quinta-feira, 25 de outubro de 2012

REENCONTROS



Por uma só existência, ao longo do percurso, variados rostos atravessam os corredores da sua vivência – de forma passageira ou não –, deixando sempre impressa a sua indelével marca. Assim, e de uma certa forma, por mais breve que seja o contacto, tais rostos nunca a abandonarão, pois irão permanecer em seus pensamentos, memórias e coração, no especial recanto destinado às coisas mais estimadas e preciosas. Na verdade, para causarem um significativo impacto não necessitam de muito tempo ou de inúmeras palavras… O gesto, por vezes, perdura bem para além de tudo isso, como uma estrela que cintila no vasto firmamento da mais terna recordação.

Mas serão tais encontros meramente aleatórios? Apenas se acreditarmos num aleatório regimento de toda a existência… Há algo a retirar de cada um deles, em específicos momentos e circunstâncias: aprendizagens, um saldar de antigas dívidas, um relembrar crucial, um apoio, uma força, entre outros exemplos; mas cada um à sua peculiar maneira e forma. É claro que o inverso é aqui igualmente válido; ou seja, existem momentos em que nós próprios assumimos tal posição, a de passageira (ou não) presença em existências alheias. Tanto quanto eles para nós serão âncoras, resgates ou meios de libertação, também nós o poderemos ser para eles mesmos. No fundo, tudo se conecta e interliga – e todos nós, caminhantes, nos encontramos conectados e interligados uns aos outros, por mais que o venhamos a ignorar.

Essa é, indubitavelmente, uma das mais belas virtudes da vida (ou característica, se preferirem). Obviamente, quem permanece atento e consciente não corre o risco de perder um comboio que se aproxima lentamente da estação. Assim, conseguirá, por certo, reter e desfrutar de todo o proveito que tal acontecimento lhe poderá proporcionar. Desfrutemos, então! Pois tais encontros são deveras únicos e especiais; estimemo-los, cientes de que de nada somos donos ou senhores. Os abençoados são aqueles que em concha abrem suas mãos para receber a dádiva sagrada que lhes for ofertada, aquela que com seus cálices será saboreada e partilhada – e não quem ostentar pretensões de a deter, controlar ou encarcerar. As preciosas coisas mantêm o seu singelo brilho se forem deixadas livres e soltas, conservando a sua independência e valor – pois essas são as achas do seu tão peculiar refulgir.

Há, então, algo de veramente significativo a receber e a ofertar em tais encontros, resumam-se eles as breves instantes ou a toda uma existência. E certo estou de que, se agora mesmo abríssemos o nosso baú de recordações, seríamos capazes de evocar exemplos que corroborariam esta ideia, fossem eles oriundos de um passado tão antigo que a própria memória já dele se despojou – embora o perfume das essências, de tão forte que é, nunca se extinga – ou o resultado de um reencontro em efémero momento. Mas a importância e profundidade dos mesmos, nestas tão especiais ocasiões, estende-se para além da nossa limitada percepção. Uma semente é deixada a medrar, tanto em nós como nos indivíduos que emocionalmente nos tocam ou por nós são tocados, pelo que o aroma dessa singela flor perdurará sempre nos corações envolvidos. E daí apenas aflorarão sentidos sorrisos.

No entanto, é verdade que a dor constitui uma integrante parte neste processo. Afinal, reencontros sempre despertam em nós algo de adormecido, amáveis recordações ou antigas amizades, mas igualmente perdas emocionais, roturas e afastamentos. São velhas feridas que se avivam ao tocadas serem. Embora todo o viajante que se consciencialize e se disponibilize a transmutar tais padrões, não mais úteis à sua presente evolução, entenda que as dores de outrora deverão ser definitivamente curadas – mesmo que a sua marca nunca desvaneça. Não pode haver lugar, num presente de esplendor, para um passado por demais consumido. Caso contrário, como desejar que o futuro seja brilhante como o sol que nos afaga o rosto? Antigos padrões devem cessar a sua repetição, sob pena de cometermos os mesmos erros, de sentirmos as mesmas perdas e amarguras. Ainda que seja árduo, quando nos olhares do nosso semelhante evocamos todo o bem que foi vivido num outrora. Contudo, o Caminho percorre-se de olhos postos no horizonte onde o alvor se anuncia, não naquele onde o sol já se pôs.

Não refiro aqui um completo afastamento ou ruptura da relação em causa – somente se ambos sentirem que tal decisão é a mais acertada, uma vez que a dor, de tão forte, sempre impossibilita certas coabitações. O ponto principal é a tomada de consciência: velhas roupagens não mais servem o seu propósito. Certos sentires, ideias ou até sonhos poderão, à nossa limitada percepção, parecerem perfeitos, tão certos e belos, mas, na presente vida, mediante outras circunstâncias e ocorrências, não constituem o melhor para os indivíduos envolvidos e para a sua necessária evolução. Então, que se saldem as dívidas remanescentes e que os corações possuam a bravura necessária para continuar, para firmar a conclusão de toda a pendência em causa. É árduo libertarmo-nos de algo assim, convenhamos… Mas, por amor àqueles que outrora tanto amámos, e que nunca deixarão de nos serem caros, tal urge ser realizado. Em nome da nossa e da sua pessoal evolução, certos pesos deverão ser largados, certos assuntos concluídos, querelas resolvidas e vivências enterradas (mesmo que ainda esgravatemos, de quando em vez, o local do seu enterro).

Assim, libertos, cumpriremos finalmente o que agora deve ser cumprido. Antigas relações de nada valem para novos desafios… Principalmente quando as realidades foram já efectivamente alteradas e em nada se assemelham ao que, um dia, foi partilhado ou vivido. A Vida é um ciclo, e com ela tudo muda. Embora tal não signifique expressamente a morte do sentimento que nos une a tais pessoas. Como antes referi, não se trata de uma ruptura abrupta ou de uma despedida eterna – antes, de um «até breve». De facto, novos desafios e vivências requerem outras presenças, aquelas que realmente mais nos poderão auxiliar em nossas presentes etapas e vice-versa – pois tudo é uma força que flúi num duplo sentido: dar e receber. É, por isso, importante compreender e saber aceitar as novas desenvolturas, bem como a acção que importa ser implementada (não olvidando o facto de que, primeiramente, ela começa em nós), tanto ao nível da razão como ao da Alma. Com ou sem a presença da dor, no decorrer de tal processo, evoluiremos. E, livres, naquele que é o mais puro gesto de um incondicional amor, rumaremos de novo à Luz que nos aguarda. Aí, nas planícies onde nos recostaremos, uma vez mais e sem qualquer restrição de ordem material ou evolutiva, o reencontro se dará. Pois o que é deveras forte, que pulsa no íntimo mais sincero, nunca se quebra ou permite que o seu brilho cesse. Jamais.



Pedro Belo Clara. 





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