminá-la por isso?
Pedro Belo Clara.
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
A EXPERIÊNCIA DO SENTIR
As vias que moldam a nossa existência, filhas de um rumo maior –
em suma, os corredores que atravessamos ao longo do nosso limitado tempo, onde
damos e recebemos, transmutando os diversos estados que nos assomam –, são
pródigas em particularidades deveras interessantes. Pelo menos, de uma posição
imparcial, entender-se-á o que mais fomenta a nossa curiosidade. Existe, de
certa forma, um conjunto de parâmetros que as regem, numa espécie de “liberdade
adaptável”. E todo o olhar que se perder em serena contemplação entenderá tal
característica, que sempre assume a forma de hipótese – isto é, um potencial a
ser trabalhado. Além disso, ao longo dessas mesmas vias, demoram-se ocorrências
passíveis de serem concretizadas: situações portadoras de novos encontros,
aprendizagens, ensinamentos, expiações, entre muitos, muitos outros. No fundo,
cada evento comporta em si algo; e nada se perde, na realidade, se o manancial
que nos é ofertado for efectivamente aceite e direccionado.
Aquilo que se depreende das palavras aqui expostas é o carácter
experimental da Vida em si, habitual presença nas veredas que trilhamos passo
após passo. Tal aspecto complementa-se, assim, na espantosa multiplicidade que
o Caminho nos oferece no seio de sua diversidade. Afinal, em sua génese, é um
valioso “palco de experiências”. E percorrê-lo não significa apenas entendê-lo,
mas igualmente vivê-lo e experimentá-lo sob os diversos ângulos e vertentes que
o compõem, mesmo que estas possam ser aparentemente contraditórias. Assim,
ainda que se desconheçam as razões que nos movem, estaremos a cumprir
propósitos ocultos e a escrever uma história (a nossa) que implorava ser
escrita. Mas significará isso a total experiência? Um livre arbítrio desmedido?
Se entendermos a Vida, depreenderemos o frágil equilíbrio que a sustém. A
resposta jamais residirá em extremos ambíguos; antes numa harmoniosa conjugação
de todos os elementos. E, muitas vezes, para tal ser alcançado, bastará
empreender a primordial de todas as tarefas: caminhar, apenas caminhar.
Trilharemos o nosso íntimo percurso, teremos a hipótese de
plantar nossas sementes e de saborear os frutos que criámos e aqueles que por
mão alheia foram criados, marcando sempre novas etapas e o consequente granjear
de sabedoria de vivência (e não só), no delinear de nossa particular evolução. Mas
a experiência maior, a inexorável condição a tudo anexada, é o “sentir”. Que
maior condimento da experimentação que o sentimento? É ele que nos impulsiona o
riso, o choro, o amor, a dor, a paixão, a empatia… Como esquecer tais básicos
elementos? Como sequer imaginar uma existência sem eles? Mais do que qualquer
outra coisa, a nossa experiência pelos domínios da matéria, como seres
espirituais que somos, vale por esse inestimável componente. Facilitar-nos-á
ele a nossa vivência? Nem sempre, é um facto. Mas, o que seria ela se
desprovida estivesse de tais aromas que tão bem a distinguem e caracterizam?
Embora muitos de nós, imersos em suas feridas e desilusões, rejeitem o amor
apenas por temerem a dor, a experiência do sentir é deveras singular e
apresenta-se como um importante desafio à nossa interna desenvoltura. Sim, é
uma água que tanto sacia como pode envenenar… Mas temerá a morte aquele que
conhece a arte da ressurreição?
É uma provação; mas, por outro lado, um aprazível desfrutar. E
aceitar a plenitude da Vida é abrir os braços a todo o porvir e, munido de
crenças e acumulada sabedoria, abraçar os ventos do amanhã. Assim, queridos
caminhantes, viveremos! É claro que obteremos nossas feridas, dores e lágrimas…
Mas viveremos! Sem olvidar o livre arbítrio que nos cabe em direito, cientes de
que a transcendentalidade é deveras possível num evoluído estado consciencioso.
Experiênciamos e, com isso, adquirimos uma peculiar sabedoria. Que bandeira
mais vibrante do que essa poderá ser desfraldada? Mas não como quem exalta o
que possui, antes valoriza o que detém. Só ela nos concederá acesso a novos
níveis de consciência, nos fará erguer o olhar e descobrir novos horizontes e
estrelas. Que propósito poderá aqui ser colocado senão esse? O experimentar, a
aprendizagem e consequente evolução?
