sexta-feira, 3 de junho de 2011

Bonança

Após um longo período de realizações, um tempo de empreendimentos árduos onde cada ensinamento oferecido pelas esquinas do Caminho parecia ser testado em cada curva realizada, o sol que então desponta no nosso horizonte é sereno e encerra em si o silêncio e a espera. Tal é sempre complexo de aceitar, pois confunde cada um dos apurados sentidos do caminhante, preparado já para a próxima etapa do trilho de suas realizações e projectos de peregrino. Contudo, assim como existem dias de chuva e de sol, dias favoráveis ao caçador e outros à presa, também subsistem os dias de longa espera e os de acções – uma elevada sabedoria consiste igualmente na aptidão para os identificar, compreender e aceitar. Há que saber ser activo no momento certo e passivo no instante adequado. Como? Bem, todo o caminhante possui uma bússola, mesmo que raramente a consulte. Já ouviram falar daquele pequeno instrumento que reside em nós, lá bem no centro, ensaiando a cada segundo o pulsar que é o sussurro do seu conselho? Quem não possui coração, não vive; porque não utilizá-lo e confiar em cada gota de sua sabedoria? 

Ainda assim, se os tempos requisitarem uma demora, importa entender que tal não significa estagnação, mesmo que os incessantes ataques de uma deturpada percepção assim o façam crer. Pois, se atentarmos na especificidade das ocorrências, aquelas que povoam o quotidiano de nossos mundos singelos, compreenderemos a lição ofertada pelo silêncio e pela quietude dos elementos: a confirmação de intenções e de crenças. Plantemos a semente e reguemos a nossa árvore! Mas, mesmo assim, temos de aguardar o seu crescimento e, mais tarde, o seu doce florir, para que daí possam advir os mais belos frutos. Entretanto, aproveitemos as bênçãos presentes nesse processo passivo, onde cada afirmação ou ideia planeada jamais será olvidada por essa Energia Infinita e Criadora.


Pedro Belo Clara.



terça-feira, 24 de maio de 2011

Superação

Ao longo de todo este Caminho, sempre disponível para aqueles que o quiserem percorrer, inúmeras são as tentações, os afamados “testes de fé” (de tão árdua superação) e os vis elementos que pretendem sempre derrubar as muralhas da certeza e da bem feitoria – mas tudo possui um intuito de luz, isto é, de supremo entendimento e resolução (ou, pelo menos, é nisso que muitos de nós verdadeiramente escolhem acreditar). Há em nós uma Força que provém de algo imensamente superior aos demais elementos visíveis e invisíveis que nos rodeiam, um impulso que, quando descoberto e accionado, eleva todo o moral e a firmeza do mais susceptível dos caminhantes. E, para tal, bastará suportar cada intempérie sem jamais desistir, mantendo-nos firmes em nosso propósito, em nosso ideal maior e em nossas certezas que, ultrapassada a barreira apresentada, sairão reforçadas desse exercício. Mas atentem, cuidadosamente, nas vias de interpretação da palavra “suportar”, acima utilizada. Passo a clarificar: todos nós sentimos, amamos, sofremos, rejubilamos e choramos – essas são as belezas de cada viagem e acompanhar-nos-ão sempre, até que a jornada finde, pelo que jamais me referiria, quando elegi tal palavra, a uma frieza, negação ou repressão de qualquer sentir! A aceitação é uma das mais mágicas formas de superação! Para além da crença, de uma força firme e serena ou da metamorfose de comportamentos e elementos (numerando apenas alguns exemplos).

Assim, erguidos como quem confia e entende os segredos do Caminho, prontos a espalhar as sementes pelos desenvolvimentos diários, alcançaremos uma nova etapa em nossa jornada após a derradeira superação de nossas provações. Inabalável e imperecível, como rochedos benévolos, chegaremos juntos a uma nova manhã, prontos a reafirmar tudo o que, para nós, é objectivo de vida e de existência. Pelo menos, é nisso que escolho verdadeiramente acreditar.


