quarta-feira, 17 de abril de 2013

FINALIDADES



O sol despontou, abençoou a vida em seu redor e a jornada do viajante se iniciou. Longo será o seu percurso, solitário também; mas disporá, se cultivar em si a visão, de todos os elementos necessários à concretização de seus propósitos e à própria evolução do Ser em causa. É esse um dos tesouros que encerra em si e que, no começo de sua viagem, olvidou – assim como a ideia de que é parte ínfima de um Todo infinito. Tais sentires, que serão certezas para a sua Alma, concederão ao viajante sabedor um doce conforto, catalizador de sua crença e fomentador de paz e equilíbrio. Não teme o negro fundo do poço aquele que sabe, em sua verdade, o que lá o espera – e toda a realidade se molda pela pessoal visão que se projecta em cada coisa.

Mas, as diversas etapas que o esperam, não são detentoras de um vazio despropositado ou completamente absurdo. São, em sua vez, nuvens que, sucessivamente alcançadas e domadas, o guiarão até à morada das estrelas. Nesse percurso (ou, melhor dizendo, ao longo do mesmo), é comum questionar-se a  finalidade do mesmo. Isto é: o motivo de todo o palmilhar, a razão que sustenta a viagem, a génese de todo o primordial impulso que o impeliu a realizar algo que já não recorda. A pequena gota de água separou-se do oceano que a albergava, onde era una com todas as demais gotas que, juntas, compunham o oceano em si, apenas para que de novo a ele pudesse regressar. Não foi já tal coisa dita e partilhada? E o oceano? Deixará de existir ao se saber desprovido da sua preciosa gota? Ambos vivem um no outro, ambos são uma coisa só. E nunca cessarão a sua existência. Mas, qual o porquê da partida? O que causa a separação? Porque se distende o que antes estava unido? Por punição? Por desprezo? Por consequência de mesquinhas calúnias? Essas ilusões assombrarão as mentes que se auto-limitarem, mas num Universo de Amor tais ideias são finos espectros que desvanecem à luz da crença e do esclarecimento. Recordo: todo o caminho é um escolha e suporta a sua causa. Mas a sabedoria íntima, ganha através de muitas vivências (ainda que essa não seja uma via exclusiva), é uma luz imensa, deveras fascinante e profunda… E também se poderá resumir a isto: experiência. Eis a razão maior. Tudo será recordado, toda a verdadeira realidade será revelada quando a gota de água se fundir no seu eterno oceano, quando a centelha de luz retornar ao seu sol, quando o filho que há muito partiu regressar a casa de seus pais – simples metáforas para os caminhos da existência e suas finalidades, aqui vistos através da mais simples das formas.

Ainda que os rumos difiram entre os inúmeros caminhantes que os delineiam, a causa global é comum. Todos somos as partes de um Todo aqui projectado, por ilusões divido e apartado. Assim, antes de beber o elixir do esquecimento, o viajante definirá o seu rumo até à origem, mesmo que isso signifique o assumir da dúvida mais abrangente e o suprimir de toda a crença. Pois também essa decisão é um caminho, e esse caminho é certamente passível de ser trilhado. Por mais díspares que possam ser, desembocam todos no mesmo lugar: o Infinito. Pois o Céptico e o Religioso, assim apresentados pela dualidade deste mundo, são também eles uma coisa só – como o Grande e o Pequeno, o Alto e o Baixo, a sua Esquerda e a sua Direita. Se se entregar nos braços da Vida, confiando nas forças que brandamente a regem – aquelas energias superiores ao próprio viajante, mas das quais também ele é parte integrante – encontrará aí uma suave via para atingir o seu propósito. Mas, como referi, essa é apenas uma mera direcção, uma pequena pétala de uma só rosa. Toda a direcção serve o mesmo fim, toda a pétala compõe a doce formosura de uma rosa.

Entre esses tempos de chegada e partida, pois a existência material é um simples sopro, célere e efémero, contam-se as diversas etapas a cumprir, a alta escadaria que em seu percurso o viajante irá subir, até ser recebido, de braços bem abertos, no Mar de Luz que o espera. A diversidade por ele experimentada será, de facto, vasta, fazendo jus à sua própria nomenclatura. Mas que não olvide ele o principal: o que é, é-o por uma sólida razão. As experiências serão, por isso, causadoras das mais amplas sensações e aprendizagens. À medida que certos impactos sejam causados, tanto nele como em nós (pois que somos nós, leitor, senão os caminhantes de uma grande jornada, seus semelhantes em condição?), as impressões que restarem, essa maré que traz pensares e conclusões até às margens de nosso Ser, impulsionarão certos padrões de comportamento que serão, a seu tempo, consolidados. Importa, pois, ao mais avisado dos viajantes, entender cada um deles, avaliá-los e julgá-los, escolhendo o que poderá ser melhor para a sua existência, para a história que de momento se encontra a escrever. Apenas aqui poderá ele ser detentor do direito de julgar: sobre o que deve ou não entrar no capítulo de sua existência, de forma tão branda quanto a brisa afaga as folhas do grande carvalho. Poderá, assim, escolher o seu padrão, a sua rota de acção ou até mesmo de passividade ou entrega, desde o mais complexo dos roteiros ao mais simples e desapegado ideal de experiência. Como nos demais casos e hipóteses, é uma opção. Pois tudo depende da perspectiva de cada um de nós, do olhar adoptado perante cada coisa nova, das razões que motivam o que fazemos e o que escolhemos. E, uma vez identificado, ou o consolidará ou o transmutará, quebrando a velha ligação e cultivando uma nova.