Quem caminha é, por certo, movido por um desejo de horizonte.
Renovado a cada instante, sendo aquilo que é, aceita e compreende. No entanto,
demoramo-nos de igual forma por trilhos ilusórios. O que vemos e tocamos não
passa de uma ilusão, de uma mera projecção de algo superior aqui toscamente
reproduzido. Vivemos este sonho na densidade da matéria, onde tudo regista um
ciclo, uma regra solta, uma constante dualidade. No entanto, vivemos também a
experiência do sentir; mesmo que aqui, como reflexos num lago, pululem
projecções de ideias e ideais. Agora, entendemos os limites de tal aspecto:
aquilo que vivênciamos é uma experiência controlada, e não absolutamente plena
(é a referida projecção de algo de superior). Podemos pensar da Felicidade ou
na Liberdade como ideias absolutas, mas o absoluto não se reproduz na dualidade
– paira para além das muralhas desse castelo entre as nuvens, no local onde
tantas vezes desejaríamos estar. Mas essa é mais uma condição básica que rege
esta singular experiência. E tudo o que aqui é possível, apenas o é neste local
– são as condições necessárias ao nosso desenvolvimento individual.
Toda a viagem termina, é certo, não sem antes uma outra se
iniciar, por sua vez, num outro tempo e
lugar. Mas, antes de se concretizar tal premissa, com tudo o que de sacro e
único os rodeia, é-nos ofertada a hipótese de viver, de semear e colher,
ensinar e aprender. E assim iremos traçando novas rotas e perseverar no nosso
objectivo mais primordial – apenas isso –, focados na imensa dádiva que o
presente momento constitui. Somente até que um outro sol acabe por irromper no
horizonte e um súbito vento chamar por nós.
Pedro Belo Clara.
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
EVOLUÇÃO
Ao apresentar o seu carácter circular, compreendemos que na Vida
tudo se sucede e é sucedido. O fluxo é constante e não cessa; é um rio que, ao
seu próprio ritmo, corre para os braços do mar que o espera. E, nele, se assim
permitirmos, fluiremos nós, viajantes por íntima natureza, caminhantes neste
longo Caminho que nos recebe. Mas, como em tantas outras ocasiões vos falei,
esta premissa assenta sobre uma decisão individual, uma postura perante as
situações ocorrentes. No fundo, será a partir daí que nossa visão se formará e
se reproduzirá. Não existe, obviamente, um «certo» ou «errado», apenas visões
compreendidas em diferentes ângulos de absorção que, unidas, recriarão a
completa imagem que sempre nos escapa.
Neste percurso de conquistas, ambições e planeamento de
objectivos, se efectivamente o considerarmos como tal, onde poderá residir o
espaço para os nossos desejos? Deveremos sequer possui-los? Ou simplesmente
celebrar a Vida pelo singular milagre que ela é? De novo sublinho: todos esses
aspectos são frutos de uma pessoal visão; e, aqui, por minha vez, apenas vos
poderei apresentar a minha. Porque múltiplos são os frutos que vos vão sendo
ofertados, cabe a vós mesmos saber quais saciam, de forma mais completa, a
vossa pulsante fome. A seu tempo, se guardarem tais sementes, tornar-se-ão cultivadores.
E, por vossa vez, estarão a ofertar a terceiros os frutos que com o devido amor
fizeram medrar. No entanto, é importante compreender que, fluindo com a Vida,
entendendo os seus pressupostos maiores, germinará em nosso âmago uma sólida
âncora: a Fé – esteja ela assente naquilo que estiver. Assim, fortifica-se a
certeza – origem de uma serena tranquilidade – de que nos encontramos, presentemente,
no exacto local onde deveremos estar, desempenhando a função ou tarefa que nos
cabe, por ora, desempenhar. Se mergulharmos bem fundo em nossa consciência,
adquiriremos tal sensibilidade, tão popularmente traduzida por “seguir a voz do
coração”.
