sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

ESTRELA DE NATAL



Findada a quadra festiva, com a celebração natalícia e a viragem do nosso calendário, recorri a um exercício que ultimamente tem caído em desuso – embora continue a ofertar todas as suas vantagens da forma mais directa (por vezes, crua) possível. Sim, refiro-me aos afamados períodos reflectivos, onde ponderamos os débitos e os créditos do nosso coração. Contudo, muito para além das palavras ditas ou não ditas, das acções consumadas, dos momentos de partilha e da solidão das horas de pensamento, houve algo que sobressaiu de todas essas memórias. Estranhamente, até; uma vez que a mente conceptual, sempre obstinada, tem o hábito de ignorar a simplicidade profunda das simples e banais coisas. Talvez, nessa ocasião, os excessos dos feriados tivessem toldado a sua atenta vigília. Quem o saberá?

Bem, tudo aconteceu no ano transacto (2011, entenda-se), na exacta quadra que ainda por aqui deixa os seus vestígios reluzirem. Teria sido essa a razão que fez emergir a recordação? Ter-se-á avivado com o regressar de tal cenário e, como gaveta que se entreabre sem que ninguém lhe toque, de pronto oferecido o aroma distinto de tal tempo? É bem provável… Mas sigamos em frente no relato. Caminhava eu por uma ampla avenida a norte da cidade que me viu nascer, quando um vulto, ao longe, se anunciou. Lentamente, enquanto nossos passos nos iam invariavelmente aproximando, o seu rosto e forma revelavam-se – até ao ponto de entender, por forma segura, que tal pessoa fixara o seu estranho olhar em mim. Desenganem-se agora os leitores mais entusiastas ou utópicos, pois vossas expectativas sairão por certo goradas – não, não foi o simpático velhinho de brancas barbas que me interpelou naquele fresco dia… Tampouco conhecia eu a identidade dessa figura mistério! Continuando: o encontro tornava-se cada vez mais inevitável, como é normal em quem caminha em sentidos paralelos e opostos, e eu, no seio de uma tola mundaneidade (admito-o, leitor), aquela que nos faz sempre desconfiar do que é oculto e incógnito, desviava o olhar e indagava o porquê de tal figura não retirar o seu de minha pessoa. Apesar do crescente desconforto, eis que, por fim, brando e firme enfrento o desconhecido! Na confluência de nossos estranhos mundos, fronteiras que em exíguos instantes se iriam tocar, escuto as palavras que me estavam reservadas: “Feliz Natal!”… Assim, de forma tão natural e simples: um desejo de boas festas. De pronto retorqui, recomposto, retribuindo da forma que melhor sabia, compassiva e educadamente, tamanha e rara amabilidade para com um completo estranho.

Na verdade, apenas quando formulou o voto é que a fala da amável senhora, provavelmente quase de meia-idade, denunciou-a como sendo portadora de uma certa deficiência a nível mental. Terá sido esse – e só esse – o motivo de tanta simpatia? Haverá sequer motivo para assim sermos, amáveis e disponíveis para o nosso semelhante? Ou não deverá tudo fluir de nosso coração, aberto e receptivo? As brumas do Tempo tendencialmente enublam o coração dos Homens… Mas por certo que não é necessário todos sermos portadores de uma qualquer deficiência para formularmos tão simples e sincero desejo! Talvez, numa realidade obscura de valores invertidos, onde escassa é a luz que assoma ao olhar do indivíduo, deficiente seja aquele que assim se comporta… Nesse caso, serei um orgulhoso deficiente. Pois, no fundo, basta que em nós resida a vontade de assim sermos: abertos, espontâneos, fraternos. Olvidamos muitos princípios nos dias que correm; principalmente que aquilo que nos une, como Homens que somos, é bem mais nítido e forte do que o aquilo que nos aparta. Porque se insiste, então, no ilusório separatismo?