Ser ou estar consciente é, numa primeira fase, saber colocar tais questões e encontrar as suas devidas respostas. Poderá entender que se perderá no devaneio turbulento das emoções sentidas e, como tal, escolher uma vivência longe do seu extremo. Aí, estará a sua escolha. No entanto, poderá considerar que essa plenitude de sentires é a última peça da sua experiência. Assim, decidirá aproveitá-la. Ou, ainda, ser mais brando e experiênciar o «melhor dos dois mundos». A analogia é clara: três homens estão sentados à mesma mesa, bebendo da mesma garrafa de vinho. Contudo, ambos o saboreiam de formas distintas. Um, mal recebe o primeiro gole, de pronto o cospe, não desejando entrar nas expirais embriagantes. Outro, muito menos comedido, esvazia o seu cálice de um trago e deleita-se já com as maravilhas de uma segunda garrafa. O último, por sua vez, deseja deliberadamente saborear o vinho, embora não intente tombar nas mais ébrias tentações. Os mesmos elementos, mas personagens diferentes… Causas idênticas, efeitos distintos. Estar consciente é entender o efeito do vinho, à partida, e suas implicações. O resto… é escolha. O guerreiro que opta pela batalha, quando a sua escolha é definível, questiona-se: «granjeio protecção para a batalha por ser sensato ou por temer a dolorosa ferida?». Dessa mesma forma, o faminto que desconfiar do pão que lhe for servido, desde logo o estará a envenenar. Eis a perspectiva e o comportamento perante os sucedidos. Serão esses que guiarão o viajante até ao término de sua jornada, no tempo em que todas as estações se findarem, fazendo-o cumprir o propósito a que se dispôs. Quão maravilhado ficará quando entender, em sua Alma, que cada gesto, cada toque ou sopro o conduziu àquele esplendoroso momento…

O que estará, então, no final de todos os seus rumos, quando os diversos trilhos se unirem num só espaço, num só destino? Para muitos, a Liberdade, a Felicidade, o Amor, a Compaixão, a Redenção… Estarão erradas essas idealizações? Não, em essência… Ainda que todas sejam pedaços da mesma tapeçaria, são igualmente, aqui, em sua forma reconhecível, ventos que sopram, ventos que vão e vêem. Desprovidas de eternidade, a centelha que lhes preencheria e que delas faria Unidade, são fugazes estados de ser, arquétipos que o viajante experiência e assume, ainda que não os mantenha de forma perene. Fazem parte da experiência, sim, mas são igualmente requisitos de algo superior, uma vez que com suas linhas se tece o Infinito. Seja qual for a razão da busca de um caminhante, para o seu íntimo parecer ela será a sua finalidade, enquanto se demorar pelos campos da matéria que o ampara. Cada um buscará aquilo que dentro de si mais veemente pulsar, implorando desbravamento, impulso ou conquista. Mas… o que dizer do sábio que opta por renunciar ao mérito que lhe é justo e devido, transmitindo-o aos demais, no auge de seu amor e compaixão? Não saberá ele que algo mais infindo o espera? Não será ele, por ser precisamente aquilo que é, motivo de inspiração para o seu semelhante? Um farol capaz de iluminar a mais tenebrosa escuridão? Uma firme mão que se desflora em expresso auxílio? Quem abre os braços a essa renúncia, encontra-se muito além do que motiva a experimentação… Pois vive no Eterno, tendo ele próprio, consciente disso mesmo, o Eterno em si.

Muitos de nós poderão considerar tais ideias como sendo a meta da viajem que empreendem. De facto, para muitos são aquilo que a impulsionam: encontrar, um dia, o Amor, saborear o vento da Liberdade, sentir o sorriso da Felicidade. Essas são as razões que urgem ser encontradas e justificadas, no que ao seu entendimento diz respeito. Mas, quando o viajante os detém junto de si e dentro de si, não entenderá ele que tais sentires mais não são do que efémeros estados? Uma condição aliada à matéria, onde tudo é mutável e passageiro, e que se assemelha às estações, onde tudo se sucede e é sucedido? Quando o viajante for ainda mais fundo em sua busca, quando alcançar lugares ainda mais interiores, entenderá, por fim, que a vera finalidade, respeitante aos estados de ser, ou o término de sua longa jornada, é a própria Plenitude. Só esta paira sobre todos os ciclos, sendo mais do que vazio resultante do desapego e do despojo (que para muitos é a finalidade); só esta, de tão árdua conquista e manutenção, se queda para além de tudo o que é dual. Eis o aspecto diferenciador: a dualidade, característica intrinsecamente material. Onde coabita o Amor, existe a Dor; na Liberdade vive o Encarceramento; a outra face da Felicidade é a Infelicidade. A Plenitude, por sua vez, é a cortina que descerra uma paisagem infinita. Embora aqui, neste plano tão familiar, também ela se possa fazer sentir através de uma sensação de preenchimento luminoso e de constante fluidez, serena e branda. Muitos saboreiam esse fruto através da contemplação, que mais não é do que um mero estado meditativo. Mas qualquer sentir será apenas a projecção de algo sobejamente superior, assim como o é com tudo o que de mais sentimos. Mas isso, é certo, não invalida a sua experimentação.