Poderemos, é certo, receber inúmeras frustrações se perseverarmos
em nossos supostos desejos, objectivos ou ambições. Especialmente se moroso for
o seu processo de materialização ou, por outro lado, constante a derrota na
batalha pela sua concretização – mas tudo constitui motivo de aprendizagem e
crescimento. No entanto, se sentirmos esse fogo em nós, como algo que vero arde
e implora por se realizar, pelo bem próprio e de terceiros, não serão os árduos
e insistentes obstáculos que nos farão encerrar tal demanda, tampouco abdicar
de todo o bem que poderia vir a ser alcançado. Acima de tudo, fluir… Pois
existem inúmeras variantes que efectivamente não controlamos. E a dor advirá de
um apego exacerbado a certos elementos e circunstâncias, bem como das
expectativas que poderão vir a ser formuladas. Por isso, é importante saber
dosear cada impulso, cada actuação. Mais cedo ou mais tarde, continuando a
pisar tal dúbio terreno, surgirão as ilusões que, inevitavelmente, se quebrarão
com o devido estrondo e dolorosas consequências. Com a devida maturidade, granjeada
ao longo de várias etapas vencidas, saberemos entender que todo o fruto que por
nossa mão deverá ser colhido, sê-lo-á no devido tempo. Ganharemos essa certeza
crendo na «Força que tudo rege», aquela que tão levemente intuímos e sentimos
em cada passada. Além disso, um novo dia trará sempre até às nossas margens a
sua eterna promessa, tão sólida quanto as bênçãos que nos serão reservadas.
De facto, num turbilhão de pensamentos e vontades difusas,
tornamo-nos exigentes, obstinados requerentes que anseiam por algo que venha
até eles, oriundo de esferas superiores. E olvidamos, assim, os milagres que se
desenrolam, a cada instante, em torno de nós. Por mirarmos as estrelas em
demasia, esquecemo-nos da beleza dos montes e das planícies… Existe um tempo de
plantação e de colheita, e é importante entender e aceitar tal premissa. Se
sentirmos necessidade, olharemos bem no fundo de nós próprios, avaliando cada
situação com o devido cuidado, requeira ela de nós gestos activos ou passivos.
Não é somente por nossa intervenção que um fruto amadurece; contudo, poderemos
prover as condições para que tal se suceda. Mas, seja através da intervenção
directa, indirecta ou nenhuma até, o crucial aspecto que sobressai, adquirindo
sóbrio relevo, é o compreender do tempo de cada coisa. Por outras palavras,
definidas na simplicidade: se a hora for a certa, que seja; caso contrário,
aguardaremos, pacientemente, a sua chegada (pois nenhum Inverno é eterno).
Na verdade, todos estes aspectos e ponderações se apresentam
como uma óptima plataforma de desenvolvimento do que hoje nós somos,
auxiliando-nos a imergir na nossa mais recôndita verdade. Assim, conhecemos e
estudamos a fibra que nos compõe. São as diversas situações que nos interpelam
o rumo que revelam aquilo que somos, através das atitudes e comportamentos que
em nós despertam, ainda que inconscientemente. Um Homem sábio saberá, contudo,
prever, dentro de suas limitações, preparando-se assim para o provir. No fundo,
fá-lo por possuir o olhar erguido, ao contrário dos restantes que, tão ocupados
nos detalhes do solo que pisam, olvidam o horizonte. Seja como for, tais
ocorrências apenas fortificam as nossas crenças, abanam fundições (o melhor
método para repensar certezas e definições) e fazem emergir a nossa realidade.
E não existem aqui meras “vítimas das consequências”; as coisas são o que são –
se nos surpreendemos, então é porque apenas detínhamos uma ideia ou
consideração errada sobre tal.
Há que aceitar, por mais que o neguemos, a verdade que se nos
anuncia, pois só assim é que de novo fluiremos, permitindo o crescimento do
nosso ser em constante evolução, tal como da sociedade que nos integra – ou não
fosse ela própria, como coisa geral que é, reflexo do particular. Em suma, eis
a definitiva conclusão: são meios de proporção e de consolidação da nossa
particular evolução. Assim, compreendemos a utilidade dos espinhos que abrandam
o nosso ritmo e flagelam o nosso ser. Aceitá-los, é escutar aquilo que têm a
nos transmitir; seguir tais directrizes, é abraçar a nossa própria evolução.
Seremos elevamos se nisso persistirmos, com a tenacidade de um felino e a
brandura de uma pomba. Então, livres por fim, testemunharemos o término de
todos os ciclos no anunciar da tão esperada e sempre ínclita eternidade.
Pedro Belo Clara.