Pedro Belo Clara.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Afirmação

A dureza de trato, por vezes, em situações bastante propícias à sua implementação, é algo que reside no mais simples de nossos actos, mesmo os inconscientes. Geralmente, exteriorizamos um sentimento contido mas, por certas causas, revelamo-nos ásperos e amargos quando nosso ponto mais frágil é pressionado, seja por ser uma dúvida, um elemento catalizador de embaraço ou algo que permite um súbito ferimento do altivo ego. No entanto, de juízo mais calmo e ponderado, facilmente poderemos entender que tal postura em nada nos beneficia ou tampouco actua como clara vantagem. Assim, se derrubarmos essas barreiras e desactivarmos essas defesas, estaremos a dar espaço para que a suavidade se apodere de nossos intentos, gestos e até palavras. No fundo, ela mais não é do que o resultado da aceitação de nossa fragilidade, o nosso lado mais obscuro, a nossa mais pura humanidade – somos o que somos e estamos onde estamos por vontade própria. E nada de errado existe nisso, pois estamos simplesmente a aceitar a luz que nos compõe, a matéria de que somos moldados, com nossas falhas e perfeições. Mas tal não será, por si só, suficiente, pois as futuras etapas do trilho do crescimento e da ascensão irão requerer algo mais – a afirmação do nosso Ser, o derradeiro abraço a todas as partículas que o constituem. Isto, claro está, são as bases daquilo a que se chama “amor-próprio”, aqui referido de forma mais ampla: a aceitação e exultação de nosso corpo e alma.

Que possamos, assim, existir em nossas verdades e entender a beleza que aí habita, abandonar o vulto que fomos no Passado e caminhar, serenos e seguros, rumo ao Sol do qual todos nós, sem excepção, somos os raios.

“Eu sou Eu e esta é a minha Luz…”.


Pedro Belo Clara.

domingo, 8 de maio de 2011

Serenidade 2

Publico aqui esta entrada sob a seguinte epígrafe por considerar oportuno acrescentar estas palavras ao que já foi anteriormente dito e discutido. Julgo, assim, importante frisar ou até mesmo explicar ou focar com uma luz de cor distinta o facto de que, estejamos nós na placidez de um momento ou na ansiosa sofreguidão de um instante apressado, devemos entender que existe uma escolha comportamental, uma opção pronta a ser accionada; e tal só a nós compete. Árduo é o seu assumir, claro, mas todo o esforço verdadeiramente empreendido é válido – essa será sempre a nossa vitória, a inabalável certeza de que empreendemos o nosso melhor. James Brady disse, um dia, que “temos de jogar com as cartas que nos deram”; o restante processo caberá à suprema realização de todos os acontecimentos. Que possamos, então, compreender essa estranha arte, a sábia lição de sermos firmes, imperecíveis e intocáveis por entre os corredores da quotidiana desarmonia, discórdia e insatisfação.

Mas, ainda assim, é importante notar que mesmo almejando a serenidade, a quietude e o sabor livre e fresco que só os momentos únicos nos podem proporcionar, se optarmos constantemente pelas mesmas hipóteses, aquelas que constituem o nosso habitual círculo de acções, estaremos a reafirmar as mesmas emoções vazias que habitam em nossas escolhas diárias e nos mesmos cenários gastos e desvanecidos. Se a velha indumentária ainda persistir, nada disso poderemos conquistar; seremos sempre um braço que em esforço se distende para agarrar a névoa. Portanto, para além do entendimento da importância das escolhas comportamentais, existe também aqui a exigência de mudança do padrão comportamental. Podemos ter noção das escolhas a tomar, mas o padrão de actuação também deverá ser alterado (isto no caso dos caminhantes mais perdidos ou atolados na lama de um tempo). Perante tal conclusão, importa despertar (uma vez mais) a Consciência e questionar se, de facto, é essa a opção ou o padrão que, mediante o dispor das circunstâncias, desejamos utilizar. No fundo, até são ambos indissociáveis.

Lembrem-se, caminhantes: em vossas decisões reside a chave da vossa libertação!


Pedro Belo Clara.