A emoção é algo de inconcebível no outro lado do véu que separa este lugar do lugar onde o viajante teve origem e terá o fim de sua caminhada. Assim, como os sentires poderão aí subsistir? Cessa o dual, inicia-se a infinidade. Aliada a seu par, a Paz, a Plenitude cobrirá a Alma com o mais reluzente dos mantos. E aí estará a desejada eternidade.



Pedro Belo Clara.






segunda-feira, 1 de abril de 2013

CAMINHOS DE ASCENÇÃO



É deveras usual e, de certa forma, compreensível que, à medida que progredimos no Caminho, povoem as nossas mentes pensamentos que invocam o porquê de tamanha viagem, a razão de um certo percurso, de uma peculiar via, de determinada ocorrência. Questionar é, na realidade, um dos actos mais reveladores e impulsionadores do nosso crescimento. É, além disso, uma pequena semente que em nós se plantou desde o dia em que iniciámos a jornada. A diferença reside apenas entre aqueles que a decidiram cultivar e os que a remeteram ao abandono e ao olvido.

Entenderemos que muito se estende, prolifera e pulsa muito para além da ilusão das coisas. Toda a origem se queda em nós, mesmo que adormecida. Tudo é sabido; apenas de momento não o é recordado. Tal poderá ser, ainda assim, questionado, mas no caminhante mais atento e receptivo desabrochará algo tão forte quanto a fé, a singular génese da entrega. E cada um de nós constrói, de forma particular, os motivos da mesma. Independentemente das vias escolhidas, pois cada existência a isso mesmo se resume, a escolhas, nunca deixámos de ser as pequenas gotas de água que intimamente desejam regressar ao infinito oceano de onde foram derramadas. Mas é justo que se realce: a cada um pertence as suas próprias conclusões, pois todos somos, por vias distintas, cultivadores de diversos pomares.

Poder-se-á, assim, indagar o motivo dos motivos, a razão mais primordial de todas… E entender que bem antes da mente compreender, já a Alma sabia e detinha esse saber como uma íntima e preciosa relíquia. Existe uma grande aprendizagem em esquecer o caminho de casa, apenas para que de novo este seja reencontrado. É o tesouro que sempre possuímos e que devemos perder, somente para de novo o encontrar. Além disso, a origem, a primordial Unidade, apenas se justifica na manifestação de suas extensões, isto é, na criação da matéria e nas tão distintas experiências que proporciona. Essa história, tão bela e profunda, encontra-se impressa em cada alma, em cada coisa que vive. E adorna o Caminho com a sua deveras cativante essência, pulverizada em cada encontro e desencontro, saudação, diálogo, contemplação… Bebemos o néctar do olvido apenas para que de novo pudéssemos recordar. E em toda a gota de água que se escorre pelos recantos do mundo pulsa tal coisa, pois a água que a compõe, apesar de distinta na forma, é em essência igual à de seu semelhante – sendo, por sua vez, idênticas à da fonte que as jorrou. A separação é uma mera ilusão. No âmago de cada coisa se manifesta a parte mais sagrada de si, por aí mesmo ela existir, unindo-a à sua divina origem.

É claro que cada viajante percorre o seu solitário rumo, ainda que nunca esteja verdadeiramente só. E, ao longo do mesmo, queima etapas que somente o engrandecerão – os degraus de sua ascensão. Quem vê o oculto Bem de todo o sucedido, confia em seu percurso. E quem confia, entrega-se. Essa é a via da Fé, uma entre tantas outras. Cada processo levar-nos-á até outras paragens, inóspitas ou não, mas por certo o próximo desenvolvimento do percurso que o caminhante decidiu vivênciar. E, sublinho, tal decisão é assumida a um nível bem mais profundo, ditada e firmada em clara sabedoria. A Unidade, ao se dividir, justifica-se; com isso, surge a dualidade, juntamente com o proliferar da restante criação. Assim surge a matéria, a forma que receberá as gotas etéreas, que em seus recipiente caminharão pelo imenso palco de um mundo deveras diverso. Em cada viagem, uma personagem; e todas serão criadas em nome da experiência e da pessoal evolução. Assumimos a sua condição quando definimos a nossa postura perante a Vida em si, tomando um de diversos caminhos que não são, claro está, exclusivos ou perenes. E caminharemos… Até se findar a jornada e a centelha se reunir à chama de onde proveio.

Entre todas essas coisas, é claro, muito mais ainda se detém. Entre o Céu e a Terra, inúmeras coisas vivem, pulsam e existem… Assim o é, na mesma exacta forma. Por isso, em cada caminhada, em cada etapa vencida e alcançada, o viajante muito experiencia. A forma como o faz, apenas depende dele. É essa, de igual maneira, a sua prova. O mais sábio de todos saberá que no centro da tempestade que o assola encontrará refúgio, por este ser calmo e sereno, ao invés do chorrilho que as emoções exacerbadas provocam… Nessas águas, muitos se poderão afogar. Mas até isso será aprendizagem. O cansaço assomará esse fatigado viajante, rendido, tornando pesado o erguer de um só dedo. Sentir-se-á esgotado em sua Alma, desprovido de forças, incapaz de se erguer, de novo, após futuras quedas… Mas até isso é aprendizagem. Não estará sempre, junto dele, uma mão aberta, mesmo que não a saiba ver? Não terá sempre a hipótese de transcender, mesmo que julgue não saber como? Não terá o tempo para pedir o que mais necessita, para que depois lhe possa ser dado? Quem vê o oculto Bem de todo o sucedido, confia… E quem confia, entrega-se.