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
REENCONTROS
Por
uma só existência, ao longo do percurso, variados rostos atravessam os corredores
da sua vivência – de forma passageira ou não –, deixando sempre impressa a sua
indelével marca. Assim, e de uma certa forma, por mais breve que seja o contacto,
tais rostos nunca a abandonarão, pois irão permanecer em seus pensamentos,
memórias e coração, no especial recanto destinado às coisas mais estimadas e
preciosas. Na verdade, para causarem um significativo impacto não necessitam de
muito tempo ou de inúmeras palavras… O gesto, por vezes, perdura bem para além
de tudo isso, como uma estrela que cintila no vasto firmamento da mais terna
recordação.
Mas
serão tais encontros meramente aleatórios? Apenas se acreditarmos num aleatório
regimento de toda a existência… Há algo a retirar de cada um deles, em específicos
momentos e circunstâncias: aprendizagens, um saldar de antigas dívidas, um
relembrar crucial, um apoio, uma força, entre outros exemplos; mas cada um à
sua peculiar maneira e forma. É claro que o inverso é aqui igualmente válido;
ou seja, existem momentos em que nós próprios assumimos tal posição, a de
passageira (ou não) presença em existências alheias. Tanto quanto eles para nós
serão âncoras, resgates ou meios de libertação, também nós o poderemos ser para
eles mesmos. No fundo, tudo se conecta e interliga – e todos nós, caminhantes,
nos encontramos conectados e interligados uns aos outros, por mais que o venhamos
a ignorar.
Essa
é, indubitavelmente, uma das mais belas virtudes da vida (ou característica, se
preferirem). Obviamente, quem permanece atento e consciente não corre o risco
de perder um comboio que se aproxima lentamente da estação. Assim, conseguirá,
por certo, reter e desfrutar de todo o proveito que tal acontecimento lhe
poderá proporcionar. Desfrutemos, então! Pois tais encontros são deveras únicos
e especiais; estimemo-los, cientes de que de nada somos donos ou senhores. Os
abençoados são aqueles que em concha abrem suas mãos para receber a dádiva
sagrada que lhes for ofertada, aquela que com seus cálices será saboreada e
partilhada – e não quem ostentar pretensões de a deter, controlar ou encarcerar.
As preciosas coisas mantêm o seu singelo brilho se forem deixadas livres e
soltas, conservando a sua independência e valor – pois essas são as achas do
seu tão peculiar refulgir.
Há,
então, algo de veramente significativo a receber e a ofertar em tais encontros,
resumam-se eles as breves instantes ou a toda uma existência. E certo estou de
que, se agora mesmo abríssemos o nosso baú de recordações, seríamos capazes de
evocar exemplos que corroborariam esta ideia, fossem eles oriundos de um
passado tão antigo que a própria memória já dele se despojou – embora o perfume
das essências, de tão forte que é, nunca se extinga – ou o resultado de um
reencontro em efémero momento. Mas a importância e profundidade dos mesmos,
nestas tão especiais ocasiões, estende-se para além da nossa limitada
percepção. Uma semente é deixada a medrar, tanto em nós como nos indivíduos que
emocionalmente nos tocam ou por nós são tocados, pelo que o aroma dessa singela
flor perdurará sempre nos corações envolvidos. E daí apenas aflorarão sentidos
sorrisos.
No
entanto, é verdade que a dor constitui uma integrante parte neste processo.
Afinal, reencontros sempre despertam em nós algo de adormecido, amáveis
recordações ou antigas amizades, mas igualmente perdas emocionais, roturas e
afastamentos. São velhas feridas que se avivam ao tocadas serem. Embora todo o
viajante que se consciencialize e se disponibilize a transmutar tais padrões,
não mais úteis à sua presente evolução, entenda que as dores de outrora deverão
ser definitivamente curadas – mesmo que a sua marca nunca desvaneça. Não pode
haver lugar, num presente de esplendor, para um passado por demais consumido.
Caso contrário, como desejar que o futuro seja brilhante como o sol que nos
afaga o rosto? Antigos padrões devem cessar a sua repetição, sob pena de
cometermos os mesmos erros, de sentirmos as mesmas perdas e amarguras. Ainda
que seja árduo, quando nos olhares do nosso semelhante evocamos todo o bem que
foi vivido num outrora. Contudo, o Caminho percorre-se de olhos postos no
horizonte onde o alvor se anuncia, não naquele onde o sol já se pôs.
