quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Ocorrências

Num aprazível entardecer, desfrutando da fresca sombra proporcionada pela frondosa árvore onde me recostava, evocava eu as passagens da minha passagem pelos caminhos desta Terra, enquanto as andorinhas, atarefadas, já se preparavam para partir. Recordando cada recorte da paisagem admirada pelo meu olhar de caminhante, cada encanto dos dias vividos, cada desfecho das histórias que assinei com o nome desta personagem que aqui encarnei, veio um vento suave que me reconfortou e acalentou a memória revivida. De súbito chegou e de súbito partiu para outras paragens, deixando apenas em minha boca o paladar da vivência evocada e o perfume que trazia em si desde terras distantes. Então, como que num flash de luz no discernimento, entendi que todas as ocorrências de uma só existência são como aquele vento que afagou o castanho de meus cabelos: vão e vêm; passam por nós, deixam em nós o seu distinto aroma, a sua mais indelével marca, aquela que, num dia tranquilo como este, iremos recordar com a mais terna das saudades.

É claro que toda a história pessoal, composta por viagens, experiências e pó de Caminho, apresenta os seus particulares desencantos, aspectos que, à partida, não sobejariam qualquer resquício de saudade ou benquerença. Mas o que seria uma rosa se se visse privada de seus espinhos? Conservaria ela a mesma beleza, autêntica e selvagem? Quem caminha de semblante erguido, atento às oscilações de um horizonte ilusoriamente estável, quase imóvel, compreende que cada acto, cada acontecimento serve um determinado propósito e que tudo se desenrola e existe como uma bênção que nos é assistida (e sobre esse assunto já muitas das anteriores entradas se debruçaram).

Múltiplas são as vias que nos guiam até ao mesmo fim, mas em algum momento os divergentes pontos de observação acabam por se harmonizar e por se unir. Chegará o dia, irmãos caminhantes, em que, munidos de um amplo entendimento e de uma humilde aceitação (humilde, não subserviente), compreenderemos que, por detrás de um extenso e aparente Mal, subsiste um infinito Bem, o Bem que será a centelha que incendiará a nossa fogueira, onde das cinzas remanescentes se erguerá o Ideal que habitará na casa da renovada Consciência Humana.


Pedro Belo Clara.


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O Sonhador

Certa manhã, o Caminho prendou-me com um encontro deveras peculiar: um simples homem, companheiro fiel das viagens pelos pensamentos, detinha-se junto da estrada, introspectivo, fixando uma pedra como se desejasse movê-la apenas com o olhar. Passei junto dele, curioso, e logo despertou o fantástico mecanismo despoletador de diálogos. Assim, troquei algumas palavras com aquele irmão, mais um intrigante pedaço de Luz que se ocupava de suspiros e breves lamentos, e demorei-me, como quem degusta uma finíssima iguaria, nas palavras e nas frases compostas pela douta melodia que ele entoava. Falava de loucuras, de decisões cruciais, de persistentes indagações que repudiava e, ao mesmo tempo, amava por sabê-las impulsionadoras de novas situações evolutivas. E versava e filosofa sobre aspectos que desconhecia e outros que apenas havia escutado em ecos de histórias distantes, enquanto que meu Ser se ia reflectindo de uma forma cada vez mais nítida no definir e no afirmar daquele companheiro. Sucediam-se os instantes e assim ficámos, em monólogo presencial, assistindo ao crescimento de algo único, de uma partilha silenciosa de algum conceito grandioso. Mas, de súbito, perante meu semblante já confuso (confesso) mas não menos maravilhado, sua tristeza se metamorfoseou em espontâneo júbilo e convicção certa e inexpugnável. Que acontecimento deveras fantástico esse, a alquimia dos sentires no auge de seus efeitos! Sorriu e saudou-me como caminhantes que éramos, seguindo depois o seu trilho, rumo a um horizonte íntimo e inalcançável.

Conheci esse homem, ou partes dele, naqueles momentos de convívio, e deparei-me com a sua peculiar loucura naquele preciso instante. Se algo há que se lhe possa atribuir, então esse algo é a espontaneidade. Livre e desprendido como uma criança, como uma tábua de inscrições que nunca foi utilizada, ele, que se dizia sonhador, trazia em si vestígios de um passado de dor e de frustração, mas estava apto (ou melhor, decidido) a enfrentar os novos dias com as cores de seus belos sonhos. E era essa a sua loucura: perante a desilusão de quem planta no quintal dos sonhos moribundos, sorria e formulava um novo sonho, mais forte e mais brilhante que nunca. Por cada sonho que tombar, um outro se deverá erguer à luz do dia mais excelso! Era essa a sua loucura, sim, talvez sabedoria ou singular forma de caminhar pelas florestas de sua existência, mas, naquela despedida, observei nele, como numa aura, o refulgir de novas cores, rodeando e abençoado o seu porvir.