É uma escolha – no fundo, a isso se resume. E foi precisamente essa escolha que aquela senhora assumiu, disso consciente ou não, ao passar junto de mim e expressar o seu desejo. Talvez o tivesse feito a todos os que cruzaram o seu caminho, talvez tenha até cumprimentado todos os veraneantes daquela rua, mas… que importância isso detém? Afinal, o símbolo supremo da época natalícia, a sua mais sublime mensagem, não é (ou deveria sempre ser) o Amor? Talvez os seus sobejos, compreendidos por luzes apagadas, caixas vazias e papéis rasgados, tenham soterrado tal princípio nos pântanos do desenfreado consumismo... Mas aquela senhora, apesar de sua peculiar condição, entendera o segredo do natal de todo os dias. Ela e somente ela é que desterrou costumes idos e cintilou como a célebre estrela que embeleza a quadra em questão. Para mim, pelo menos, um outro sol brilhou – e isso é o tudo que me basta. Mas tal situação carrega raízes ainda bem mais profundas e significativas, que irrompem do solo e se fortificam em sólidos ramos. Pois sobejou a suprema prova de que tais actos poderiam (e bem!) povoar o imenso deserto do quotidiano humano, se cada um de nós, definitivamente, decidisse fazer de seu coração um fértil canteiro – onde somente se cultivariam as sementes da mais alta estirpe.



Pedro Belo Clara.





  

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Lançamento do livro "Palavras de Luz"


Queridos amigos e seguidores,


Foi com um enorme prazer que no passado dia 30 de Novembro, pelas 19h, lancei ao público o meu terceiro livro (o primeiro fora do género poético), de nome "Palavras de Luz".


A todos os presentes, mas sem olvidar os ausentes, o meu agradecimento pela partilha dos momentos de amizade e companheirismo que, durante o evento, tivemos oportunidade de desfrutar.


Caso queiram saber mais informações sobre a obra em questão, ou eventualmente adquiri-la, poderão consultar o seguinte link: http://www.chiadoeditora.com/index.php?page=shop.product_details&flypage=flypage.tpl&product_id=916&category_id=15&option=com_virtuemart&Itemid=171


Um forte abraço e até breve.



Pedro Belo Clara.







sexta-feira, 23 de novembro de 2012

ALVAS FLORES EM NEGROS CABELOS



Bem que poderia ser mais uma bela tarde de Outono que sobre aquele amplo jardim se instalava, com as alamedas de tombadas folhas na fresca relva, os voos errantes de algumas apressadas aves, os pequenos – mas preenchidos – bancos de madeira e a luz de um sol que acalentava os mais pálidos rostos. De certa forma, até o foi. Mas, subitamente, entre cafés, serenas conversas e silenciosas leituras, um estranho cântico irrompeu. Todos os que presenciavam esse inesperado fenómeno de pronto desviaram o olhar de suas tarefas, sondando a origem de tal coisa. Para muitos, era já familiar; para outros, desconhecida e… efectivamente estranha. No meu caso particular, confesso a familiaridade com a mesma. Eis, então, docemente invadindo aquele espaço, uma mulher cantarolando uma incógnita canção (pergunto-me até se não a teria inventado mesmo ali) com alvas flores em seus negros cabelos. Muitos, desde logo, elaboraram seus diagnósticos e assinaram as suas íntimas conclusões e julgamentos, pois apenas a existência de problemas psicológicos – e graves! – justificariam tal comportamento. Outros, reconhecendo-a, lamentavam a sorte de tal figura – sem conseguirem reter alguns breves comentários sobre a indumentária da jovial cantora, que por certo seria um alvo da miseração alheia.

Mas, tendo avançado já um pouco no relato de tal episódio, creio dever ao leitor o seguinte esclarecimento: embora o nome da referida mulher me seja completamente oculto, bem como o local de seu abrigo (que imagino e até desejo que confortável seja), é verdade que meus olhos facilmente a reconhecem quando tropeçam em sua figura. Diria que todo o bairro tem as suas peculiares personagens – e em diversas deambulações pelas ruas que formam o meu me cruzei com tal presença. Como tal, não poderia estranhar tal comportamento; não, tendo já testemunhado o que as suas declaradas peculiaridades podem proporcionar: lábios forte e desordenadamente pintados, fitas coloridas no cabelo, a hábil arte de encontrar cigarros abandonados, diálogos aos quatro ventos ou o mastigar de uma complexa ideia entre imperceptíveis sussurros.