Não
refiro aqui um completo afastamento ou ruptura da relação em causa – somente se
ambos sentirem que tal decisão é a mais acertada, uma vez que a dor, de tão
forte, sempre impossibilita certas coabitações. O ponto principal é a tomada de
consciência: velhas roupagens não mais servem o seu propósito. Certos sentires,
ideias ou até sonhos poderão, à nossa limitada percepção, parecerem perfeitos,
tão certos e belos, mas, na presente vida, mediante outras circunstâncias e
ocorrências, não constituem o melhor para os indivíduos envolvidos e para a sua
necessária evolução. Então, que se saldem as dívidas remanescentes e que os
corações possuam a bravura necessária para continuar, para firmar a conclusão
de toda a pendência em causa. É árduo libertarmo-nos de algo assim,
convenhamos… Mas, por amor àqueles que outrora tanto amámos, e que nunca
deixarão de nos serem caros, tal urge ser realizado. Em nome da nossa e da sua
pessoal evolução, certos pesos deverão ser largados, certos assuntos
concluídos, querelas resolvidas e vivências enterradas (mesmo que ainda
esgravatemos, de quando em vez, o local do seu enterro).
Assim,
libertos, cumpriremos finalmente o que agora deve ser cumprido. Antigas
relações de nada valem para novos desafios… Principalmente quando as realidades
foram já efectivamente alteradas e em nada se assemelham ao que, um dia, foi
partilhado ou vivido. A Vida é um ciclo, e com ela tudo muda. Embora tal não
signifique expressamente a morte do sentimento que nos une a tais pessoas. Como
antes referi, não se trata de uma ruptura abrupta ou de uma despedida eterna –
antes, de um «até breve». De facto, novos desafios e vivências requerem outras
presenças, aquelas que realmente mais nos poderão auxiliar em nossas presentes
etapas e vice-versa – pois tudo é uma força que flúi num duplo sentido: dar e
receber. É, por isso, importante compreender e saber aceitar as novas
desenvolturas, bem como a acção que importa ser implementada (não olvidando o
facto de que, primeiramente, ela começa em nós), tanto ao nível da razão como
ao da Alma. Com ou sem a presença da dor, no decorrer de tal processo,
evoluiremos. E, livres, naquele que é o mais puro gesto de um incondicional
amor, rumaremos de novo à Luz que nos aguarda. Aí, nas planícies onde nos
recostaremos, uma vez mais e sem qualquer restrição de ordem material ou
evolutiva, o reencontro se dará. Pois o que é deveras forte, que pulsa no
íntimo mais sincero, nunca se quebra ou permite que o seu brilho cesse. Jamais.
Pedro
Belo Clara.
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
INTERIOR E EXTERIOR
Sempre foi um hábito, ao longo da nossa humana história,
buscarmos algo que sentíamos ser superior a nós próprios em locais deveras
distantes. Desde o primo instante em que intuímos a existência (e a presença)
de alegados “Deuses”, assim denominados, esses tais seres frutos de uma
inatingível energia, que nos acostumámos a mirá-los por entre as estrelas. Por os
julgarmos diferentes de nós, divinamente divinos (assim que tal conceito se
instalou em nossas percepções), seres dotados de extraordinários dons, julgámos
necessário colocar tais figuras – ou presenças – em altos pedestais. Assim,
surgiu a devoção, como resultado de um medo incontrolável, de uma ansiosa e
oculta busca, carência declarada ou urgência de crença e de seu conforto. Será,
por certo, complexo definir e apresentar os reais motivos, mas a eles
recorríamos em momentos de necessidade extrema, por eles sacrificámos e
massacrámos, ofertámos dádivas para obter as suas boas graças ou atrair boas fortunas.
Mas, com maior ou menor subjugação, sempre os vimos longe de nós – distantes e…
intangíveis.
Desde então, evoluímos. Ainda que, em certos aspectos, não tanto
assim. Mas a cada Homem se reserva o justo direito de escolher e cultivar as
suas crenças. Atenção que aqui se sublinha apenas o mais básico dos
desenrolares e suas consequências; pois, se entrássemos no campo da religião
propriamente dita, coesa e institucionalizada, por certo haveria muito mais
assunto para debater. Não se foca, por exemplo, a manipulação registada pela
história ou o controlo pelo medo, tão frequentemente manuseados por quem se
afirmava um “representante dos Deuses”. Mas, retomando o assunto que nos
prendia, sem mais demoras importa referir que olvidámos o princípio da dualidade.