Pedro Belo Clara.



quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A sobremesa

Da mais banal das situações podemos retirar a mais proveitosa das lições, tal como até aqui temos conseguido constatar. No seguimento dessa conversação, irei hoje partilhar convosco, meus caríssimos irmãos de Caminho, mais um desses valiosos exemplos.

Há muito pouco tempo atrás, durante uma serena e sincera celebração, terminada a honesta refeição que a todos aconchegou, povoou-se a sólida mesa com as mais belas e apetitosas sobremesas (como, aliás, é costume no término da refeição principal). Uma dessas sobremesas, contudo, destacava-se não pelo seu finíssimo aroma ou apresentação de pasmar, mas pelo seu aspecto deveras tosco e descuidado. Mesmo assim, espicaçado pela curiosidade, ao observar que mais nenhum dos demais irmãos com quem eu partilhava aqueles momentos estava decidido a prová-la, optei por investir sobre ela e indagar sobre o seu sabor (no fundo, aquilo que verdadeiramente importava saber). Espantaram-se, talvez, os mais cépticos, receosos, tímidos ou indecisos, quando exaltei, no auge de minha sinceridade, a magnificência daquele doce. A sua textura era óptima, os ingredientes que o compunham encontravam-se harmoniosamente casados e o seu sabor era autenticamente cativante! E bastou revelar tais qualidades, dignas dos palatos mais exigentes, para que todos já o quisessem provar. Surpreso ficou, obviamente, o caminhante que o havia confeccionado, também ele presente naquela longa mesa de madeira. Afinal, nem no dia anterior, quando o apresentou a seus convivas, estando ainda mais aprimorado de aspecto, se atreveram a prová-lo. Naquele momento, fruto de diversas deslocações e de um negligente transporte, tinha preservado somente o seu sabor distinto, não a firme aparência. E assim disse eu, naquela mesa recheada de sobremesas e de caminhantes dispostos a degustá-las, que um bom rumor atinge uma profundidade maior do que uma boa aparência.

Imaginemos agora, seguindo esta sabedoria, aquilo que não podemos fazer por nosso semelhante, caso o fogo de um verdadeiro impulso assomar o nosso coração… Todos possuímos os nossos círculos de relacionamentos, sobre os quais exercemos sempre um determinado grau de influência. Uma boa palavra, de nossa parte, poderá em diversas ocasiões revelar-se um escudo protector para quem dele mais necessitar, uma mão que se estende para resgatar quem resvalar na lama da injúria e da injustiça. Possuir um nível de consciência mais abrangente também arrasta consigo novos tipos de responsabilidade. É sabido que cada coração tem os seus impulsos, e que cada impulso gera uma acção. Se tal aspecto despontar em nós, seja qual for a ocorrência, que nos possamos recordar da singela lição que aquela deliciosa sobremesa nos dispensou!

Aquela tarde, por fim, acabou por trazer novos desenrolares de fraterno festejo, mas, naquele instante de percepção, abençoámos o Caminho pelas valiosas mensagens que nos transmitiu. Seja através do silêncio de uma noite ou do chilrear de um pequeno pássaro, ele é como um Pai que sabiamente aconselha os filhos que tanto ama.


Pedro Belo Clara.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

A Gata e a Porta

Indagando sobre os exemplos que as demais ocorrências do Caminho nos concedem, por meio de seus múltiplos intervenientes, é possível concluir que a sua revelação ocorre quando dela mais necessitamos. É como se existisse uma espécie de conversa entre o caminhante e o Caminho, com este a oferecer as respostas ou os indícios da solução de nosso problema ou questão. Com o discernimento adequado, isto é, com a mente disponível para tal hipótese, tornamo-nos capazes de os entender. A sua fala é silenciosa e longo poderá ser o caminho de sua aprendizagem, até nos revelarmos aptos a lê-la ou a escutá-la. Mas, no fundo, tudo o que necessitamos encontra-se em nosso redor e ao nosso acessível alcance; por vezes, basta empreender o esforço de quem alonga um braço para que o meio almejado possa ser encontrado e, posteriormente, utilizado.

Um dos sentimentos mais recorrentes em quem atravessa as alamedas de dúvidas e questões, é a carência ou o fraquejar de uma crença – em suma, um titubear de Fé (seja qual for o chão em que tal alicerce se apoia). Segue-se o relato de um desses “exemplos” (ou lições) que o Caminho nos oferta, do caminhante que eu sou, para si, leitor, meu companheiro nesta longa viagem de vida.