Aquela improvisada plateia, célere retomou os seus urgentes afazeres sob pena de envenenar um tão aprazível lazer. Mas ela, solta e inocente, continuava com o seu peculiar e improvisado flamengo (sim, creio agora ser esse o estilo mais adequado) junto de um canteiro de flores. Mirei-a por um pouco mais. Sorri. Poderão terceiros considerá-la louca (convenhamos que era a definição que até aqui tentava evitar) e compadecer-se por sua lamentável condição, mas… terão eles visto o vigor de sua dança? Um certo brilho em seu rosto marcado? O quão concentrada e rejubilante estava no seio de sua estranha e árdua tarefa? Oh, quantos de nós não almejam alcançar tal fórmula? A da felicidade expressa em cada coisa feita? Em cada pulsar de um coração que vive? E ali estava a resposta: tão singular, tão natural, tão estranhamente certa… Cada boca dirá o que mais lhe aprouver e convier, está claro, mas esta renegada princesa, excomungada de algum conto de fada esquecido, encontrava-se veramente feliz na ilusão do seu mundo tão magnificamente criado, onde apenas residem as personagens que ela própria escolhe e define. Sim, talvez seja insana… E talvez tal sentimento se esfumasse em breves momentos, consequência de uma existência delineada entre dois extremos tão distantes, tão dolorosamente instáveis. Mas, naquele instante, naquele preciso instante, ela era feliz – por mais efémero que tal estado possa efectivamente ser. E poderemos nós, aqueles que tanto buscam o mesmo efeito que a assomou, veramente recriminá-la por isso?




Pedro Belo Clara.






quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A EXPERIÊNCIA DO SENTIR



As vias que moldam a nossa existência, filhas de um rumo maior – em suma, os corredores que atravessamos ao longo do nosso limitado tempo, onde damos e recebemos, transmutando os diversos estados que nos assomam –, são pródigas em particularidades deveras interessantes. Pelo menos, de uma posição imparcial, entender-se-á o que mais fomenta a nossa curiosidade. Existe, de certa forma, um conjunto de parâmetros que as regem, numa espécie de “liberdade adaptável”. E todo o olhar que se perder em serena contemplação entenderá tal característica, que sempre assume a forma de hipótese – isto é, um potencial a ser trabalhado. Além disso, ao longo dessas mesmas vias, demoram-se ocorrências passíveis de serem concretizadas: situações portadoras de novos encontros, aprendizagens, ensinamentos, expiações, entre muitos, muitos outros. No fundo, cada evento comporta em si algo; e nada se perde, na realidade, se o manancial que nos é ofertado for efectivamente aceite e direccionado.

Aquilo que se depreende das palavras aqui expostas é o carácter experimental da Vida em si, habitual presença nas veredas que trilhamos passo após passo. Tal aspecto complementa-se, assim, na espantosa multiplicidade que o Caminho nos oferece no seio de sua diversidade. Afinal, em sua génese, é um valioso “palco de experiências”. E percorrê-lo não significa apenas entendê-lo, mas igualmente vivê-lo e experimentá-lo sob os diversos ângulos e vertentes que o compõem, mesmo que estas possam ser aparentemente contraditórias. Assim, ainda que se desconheçam as razões que nos movem, estaremos a cumprir propósitos ocultos e a escrever uma história (a nossa) que implorava ser escrita. Mas significará isso a total experiência? Um livre arbítrio desmedido? Se entendermos a Vida, depreenderemos o frágil equilíbrio que a sustém. A resposta jamais residirá em extremos ambíguos; antes numa harmoniosa conjugação de todos os elementos. E, muitas vezes, para tal ser alcançado, bastará empreender a primordial de todas as tarefas: caminhar, apenas caminhar.

Trilharemos o nosso íntimo percurso, teremos a hipótese de plantar nossas sementes e de saborear os frutos que criámos e aqueles que por mão alheia foram criados, marcando sempre novas etapas e o consequente granjear de sabedoria de vivência (e não só), no delinear de nossa particular evolução. Mas a experiência maior, a inexorável condição a tudo anexada, é o “sentir”. Que maior condimento da experimentação que o sentimento? É ele que nos impulsiona o riso, o choro, o amor, a dor, a paixão, a empatia… Como esquecer tais básicos elementos? Como sequer imaginar uma existência sem eles? Mais do que qualquer outra coisa, a nossa experiência pelos domínios da matéria, como seres espirituais que somos, vale por esse inestimável componente. Facilitar-nos-á ele a nossa vivência? Nem sempre, é um facto. Mas, o que seria ela se desprovida estivesse de tais aromas que tão bem a distinguem e caracterizam? Embora muitos de nós, imersos em suas feridas e desilusões, rejeitem o amor apenas por temerem a dor, a experiência do sentir é deveras singular e apresenta-se como um importante desafio à nossa interna desenvoltura. Sim, é uma água que tanto sacia como pode envenenar… Mas temerá a morte aquele que conhece a arte da ressurreição?