Ou seja, os contrários, ao existirem, sucedem-se, completando um todo. Da mesma
forma em que o Pequeno não existe sem o Grande, ou a Morte sem a Vida, também o
Exterior não subsiste sem o Interior. Porquê, então, procurar na distância
aquilo que sempre residiu em nós, ainda que oculto? Os inimagináveis tesouros
que não poderão ser encontrados no coração que nos habita! Esquecemos que somos
filhos das estrelas; que, em nós, refulge a centelha da Luz Eterna, aquela que
sempre entendemos através de diferentes conceitos, vimos através de díspares
prismas e denominámos por distintos nomes.
Tudo o que nos basta, de momento, encontra-se em nosso redor.
Caso contrário, entrando no fluxo da Vida, o Caminho encarregar-se-ia de nos
guiar até outras paragens. Caminhemos, então – e o vento soprará a nossa
presença. Pois, na verdade, as mudanças ocorrem na consciência que está apta a
recebê-las. Será isso uma questão de crença? Indubitavelmente. E ela somente se
fortificará naquele que conhece e se move pelas linhas que compõem o nosso rumo
– conhecê-las e por elas se mover fornece os motivos de tal crença, obviamente.
Mas o mais secreto dos mistérios está em nós. Descobri-lo e apreendê-lo
significa descobrir e apreender o mais secreto dos mistérios do exterior. Os
extremos interligam-se: um não existe sem o outro e ambos complementam-se. No
entanto, somente quanto cultivarmos o nosso fértil terreno é que saberemos respeitar,
entender e admirar o fértil terreno de terceiros, aqueles que se distendem em
redor do nosso. Se sentirmos a harmonia e plenitude em nós, vê-las-emos
reflectidas em cada gesto diário, em cada cenário contemplado – na união da
Vida e de seus belíssimos componentes. Afinal, quando desperta está a
consciência para uma nova realidade, a antiga, aquela que sempre conhecemos,
transmuta-se por completo, como se irradiasse uma novel luz. E quem, então, não
considerará que algo de divino habita em tão singular momento?
Cada ser, sendo aquilo que é, convergindo com todas as coisas
que o circundam, impulsiona, na Alma de quem os contempla, a certeza de
testemunhar algo de tão primordial e natural, mas, em simultâneo, tão certo,
belo, digno e… sagrado. Assumir a condição que nos é reservada é entender a
natureza que nos compõe. Ou, por outras palavras, abraçar a essência que
sabemos ser (não aquilo que os demais olhares consideram que somos). Por isso,
conquista a tua luz, companheiro de viagem, e por ela chegarás às margens de
uma luz maior – aquela que, desde o início da tua jornada, te espera e te busca
pela imensidão dos mundos. Então, as pequenas partes fundir-se-ão, uma vez
mais, no Todo do qual provêem. E o infinito impregnará de eternidade cada
momento, desprovido de espaço e de tempo.
Pedro Belo Clara.
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
O RENASCIMENTO
Já em anteriores publicações abordámos o aspecto cíclico da Vida em si e como este se aplica ao Caminho e a nós, caminhantes. No fundo, todo esse desenrolar é um processo evolutivo: o que perece, renascerá. Esse será, talvez, o aspecto mais básico de toda a existência, a sua mais primordial natureza. Aceitar tal evidência é fluir pelo rio da Vida, entender que sem Inverno nunca haverá um Verão; e aceitar significará transcender, pairar sobre todas as ocorrências e questões como atenta testemunha, caminhar rumo a outros estágios de consciência, em vez de permanecermos grudados a uma dor ou desilusão. Na verdade, somente quem se ilude, previamente, é que se dirá desiludo, de forma posterior. E aquele se ilude é aquele que constrói uma expectativa. Este assunto remete-nos, assim, para um outro: a opção de nada desejar ou esperar; ou, por outras palavras, uma entrega total ao provir. Somos os capitães das nossas embarcações, possuímos leme e bússola; mas, ainda assim, podemos confiar no vento que nos bafeja. Não controlamos o seu sopro, é um facto, e ele sempre se revela presente, com maior ou menor intensidade. Assim, porque não confiar que tal impulso nos levará até bom porto? Mas sempre detemos a opção de pegar no leme e tomar um rumo diferente. Uma vez mais nos deparamos com as diferentes formas de encarar e abraçar a humana existência e sua condição. Em suma, tudo se resume à adopção de diferentes posturas perante algo. E cada um de nós, os caminhantes deste caminho de sol e de lua, acabará por adoptar aquela que mais lhe servir, harmonizando corpo e espírito. Ser a brisa que corre ou a folha que se dobra ao seu passar? Eis a questão que inicia o procedimento de busca e apreendimento.