Mas, no centro da tempestade, terá o lugar ideal para a sua vigília, enquanto medita e constrói a sua decisão, enquanto o rodar do ciclo de sempre continuar a fermentar as suas causas e efeitos. Eis a segunda opção. Mas, seja qual for o rumo seguido, se não olvidar a razão de seu caminhar, após todas as turbulências que por certo passará, as que apenas o testarão e instruirão, surgirá, por fim, a hora da transmutação maior. Aí, descobrirá forças que julgaria impossíveis, desconhecidas por sua ainda limitada visão. Depois, no seguinte sopro,  o processo evoluirá e se completará. E nova etapa ter-se-á consumido, um novo degrau terá sido conquistado na longa escadaria que se inicia no íntimo de cada viajante, espraiando-se até às margens do Eterno.

Onde reside a via da Fé, encontra-se a do Amor, da Compaixão, da Sabedoria, da Transcendência… E poderá o viajante dedicar-se a uma só? Não ficará ele sabedor de cada preceito? Ainda que toda a natureza seja exclusiva e singular, ela, por ser uma parte, compõe o infinito manto que reveste o Todo. Somos, sem dúvidas obscuras, pequenos seres especiais e únicos, desde a diversidade que nos habita a cada gesto peculiar e forma de entendimento e reacção. Não é, por isso, a experiência em si que despoleta tal coisa, pois ela poderá ser comum a muitos de nós. A curiosidade maior, antes fascínio para quem a observa, reside no impacto que cada uma cria em nós e na nossa íntima maneira de com isso lidar. Através desse acontecimento, definimos a forma de recebimento (que, desde já, volta a comportar uma escolha), de aprendizagem e de como permitiremos que se impulsione o desenvolvimento do ser que somos. Pois, após inúmeras viagens, sobejam sempre remanescentes que nos poderão impedir de caminhar: pesos a libertar, dívidas a saldar, feridas a serem saradas – eis o que nos poderá limitar o acesso ao próximo degrau do processo evolutivo. Mas até isso, claro está, é aprendizagem.

Com maiores ou menores envolvências, escolhas assumidas ou arrependidas, seguiremos rumo ao horizonte de sempre. Seja qual for a via escolhida, da qual façamos a nossa maior bandeira. Se continuarmos a desvendar e a crer no Bem oculto de todas as coisas, seja pelo Amor, Compaixão, Brandura ou Paciência, fomentaremos a nossa crença. E aquele que confia, é certo, esteja onde ele estiver, exerce e pratica o despojo maior – a renúncia e a entrega.



Pedro Belo Clara.




quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

UNIÕES



Ainda que trilhemos um solitário rumo, tal não significa que estejamos sós ao longo do mesmo. Não me refiro apenas ao prazer único que a nossa própria companhia proporciona ou às luzes que brilham em redor da existência, mas igualmente à presença de nossos amigos e familiares, rostos que nos recebem e que no decorrer desta incrível viagem vamos conhecendo. Mesmo que o Caminho seja interno e, por consequência, deva ser trilhado pelo nosso próprio pé, desfrutaremos de tão deleitosas companhias até que tudo se cumpra, até que sejamos não só o Caminho que percorremos como o Infinito em que ele se funde.

Todo o processo é planeado, mesmo que isso comporte algo que ainda não compreendamos ou saibamos aceitar; todas as vias possíveis estão definidas – ainda que a escolha resida em nós. Tudo o que nele ocorre, assim, serve um propósito evolutivo, compreendido por etapas que nos ofertam hipóteses de crescimento e de cumprimento de antigas dívidas. Mesmo que, por diversas ocasiões, coisas tais se venham a revelar desagradáveis. Mas, no fundo, tais pedras apenas nos guiam à maior de todas as fontes, onde a nossa sede pode em pleno ser finalmente saciada. E é nesta óptica que as relações mantidas com terceiros, ao longo de uma particular existência, se revelam como uma de suas valências.

Bem sabemos dos encontros e desencontros, créditos e débitos de outras viagens, aspectos que, de forma mais ou menos indelével, se fincaram em nós. Por isso mesmo, são circunstâncias que importa resolver – a nossa própria leveza ou elevação do ser que somos depende disso mesmo. Em prol de uma contínua evolução somos levados a perdoar, libertar, transcender… Cada existência comporta uma íntima história que o autor da mesma deve conhecer. E nessas bases se originam as relações, ao nos rodearmos das certas pessoas que detêm os certos aspectos para nosso crescimento – e vice-versa, pois também nós desempenhamos esse papel para com terceiros. Tal poderá ser compreendido pela família em que nascemos, mas igualmente por todas as pessoas que cruzarão o nosso rumo. Nada é um mero acaso: importa entender e aceitar tal coisa. Uma visão mais profunda e reflectiva sobre a vida em si, trará ao de cima esse aspecto. É uma certa “aleatoriedade” que se oculta na lógica da vida em si, em sua inteligência expressa, por motivos nem sempre bem compreendidos – mas que sempre se manifestam em nosso favor (aceitar é transcender).