É uma provação; mas, por outro lado, um aprazível desfrutar. E aceitar a plenitude da Vida é abrir os braços a todo o porvir e, munido de crenças e acumulada sabedoria, abraçar os ventos do amanhã. Assim, queridos caminhantes, viveremos! É claro que obteremos nossas feridas, dores e lágrimas… Mas viveremos! Sem olvidar o livre arbítrio que nos cabe em direito, cientes de que a transcendentalidade é deveras possível num evoluído estado consciencioso. Experiênciamos e, com isso, adquirimos uma peculiar sabedoria. Que bandeira mais vibrante do que essa poderá ser desfraldada? Mas não como quem exalta o que possui, antes valoriza o que detém. Só ela nos concederá acesso a novos níveis de consciência, nos fará erguer o olhar e descobrir novos horizontes e estrelas. Que propósito poderá aqui ser colocado senão esse? O experimentar, a aprendizagem e consequente evolução?

Quem caminha é, por certo, movido por um desejo de horizonte. Renovado a cada instante, sendo aquilo que é, aceita e compreende. No entanto, demoramo-nos de igual forma por trilhos ilusórios. O que vemos e tocamos não passa de uma ilusão, de uma mera projecção de algo superior aqui toscamente reproduzido. Vivemos este sonho na densidade da matéria, onde tudo regista um ciclo, uma regra solta, uma constante dualidade. No entanto, vivemos também a experiência do sentir; mesmo que aqui, como reflexos num lago, pululem projecções de ideias e ideais. Agora, entendemos os limites de tal aspecto: aquilo que vivênciamos é uma experiência controlada, e não absolutamente plena (é a referida projecção de algo de superior). Podemos pensar da Felicidade ou na Liberdade como ideias absolutas, mas o absoluto não se reproduz na dualidade – paira para além das muralhas desse castelo entre as nuvens, no local onde tantas vezes desejaríamos estar. Mas essa é mais uma condição básica que rege esta singular experiência. E tudo o que aqui é possível, apenas o é neste local – são as condições necessárias ao nosso desenvolvimento individual.

Toda a viagem termina, é certo, não sem antes uma outra se iniciar, por sua vez,  num outro tempo e lugar. Mas, antes de se concretizar tal premissa, com tudo o que de sacro e único os rodeia, é-nos ofertada a hipótese de viver, de semear e colher, ensinar e aprender. E assim iremos traçando novas rotas e perseverar no nosso objectivo mais primordial – apenas isso –, focados na imensa dádiva que o presente momento constitui. Somente até que um outro sol acabe por irromper no horizonte e um súbito vento chamar por nós.



Pedro Belo Clara.




quarta-feira, 31 de outubro de 2012

EVOLUÇÃO



Ao apresentar o seu carácter circular, compreendemos que na Vida tudo se sucede e é sucedido. O fluxo é constante e não cessa; é um rio que, ao seu próprio ritmo, corre para os braços do mar que o espera. E, nele, se assim permitirmos, fluiremos nós, viajantes por íntima natureza, caminhantes neste longo Caminho que nos recebe. Mas, como em tantas outras ocasiões vos falei, esta premissa assenta sobre uma decisão individual, uma postura perante as situações ocorrentes. No fundo, será a partir daí que nossa visão se formará e se reproduzirá. Não existe, obviamente, um «certo» ou «errado», apenas visões compreendidas em diferentes ângulos de absorção que, unidas, recriarão a completa imagem que sempre nos escapa.

