segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Consciência e Actuação

Michael Collins foi um homem simples, nascido em Sam’s Cross (West Cork), uma cidade infamemente célebre por ser um autêntico covil de ladrões e vagabundos. A sua família possuía uma humilde quinta e viviam daquilo que a terra lhes dava, sendo felizes (ou, pelo menos, supostamente) no seio das suas conscientes limitações e condições. Talvez esta história não tenha nenhum ingrediente que as distinga das demais, talvez ela até comece da mesma forma que começam as histórias mais simples e banais. Mas certamente que o amigo leitor já se estará a questionar sobre o porquê desta introdução. Quem foi, afinal, este Michael Collins e o que é que ele tinha assim de tão especial? Foi algum larápio de renome? O chefe de uma mítica pandilha? Um autêntico mestre em assaltar delegações bancárias?

Collins foi muito mais do que isso. Foi um homem que, já desde sua tenra idade, possuía um enorme sentido patriótico e uma firme convicção num ideal tão grandioso, tão forte e tão verdadeiro que transcendia até toda a simples condição humana; foi o líder da revolta irlandesa em princípios do séc. XX, aquela que colocou um fim aos 700 anos (!) de domínio inglês no território. Onde todos os outros falharam, Collins venceu e a Republica da Irlanda voltou a conhecer o forte brilho do sol da liberdade. É claro que sua história continuou, com todas as virtudes e vicissitudes, mas foquemo-nos apenas no seu combate extraordinário em nome do que sentia ser o correcto.

A nossa própria história (humana, entenda-se) é rica em inúmeras personagens do género, como Spartacus, Wallace, Guevara, Gandhi, Luther King, Mandela – todos eles gravaram o seu nome nas paredes do tempo, independentemente da Era e do contexto em que viveram. Mas o que será que eles possuíam? De que eram realmente feitos para, em vida ou em morte, terem conseguido imortalizar seus feitos?

Todos eles eram humanos, tal como o leitor e eu – isso eu posso garantir. É claro que ao longo desse tortuoso caminho que decidiram seguir, muitas foram as tentações e as provações, autênticos testes de fé que avaliaram a firmeza de suas personalidades e a verdade da palavra que diziam defender. Independentemente de se reprovar (ou não) os métodos utilizados por cada um (relembre-se, em nome do bom senso, das épocas em questão, das implicações políticas e das zonas geográficas envolventes), a verdade é que todos foram capazes de dar um passo em frente quando mais ninguém se atrevia a fazê-lo. Eles levaram a vontade ao auge! Quer pela espada, quer pela palavra (escrita ou falada), eles foram os paladinos de um ideal e de uma verdade, líderes destemidos que fizeram de suas vidas o meio único para a conquista de centelhas que conseguissem iluminar a escuridão que rodeava o Mundo. Não foram tarefas (ou melhor, demandas) suaves, isso também vos posso garantir, mas nunca ninguém lhes disse que o seriam, pois não? O que os distinguiu dos demais? Persistência! Pois é essa a grande qualidade de um vencedor; é cair e saber se levantar uma e outra vez, quantas vezes forem necessárias, até que o propósito esteja cumprido.

Ainda que muitos não acreditem, todos temos essa centelha em nós, essa força magnífica que glorifica a luta por um ideal que consideramos nobre. É sempre possível argumentar que tais personagens estavam destinadas a tais feitos, que já possuíam as ferramentas necessárias para o desempenho da sua missão. Talvez seja válido, mas não descuremos o facto de que eles foram escolhidos só porque se fizeram escolher. Sim, o segredo está na nossa própria escolha e na vontade em aceitar todas as consequências que daí possam advir. É por isso que afirmo que não será fácil, mas a encruzilhada já se faz anunciar no caminho: ou escolhemos dar esse passo ou ficamos na sombra para sempre. Podemos temer, assim como eles também recearam, mas note-se que isso nunca foi um motivo capaz de impedir os seus avanços.