Possuímos certas carências ou comportamentos que aparentam ser inatos, mas que apresentam raízes mais antigas e profundas. Com o objectivo de os ultrapassar e, como consequência, aprender e evoluir, é-nos dado aqui, nesta nova experiência que não passa de um regresso, tudo o que mais necessitamos: desafios, testes, oportunidades ou a simples presença de indivíduos com as características necessárias para nos prestar um auxílio valioso. Através de pensamentos e atitudes, bem como de decisões, atraímos até nós e moldamos uma realidade específica. E isso também se aplica aos nossos conhecimentos, amigos de longa ou curta data e relacionamentos de índole amorosa. Muitas vezes, é aí que se oculta o maior dos desafios: uma união a dois.

De certa forma, muitos de nós, viajantes, ignoram a vera bênção que comporta um relacionamento amoroso, uma partilha de vidas e mundos… Pois ela é, no fundo, a manifestação terrena de uma dádiva absolutamente divina. E o trilho nem sempre é brando ou fácil de ser seguindo. Por vezes, perdemo-nos em doces ilusões, típicas dos contos infantis que tantas crianças fazem sonhar, e olvidamos a realidade de cada coisa, nomeadamente que a perfeição de alguém reside no equilíbrio da sua singular imperfeição. Mas de toda a situação se extrai a valiosa aprendizagem. No fundo, adoptando uma visão mais distanciada e global, sempre benéfica em horas de imenso tumulto, entendemos que na despedida de um certo amor mora sempre um «até já» e o anunciar de um novo aroma ou vislumbre ou canção. Ainda que tal, na época em causa, sempre nos pareça terrivelmente inalcançável ou até mesmo impossível. Mas até o mais longínquo dos dias acaba por chegar; a Vida é justa em sua natural e fluida sapiência e encontra-se em constante mutação. Basta acreditar.

Os “grandes amores” comportam sempre grandes responsabilidades, grandes aprendizagens, grandes vivências… A comunhão pode mesmo ser profunda, atingindo níveis de alma – há uma expressa diferença entre amor espiritual e amor material ou carnal. Mas esses “grandes amores” são deveras árduos de serem achados… Aliás, eles não se buscam nem se conquistam – simplesmente vêm até nós, como uma pétala de rosa pelo vento soprada que, docemente, vem pousar por sobre o ombro de nossa existência quando menos esperamos ou menos dignos, em erro, nos julgamos. Mas a união de duas almas e seus corpos deve ser benéfica para ambos. Relacionamentos manipuladores, abusivos ou destrutivos em nada contribuem para a serenidade pretendida e respectivas evoluções – a sua maioral intenção. Procura-se antes o apresentar de oportunidades de partilha, de saldar antigas dívidas e, claro está, de aprendizagem e ensinamento. É comum vermos um carácter sonhador encontrar a sua âncora em personalidades mais pragmáticas, por exemplo. Em todo o caso, sabe-se que, na união mais equilibrada, o Fogo encontra na Água a sua brandura … Assim como a Terra e o Ar, de tão opostos, compõem duas partes de um todo, fundindo-se na sua diferença: um, naturalmente livre e vagabundo, e outro, tão quedado e fértil. Mas, em caso de relacionamentos já deteriorados, sem qualquer hipótese de reparo, impõe-se a coragem necessária para findar tais relações da forma mais justa e respeitosa possível. Tudo é efémero, sim; como tal, a duração de certas etapas nem sempre correspondem ao que idealizamos. Sem cair numa fácil capitulação, é importante entender até que ponto não mais serve tal união… Geralmente, quando ambos cessam os benefícios que o «dar e receber» do casal proporcionavam. Se essa hora chegar, que se curem as feridas e com um sorriso de esperança se abram os braços àquilo que a maré dos dias vindouros trará até às nossas margens.  

Nada de mais belo há do que partilhar as maravilhas e as obscuridades de nosso mundo íntimo com a pessoa que veramente amamos. E, na mesma medida, estarmos dispostos a amar e a respeitar aquelas que connosco forem partilhadas. Neste simples aspecto, o ego manifesta-se muito facilmente, toldando percepções e envenenando a dócil beleza que o relacionamento pudesse proporcionar. Mas com a vinda de novos dias, com as iminentes aprendizagens, com todo o potencial que se vai desenvolvendo, vai chegando a hora de transmutar comportamentos, de consolidar aprendizagens… Deixar, por fim, esse egocentrismo de ser e agir. Não ao foque em nós, mas no outro – eis o que tão vulgarmente nos escapa. Talvez seja essa mesma a derradeira forma de altruísmo, a vera filantropia; por certo, um dos seus máximos expoentes. E tal entrega só se revela possível quando se ama… Quando veramente se ama. Pois um casal encerra em suas mãos, de forma definitiva, a hipótese de concretizar a terrena manifestação da mais bela e pura (se assim for mantida e cuidada) das magias que ao Homem é dada a experiênciar – o Amor.