Num desses dias banais de vivência e repouso, a minha gata (companheira de tantos anos) fez-me evocar uma das mais belas artes deste caminho que é a Vida. Estando ela junto a mim, tranquila, entregue ao sossego de seu descanso, decidiu que os seus súbitos afazeres se detinham numa outra divisão do lar que nos abriga (nem perguntem pelos seus motivos, pois eles, em tantas ocasiões, permanecem ocultos até da consciência de quem os empreende). Contudo, a porta que oferecia entrada a essa divisão encontrava-se fechada, estado a minha simpática amiga impossibilitada de lá entrar. No entanto, terá sido esse o obstáculo que a demoveu de seu propósito? Não. Com a típica tenacidade felina em ebulição, quedou-se junto da entrada e, quieta, aguardou a sua abertura. Dirão alguns que é comportamento irracional, pelo menos absurdo; direi eu que é um extraordinário sinal de Fé. Conhecendo tão bem a matéria que compõe esse bichinho tigrado, devo – por bem – explicar: no seu âmago, sendo incapaz de abrir tal porta, ela sabia que, mais cedo ou mais tarde, alguém a abriria por ela. Não se trata de comodismo, mas sim de “hábito de acreditar”. Em inúmeras ocasiões anteriores, eu já havia feito o mesmo; por isso, ela já sabia que em breve surgiria uma mão salvadora, pronta a cumprir a sua tarefa. Aprendeu a confiar e a acreditar em mim mesmo e, como tal, a minha intervenção nestes acontecimentos era sempre dada por garantida.

No fundo, como um viajante que conhece e confia nas artes e ocorrências do Caminho, a minha companheira listada acreditou, manteve-se fiel ao seu propósito (acreditem que pouca coisa a demoveria de lá) e aguardou a realização do seu desejo momentâneo. Quando entendemos, interiormente, que nada mais é humanamente possível de concretizar, entregamos nossos planos ao fluxo da vida e aguardamos a sua desenvoltura (como disse em entradas anteriores: em certos dias, regamos a nossa plantação; noutros, a chuva encarrega-se disso mesmo). E a porta? Terá sido, afinal, aberta por minha mão? Bem, perante tamanha crença e perseverança, jamais poderia ignorar tal exigência…

É curioso como os demais seres que partilham as suas existências connosco conseguem, no auge da sua sabedoria mais instintiva, mais subjectiva, oferecer-nos provas de válidos e de não menos notáveis comportamentos perante cada obstáculo, cada situação forjada pela desenvoltura da Vida. Nesses momentos em concreto, considero até que a sua simplicidade é bem mais profunda que o nosso saber de quotidiano humano, superficial.


Pedro Belo Clara.



quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A teia de aranha

Por vezes, demorando a nossa presença pelos trâmites do caminho que decidimos desbravar e conquistar, basta focar a nossa atenção em algo que, naquele momento, se desenrola bem perto de nós, para que nos seja concedida a graça de um sinal. Procuramos sempre satisfazer as nossas perguntas mas, por vezes, elas são respondidas pelas desenvolturas que eclodem à margem de nós mesmos – simples acontecimentos e curiosidades que consideramos banais. É um facto que as respostas tão ambicionadas têm sempre o som de nossas próprias palavras, mas o Caminho, nas suas particularidades, oferta-nos lições, valiosas aprendizagens prestes a serem apreendidas por quem nelas atentar.

Sempre que indago sobre tais circunstâncias, evoco a seguinte situação: tempos atrás, uma pequena aranha alojou-se por detrás de um dos vidros retrovisores de meu carro, sem que eu de nada soubesse. Aliás, a sua presença só foi denunciada por uma longa teia tecida no ângulo entre o referido vidro retrovisor e o vidro lateral, no lado do condutor. É claro que, embora respeitasse tão magnífica obra, vi-me obrigado a destruí-la – a pequena aranha, essa, lá continuou no seu refúgio habitual. No entanto, no dia seguinte, estando pronto a usufruir dos préstimos do meu veículo, deparo-me com a afamada teia, erguida no mesmo local. Decidido a manter a aparência de meu carro deveras aceitável, voltei a pegar no mesmo pano de flanela e a destruir a singela fonte de sustento daquela aranha. Mesmo assim, nos restantes dias, e continuando eu a desfazer os filamentos de tal teia, ela continuava sempre a surgir, sólida, sublime e altiva. De facto, passei a respeitar o carácter daquele nobre bichinho pois, por mais que sua obra se desmoronasse à mercê de uma mão destruidora, logo se aprontava a reerguer o seu empreendimento, tão convicta que estava de seus decididos intentos.