Eram tempos árduos e distintos dos de hoje, onde o “eu” era renegado em prol de uma causa maior. No entanto, é importante acreditar que sob as actuais circunstâncias tudo pode ser diferente – o colectivo constrói-se pela afirmação de cada indivíduo e, juntos, aqueles que decidirem embarcar na caravela que navegará pela nova maré alcançarão o tão desejado porto de abrigo.

Nesta etapa, repito aquilo que tenho vindo a constatar: podemos viver na pior crise económica ou humana, mas é nesse preciso momento, quando o mundo material ameaça revelar a sua fragilidade, que as questões espirituais se levantam, quer como um consolo ou simplesmente como o anunciar de que está na hora de despertar consciências. Por isso, é chegada a altura de, finalmente, gritarmos bem alto o nosso querer, como se fossemos combatentes de uma luz pronta para a investida; é hora de decidirmos quem queremos, de facto, ser; é tempo de escolhermos o nosso lado nesta batalha universal, que há muito se desenrola sem um fim anunciado. Afinal, é tudo uma questão de consciencialização e (lembre-se!) de escolhas.

(adaptação do artigo com o mesmo nome e de minha autoria editado pelo Jornal CHACA em Fev 2009).




(Michael Collins, 1890-1922)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Chuva Oblíqua

Que fizeram eles a esta chuva
Que tão oblíqua cai,
Tornando difícil a conquista
De um guarida segura?

Não há árvore que dela proteja,
Nem arbusto denso o suficiente
Para esta chuva corrosiva
De proporções inimagináveis!...

Mas o sol ainda brilha, lá bem no alto,
Escondido pela ira de tais nuvens
E daqueles que se dizem Deuses
De um Olimpo de castigos implacáveis.

Que fizeram eles a esta chuva
Que mergulha aqueles em que toca
Num imenso sono desperto,
Que é a eficaz propagadora
De uma vontade controladora?

Só a elevação do olhar,
Para aqueles que conseguirem,
Será a protecção ideal -
Só a compreensão de um problema real
Se apresenta como solução.

Pois não existe um escudo tão forte
Quanto este ardiloso fenómeno,
Nem o furioso vento,
Nem o bravo pássaro que,
Sem destino, vai
Fugindo desta chuva
Que tão oblíqua cai.



(PBC - 2009).

domingo, 28 de novembro de 2010

ANÚNCIO

Caros visitantes,

Já se encontra disponível, após a sessão de lançamento realizada a dia 27 de Novembro (em Oeiras), o livro "A Jornada da Loucura", um original de poesia da minha autoria.

Podem visitar o site da Editora e procurar a obra (http://www.papiroeditora.com/) ou, em alternativa, visitar uma livraria perto de vocês.

Beijos e abraços,


Pedro Belo Clara.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Novos rebentos (I)

I.

Caminham as horas na sua ilusão,
Assim como caminho eu
Nas extensas passadeiras
Estendidas pelas folhas que vão tombando.

Desenhando e retraçando
Novos trilhos nos trilhos do parque,
Guio a minha presença
Através dos ícones da multiplicidade,
Passando pelos corredores dos instantes
E acenando, telepaticamente,
Às gravuras de um real imortalizado
Em minúsculas películas temporais.

Rejubilo com as crianças
Que pulam e sonham em seus
Peculiares mundos de sonho,
Sorrio a cada mulher que me oferece
As partículas de seu florido perfume,
Inspiro a essência que levemente
Paira pela fina névoa pendente,
A mesma que convida a entrada
De um Inverno cada vez mais presente,
E admiro a tímida beleza expressa
Nas árvores semi-desnudadas.

Mas quão frágil é o cristal
Reflector da pretensa realidade…

Novos rebentos (II)

II.
A beleza bucólica sempre é
Aprazível ao olhar simples e atento,
Mas muito para além disso,
Além das fronteiras marcadas
Pelos restos das imagens passadas,
Há hoje um ténue ruído vibrante
Que se torna ainda mais pulsante
Com o preciso contar dos momentos.
Em torno de mim mesmo,
Habitual viajante que vagueia
Pelos cenários do quotidiano,
Todo um conjunto anónimo e invisível –
A breve parte de um centro maior –
Opera com fins de futuro,
Fincando silenciosamente
As raízes daquilo que há de nascer.
Inserido nas rudes estações
Que nestes tempos persistem,
É isso que é deveras aprazível.