Pedro Belo Clara. 





sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

ESTRELA DE NATAL



Findada a quadra festiva, com a celebração natalícia e a viragem do nosso calendário, recorri a um exercício que ultimamente tem caído em desuso – embora continue a ofertar todas as suas vantagens da forma mais directa (por vezes, crua) possível. Sim, refiro-me aos afamados períodos reflectivos, onde ponderamos os débitos e os créditos do nosso coração. Contudo, muito para além das palavras ditas ou não ditas, das acções consumadas, dos momentos de partilha e da solidão das horas de pensamento, houve algo que sobressaiu de todas essas memórias. Estranhamente, até; uma vez que a mente conceptual, sempre obstinada, tem o hábito de ignorar a simplicidade profunda das simples e banais coisas. Talvez, nessa ocasião, os excessos dos feriados tivessem toldado a sua atenta vigília. Quem o saberá?

Bem, tudo aconteceu no ano transacto (2011, entenda-se), na exacta quadra que ainda por aqui deixa os seus vestígios reluzirem. Teria sido essa a razão que fez emergir a recordação? Ter-se-á avivado com o regressar de tal cenário e, como gaveta que se entreabre sem que ninguém lhe toque, de pronto oferecido o aroma distinto de tal tempo? É bem provável… Mas sigamos em frente no relato. Caminhava eu por uma ampla avenida a norte da cidade que me viu nascer, quando um vulto, ao longe, se anunciou. Lentamente, enquanto nossos passos nos iam invariavelmente aproximando, o seu rosto e forma revelavam-se – até ao ponto de entender, por forma segura, que tal pessoa fixara o seu estranho olhar em mim. Desenganem-se agora os leitores mais entusiastas ou utópicos, pois vossas expectativas sairão por certo goradas – não, não foi o simpático velhinho de brancas barbas que me interpelou naquele fresco dia… Tampouco conhecia eu a identidade dessa figura mistério! Continuando: o encontro tornava-se cada vez mais inevitável, como é normal em quem caminha em sentidos paralelos e opostos, e eu, no seio de uma tola mundaneidade (admito-o, leitor), aquela que nos faz sempre desconfiar do que é oculto e incógnito, desviava o olhar e indagava o porquê de tal figura não retirar o seu de minha pessoa. Apesar do crescente desconforto, eis que, por fim, brando e firme enfrento o desconhecido! Na confluência de nossos estranhos mundos, fronteiras que em exíguos instantes se iriam tocar, escuto as palavras que me estavam reservadas: “Feliz Natal!”… Assim, de forma tão natural e simples: um desejo de boas festas. De pronto retorqui, recomposto, retribuindo da forma que melhor sabia, compassiva e educadamente, tamanha e rara amabilidade para com um completo estranho.

Na verdade, apenas quando formulou o voto é que a fala da amável senhora, provavelmente quase de meia-idade, denunciou-a como sendo portadora de uma certa deficiência a nível mental. Terá sido esse – e só esse – o motivo de tanta simpatia? Haverá sequer motivo para assim sermos, amáveis e disponíveis para o nosso semelhante? Ou não deverá tudo fluir de nosso coração, aberto e receptivo? As brumas do Tempo tendencialmente enublam o coração dos Homens… Mas por certo que não é necessário todos sermos portadores de uma qualquer deficiência para formularmos tão simples e sincero desejo! Talvez, numa realidade obscura de valores invertidos, onde escassa é a luz que assoma ao olhar do indivíduo, deficiente seja aquele que assim se comporta… Nesse caso, serei um orgulhoso deficiente. Pois, no fundo, basta que em nós resida a vontade de assim sermos: abertos, espontâneos, fraternos. Olvidamos muitos princípios nos dias que correm; principalmente que aquilo que nos une, como Homens que somos, é bem mais nítido e forte do que o aquilo que nos aparta. Porque se insiste, então, no ilusório separatismo?

É uma escolha – no fundo, a isso se resume. E foi precisamente essa escolha que aquela senhora assumiu, disso consciente ou não, ao passar junto de mim e expressar o seu desejo. Talvez o tivesse feito a todos os que cruzaram o seu caminho, talvez tenha até cumprimentado todos os veraneantes daquela rua, mas… que importância isso detém? Afinal, o símbolo supremo da época natalícia, a sua mais sublime mensagem, não é (ou deveria sempre ser) o Amor? Talvez os seus sobejos, compreendidos por luzes apagadas, caixas vazias e papéis rasgados, tenham soterrado tal princípio nos pântanos do desenfreado consumismo... Mas aquela senhora, apesar de sua peculiar condição, entendera o segredo do natal de todo os dias. Ela e somente ela é que desterrou costumes idos e cintilou como a célebre estrela que embeleza a quadra em questão. Para mim, pelo menos, um outro sol brilhou – e isso é o tudo que me basta. Mas tal situação carrega raízes ainda bem mais profundas e significativas, que irrompem do solo e se fortificam em sólidos ramos. Pois sobejou a suprema prova de que tais actos poderiam (e bem!) povoar o imenso deserto do quotidiano humano, se cada um de nós, definitivamente, decidisse fazer de seu coração um fértil canteiro – onde somente se cultivariam as sementes da mais alta estirpe.



Pedro Belo Clara.