Serenidade

Inúmeras são as tentações do quotidiano, os severos testes à nossa prática sabedoria, os corrupios de acontecimentos e as inesperadas circunstâncias que apenas pretendem avaliar o nosso conhecimento e a firmeza de nossas crenças. Em quantas ocasiões não nos encontramos no seio de tais situações? Quantos de nós até não se perderam nas tramas de tais enredos? Ao conservarmos a nossa sabedoria e a nossa serenidade interior intactas, avivando a crucial evidência de que permanecemos fiéis a nós próprios e a tudo aquilo que detemos como verdadeiro, estamos a fortificar a capa que nos protegerá de tais momentos, proporcionando a elevação da nossa consciência até um novo patamar. Afinal, o barco que é mais habilmente conduzido é aquele que firme e calmo consegue permanecer durante a mais turbulenta das tempestades, aquela que, após o seu término, dará o seu lugar à luz de um sol esplendoroso. Ainda que os múltiplos cenários que nos rodeiam emanem, em certas ocasiões, a mais pacífica das emoções, até que ponto será isso um abastado proveito se no nosso âmago persiste a mais tenebrosa dúvida? Não vivemos em paz se ela não subsistir em nós, por mais que prolifere pelos verdes campos que embelezam a paisagem da nossa vida; ela é um caminho e um dos primordiais requisitos de todo o seu caminhante é a serenidade – com ela aprendemos, entendemos e aplicamos a mais sábia das estratégias. Esforcemo-nos por conservá-la! Ela conceder-nos-á tempo para cogitar e agir, para aprender e ensinar, para abrir e expandir nosso coração e nossa Alma às forças vindouras, prontas a prendar-nos com suas bênçãos. Não importa se ela, por vezes, parece escapar por entre nossos dedos, pois essa sensação é comum a muitos de nós, mas uma superior consciencialização – o cerne maior de toda a filosofia – permitirá uma tentativa constante de permanência (do referido sentimento, entenda-se). Essa será a premissa que a preservará. Qual será o sinal de fé maior, no mais amplo de seus sentidos, do que permanecer diante da adversidade, firme e sereno? Todo o Homem, para possuir fé, tem de acreditar verdadeiramente em algo; seja em si mesmo, no supremo desenrolar dos acontecimentos ou numa qualquer aleatoriedade regente, muito para além de qualquer credo ou religião. No fundo, todos eles constituem motivos de fé e a serena postura do crente uma sólida prova de que tal saber foi apreendido. Talvez hoje, como em qualquer outra ocasião, seja um óptimo dia para colocar em prática toda a sabedoria retida, directamente dos moldes em que esta foi assimilada.


Pedro Belo Clara.


segunda-feira, 2 de maio de 2011

Propósitos diários

Todos desejaríamos que, aquando da conclusão de mais um dia pleno de agitação e de cansaço, em que as certezas que tínhamos por garantidas parecem querer regredir à sua posterior forma de dúvida, fossemos prendados com o mais esplêndido dos hinos, enquanto caminharíamos por entre a mais sublime das guardas de honra. Contudo, quantos de nós não se deparam com a parte mais sombria do silêncio, aquela que se manifesta vaga e opressora? Ainda que tudo o que se obtenha seja o amargo da indiferença ou da incompreensão, a frigidez da repulsa e a inconsciência da não solidariedade, a nossa empresa diária jamais terá sido fútil ou meramente inconsequente! Tal nem sempre é claro de verificar ou de entender mas, acima de qualquer agraciar ou reconhecimento, a palavra mais doce e reconfortante deverá prover de nós e ser para nós mesmos, como num perfeito ciclo de cura e de harmonização. Se empreendermos o máximo que nos é possível, ciente de que nunca capitularemos diante dos obstáculos, colocando a consciência limpa e a nossa visão clara e viva, então escutaremos o tal hino magnânime e caminharemos sob uma guarda de honra, ao som da nossa voz e ao ritmo da nossa dança. A certeza de que executamos nossas tarefas plenos de vontade e de amor, sem olvidar o férreo e deliberado querer, servirá um propósito válido e luminoso, revelando-se na bandeira de uma vida que mais ninguém conseguirá furtar por ser tão marcadamente pessoal. E mesmo nas etapas em que circunstâncias várias se encaminham para uma não resolução, torna-se importante o accionar do rastilho que evocará aquilo que foi executado e aquilo que foi servido, concedendo o devido valor aos novos patamares alcançados ou até mesmo concebidos como meio de fortificação de intentos vindouros, ainda que a nossa limitada percepção (imensamente mergulhada no mar da materialidade) tal não consiga discernir.