Neste percurso de conquistas, ambições e planeamento de objectivos, se efectivamente o considerarmos como tal, onde poderá residir o espaço para os nossos desejos? Deveremos sequer possui-los? Ou simplesmente celebrar a Vida pelo singular milagre que ela é? De novo sublinho: todos esses aspectos são frutos de uma pessoal visão; e, aqui, por minha vez, apenas vos poderei apresentar a minha. Porque múltiplos são os frutos que vos vão sendo ofertados, cabe a vós mesmos saber quais saciam, de forma mais completa, a vossa pulsante fome. A seu tempo, se guardarem tais sementes, tornar-se-ão cultivadores. E, por vossa vez, estarão a ofertar a terceiros os frutos que com o devido amor fizeram medrar. No entanto, é importante compreender que, fluindo com a Vida, entendendo os seus pressupostos maiores, germinará em nosso âmago uma sólida âncora: a Fé – esteja ela assente naquilo que estiver. Assim, fortifica-se a certeza – origem de uma serena tranquilidade – de que nos encontramos, presentemente, no exacto local onde deveremos estar, desempenhando a função ou tarefa que nos cabe, por ora, desempenhar. Se mergulharmos bem fundo em nossa consciência, adquiriremos tal sensibilidade, tão popularmente traduzida por “seguir a voz do coração”.

Poderemos, é certo, receber inúmeras frustrações se perseverarmos em nossos supostos desejos, objectivos ou ambições. Especialmente se moroso for o seu processo de materialização ou, por outro lado, constante a derrota na batalha pela sua concretização – mas tudo constitui motivo de aprendizagem e crescimento. No entanto, se sentirmos esse fogo em nós, como algo que vero arde e implora por se realizar, pelo bem próprio e de terceiros, não serão os árduos e insistentes obstáculos que nos farão encerrar tal demanda, tampouco abdicar de todo o bem que poderia vir a ser alcançado. Acima de tudo, fluir… Pois existem inúmeras variantes que efectivamente não controlamos. E a dor advirá de um apego exacerbado a certos elementos e circunstâncias, bem como das expectativas que poderão vir a ser formuladas. Por isso, é importante saber dosear cada impulso, cada actuação. Mais cedo ou mais tarde, continuando a pisar tal dúbio terreno, surgirão as ilusões que, inevitavelmente, se quebrarão com o devido estrondo e dolorosas consequências. Com a devida maturidade, granjeada ao longo de várias etapas vencidas, saberemos entender que todo o fruto que por nossa mão deverá ser colhido, sê-lo-á no devido tempo. Ganharemos essa certeza crendo na «Força que tudo rege», aquela que tão levemente intuímos e sentimos em cada passada. Além disso, um novo dia trará sempre até às nossas margens a sua eterna promessa, tão sólida quanto as bênçãos que nos serão reservadas.

De facto, num turbilhão de pensamentos e vontades difusas, tornamo-nos exigentes, obstinados requerentes que anseiam por algo que venha até eles, oriundo de esferas superiores. E olvidamos, assim, os milagres que se desenrolam, a cada instante, em torno de nós. Por mirarmos as estrelas em demasia, esquecemo-nos da beleza dos montes e das planícies… Existe um tempo de plantação e de colheita, e é importante entender e aceitar tal premissa. Se sentirmos necessidade, olharemos bem no fundo de nós próprios, avaliando cada situação com o devido cuidado, requeira ela de nós gestos activos ou passivos. Não é somente por nossa intervenção que um fruto amadurece; contudo, poderemos prover as condições para que tal se suceda. Mas, seja através da intervenção directa, indirecta ou nenhuma até, o crucial aspecto que sobressai, adquirindo sóbrio relevo, é o compreender do tempo de cada coisa. Por outras palavras, definidas na simplicidade: se a hora for a certa, que seja; caso contrário, aguardaremos, pacientemente, a sua chegada (pois nenhum Inverno é eterno).  

Na verdade, todos estes aspectos e ponderações se apresentam como uma óptima plataforma de desenvolvimento do que hoje nós somos, auxiliando-nos a imergir na nossa mais recôndita verdade. Assim, conhecemos e estudamos a fibra que nos compõe. São as diversas situações que nos interpelam o rumo que revelam aquilo que somos, através das atitudes e comportamentos que em nós despertam, ainda que inconscientemente. Um Homem sábio saberá, contudo, prever, dentro de suas limitações, preparando-se assim para o provir. No fundo, fá-lo por possuir o olhar erguido, ao contrário dos restantes que, tão ocupados nos detalhes do solo que pisam, olvidam o horizonte. Seja como for, tais ocorrências apenas fortificam as nossas crenças, abanam fundições (o melhor método para repensar certezas e definições) e fazem emergir a nossa realidade. E não existem aqui meras “vítimas das consequências”; as coisas são o que são – se nos surpreendemos, então é porque apenas detínhamos uma ideia ou consideração errada sobre tal.