  

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Lançamento do livro "Palavras de Luz"


Queridos amigos e seguidores,


Foi com um enorme prazer que no passado dia 30 de Novembro, pelas 19h, lancei ao público o meu terceiro livro (o primeiro fora do género poético), de nome "Palavras de Luz".


A todos os presentes, mas sem olvidar os ausentes, o meu agradecimento pela partilha dos momentos de amizade e companheirismo que, durante o evento, tivemos oportunidade de desfrutar.


Caso queiram saber mais informações sobre a obra em questão, ou eventualmente adquiri-la, poderão consultar o seguinte link: http://www.chiadoeditora.com/index.php?page=shop.product_details&flypage=flypage.tpl&product_id=916&category_id=15&option=com_virtuemart&Itemid=171


Um forte abraço e até breve.



Pedro Belo Clara.







sexta-feira, 23 de novembro de 2012

ALVAS FLORES EM NEGROS CABELOS



Bem que poderia ser mais uma bela tarde de Outono que sobre aquele amplo jardim se instalava, com as alamedas de tombadas folhas na fresca relva, os voos errantes de algumas apressadas aves, os pequenos – mas preenchidos – bancos de madeira e a luz de um sol que acalentava os mais pálidos rostos. De certa forma, até o foi. Mas, subitamente, entre cafés, serenas conversas e silenciosas leituras, um estranho cântico irrompeu. Todos os que presenciavam esse inesperado fenómeno de pronto desviaram o olhar de suas tarefas, sondando a origem de tal coisa. Para muitos, era já familiar; para outros, desconhecida e… efectivamente estranha. No meu caso particular, confesso a familiaridade com a mesma. Eis, então, docemente invadindo aquele espaço, uma mulher cantarolando uma incógnita canção (pergunto-me até se não a teria inventado mesmo ali) com alvas flores em seus negros cabelos. Muitos, desde logo, elaboraram seus diagnósticos e assinaram as suas íntimas conclusões e julgamentos, pois apenas a existência de problemas psicológicos – e graves! – justificariam tal comportamento. Outros, reconhecendo-a, lamentavam a sorte de tal figura – sem conseguirem reter alguns breves comentários sobre a indumentária da jovial cantora, que por certo seria um alvo da miseração alheia.

Mas, tendo avançado já um pouco no relato de tal episódio, creio dever ao leitor o seguinte esclarecimento: embora o nome da referida mulher me seja completamente oculto, bem como o local de seu abrigo (que imagino e até desejo que confortável seja), é verdade que meus olhos facilmente a reconhecem quando tropeçam em sua figura. Diria que todo o bairro tem as suas peculiares personagens – e em diversas deambulações pelas ruas que formam o meu me cruzei com tal presença. Como tal, não poderia estranhar tal comportamento; não, tendo já testemunhado o que as suas declaradas peculiaridades podem proporcionar: lábios forte e desordenadamente pintados, fitas coloridas no cabelo, a hábil arte de encontrar cigarros abandonados, diálogos aos quatro ventos ou o mastigar de uma complexa ideia entre imperceptíveis sussurros.

Aquela improvisada plateia, célere retomou os seus urgentes afazeres sob pena de envenenar um tão aprazível lazer. Mas ela, solta e inocente, continuava com o seu peculiar e improvisado flamengo (sim, creio agora ser esse o estilo mais adequado) junto de um canteiro de flores. Mirei-a por um pouco mais. Sorri. Poderão terceiros considerá-la louca (convenhamos que era a definição que até aqui tentava evitar) e compadecer-se por sua lamentável condição, mas… terão eles visto o vigor de sua dança? Um certo brilho em seu rosto marcado? O quão concentrada e rejubilante estava no seio de sua estranha e árdua tarefa? Oh, quantos de nós não almejam alcançar tal fórmula? A da felicidade expressa em cada coisa feita? Em cada pulsar de um coração que vive? E ali estava a resposta: tão singular, tão natural, tão estranhamente certa… Cada boca dirá o que mais lhe aprouver e convier, está claro, mas esta renegada princesa, excomungada de algum conto de fada esquecido, encontrava-se veramente feliz na ilusão do seu mundo tão magnificamente criado, onde apenas residem as personagens que ela própria escolhe e define. Sim, talvez seja insana… E talvez tal sentimento se esfumasse em breves momentos, consequência de uma existência delineada entre dois extremos tão distantes, tão dolorosamente instáveis. Mas, naquele instante, naquele preciso instante, ela era feliz – por mais efémero que tal estado possa efectivamente ser. E poderemos nós, aqueles que tanto buscam o mesmo efeito que a assomou, veramente recriminá-la por isso?




Pedro Belo Clara.






quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A EXPERIÊNCIA DO SENTIR



As vias que moldam a nossa existência, filhas de um rumo maior – em suma, os corredores que atravessamos ao longo do nosso limitado tempo, onde damos e recebemos, transmutando os diversos estados que nos assomam –, são pródigas em particularidades deveras interessantes. Pelo menos, de uma posição imparcial, entender-se-á o que mais fomenta a nossa curiosidade. Existe, de certa forma, um conjunto de parâmetros que as regem, numa espécie de “liberdade adaptável”. E todo o olhar que se perder em serena contemplação entenderá tal característica, que sempre assume a forma de hipótese – isto é, um potencial a ser trabalhado. Além disso, ao longo dessas mesmas vias, demoram-se ocorrências passíveis de serem concretizadas: situações portadoras de novos encontros, aprendizagens, ensinamentos, expiações, entre muitos, muitos outros. No fundo, cada evento comporta em si algo; e nada se perde, na realidade, se o manancial que nos é ofertado for efectivamente aceite e direccionado.