Pedro Belo Clara.





terça-feira, 26 de abril de 2011

Gratidão

Em cada etapa do Caminho, existe uma palavra que deverá (se assim o permitirmos) residir no mais suave dos murmúrios emitidos por nossos lábios: gratidão. Mas, ao contrário do que parece ser senso comum, ela nem sempre é compreendida na sua totalidade; na maior parte das ocasiões ou experiências de vida, só o é quando verdadeiramente provamos o mel que dela provém. A ideia idealizada e a ideia concretizada, ou seja, vivida, são dois aspectos bastante distintos: podemos continuar pelo nosso rumo definido e esperar que, a qualquer momento, ela se anuncie ou, ao invés, aplicarmos o seu conteúdo na nossa existência, permitindo que sua luz alumie os recantos mais sombrios de nós mesmos. Por outras palavras, em vez de aguardarmos pela manifestação de qualquer valor em nossos processos de vida, podemos iniciar uma busca que nos trará uma nova visão, elemento esse que nos fará compreender os aspectos vivenciais onde o referido valor reside. Seja qual for o caminho escolhido, os obstáculos a enfrentar, as preocupações a dissipar ou as dúvidas a esclarecer, é possível assumir uma postura de gratidão por tudo aquilo que nos rodeia e que prolifera pelas fronteiras da nossa experiência de vida. Se perscrutamos atentamente o nosso horizonte veremos que, a cada dia, somos prendados com dádivas imensas, das mais simples às mais complexas, mas todas com a potencialidade de nos proporcionar o mesmo sentido de satisfação e plenitude. Mas quantos de nós, ao despertar para o início de um novo dia, se recordam das razões da sua gratidão? Infelizmente, muito poucos. Ao analisarmos a nossa vida de uma forma profunda, certamente que nos depararemos com diversos “potenciais de gratidão”: o rejúbilo e a celebração do amor entre os nossos familiares, as nossas fiéis amizades e os trabalhos realizados com uma sincera paixão são um perfeito exemplo disso mesmo. E o sorriso de felicidade estampado no rosto de nossos filhos? E o brilho no sereno olhar da companheira ou do companheiro que tanto amamos? E o chilrear dos livres pássaros, a suave brisa marítima, os dias de Sol invicto? São essas simples coisas, ou melhor, bênçãos, que nos fazem sentir realmente ricos, preenchendo as nossas existências da mais bela substância, ao mesmo que tempo que nos concedem um engrandecimento e uma iluminação interior mais forte e consistente. Assim sendo, repito a pergunta: não teremos todos nós, cada um na sua forma mais peculiar, motivos para nos sentirmos gratos? Por mais escura que se apresente a estrada, é importante não esquecer este pequeno traço de luz que, a cada momento, cintila e implora pela nossa atenção. Mas se, no entanto, ainda houver algum caminhante que não se sinta dono de tais motivos de gratidão, eu evoco o mais antigo dos ciclos deste mundo: o render da noite pelo dia. Em cada manhã, um novo dia irrompe pelo horizonte, sucedendo ao anterior e levando consigo todos os resíduos já extintos. Será que compreendemos o que aqui reside? As inúmeras oportunidades que, se formos corajosos o suficiente para sermos e nos sentirmos livres, vibram na promessa de uma nova manhã? Cada Homem, por mais perdido que se possa encontrar ou por mais imerso que esteja na sua ilusão, possui no mínimo uma bênção diária, compreendida na oportunidade de realizar hoje aquilo que ontem fora adiado, o que perfaz um total de 365 bênçãos num ano só, e as nossas existências são muito mais longas do que isso. Não será essa uma razão mais que suficiente para entendermos o que nos rodeia e para, finalmente, deixarmos que a gratidão flua por nós? Nós somos verdadeiramente abençoados, em cada hora e em cada dia, mas continuamos a ignorar esse facto. Este é um ponto deveras primordial, a solução que derrubará muitas linhas impostas e tidas como intransponíveis. Todos nós, caminhantes, possuímos as bênçãos das nossas existências multifacetadas, mas a busca e a compreensão dos motivos de gratidão é uma tarefa que somente cada um de nós poderá levar a bom porto.

Pedro Belo Clara.