Há que aceitar, por mais que o neguemos, a verdade que se nos anuncia, pois só assim é que de novo fluiremos, permitindo o crescimento do nosso ser em constante evolução, tal como da sociedade que nos integra – ou não fosse ela própria, como coisa geral que é, reflexo do particular. Em suma, eis a definitiva conclusão: são meios de proporção e de consolidação da nossa particular evolução. Assim, compreendemos a utilidade dos espinhos que abrandam o nosso ritmo e flagelam o nosso ser. Aceitá-los, é escutar aquilo que têm a nos transmitir; seguir tais directrizes, é abraçar a nossa própria evolução. Seremos elevamos se nisso persistirmos, com a tenacidade de um felino e a brandura de uma pomba. Então, livres por fim, testemunharemos o término de todos os ciclos no anunciar da tão esperada e sempre ínclita eternidade.



Pedro Belo Clara.





quinta-feira, 25 de outubro de 2012

REENCONTROS



Por uma só existência, ao longo do percurso, variados rostos atravessam os corredores da sua vivência – de forma passageira ou não –, deixando sempre impressa a sua indelével marca. Assim, e de uma certa forma, por mais breve que seja o contacto, tais rostos nunca a abandonarão, pois irão permanecer em seus pensamentos, memórias e coração, no especial recanto destinado às coisas mais estimadas e preciosas. Na verdade, para causarem um significativo impacto não necessitam de muito tempo ou de inúmeras palavras… O gesto, por vezes, perdura bem para além de tudo isso, como uma estrela que cintila no vasto firmamento da mais terna recordação.

Mas serão tais encontros meramente aleatórios? Apenas se acreditarmos num aleatório regimento de toda a existência… Há algo a retirar de cada um deles, em específicos momentos e circunstâncias: aprendizagens, um saldar de antigas dívidas, um relembrar crucial, um apoio, uma força, entre outros exemplos; mas cada um à sua peculiar maneira e forma. É claro que o inverso é aqui igualmente válido; ou seja, existem momentos em que nós próprios assumimos tal posição, a de passageira (ou não) presença em existências alheias. Tanto quanto eles para nós serão âncoras, resgates ou meios de libertação, também nós o poderemos ser para eles mesmos. No fundo, tudo se conecta e interliga – e todos nós, caminhantes, nos encontramos conectados e interligados uns aos outros, por mais que o venhamos a ignorar.

Essa é, indubitavelmente, uma das mais belas virtudes da vida (ou característica, se preferirem). Obviamente, quem permanece atento e consciente não corre o risco de perder um comboio que se aproxima lentamente da estação. Assim, conseguirá, por certo, reter e desfrutar de todo o proveito que tal acontecimento lhe poderá proporcionar. Desfrutemos, então! Pois tais encontros são deveras únicos e especiais; estimemo-los, cientes de que de nada somos donos ou senhores. Os abençoados são aqueles que em concha abrem suas mãos para receber a dádiva sagrada que lhes for ofertada, aquela que com seus cálices será saboreada e partilhada – e não quem ostentar pretensões de a deter, controlar ou encarcerar. As preciosas coisas mantêm o seu singelo brilho se forem deixadas livres e soltas, conservando a sua independência e valor – pois essas são as achas do seu tão peculiar refulgir.

Há, então, algo de veramente significativo a receber e a ofertar em tais encontros, resumam-se eles as breves instantes ou a toda uma existência. E certo estou de que, se agora mesmo abríssemos o nosso baú de recordações, seríamos capazes de evocar exemplos que corroborariam esta ideia, fossem eles oriundos de um passado tão antigo que a própria memória já dele se despojou – embora o perfume das essências, de tão forte que é, nunca se extinga – ou o resultado de um reencontro em efémero momento. Mas a importância e profundidade dos mesmos, nestas tão especiais ocasiões, estende-se para além da nossa limitada percepção. Uma semente é deixada a medrar, tanto em nós como nos indivíduos que emocionalmente nos tocam ou por nós são tocados, pelo que o aroma dessa singela flor perdurará sempre nos corações envolvidos. E daí apenas aflorarão sentidos sorrisos.