Aquilo que se depreende das palavras aqui expostas é o carácter experimental da Vida em si, habitual presença nas veredas que trilhamos passo após passo. Tal aspecto complementa-se, assim, na espantosa multiplicidade que o Caminho nos oferece no seio de sua diversidade. Afinal, em sua génese, é um valioso “palco de experiências”. E percorrê-lo não significa apenas entendê-lo, mas igualmente vivê-lo e experimentá-lo sob os diversos ângulos e vertentes que o compõem, mesmo que estas possam ser aparentemente contraditórias. Assim, ainda que se desconheçam as razões que nos movem, estaremos a cumprir propósitos ocultos e a escrever uma história (a nossa) que implorava ser escrita. Mas significará isso a total experiência? Um livre arbítrio desmedido? Se entendermos a Vida, depreenderemos o frágil equilíbrio que a sustém. A resposta jamais residirá em extremos ambíguos; antes numa harmoniosa conjugação de todos os elementos. E, muitas vezes, para tal ser alcançado, bastará empreender a primordial de todas as tarefas: caminhar, apenas caminhar.

Trilharemos o nosso íntimo percurso, teremos a hipótese de plantar nossas sementes e de saborear os frutos que criámos e aqueles que por mão alheia foram criados, marcando sempre novas etapas e o consequente granjear de sabedoria de vivência (e não só), no delinear de nossa particular evolução. Mas a experiência maior, a inexorável condição a tudo anexada, é o “sentir”. Que maior condimento da experimentação que o sentimento? É ele que nos impulsiona o riso, o choro, o amor, a dor, a paixão, a empatia… Como esquecer tais básicos elementos? Como sequer imaginar uma existência sem eles? Mais do que qualquer outra coisa, a nossa experiência pelos domínios da matéria, como seres espirituais que somos, vale por esse inestimável componente. Facilitar-nos-á ele a nossa vivência? Nem sempre, é um facto. Mas, o que seria ela se desprovida estivesse de tais aromas que tão bem a distinguem e caracterizam? Embora muitos de nós, imersos em suas feridas e desilusões, rejeitem o amor apenas por temerem a dor, a experiência do sentir é deveras singular e apresenta-se como um importante desafio à nossa interna desenvoltura. Sim, é uma água que tanto sacia como pode envenenar… Mas temerá a morte aquele que conhece a arte da ressurreição?

É uma provação; mas, por outro lado, um aprazível desfrutar. E aceitar a plenitude da Vida é abrir os braços a todo o porvir e, munido de crenças e acumulada sabedoria, abraçar os ventos do amanhã. Assim, queridos caminhantes, viveremos! É claro que obteremos nossas feridas, dores e lágrimas… Mas viveremos! Sem olvidar o livre arbítrio que nos cabe em direito, cientes de que a transcendentalidade é deveras possível num evoluído estado consciencioso. Experiênciamos e, com isso, adquirimos uma peculiar sabedoria. Que bandeira mais vibrante do que essa poderá ser desfraldada? Mas não como quem exalta o que possui, antes valoriza o que detém. Só ela nos concederá acesso a novos níveis de consciência, nos fará erguer o olhar e descobrir novos horizontes e estrelas. Que propósito poderá aqui ser colocado senão esse? O experimentar, a aprendizagem e consequente evolução?

Quem caminha é, por certo, movido por um desejo de horizonte. Renovado a cada instante, sendo aquilo que é, aceita e compreende. No entanto, demoramo-nos de igual forma por trilhos ilusórios. O que vemos e tocamos não passa de uma ilusão, de uma mera projecção de algo superior aqui toscamente reproduzido. Vivemos este sonho na densidade da matéria, onde tudo regista um ciclo, uma regra solta, uma constante dualidade. No entanto, vivemos também a experiência do sentir; mesmo que aqui, como reflexos num lago, pululem projecções de ideias e ideais. Agora, entendemos os limites de tal aspecto: aquilo que vivênciamos é uma experiência controlada, e não absolutamente plena (é a referida projecção de algo de superior). Podemos pensar da Felicidade ou na Liberdade como ideias absolutas, mas o absoluto não se reproduz na dualidade – paira para além das muralhas desse castelo entre as nuvens, no local onde tantas vezes desejaríamos estar. Mas essa é mais uma condição básica que rege esta singular experiência. E tudo o que aqui é possível, apenas o é neste local – são as condições necessárias ao nosso desenvolvimento individual.

Toda a viagem termina, é certo, não sem antes uma outra se iniciar, por sua vez,  num outro tempo e lugar. Mas, antes de se concretizar tal premissa, com tudo o que de sacro e único os rodeia, é-nos ofertada a hipótese de viver, de semear e colher, ensinar e aprender. E assim iremos traçando novas rotas e perseverar no nosso objectivo mais primordial – apenas isso –, focados na imensa dádiva que o presente momento constitui. Somente até que um outro sol acabe por irromper no horizonte e um súbito vento chamar por nós.



Pedro Belo Clara.