Noutros ventos,
Cantaria eu toda a beleza singela
Que povoa cada recanto de tal cenário,
Mas todas as canções são silenciosas
E é tempo de compor uma melodia
Que se faça ouvir no horizonte.

Pela aridez do que baqueia
E perece e apodrece lentamente,
Novos rebentos estão a irromper,
Encerrando em si novas sementes,
Novos aromas a serem exalados
E que, nestes corredores de tempo,
Proliferarão por cada galeria enegrecida,
Implementando os pilares derradeiros
Que, salvaguardando o belo
Que entre nós ainda subsiste,
Sustentarão as novas manhãs,
Desejosas por viçosas brotar
E por finalmente abençoar
Cada semblante que, reanimado,
Se volteará na direcção do verdadeiro Sol.


(Pedro Belo Clara – 20/11/2010).


sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Lágrima solitária

Todas as noites,
Encontro-te sempre
Com o mesmo olhar:

Baço, vazio, sem vida,
Perdido em utopias
Ou em questões banais,
Mas que tanto te preocupam.

Para ti, o céu não passa
De uma imensa mancha escura
E as estrelas são meras ilusões,
Pois não é possível existir algo
Que brilhe tanto assim –

Alguém desnorteou
A tua agulha magnética
E o teu desespero calado
É só um pérfido efeito
Do veneno que te administraram.

Vives na realidade que julgas real,
E cumpres ferozmente
As ordens dessas vozes sem rosto
Que só tu ouves.

Talvez tenhas desistido de lutar,
Talvez tenhas esquecido
Aquilo que um dia quiseste cumprir…

Se assim foi,
Esqueceste-te de quem és.

Embora ainda haja algo
Que lateje,
Uma chama fosca que arde
Num gasto pavio,
Tu não consegues entender
O esclarecido significado
E ignoras o resgate.

Por isso, adormeces
Debruçada sob o teu cansaço,
Deixando que uma lágrima solitária
Percorra o sinuoso caminho
Das amarguras cravadas no teu rosto.


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Se as estrelas conseguissem conjugar

Se as estrelas conseguissem conjugar
As mais doutas palavras de pasmar,
Com exclamativa declaração
Adornavam a sua observação
Dos pequenos seres!

Aquele estranho e peculiar grupo, então,
Que como desordenadas formigas
Trilha um rumo tão estranhamente incerto,
Seria a maior presa de seus perplexos
Comentários e julgamentos!

Pois, eles, tão embrenhados em pensamentos
Que se suspeitam serem vagos,
Fogem de um Mal anónimo,
Lutando e coleccionando objectivos
Sem entenderem bem o motivo
Ou a validez de tal razão.

Eles, que se dizem Homens,
Consideram-se todos proprietários
Da mística Verdade Universal
E da certeza de todos os impulsos;
Mas, bem no seu âmago,
E a todos sem exclusão,
Pulsa uma negra sombra
Que ameaça cada frágil pilar
De seus fúteis empreendimentos.

Esse Medo, eterno arqui-inimigo,
Presença persistente e inapagável,
Segue todos os seus movimentos,
Aguardando pelo instante certo
Para realizar a sua investida.

Talvez por isso,
Numa certa – porém abafada – intuição,
Céleres caminhem pelos trilhos cruzados,
Escapando ao terror dos tentáculos
De tão temível adversário.
Mas em cada pedra reside o impulso
Forte o suficiente para derrubá-la,
Ainda que todos se julguem vítimas
De exclusiva bênção maldita –
O admirável sentir.

Felizes aqueles que vivem elevados!
Ainda que tamanha seja a tarefa
Que ardilosa flameja em suas mãos…

Homem,
És tão imensamente superior
À imagem de ti mesmo constróis;
Olha em frente!
Pois é esse o primordial passo
Para se comungar com o horizonte
Que te guiará através dos longos
Caminhos da conjunta evolução.


(12/05/2010).