No entanto, é verdade que a dor constitui uma integrante parte neste processo. Afinal, reencontros sempre despertam em nós algo de adormecido, amáveis recordações ou antigas amizades, mas igualmente perdas emocionais, roturas e afastamentos. São velhas feridas que se avivam ao tocadas serem. Embora todo o viajante que se consciencialize e se disponibilize a transmutar tais padrões, não mais úteis à sua presente evolução, entenda que as dores de outrora deverão ser definitivamente curadas – mesmo que a sua marca nunca desvaneça. Não pode haver lugar, num presente de esplendor, para um passado por demais consumido. Caso contrário, como desejar que o futuro seja brilhante como o sol que nos afaga o rosto? Antigos padrões devem cessar a sua repetição, sob pena de cometermos os mesmos erros, de sentirmos as mesmas perdas e amarguras. Ainda que seja árduo, quando nos olhares do nosso semelhante evocamos todo o bem que foi vivido num outrora. Contudo, o Caminho percorre-se de olhos postos no horizonte onde o alvor se anuncia, não naquele onde o sol já se pôs.

Não refiro aqui um completo afastamento ou ruptura da relação em causa – somente se ambos sentirem que tal decisão é a mais acertada, uma vez que a dor, de tão forte, sempre impossibilita certas coabitações. O ponto principal é a tomada de consciência: velhas roupagens não mais servem o seu propósito. Certos sentires, ideias ou até sonhos poderão, à nossa limitada percepção, parecerem perfeitos, tão certos e belos, mas, na presente vida, mediante outras circunstâncias e ocorrências, não constituem o melhor para os indivíduos envolvidos e para a sua necessária evolução. Então, que se saldem as dívidas remanescentes e que os corações possuam a bravura necessária para continuar, para firmar a conclusão de toda a pendência em causa. É árduo libertarmo-nos de algo assim, convenhamos… Mas, por amor àqueles que outrora tanto amámos, e que nunca deixarão de nos serem caros, tal urge ser realizado. Em nome da nossa e da sua pessoal evolução, certos pesos deverão ser largados, certos assuntos concluídos, querelas resolvidas e vivências enterradas (mesmo que ainda esgravatemos, de quando em vez, o local do seu enterro).

Assim, libertos, cumpriremos finalmente o que agora deve ser cumprido. Antigas relações de nada valem para novos desafios… Principalmente quando as realidades foram já efectivamente alteradas e em nada se assemelham ao que, um dia, foi partilhado ou vivido. A Vida é um ciclo, e com ela tudo muda. Embora tal não signifique expressamente a morte do sentimento que nos une a tais pessoas. Como antes referi, não se trata de uma ruptura abrupta ou de uma despedida eterna – antes, de um «até breve». De facto, novos desafios e vivências requerem outras presenças, aquelas que realmente mais nos poderão auxiliar em nossas presentes etapas e vice-versa – pois tudo é uma força que flúi num duplo sentido: dar e receber. É, por isso, importante compreender e saber aceitar as novas desenvolturas, bem como a acção que importa ser implementada (não olvidando o facto de que, primeiramente, ela começa em nós), tanto ao nível da razão como ao da Alma. Com ou sem a presença da dor, no decorrer de tal processo, evoluiremos. E, livres, naquele que é o mais puro gesto de um incondicional amor, rumaremos de novo à Luz que nos aguarda. Aí, nas planícies onde nos recostaremos, uma vez mais e sem qualquer restrição de ordem material ou evolutiva, o reencontro se dará. Pois o que é deveras forte, que pulsa no íntimo mais sincero, nunca se quebra ou permite que o seu brilho cesse. Jamais.