Hoje, já a aranha terá procurado um outro local mais calmo e profícuo à recolha de alimentos, mas o seu exemplo é deveras notável. Muitos certamente se acomodariam ao ver a sua obra desfeita, mas outros encontrariam precisamente nesse acontecimento a força para se reerguerem. E, durante aquele tempo, essa foi a escolha daquela aranha. Que podemos nós, então, aprender com esta simples ocorrência do Caminho e suas circunstâncias? O firme acto e a sólida convicção de quem vive sob um constante testar de suas ideias, projectos e crenças. A construção poderá revelar-se frágil, mas forte deverá ser o carácter que a sustenta. Afinal, por mais escondida que esteja, em todos nos reside uma pequena aranha como aquela.


Pedro Belo Clara.



quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Etapas e Desafios

A espera, o período de passividade, é um ardil complexo de entender e de assumir, nem que seja pela sensação de que algo nos escapa e de que estamos imersos numa tortuosa escuridão. Isto serão as sensações de alguém duvidoso, aquele que ainda procura assumir os novos entendimentos que lhe foram concedidos pelas experiências do Caminho, não daquele que se mostra já sabedor e, como tal, confiante e sereno perante o porvir. Não há qualquer distinção entre ambos, senão a diferença entre aquilo que já foi ultrapassado e aprendido durante a peculiar vivência. De facto, quem dobra uma esquina observa com mais clareza e amplitude a rua que a partir daí se desenvolve do que aquele que ainda não alcançou tal local. Este aspecto jamais deverá dar a sensação de que um alguém está a ser colocado na dianteira do percurso, especialmente por motivos ditos (ou entendidos) dúbios; o respeito e a tolerância entre os demais são a base de todo o tratamento – uns adiantam-se e outros atrasam-se no caminho, pois todos possuem o seu tempo; ninguém é melhor que seu semelhante, apenas… diferente e único. E é um direito ser-se respeitado e tolerado por isso.

Ainda assim, os tempos de espera, ramificações de um “tempo de trevas” (embora relembre que “da obscuridade nasce a luz”) são comuns a todos nós. A única alteração que se opera é ao nível da percepção, do entendimento e, posteriormente, da acção (ou da forma de actuação). Afinal, nem todos nós sabemos o que fazer com a água da chuva: há quem se recolha, quem se deixe levar por sua diluviana corrente, quem se afogue, quem pega em sua vasilha e a encha com tal bênção, ciente de que essa será a solução para os dias em que o sol queimar (pois, ainda que chova, sabe que um sol tórrido acabará por despontar). Assim, se colocássemos dois caminhantes em diferentes estágios de aprendizagem (ou em moldagem de carácter, se preferirem) num qualquer troço da estrada existencial, no seio de uma noite sem lua, desprovidos de qualquer fonte de luz, como ambos reagiriam? Se um deles teria de esboçar uma enorme passada na sua aprendizagem, o outro deveria apenas aplicar todas as artes que lhe haviam sido transmitidas, aquelas que suas cicatrizes não o deixariam olvidar. Provavelmente, o primeiro iria questionar todas as bases do seu pensamento e da sua crença, inquietando-se, imergindo numa treva obscura e aterrorizante; o segundo saberia, no mais profundo de si, que em breve o sol nasceria e que toda aquela escuridão se cessaria. Assim agiria quem encontra, entende e confia em sua luz interior. Mas todos caminhamos rumo ao mesmo destino (ainda que tal intenção pareça ser inconsciente), pelo que, no devido momento, chegará a recompensa pelo esforço empreendido na tentativa de aplicação e na assimilação dos meios.

Todo o desafio que nos assalta de rompante acontece numa altura propícia, seja para nos testar ou para nos fornecer a preparação necessária para as etapas vindouras. Cada etapa é essencial ao nosso desenvolvimento e fortalecimento; ainda que nos sintamos incapazes, cada desafio ocorre somente no momento em que nós possuímos a arte de o ultrapassar! Somos guiados por uma Força estranha e bela, o Sopro do Caminho – ou uma outra qualquer nomenclatura que lhe queiram atribuir –, uma Força que, mesmo desacreditada, reside também em nós, criando as hipóteses de cada ocorrência para que a Consciência possa ditar as suas direcções. Sejam elas quais forem, todo o dia será propício a uma auto-análise, olharmo-nos bem e nos entendermos ainda melhor; se nos mantivermos abertos, serenos entre as mudanças, toda a diversidade florescerá diante do nosso Ser. Hoje somos mais sabedores do que Ontem fomos, mas não tanto como Amanhã ainda seremos – se nos predispusermos a tal, o eco destas palavras acabará por se concretizar.