Contudo, não caiamos em erro: apesar do que foi já dito em espírito de partilha, a dor não é alheia a estes processos. É claro que, por nossa postura, conhecimentos e crenças, poderemos utilizar meios que melhor nos ajudarão a lidar com a presença desse incómodo espinho. No entanto, não a evitaremos. Aliás, querer evitar o sofrimento é querer evitar a própria Vida e todas as múltiplas experiências que ela nos proporciona. Pois este é, a par de muitos outros, seus semelhantes, uma mera consequência das suas peculiares ocorrências. Querer evitar o sofrimento é querer impedir o tombar da chuva ou a chegada de um gélido Inverno. Mas se entendermos que é somente graças à sua presença que os dias de sol chegarão, estaremos a abraçar a Vida em toda a sua plenitude e amplitude. Estaremos a compreender as linhas com que se tece o Caminho de todos nós e a corajosamente aceitar os seus desafios. E, como antes referi, aceitar é transcender.
Na verdade, por mais longa que seja a noite, um novo dia acabará sempre por irromper com todo o seu esplendor. Mesmo que não seja no exacto momento que prevíamos ou desejávamos. Poderemos definir rumos em nossas existências, materializando o fogo que vibra em nossos corações, mas no seio da nossa humildade aceitaremos que certas envolvências não dependem de nossas acções nem estão sob o nosso apertado controlo. Inclusivamente, a nossa liberdade, tanto quanto aqui é possível experiênciar, depende muito de tais questões. Além disso, a fé, nem que esteja apenas assente numa simples premissa, é o amuleto do Homem, a sua bengala, o seu impulso de empreendimento.
No devido tempo, renasceremos. E tomaremos para a nossa essência todo o crescimento e a aprendizagem retida em tal passagem. Não mais seremos os mesmos; antes pequenas luzes cintilando como nunca! Se perscrutarmos as redondezas e atentarmos no funcionamento das mais simples coisas, poderemos tomar o exemplo das árvores de folha caduca: nunca as suas folhar são tão verdes, de uma vibrante e vívida cor, quando são jovens e tenras. Apenas assim se destacam das demais. Depois, é claro, adquirirão tonalidades mais escuras no pleno de sua maturação, equiparando-se às restantes. Mas a maior diferenciação, aquela que de longe mais se faz notar, ocorre na fase do seu maior brilho, intenso e peculiar. Este, não ocorre na fase madura, mas nos instantes que se seguem ao seu renascimento. É aí que elas brilham como nunca mais irão brilhar. Certamente que é árduo abdicar de certas coisas, romper com o antigo ou enterrar sonhos promissores; mas, se não mais nos servem, o seu abandono revela-se crucial à individual evolução. Somente quando o cálice se esvazia, é que poderá ser de novo preenchido.
É nesse tempo turbulento, de dúvidas e agitações, que a mais cintilante das luzes nos habita, como que se fosse uma recompensa pela complexa travessia realizada; uma luz que jamais nos abandonará e que somente ganhará forças quando outras, novas, a ela se juntarem. Assim é toda a existência, assim é o rumo da evolução. Por mais íntimo que seja, certas aspectos são comuns a muitos de nós. Afinal, percorremos as veredas de um só Caminho e, ao contrário do que podemos muitas vezes julgar, não estamos sós. Por isso, quando menos esperarmos, o desejado momento surgirá com a naturalidade de um processo de cultivo – plantação da semente e, na devida estação, colheita do fruto. A paciência é deveras uma virtude, e um proveitoso escudo durante o desenrolar de tais ocorrências. Mas, muito mais que isso, é um sinal de sabedoria. Sendo ela a nossa bandeira, perseveremos – e viveremos para assistir ao nascer desse glorioso e secretamente ansiado dia de concretização.
Pedro Belo Clara.
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