Pedro Belo Clara. 





quarta-feira, 3 de outubro de 2012

INTERIOR E EXTERIOR


Sempre foi um hábito, ao longo da nossa humana história, buscarmos algo que sentíamos ser superior a nós próprios em locais deveras distantes. Desde o primo instante em que intuímos a existência (e a presença) de alegados “Deuses”, assim denominados, esses tais seres frutos de uma inatingível energia, que nos acostumámos a mirá-los por entre as estrelas. Por os julgarmos diferentes de nós, divinamente divinos (assim que tal conceito se instalou em nossas percepções), seres dotados de extraordinários dons, julgámos necessário colocar tais figuras – ou presenças – em altos pedestais. Assim, surgiu a devoção, como resultado de um medo incontrolável, de uma ansiosa e oculta busca, carência declarada ou urgência de crença e de seu conforto. Será, por certo, complexo definir e apresentar os reais motivos, mas a eles recorríamos em momentos de necessidade extrema, por eles sacrificámos e massacrámos, ofertámos dádivas para obter as suas boas graças ou atrair boas fortunas. Mas, com maior ou menor subjugação, sempre os vimos longe de nós – distantes e… intangíveis. 

Desde então, evoluímos. Ainda que, em certos aspectos, não tanto assim. Mas a cada Homem se reserva o justo direito de escolher e cultivar as suas crenças. Atenção que aqui se sublinha apenas o mais básico dos desenrolares e suas consequências; pois, se entrássemos no campo da religião propriamente dita, coesa e institucionalizada, por certo haveria muito mais assunto para debater. Não se foca, por exemplo, a manipulação registada pela história ou o controlo pelo medo, tão frequentemente manuseados por quem se afirmava um “representante dos Deuses”. Mas, retomando o assunto que nos prendia, sem mais demoras importa referir que olvidámos o princípio da dualidade. Ou seja, os contrários, ao existirem, sucedem-se, completando um todo. Da mesma forma em que o Pequeno não existe sem o Grande, ou a Morte sem a Vida, também o Exterior não subsiste sem o Interior. Porquê, então, procurar na distância aquilo que sempre residiu em nós, ainda que oculto? Os inimagináveis tesouros que não poderão ser encontrados no coração que nos habita! Esquecemos que somos filhos das estrelas; que, em nós, refulge a centelha da Luz Eterna, aquela que sempre entendemos através de diferentes conceitos, vimos através de díspares prismas e denominámos por distintos nomes.

Tudo o que nos basta, de momento, encontra-se em nosso redor. Caso contrário, entrando no fluxo da Vida, o Caminho encarregar-se-ia de nos guiar até outras paragens. Caminhemos, então – e o vento soprará a nossa presença. Pois, na verdade, as mudanças ocorrem na consciência que está apta a recebê-las. Será isso uma questão de crença? Indubitavelmente. E ela somente se fortificará naquele que conhece e se move pelas linhas que compõem o nosso rumo – conhecê-las e por elas se mover fornece os motivos de tal crença, obviamente. Mas o mais secreto dos mistérios está em nós. Descobri-lo e apreendê-lo significa descobrir e apreender o mais secreto dos mistérios do exterior. Os extremos interligam-se: um não existe sem o outro e ambos complementam-se. No entanto, somente quanto cultivarmos o nosso fértil terreno é que saberemos respeitar, entender e admirar o fértil terreno de terceiros, aqueles que se distendem em redor do nosso. Se sentirmos a harmonia e plenitude em nós, vê-las-emos reflectidas em cada gesto diário, em cada cenário contemplado – na união da Vida e de seus belíssimos componentes. Afinal, quando desperta está a consciência para uma nova realidade, a antiga, aquela que sempre conhecemos, transmuta-se por completo, como se irradiasse uma novel luz. E quem, então, não considerará que algo de divino habita em tão singular momento?

Cada ser, sendo aquilo que é, convergindo com todas as coisas que o circundam, impulsiona, na Alma de quem os contempla, a certeza de testemunhar algo de tão primordial e natural, mas, em simultâneo, tão certo, belo, digno e… sagrado. Assumir a condição que nos é reservada é entender a natureza que nos compõe. Ou, por outras palavras, abraçar a essência que sabemos ser (não aquilo que os demais olhares consideram que somos). Por isso, conquista a tua luz, companheiro de viagem, e por ela chegarás às margens de uma luz maior – aquela que, desde o início da tua jornada, te espera e te busca pela imensidão dos mundos. Então, as pequenas partes fundir-se-ão, uma vez mais, no Todo do qual provêem. E o infinito impregnará de eternidade cada momento, desprovido de espaço e de tempo.



Pedro Belo Clara.