Pedro Belo Clara.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Entre Tempos

É uma acção associada às reacções de quem trilha o Caminho, essa de nos abrigarmos em tempos de reclusão... No fundo, até ansiamos pela actuação, pelo empreendimento, mas compreendemos os seus destrutivos efeitos no momento e logo abandonamos tal pensamento. Restará, assim, adoptar uma passividade nem sempre apaziguadora ou tranquilizante, como ideal comportamento a apresentar. No entanto, relembro a importância de se saber usar esse comportamento pois, como em tudo, o ideal será sempre atingir um ponto de equilíbrio. Se formos passivos em tempos de nítida acção, em nada iremos contribuir para o incremento da nossa realização. Assim, se tivermos em conta os impulsos que ecoam no interior de cada um de nós, escutaremos a nossa íntima sabedoria e certamente que tomaremos a decisão mais adequada ao momento que estamos a vivênciar.

No fundo, como é fácil de confirmar, não apresento – até agora – nada de novo; todos estes pontos foram já abordados e explicados em entradas anteriores. Por isso, se estiveram sempre atentos, saberão perfeitamente a que me refiro. Além disso, saberão também que tais tempos de passividade surgem, geralmente, após tempos de cultivo (retomando um termo anteriormente utilizado) – por isso, quando implementados, os deveremos deixar crescer e fortificar. Podemos regar a nossa querida plantação, mas existirão dias em que, súbita, a chuva cairá por si mesma. Rega ou zelo em demasia conduzem ao mesmo caminho: a ruína da nossa plantação. Mas o que poderá ser feito enquanto se aguarda o natural desenvolvimento das sementes plantadas? Foi precisamente a partir dessa pergunta que nasceu o presente texto. Abordámos já os dois tipos de comportamento possível, impressos em sua dualidade, mas torna-se importante referir o espaço que sempre subsiste entre esses dois tempos: o de acção e o de passividade.

É claro que as opções são sempre múltiplas. No entanto, em jeito de condensação de conteúdos, volto a evocar a metáfora (ou até alegoria, se preferirem) da plantação: o que poderá ser feito entre o tempo do cultivo e o tempo da espera pela colheita? Se nos deparássemos com tal cenário, certamente que continuaríamos a cuidar de nossas sementes, regando-as de quando em vez, ajudando-as a crescer e a tornarem-se fortes, arrancando as ervas daninhas e as demais ameaças, até constatarmos a formação do mais belo dos frutos. Pois bem, todas as hipóteses antes referidas serão possíveis neste caso. O facto de preenchermos o nosso espaço “entre tempos” com a reafirmação de todas as nossas intenções, com a fortificação de nossa fé ou confiança (em nossas capacidades, nas de terceiros ou em uma Força suprema e transcendental), contribui para o sereno cumprir das etapas vindouras. Podemos ponderar e definir novas estratégias, confiando sempre no valor e no sucesso das mesmas. Tudo isso será como que uma prece que zelará pela nossa plantação, o incremento dos necessários cuidados ao seu crescimento. Em suma, estaremos a preparar-nos em carácter para os dias que estão ainda por nascer. Tais actos poderão parecer vagos, pois seus efeitos manifestam-se de uma forma interna e demorada. Mas, uma vez cristalizados, tornam-se os pilares de nossa Alma.

Além de tudo isso, e como todo o Homem, apesar de valoroso em termos individuais, vive em comunhão com seus semelhantes, é igualmente importante escutar e fazer quebrar nossas dúvidas junto daqueles que não as possuem. Nós detemos as respostas às nossas perguntas, nós decidimos o nosso próprio rumo; mas, por vezes, quando a neblina se torna densa demais, podemos aliviar o peso de nossas dúvidas nos conselhos que outros companheiros de viagem terão para nos dar. É, na realidade, uma aprendizagem conjunta entre viajantes que se vêem cruzados no mesmo rumo, embora (e volto-o a repetir, pois é importante sublinhar-mos este aspecto) em nossas decisões residam as direcções que num futuro tomaremos. Quem caminha sabe que as respostas do Caminho podem muito bem se manifestar através das palavras de um(a) outro(a) companheiro(a), alguém que como todos nós também sorri, chora, ama, sofre e indaga. Estranhamente, ao constatarmos tal ocorrência, sentimo-nos menos sós.


Pedro Belo Clara.